Alm do princpio do prazer, psicologia de grupo
e outros trabalhos
















VOLUME XVIII
(1925-1926)














Dr. Sigmund Freud





ALM DO PRINCPIO DE PRAZER (1920)


         NOTA DO EDITOR INGLS - JENSEITS DES LUSTPRINZIPS
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1920 Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. 60 pgs.
         1921 2 ed. Mesmos editores. 64 pgs.
         1923 3 ed. Mesmos editores. 94 pgs.
         1925 G.S., 6, 191-257
         1931 Theoretische Schriften, 178-247.
         1940 G.W., 13, 3-69.
         
         (b)TRADUES INGLESAS:
         Beyond the Pleasure Principle
         1922 Londres e Viena: International Psycho-Analytical Press. VIII + 90 pgs. (Trad. de C.J. M. Hubback; pref. de Ernest Jones.)
         1924 Nova Iorque: Boni and Liveright.
         1942 Londres: Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis. (Reedio da anterior.)
         1950 Mesmos editores. VI + 97 pgs. (Trad. de J. Strachey.)

        Freud fez uma srie de acrscimos na segunda edio, mas as alteraes subseqentes foram desprezveis. A presente traduo inglesa  uma verso um tanto 
modificada da publicada em 1950.

        Como  demonstrado por sua correspondncia, Freud comeou a trabalhar num primeiro rascunho de Alm do Princpio de Prazer em maro de 1919 e informou que 
esse rascunho estava terminado em maio seguinte. Durante o mesmo ms, ele completou seu artigo sobre 'The Uncanny' (1919h), que inclui um pargrafo que apresenta 
grande parte da essncia da presente obra, em poucas frases. Nesse pargrafo, refere-se  'compulso  repetio' como sendo um fenmeno apresentado no comportamento 
das crianas e no tratamento psicanaltico; sugere que essa compulso  algo derivado da natureza mais ntima dos instintos e a declara ser suficientemente poderosa 
para desprezar o princpio de prazer. No h, contudo, aluso aos 'instintos de morte'. Acrescenta que j terminou uma exposio pormenorizada do assunto. O artigo 
sobre 'The Uncanny' contendo esse resumo foi publicado no outono de 1919, mas Freud reteve Alm do Princpio de Prazer por um ano ainda. Na primeira parte de 1920, 
ainda trabalhava nele e ento - pela primeira vez, aparentemente - surge uma referncia aos 'instintos de morte', numa carta a Eitingon, de 20 de fevereiro. Estava 
ainda revisando a obra em maio e junho, e ela foi finalmente terminada por meador de julho de 1920. Em 9 de setembro, fez uma comunicao ao Congresso Psicanaltico 
Internacional de Haia, com o ttulo de 'Suplementos  Teoria dos Sonhos', na qual anunciou a prxima publicao do livro; este foi lanado pouco depois. Um 'resumo 
do autor' da comunicao apareceu no Int. Z. Psychoanal., 6 (1920), 397-8 (uma traduo dele foi publicada no Int. J. Psycho-Anal., 1, 354). No parece certo que 
esse resumo tenha sido realmente da autoria de Freud, mas pode ser interessante reproduzi-lo aqui (em nova traduo).

                'Suplementos  Teoria dos Sonhos'

        'O orador tratou, em suas breves observaes, de trs pontos referentes  teoria dos sonhos. Os dois primeiros relacionaram-se  tese de que os sonhos so 
realizaes de desejo e apresentaram algumas modificaes necessrias dela. O terceiro referiu-se a um material que trouxe confirmao completa de sua rejeio dos 
alegados intuitos "previdentes" dos sonhos.
        ''Explicou o orador que, juntamente com os familiares sonhos de desejo e os sonhos de ansiedade que podiam ser facilmente includos na teoria, existiam fundamentos 
para reconhecer a existncia de uma terceira categoria,  qual deu o nome de "sonhos de punio". Se levarmos em conta a justificvel suposio da existncia de 
um rgo especial auto-observador e crtico no ego (ideal do ego, censor, conscincia), tambm esses sonhos de punio devem ser classificados na teoria da realizao 
de desejo, porque representariam a realizao de um desejo por parte desse rgo crtico. Tais sonhos, disse ele, possuem aproximadamente a mesma relao com os 
sonhos de desejo comuns que os sintomas da neurose obsessiva, surgidos na formao reativa, tm com os da histeria.
        Outra classe de sonhos, no entanto, pareceu ao orador apresentar uma exceo mais sria  regra de que os sonhos so realizaes de desejo. Trata-se dos 
chamados sonhos "traumticos", que ocorrem em pacientes que sofreram acidentes, mas aparecem tambm durante a psicanlise de neurticos, trazendo-lhes de volta traumas 
esquecidos da infncia. Em conexo com o problema de ajustar esses sonhos  teoria da realizao de desejo, o orador referiu-se a uma obra a ser publicada dentro 
em breve, sob o ttulo de Alm do Princpio de Prazer.
        O terceiro ponto da comunicao do orador referiu-se a uma investigao que ainda no foi publicada, feita pelo Dr. Varendonck, de Ghent. Esse autor conseguiu 
trazer  sua observao consciente a produo de fantasias inconscientes em ampla escala, num estado de semi-adormecimento, processo que descreveu como "pensamento 
autstico". Surgiu dessa investigao que a considerao das possibilidades do dia seguinte, a preparao de esforos de solues e adaptaes etc., jazem inteiramente 
dentro do campo dessa atividade pr-consciente, que tambm cria pensamentos onricos latentes e que, como o orador sempre sustentou, nada tem a ver com a elaborao 
onrica.
        Na srie dos trabalhos metapsicolgicos de Freud, Alm do Princpio de Prazer pode ser considerado como uma introduo da fase final de suas concepes. 
J havia chamado a ateno para a 'compulso  repetio' como fenmeno clnico, mas lhe atribui aqui as caractersticas de um instinto; tambm aqui, pela primeira 
vez, apresenta a nova dicotomia entre Eros e os instintos de morte, que iria encontrar sua plena elaborao em O Ego e o Id (1923b). Em Alm do Princpio de Prazer, 
tambm, podemos ver sinais do novo quadro da estrutura anatmica da mente que deveria dominar todos os ltimos trabalhos de Freud. Finalmente, o problema da destrutividade, 
que desempenhou papel cada vez mais importante em suas obras tericas, faz seu primeiro aparecimento explcito. A derivao de diversos elementos do presente estudo 
a partir de suas obras metapsicolgicas anteriores - tais como 'The Two Principles of Mental Functioning' (1911b) 'Narcisismo' (1914c) e 'Os Instintos e Suas Vicissitudes' 
(1915c) - ser bvia. Particularmente notvel, porm,  a proximidade com que algumas das primeiras partes do presente trabalho acompanham o 'Projeto para uma Psicologia 
Cientfica' (1950a), esboado por Freud vinte e cinco anos antes, em 1895.
        Extratos da primeira traduo (1922) do presente trabalho foram includos em General Selection from the Works of Sigmund Freud, de Rickman (1937, 162-194).

         ALM DO PRINCPIO DE PRAZER

         Na teoria da psicanlise no hesitamos em supor que o curso tomado pelos eventos mentais est automaticamente regulado pelo princpio de prazer, ou seja, 
acreditamos que o curso desses eventos  invariavelmente colocado em movimento por uma tenso desagradvel e que toma uma direo tal, que seu resultado final coincide 
com uma reduo dessa tenso, isto , com uma evitao de desprazer ou uma produo de prazer. Levando esse curso em conta na considerao dos processos mentais 
que constituem o tema de nosso estudo, introduzimos um ponto de vista 'econmico' em nosso trabalho, e se, ao descrever esses processos, tentarmos calcular esse 
fator 'econmico' alm dos 'topogrficos' e 'dinmicos', estaremos, penso eu, fornecendo deles a mais completa descrio que poderemos atualmente conceber, uma descrio 
que merece ser distinguida pelo nome de 'metapsicolgica'.
        Com relao a isso, no nos interessa indagar at onde, com a hiptese do princpio de prazer, abordamos qualquer sistema filosfico especfico, historicamente 
estabelecido. Chegamos a essas suposies especulativas numa tentativa de descrever e explicar os fatos da observao diria em nosso campo de estudo. A prioridade 
e a originalidade no se encontram entre os objetivos que o trabalho psicanaltico estabelece para si, e as impresses subjacentes  hiptese do princpio de prazer 
so to evidentes, que dificilmente podem ser desprezadas. Por outro lado, prontamente expressaramos nossa gratido a qualquer teoria filosfica ou psicolgica 
que pudesse informar-nos sobre o significado dos sentimentos de prazer e desprazer que atuam to imperativamente sobre ns. Contudo, quanto a esse ponto, infelizmente 
nada nos  oferecido para nossos fins. Trata-se da regio mais obscura e inacessvel da mente e, j que no podemos evitar travar contato com ela, a hiptese menos 
rgida ser a melhor, segundo me parece. Decidimos relacionar o prazer e o desprazer  quantidade de excitao, presente na mente, mas que no se encontra de maneira 
alguma 'vinculada', e relacion-los de tal modo, que o desprazer corresponda a um aumento na quantidade de excitao, e o prazer, a uma diminuio. O que isso implica 
no  uma simples relao entre a intensidade dos sentimentos de prazer e desprazer e as modificaes correspondentes na quantidade de excitao; tampouco - em vista 
de tudo que nos foi ensinado pela psicofisiologia - sugerimos a existncia de qualquer razo proporcional direta: o fator que determina o sentimento e provavelmente 
a quantidade de aumento ou diminuio na quantidade de excitao num determinado perodo de tempo. A experimentao possivelmente poderia desempenhar um papel aqui, 
mas no  aconselhvel a ns, analistas, ir mais  frente no problema enquanto nosso caminho no estiver balizado por observaes bastante definidas.
        No podemos, entretanto, permanecer indiferentes  descoberta de um investigador de tanta penetrao como G.T.Fechner, que sustenta uma concepo sobre o 
tema do prazer e do desprazer que coincide em todos os seus aspectos essenciais com aquela a que fomos levados pelo trabalho psicanaltico. A afirmao de Fechner 
pode ser encontrada numa pequena obra, Einige Ideen zur Schpfungs - und Entwick - lungsgeschichte der Organismen, 1873 (Parte XI, Suplemento, 94), e diz o seguinte: 
'At onde os impulsos conscientes sempre possuem uma certa relao com o prazer e o desprazer, estes tambm podem ser encarados como possuindo uma relao psicofsica 
com condies de estabilidade e instabilidade. Isso fornece a base para uma hiptese em que me proponho ingressar com maiores pormenores em outra parte. De acordo 
com ela, todo movimento psicofsico que se eleve acima do limiar da conscincia  assistido pelo prazer na proporo em que, alm de um certo limite, ele se aproxima 
da estabilidade completa, sendo assistido pelo desprazer na proporo em que, alm de um certo limite, se desvia dessa estabilidade, ao passo que entre os dois limites, 
que podem ser descritos como limiares qualitativos de prazer e desprazer, h uma certa margem de indiferena esttica (...)'
        Os fatos que nos fizeram acreditar na dominncia do princpio de prazer na vida mental encontram tambm expresso na hiptese de que o aparelho mental se 
esfora por manter a quantidade de excitao nele presente to baixa quanto possvel, ou, pelo menos, por mant-la constante. Essa ltima hiptese constitui apenas 
outra maneira de enunciar o princpio de prazer, porque, se o trabalho do aparelho mental se dirige no sentido de manter baixa a quantidade de excitao, ento qualquer 
coisa que seja calculada para aumentar essa quantidade est destinada a ser sentida como adversa ao funcionamento do aparelho, ou seja, como desagradvel. O princpio 
de prazer decorre do princpio de constncia; na realidade, esse ltimo princpio foi inferido dos fatos que nos foraram a adotar o princpio de prazer. Alm disso, 
um exame mais pormenorizado mostrar que a tendncia que assim atribumos ao aparelho mental, subordina-se, como um caso especial, ao princpio de Fechner da 'tendncia 
no sentido da estabilidade', com a qual ele colocou em relao os sentimentos de prazer e desprazer.
        Deve-se, contudo, apontar que, estritamente falando,  incorreto falar na dominncia do princpio de prazer sobre o curso dos processos mentais. Se tal dominncia 
existisse, a imensa maioria de nossos processos mentais teria de ser acompanhada pelo prazer ou conduzir a ele, ao passo que a experincia geral contradiz completamente 
uma concluso desse tipo. O mximo que se pode dizer, portanto,  que existe na mente uma forte tendncia no sentido do princpio de prazer, embora essa tendncia 
seja contrariada por certas outras foras ou circunstncias, de maneira que o resultado final talvez nem sempre se mostre em harmonia com a tendncia no sentido 
do prazer. Podemos comparar isso com o que Fechner (1873, 90) observa sobre um ponto semelhante: 'Visto que, porm, uma tendncia no sentido de um objetivo no implica 
que este seja atingido, e desde que, em geral, o objetivo  atingvel apenas por aproximaes (...)'
        Se nos voltarmos agora para a questo de saber quais as circunstncias que podem impedir o princpio de prazer de ser levado a cabo, encontrar-nos-emos mais 
uma vez em terreno seguro e bem batido e, ao estruturarmos nossa resposta, teremos  nossa disposio um copioso fundo de experincia analtica.
        O primeiro exemplo do princpio de prazer a ser assim inibido  familiar e ocorre com regularidade. Sabemos que o princpio de prazer  prprio de um mtodo 
primrio de funcionamento por parte do aparelho mental, mas que, do ponto de vista da autopreservao do organismo entre as dificuldades do mundo externo, ele , 
desde o incio, ineficaz e at mesmo altamente perigoso. Sob a influncia dos instintos de autopreservao do ego, o princpio de prazer  substitudo pelo princpio 
de realidade. Esse ltimo princpio no abandona a inteno de fundamentalmente obter prazer; no obstante, exige e efetua o adiamento da satisfao, o abandono 
de uma srie de possibilidades de obt-la, e a tolerncia temporria do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer. Contudo, o princpio 
de prazer persiste por longo tempo como o mtodo de funcionamento empregado pelos instintos sexuais, que so difceis de 'educar', e, partindo desses instintos, 
ou do prprio ego, com freqncia consegue vencer o princpio de realidade, em detrimento do organismo como um todo.
        No pode, porm, haver dvida de que a substituio do princpio de prazer pelo princpio de realidade s pode ser responsabilizada por um pequeno nmero 
- e de modo algum as mais intensas - das experincias desagradveis. Outra ocasio de liberao do desprazer, que ocorre com no menor regularidade, pode ser encontrada 
nos conflitos e dissenses que se efetuam no aparelho mental enquanto o ego est passando por seu desenvolvimento para organizaes mais altamente compostas. Quase 
toda a energia com que o aparelho se abastece, origina-se de seus impulsos instintuais inatos, mas no  a todos estes que se permite atingir as mesmas fases de 
desenvolvimento. No curso das coisas, acontece repetidas vezes que instintos individuais ou parte de instintos se mostrem incompatveis, em seus objetivos ou exigncias, 
com os remanescentes, que podem combinar-se na unidade inclusiva do ego. Os primeiros so ento expelidos dessa unidade pelo processo de represso, mantidos em nveis 
inferiores de desenvolvimento psquico, e afastados, de incio, da possibilidade de satisfao. Se subseqentemente alcanam xito - como to facilmente acontece 
com os instintos sexuais reprimidos - em conseguir chegar por caminhos indiretos a uma satisfao direta ou substitutiva, esse acontecimento, que em outros casos 
seria uma oportunidade de prazer,  sentida pelo ego como desprazer. Em conseqncia do velho conflito que terminou pela represso, uma nova ruptura ocorreu no princpio 
de prazer no exato momento em que certos instintos estavam esforando-se, de acordo com o princpio, por obter novo prazer. Os pormenores do processo pelo qual a 
represso transforma uma possibilidade de prazer numa fonte de desprazer ainda no esto claramente compreendidos, ou no podem ser claramente representados; no 
h dvida, porm, de que todo desprazer neurtico  dessa espcie, ou seja, um prazer que no pode ser sentido como tal.
        As duas fontes de desprazer que acabei de indicar esto muito longe de abranger a maioria de nossas experincias desagradveis; contudo, no que concerne 
ao restante, pode-se afirmar com certa justificativa que sua presena no contradiz a dominncia do princpio de prazer. A maior parte do desprazer que experimentamos 
 um desprazer perceptivo. Esse desprazer pode ser a percepo de uma presso por parte de instintos insatisfeitos, ou ser a percepo externa do que  aflitivo 
em si mesmo ou que excita expectativas desprazerosas no aparelho mental, isto , que  por ele reconhecido como um 'perigo'. A reao dessas exigncias instintuais 
e ameaas de perigo, reao que constitui a atividade apropriada do aparelho mental, pode ser ento dirigida de maneira correta pelo princpio de prazer ou pelo 
princpio de realidade pelo qual o primeiro  modificado. Isso no parece tornar necessria nenhuma limitao de grande alcance do princpio de prazer. No obstante, 
a investigao da reao mental ao perigo externo encontra-se precisamente em posio de produzir novos materiais e levantar novas questes relacionadas com nosso 
problema atual.


                                        II

        H muito tempo se conhece e foi descrita uma condio que ocorre aps graves concusses mecnicas, desastres ferrovirios e outros acidentes que envolvem 
risco de vida; recebeu o nome de 'neurose traumtica'. A terrvel guerra que h pouco findou deu origem a grande nmero de doenas desse tipo; pelo menos, porm, 
ps fim  tentao de atribuir a causa do distrbio a leses orgnicas do sistema nervoso, ocasionadas pela fora mecnica. O quadro sintomtico apresentado pela 
neurose traumtica aproxima-se do da histeria pela abundncia de seus sintomas motores semelhantes; em geral, contudo, ultrapassa-o em seus sinais fortemente acentuados 
de indisposio subjetiva (no que se assemelha  hipocondria ou melancolia), bem como nas provas que fornece de debilitamento e de perturbao muito mais abrangentes 
e gerais das capacidades mentais. Ainda no se chegou a nenhuma explicao completa, seja das neuroses de guerra, seja das neuroses traumticas dos tempos de paz. 
No caso das primeiras, o fato de os mesmos sintomas s vezes aparecerem sem a interveno de qualquer grande fora mecnica, pareceu a princpio esclarecedor e desnorteante. 
No caso das neuroses traumticas comuns, duas caractersticas surgem proeminentemente: primeira, que o nus principal de sua causao parece repousar sobre o fator 
da surpresa, do susto, e, segunda, que um ferimento ou dano infligidos simultaneamente operam, via de regra, contra o desenvolvimento de uma neurose. 'Susto', 'medo' 
e 'ansiedade' so palavras impropriamente empregadas como expresses sinnimas; so, de fato, capazes de uma distino clara em sua relao com o perigo. A 'ansiedade' 
descreve um estado particular de esperar o perigo ou preparar-se para ele, ainda que possa ser desconhecido. O 'medo' exige um objeto definido de que se tenha temor. 
'Susto', contudo,  o nome que damos ao estado em que algum fica, quando entrou em perigo sem estar preparado para ele, dando-se nfase ao fator da surpresa. No 
acredito que a ansiedade possa produzir neurose traumtica; nela existe algo que protege o seu sujeito contra o susto e, assim, contra as neuroses de susto. Voltaremos 
posteriormente a esse ponto (ver em [1] e segs).
        O estudo dos sonhos pode ser considerado o mtodo mais digno de confiana na investigao dos processos mentais profundos. Ora, os sonhos que ocorrem nas 
neuroses traumticas possuem a caracterstica de repetidamente trazer o paciente de volta  situao de seu acidente, numa situao da qual acorda em outro susto. 
Isso espanta bem pouco as pessoas. Pensam que o fato de a experincia traumtica estar-se continuamente impondo ao paciente, mesmo no sono, se encontra, conforme 
se poderia dizer, fixado em seu trauma. As fixaes na experincia que iniciou a doena h muito tempo, nos so familiares na histeria. Breuer e Freud declararam 
em 1893 que 'os histricos sofrem principalmente de reminiscncias'. Nas neuroses de guerra tambm, observadores como Ferenczi e Simmel puderam explicar certos sintomas 
motores pela fixao no momento em que o trauma ocorreu.
        No  de meu conhecimento, contudo, que pessoas que sofrem de neurose traumtica estejam muito ocupadas, em suas vidas despertas, com lembranas de seu acidente. 
Talvez estejam mais interessadas em no pensar nele. Qualquer um que aceite, como algo por si mesmo evidente, que os sonhos delas devam  noite faz-las voltar  
situao que as fez cair doentes, compreendeu mal a natureza dos sonhos. Estaria mais em harmonia com a natureza destes, se mostrassem ao paciente quadros de seu 
passado sadio ou da cura pela qual esperam. Se no quisermos que os sonhos dos neurticos traumticos abalem nossa crena no teor realizador de desejos dos sonhos, 
teremos ainda aberta a ns uma sada: podemos argumentar que a funo de sonhar, tal como muitas pessoas, nessa condio est perturbada e afastada de seus propsitos, 
ou podemos ser levados a refletir sobre as misteriosas tendncias masoquistas do ego.
        Nesse ponto, proponho abandonarmos o obscuro e melanclico tema da neurose traumtica, e passar a examinar o mtodo de funcionamento empregado pelo aparelho 
mental em uma de suas primeiras atividades normais; quero referir-me  brincadeira das crianas.
        As diferentes teorias sobre a brincadeira das crianas foram ainda recentemente resumidas e discutidas do ponto de vista psicanaltico por Pfeifer (1919), 
a cujo artigo remeto meus leitores. Essas teorias esforam-se por descobrir os motivos que levam as crianas a brincar, mas deixam de trazer para o primeiro plano 
o motivo econmico, a considerao da produo de prazer envolvida. Sem querer incluir todo o campo abrangido por esses fenmenos, pude, atravs de uma oportunidade 
fortuita que se me apresentou, lanar certa luz sobre a primeira brincadeira efetuada por um menininho de ano e meio de idade e inventada por ele prprio. Foi mais 
do que uma simples observao passageira, porque vivi sob o mesmo teto que a criana e seus pais durante algumas semanas, e foi algum tempo antes que descobri o 
significado da enigmtica atividade que ele constantemente repetia.
        A criana de modo algum era precoce em seu desenvolvimento intelectual.  idade de ano e meio podia dizer apenas algumas palavras compreensveis e utilizava 
tambm uma srie de sons que expressavam um significado inteligvel para aqueles que a rodeavam. Achava-se, contudo, em bons termos com os pais e sua nica empregada, 
e tributos eram-lhe prestados por ser um 'bom menino'. No incomodava os pais  noite, obedecia conscientemente s ordens de no tocar em certas coisas, ou de no 
entrar em determinados cmodos e, acima de tudo, nunca chorava quando sua me o deixava por algumas horas. Ao mesmo tempo, era bastante ligado  me, que tinha no 
apenas de aliment-lo, como tambm cuidava dele sem qualquer ajuda externa. Esse bom menininho, contudo, tinha o hbito ocasional e perturbador de apanhar quaisquer 
objetos que pudesse agarrar e atir-los longe para um canto, sob a cama, de maneira que procurar seus brinquedos e apanh-los, quase sempre dava bom trabalho. Enquanto 
procedia assim, emitia um longo e arrastado 'o-o-o-', acompanhado por expresso de interesse e satisfao. Sua me e o autor do presente relato concordaram em achar 
que isso no constitua uma simples interjeio, mas representava a palavra alem 'fort'. Acabei por compreender que se tratava de um jogo e que o nico uso que 
o menino fazia de seus brinquedos, era brincar de 'ir embora' com eles. Certo dia, fiz uma observao que confirmou meu ponto de vista. O menino tinha um carretel 
de madeira com um pedao de cordo amarrado em volta dele. Nunca lhe ocorrera pux-lo pelo cho atrs de si, por exemplo, e brincar com o carretel como se fosse 
um carro. O que ele fazia era segurar o carretel pelo cordo e com muita percia arremess-lo por sobre a borda de sua caminha encortinada, de maneira que aquele 
desaparecia por entre as cortinas, ao mesmo tempo que o menino proferia seu expressivo 'o-o-'. Puxava ento o carretel para fora da cama novamente, por meio do 
cordo, e saudava o seu reaparecimento com um alegre 'da' ('ali'). Essa, ento, era a brincadeira completa: desaparecimento e retorno. Via de regra, assistia-se 
apenas a seu primeiro ato, que era incansavelmente repetido como um jogo em si mesmo, embora no haja dvida de que o prazer maior se ligava ao segundo ato.
        A interpretao do jogo tornou-se ento bvia. Ele se relacionava  grande realizao cultural da criana, a renncia instintual (isto , a renncia  satisfao 
instintual) que efetuara ao deixar a me ir embora sem protestar. Compensava-se por isso, por assim dizer, encenando ele prprio o desaparecimento e a volta dos 
objetos que se encontravam a seu alcance.  naturalmente indiferente, do ponto de vista de ajuizar a natureza efetiva do jogo, saber se a prpria criana o inventara 
ou o tirara de alguma sugesto externa. Nosso interesse se dirige para outro ponto. A criana no pode ter sentido a partida da me como algo agradvel ou mesmo 
indiferente. Como, ento, a repetio dessa experincia aflitiva, enquanto jogo, harmonizava-se com o princpio de prazer? Talvez se possa responder que a partida 
dela tinha de ser encenada como preliminar necessria a seu alegre retorno, e que neste ltimo residia o verdadeiro propsito do jogo. Mas contra isso deve-se levar 
em conta o fato observado de o primeiro ato, o da partida, ser encenado como um jogo em si mesmo, e com muito mais freqncia do que o episdio na ntegra, com seu 
final agradvel.
        Nenhuma deciso certa pode ser alcanada pela anlise de um caso isolado como esse. De um ponto de vista no preconcebido, fica-se com a impresso de que 
a criana transformou sua experincia em jogo devido a outro motivo. No incio, achava-se numa situao passiva, era dominada pela experincia; repetindo-a, porm, 
por mais desagradvel que fosse, como jogo, assumia papel ativo. Esses esforos podem ser atribudos a um instinto de dominao que atuava independentemente de a 
lembrana em si mesma ser agradvel ou no. Mas uma outra interpretao ainda pode ser tentada. Jogar longe o objeto, de maneira a que fosse 'embora', poderia satisfazer 
um impulso da criana, suprimido na vida real, de vingar-se da me por afastar-se dela. Nesse caso, possuiria significado desafiador: 'Pois bem, ento: v embora! 
No preciso de voc. Sou eu que estou mandando voc embora.' Um ano mais tarde, o mesmo menino que eu observara em seu primeiro jogo, costumava agarrar um brinquedo, 
se estava zangado com este, e jog-lo ao cho, exclamando: 'V para a frente!' Escutara nessa poca que o pai ausente se encontrava 'na frente (de batalha)', e o 
menino estava longe de lamentar sua ausncia, pelo contrrio, deixava bastante claro que no tinha desejo de ser perturbado em sua posse exclusiva da me. Conhecemos 
outras crianas que gostavam de expressar impulsos hostis semelhantes lanando longe de si objetos, em vez de pessoas. Assim, ficamos em dvida quanto a saber se 
o impulso para elaborar na mente alguma experincia de dominao, de modo a tornar-se senhor dela, pode encontrar expresso como um evento primrio e independentemente 
do princpio de prazer. Isso porque, no caso que acabamos de estudar, a criana, afinal de contas, s foi capaz de repetir sua experincia desagradvel na brincadeira 
porque a repetio trazia consigo uma produo de prazer de outro tipo, uma produo mais direta.
        No seremos auxiliados em nossa hesitao entre esses dois pontos de vista por outras consideraes sobre brincadeiras infantis.  claro que em suas brincadeiras 
as crianas repetem tudo que lhes causou uma grande impresso na vida real, e assim procedendo, ab-reagem a intensidade da impresso, tornando-se, por assim dizer, 
senhoras da situao. Por outro lado, porm,  bvio que todas as suas brincadeiras so influenciadas por um desejo que as domina o tempo todo: o desejo de crescer 
e poder fazer o que as pessoas crescidas fazem. Pode-se tambm observar que a natureza desagradvel de uma experincia nem sempre a torna inapropriada para a brincadeira. 
Se o mdico examina a garganta de uma criana ou faz nela alguma pequena interveno, podemos estar inteiramente certos de que essas assustadoras experincias sero 
tema da prxima brincadeira; contudo, no devemos, quanto a isso, desprezar o fato de existir uma produo de prazer provinda de outra fonte. Quando a criana passa 
da passividade da experincia para a atividade do jogo, transfere a experincia desagradvel para um de seus companheiros de brincadeira e, dessa maneira, vinga-se 
num substituto.
        Todavia, decorre desse exame que no h necessidade de supor a existncia de um instinto imitativo especial para fornecer um motivo para a brincadeira. Finalmente, 
em acrscimo, pode-se lembrar que a representao e a imitao artsticas efetuadas por adultos, as quais, diferentemente daquelas das crianas, se dirigem a uma 
audincia, no poupam aos espectadores (como na tragdia, por exemplo) as mais penosas experincias, e, no entanto, podem ser por eles sentidas como altamente prazerosas. 
Isso constitui prova convincente de que, mesmo sob a dominncia do princpio de prazer, h maneiras e meios suficientes para tornar o que em si mesmo  desagradvel 
num tema a ser rememorado e elaborado na mente. A considerao desses casos e situaes, que tm a produo de prazer como seu resultado final, deve ser empreendida 
por algum sistema de esttica com uma abordagem econmica a seu tema geral. Eles no tm utilidade para nossos fins, pois pressupem a existncia e a dominncia 
do princpio de prazer; no fornecem provas do funcionamento de tendncias alm do princpio de prazer, ou seja, de tendncias mais primitivas do que ele e dele 
independentes.

                                        III

        Vinte e cinco anos de intenso trabalho tiveram por resultado que os objetivos imediatos da psicanlise sejam hoje inteiramente diferentes do que eram no 
comeo. A princpio, o mdico que analisava no podia fazer mais do que descobrir o material inconsciente oculto para o paciente, reuni-lo e no momento oportuno 
comunic-lo a este. A psicanlise era ento, primeiro e acima de tudo, uma arte interpretativa. Uma vez que isso no solucionava o problema teraputico, um outro 
objetivo rapidamente surgiu  vista: obrigar o paciente a confirmar a construo terica do analista com sua prpria memria. Nesse esforo, a nfase principal reside 
nas resistncias do paciente: a arte consistia ento em descobri-las to rapidamente quanto possvel, apontando-as ao paciente e induzindo-o, pela influncia humana 
- era aqui que a sugesto, funcionando como 'transferncia', desempenhava seu papel -, a abandonar suas resistncias.
        Contudo, tornou-se cada vez mais claro que o objetivo que fora estabelecido - que o inconsciente deve tornar-se consciente - no era completamente atingvel 
atravs desse mtodo. O paciente no pode recordar a totalidade do que nele se acha reprimido, e o que no lhe  possvel recordar pode ser exatamente a parte essencial. 
Dessa maneira, ele no adquire nenhum sentimento de convico da correo da construo terica que lhe foi comunicada.  obrigado a repetir o material reprimido 
como se fosse uma experincia contempornea, em vez de, como o mdico preferiria ver, record-lo como algo pertencente ao passado. Essas reprodues, que surgem 
com tal exatido indesejada, sempre tm como tema alguma parte da vida sexual infantil, isto , do complexo de dipo, e de seus derivativos, e so invariavelmente 
atuadas (acted out) na esfera da transferncia, da relao do paciente com o mdico. Quando as coisas atingem essa etapa, pode-se dizer que a neurose primitiva foi 
ento substituda por outra nova, pela 'neurose de transferncia'. O mdico empenha-se por manter essa neurose de transferncia dentro dos limites mais restritos; 
forar tanto quanto possvel o canal da memria, e permitir que surja como repetio o mnimo possvel. A proporo entre o que  lembrado e o que  reproduzido 
varia de caso para caso. O mdico no pode, via de regra, poupar ao paciente essa face do tratamento. Deve faz-lo reexperimentar alguma parte de sua vida esquecida, 
mas deve tambm cuidar, por outro lado, que o paciente retenha certo grau de alheamento, que lhe permitir, a despeito de tudo, reconhecer que aquilo que parece 
ser realidade , na verdade, apenas reflexo de um passado esquecido. Se isso puder ser conseguido com xito, o sentimento de convico do paciente ser conquistado, 
juntamente com o sucesso teraputico que dele depende.
        A fim de tornar mais fcil a compreenso dessa 'compulso  repetio' que surge durante o tratamento psicanaltico dos neurticos, temos acima de tudo de 
livrar-nos da noo equivocada de que aquilo com que estamos lidando em nossa luta contra as resistncias seja uma resistncia por parte do inconsciente. O inconsciente, 
ou seja, o 'reprimido', no oferece resistncia alguma aos esforos do tratamento. Na verdade, ele prprio no se esfora por outra coisa que no seja irromper atravs 
da presso que sobre ele pesa, e abrir seu caminho  conscincia ou a uma descarga por meio de alguma ao real. A resistncia durante o tratamento origina-se dos 
mesmos estratos e sistemas mais elevados da mente que originalmente provocaram a represso. Mas o fato de, como sabemos pela experincia, os motivos das resistncias 
e, na verdade, as prprias resistncias serem a princpio inconscientes durante o tratamento, -nos uma sugesto para que corrijamos uma deficincia de nossa terminologia. 
Evitaremos a falta de clareza se fizermos nosso contraste no entre o consciente e o inconsciente, mas entre o ego coerente e o reprimido.  certo que grande parte 
do ego , ela prpria, inconsciente, e notavelmente aquilo que podemos descrever como seu ncleo; apenas pequena parte dele se acha abrangida pelo termo 'pr-consciente'. 
Havendo substitudo uma terminologia puramente descritiva por outra sistemtica e dinmica, podemos dizer que as resistncias do paciente originam-se do ego, e ento 
imediatamente perceberemos que a compulso  repetio deve ser atribuda ao reprimido inconsciente. Parece provvel que a compulso s possa expressar-se depois 
que o trabalho do tratamento avanou a seu encontro at a metade do caminho e que afrouxou a represso.
        No h dvida de que a resistncia do ego consciente e inconsciente funciona sob a influncia do princpio de prazer; ela busca evitar o desprazer que seria 
produzido pela liberao do reprimido. Nossos esforos, por outro lado, dirigem-se no sentido de conseguir a tolerncia desse desprazer por um apelo ao princpio 
de realidade. Mas, como se acha a compulso  repetio - a manifestao do poder do reprimido - relacionada com o princpio de prazer?  claro que a maior parte 
do que  reexperimentado sob a compulso  repetio, deve causar desprazer ao ego, pois traz  luz as atividades dos impulsos instintuais reprimidos. Isso, no entanto, 
constitui desprazer de uma espcie que j consideramos e que no contradiz o princpio de prazer: desprazer para um dos sistemas e, simultaneamente, satisfao para 
outro. Contudo, chegamos agora a um fato novo e digno de nota, a saber, que a compulso  repetio tambm rememora do passado experincias que no incluem possibilidade 
alguma de prazer e que nunca, mesmo h longo tempo, trouxeram satisfao, mesmo para impulsos instintuais que desde ento foram reprimidos.
        O florescimento precoce da vida sexual infantil est condenado  extino porque seus desejos so incompatveis com a realidade e com a etapa inadequada 
de desenvolvimento a que a criana chegou. Esse florescimento chega ao fim nas mais aflitivas circunstncias e com o acompanhamento dos mais penosos sentimentos. 
A perda do amor e o fracasso deixam atrs de si um dano permanente  autoconsiderao, sob a forma de uma cicatriz narcisista, o que, em minha opinio, bem como 
na de Marcinowski (1918), contribui mais do que qualquer outra coisa para o 'sentimento de inferioridade', to comum aos neurticos. As exploraes sexuais infantis, 
s quais seu desenvolvimento fsico impe limites, no conduzem a nenhuma concluso satisfatria; da as queixas posteriores, tais como 'No consigo realizar nada; 
no tenho sucesso em nada'. O lao da afeio, que via de regra liga a criana ao genitor do sexo oposto, sucumbe ao desapontamento, a uma v expectativa de satisfao, 
ou ao cime pelo nascimento de um novo beb, prova inequvoca da infidelidade do objetivo da afeio da criana. Sua prpria tentativa de fazer um beb, efetuada 
com trgica seriedade, fracassa vergonhosamente. A menor quantidade de afeio que recebe, as exigncias crescentes da educao, palavras duras e um castigo ocasional 
mostram-lhe por fim toda a extenso do desdm que lhe concederam. Estes so alguns exemplos tpicos e constantemente recorrentes das maneiras pelas quais o amor 
caracterstico da idade infantil  levado a um trmino.
        Os pacientes repetem na transferncia todas essas situaes indesejadas e emoes penosas, revivendo-as com a maior engenhosidade. Procuram ocasionar a interrupo 
do tratamento enquanto este ainda se acha incompleto; imaginam sentir-se desprezados mais uma vez, obrigam o mdico a falar-lhes severamente e a trat-los friamente; 
descobrem objetos apropriados para seu cime; em vez do nen apaixonadamente desejado de sua infncia, produzem um plano ou a promessa de algum grande presente, 
que em regra se mostra no menos irreal. Nenhuma dessas coisas pode ter produzido prazer no passado, e poder-se-ia supor que causariam menos desprazer hoje se emergissem 
como lembranas ou sonhos, em vez de assumirem a forma de experincias novas. Constituem, naturalmente, as atividades de instintos destinados a levar  satisfao, 
mas nenhuma lio foi aprendida da antiga experincia de que essas atividades, ao contrrio, conduziram apenas ao desprazer. A despeito disso, so repetidas, sob 
a presso de uma compulso.
        O que a psicanlise revela nos fenmenos de transferncia dos neurticos, tambm pode ser observado nas vidas de certas pessoas normais. A impresso que 
do  de serem perseguidas por um destino maligno ou possudas por algum poder 'demonaco'; a psicanlise, porm, sempre foi de opinio de que seu destino , na 
maior parte, arranjado por elas prprias e determinado por influncias infantis primitivas. A compulso que aqui se acha em evidncia no difere em nada da compulso 
 repetio que encontramos nos neurticos, ainda que as pessoas que agora estamos considerando nunca tenham mostrado quaisquer sinais de lidarem com um conflito 
neurtico pela produo de sintomas. Assim, encontramos pessoas em que todas as relaes humanas tm o mesmo resultado, tal como o benfeitor que  abandonado iradamente, 
aps certo tempo, por todos os seus protegs, por mais que eles possam, sob outros aspectos, diferir uns dos outros, parecendo assim condenado a provar todo o amargor 
da ingratido; o homem cujas amizades findam por uma traio por parte do amigo; o homem que, repetidas vezes, no decorrer da vida, eleva outrem a uma posio de 
grande autoridade particular ou pblica e depois, aps certo intervalo, subverte essa autoridade e a substitui por outra nova; ou, ainda, o amante cujos casos amorosos 
com mulheres atravessam as mesmas fases e chegam  mesma concluso. Essa 'perptua recorrncia da mesma coisa' no nos causa espanto quando se refere a um comportamento 
ativo por parte da pessoa interessada, e podemos discernir nela um trao de carter essencial, que permanece sempre o mesmo, sendo compelido a expressar-se por uma 
repetio das mesmas experincias. Ficamos muito mais impressionados nos casos em que o sujeito parece ter uma experincia passiva, sobre a qual no possui influncia, 
mas nos quais se defronta com uma repetio da mesma fatalidade.  o caso, por exemplo, da mulher que se casou sucessivamente com trs maridos, cada um dos quais 
caiu doente logo depois e teve que ser cuidado por ela em seu leito de morte. O retrato potico mais comovente de um destino assim foi pintado por Tasso em sua epopia 
romntica Gerusalemme Liberata. Seu heri, Tancredo, inadvertidamente mata sua bem amada Clorinda num duelo, estando ela disfarada sob a armadura de um cavaleiro 
inimigo. Aps o enterro, abre caminho numa estranha floresta mgica que aterroriza o exrcito dos Cruzados. Com a espada faz um talho numa rvore altaneira, mas 
do corte  sangue que escorre e a voz de Clorinda, cuja alma est aprisionada na rvore,  ouvida a lamentar-se que mais uma vez ele feriu sua amada.
        Se levarmos em considerao observaes como essas, baseadas no comportamento, na transferncia e nas histrias da vida de homens e mulheres, no s encontraremos 
coragem para supor que existe realmente na mente uma compulso  repetio que sobrepuja o princpio de prazer, como tambm ficaremos agora inclinados a relacionar 
com essa compulso os sonhos que ocorrem nas neuroses traumticas e o impulso que leva as crianas a brincar.
        Contudo,  de notar que apenas em raros casos podemos observar os motivos puros da compulso  repetio, desapoiados por outros motivos. No caso da brincadeira 
das crianas, j demos nfase s outras maneiras pelas quais o surgimento da compulso pode ser interpretado; aqui, a compulso  repetio e a satisfao instintual 
que  imediatamente agradvel, parecem convergir em associao ntima. Os fenmenos da transferncia so obviamente explorados pela resistncia que o ego mantm 
em sua pertinaz insistncia na represso; a compulso  repetio, que o tratamento tenta colocar a seu servio, , por assim dizer, arrastada pelo ego para o lado 
dele (aferrando-se, como faz o ego, ao princpio de prazer). Grande parte do que poderia ser descrito como compulso do destino parece inteligvel numa base racional, 
de maneira que no temos necessidade de convocar uma nova e misteriosa fora motivadora para explic-la.
        O exemplo menos dbio [de tal fora motivadora]  talvez o dos sonhos traumticos. Numa reflexo mais amadurecida, porm, seremos forados a admitir que, 
mesmo nos outros casos, nem todo o campo  abrangido pelo funcionamento das familiares foras motivadoras. Resta inexplicado o bastante para justificar a hiptese 
de uma compulso  repetio, algo que parece mais primitivo, mais elementar e mais instintual do que o princpio de prazer que ela domina. Mas, se uma compulso 
 repetio opera realmente na mente, ficaramos satisfeitos em conhecer algo sobre ela, aprender a que funo corresponde, sob que condies pode surgir e qual 
 sua relao com o princpio de prazer, ao qual, afinal de contas, at agora atribumos dominncia sobre o curso dos processos de excitao na vida mental.

                                        IV

        O que se segue  especulao, amide especulao forada, que o leitor tomar em considerao ou por de lado, de acordo com sua predileo individual.  
mais uma tentativa de acompanhar uma idia sistematicamente, s por curiosidade de ver at onde ela levar.
        A especulao psicanaltica toma como ponto de partida a impresso, derivada do exame dos processos inconscientes, de que a conscincia pode ser, no o atributo 
mais universal dos processos mentais, mas apenas uma funo especial deles. Falando em termos metapsicolgicos, assevera que a conscincia constitui funo de um 
sistema especfico que descreve como Cs. O que a conscincia produz consiste essencialmente em percepes de excitao provindas do mundo externo e de sentimentos 
de prazer e desprazer que s podem surgir do interior do aparelho psquico; assim,  possvel atribuir ao sistema Pcpt.-Cs. uma posio no espao. Ele deve ficar 
na linha fronteiria entre o exterior e o interior; tem de achar-se voltado para o mundo externo e tem de envolver os outros sistemas psquicos. Ver-se- que no 
existe nada de ousadamente novo nessas suposies; adotamos simplesmente as concepes sobre localizao sustentadas pela anatomia cerebral, que localiza a 'sede' 
da conscincia no crtex cerebral, a camada mais externa, envolvente do rgo central. A anatomia cerebral no tem necessidade de considerar por que, anatomicamente 
falando, a conscincia deva alojar-se na superfcie do crebro, em vez de encontrar-se seguramente abrigada em algum lugar de seu mais ntimo interior. Talvez ns 
sejamos mais bem-sucedidos em explicar essa situao, no caso de nosso sistema Pcpt.-Cs.
        A conscincia no  o nico carter distintivo que atribumos aos processos desse sistema. Com base em impresses derivadas de nossa experincia psicanaltica, 
supomos que todos os processos excitatrios que ocorrem nos outros sistemas deixam atrs de si traos permanentes, os quais formam os fundamentos da memria. Tais 
traos de memria, ento, nada tm a ver com o fato de se tornarem conscientes; na verdade, com freqncia so mais poderosos e permanentes quando o processo que 
os deixou atrs de si foi um processo que nunca penetrou na conscincia. Achamos difcil acreditar, contudo, que traos permanentes de excitao como esses sejam 
tambm deixados no sistema Pcpt.-Cs. Se permanecessem constantemente conscientes, muito cedo estabeleceriam limites  aptido do sistema para o recebimento de novas 
excitaes. Se, por outro lado, fossem inconscientes, nos defrontaramos com o problema de explicar a existncia de processos inconscientes num sistema cujo funcionamento, 
sob outros aspectos, se faz acompanhar pelo fenmeno da conscincia. No teramos, por assim dizer, nem alterado nem ganho nada com nossa hiptese de relegar o processo 
de tornar-se consciente a um sistema especial. Embora essa considerao de modo algum seja conclusiva, leva-nos no obstante a suspeitar de que tornar-se consciente 
e deixar atrs de si um trao de memria, so processos incompatveis um com o outro dentro de um s e mesmo sistema. Assim, poderamos dizer que o processo excitatrio 
se torna consciente no sistema Cs., mas no deixa trao permanente atrs de si; a excitao, porm,  transmitida aos sistemas que ficam a seguir e  neles que seus 
traos so deixados. Segui essas mesmas linhas no quadro esquemtico que inclu na parte especulativa de minha Interpretao de Sonhos. Deve-se manter em mente que 
muito pouco se conhece sobre outras fontes de origem da conscincia; dessa maneira, quando formulamos a proposio de que a conscincia surge em vez de um trao 
de memria, a assertiva merece considerao, pelo menos com o fundamento de que  estruturada em termos bastante precisos.
        Se isso  assim, ento, o sistema Cs. se caracteriza pela peculiaridade de que nele (em contraste com o que acontece nos outros sistemas psquicos) os processos 
excitatrios no deixam atrs de si nenhuma alterao permanente em seus elementos, mas exaurem-se, por assim dizer, no fenmeno de se tornarem conscientes. Uma 
exceo desse tipo  regra geral exige ser explicada por algum fator que se aplique exclusivamente a esse determinado sistema. Tal fator, ausente nos outros sistemas, 
bem poderia ser a situao exposta do sistema Cs., imediatamente prxima, como , do mundo externo.
        Imaginemos um organismo vivo em sua forma mais simplificada possvel, como uma vescula indiferenciada de uma substncia que  suscetvel de estimulao. 
Ento, a superfcie voltada para o mundo externo, pela sua prpria situao, se diferenciar e servir de rgo para o recebimento de estmulos. Na verdade, a embriologia, 
em sua capacidade de recapituladora da histria desenvolvimental, mostra-nos realmente que o sistema nervoso central se origina do ectoderma; a matria cinzenta 
do crtex permanece um derivado da camada superficial primitiva do organismo e pode ter herdado algumas de suas propriedades essenciais. Seria ento fcil supor 
que, como resultado do impacto incessante de estmulos externos sobre a superfcie da vescula, sua substncia, at uma certa profundidade, pode ter sido permanentemente 
modificada, de maneira que os processos excitatrios nela seguem um curso diferente do seguido nas camadas mais profundas. Formar-se-ia ento uma crosta que acabaria 
por ficar to inteiramente 'calcinada' pela estimulao, que apresentaria as condies mais favorveis possveis para a recepo de estmulos e se tornaria incapaz 
de qualquer outra modificao. Em termos do sistema Cs. isso significa que seus elementos no poderiam mais experimentar novas modificaes permanentes pela passagem 
da excitao, porque j teriam sido modificados, a esse respeito, at o ponto mais amplo possvel; agora, contudo, se teriam tornado capazes de dar origem  conscincia. 
 possvel formar vrias idias, que no podem, de momento, ser verificadas, quanto  natureza dessa modificao da substncia e do processo excitatrio. Pode-se 
supor que, ao passar de determinado elemento para outro, a excitao tem de vencer uma resistncia e que  a diminuio da resistncia assim alcanada que deixa 
um trao permanente da excitao, isto , uma facilitao. No sistema Cs., ento, uma resistncia dessa espcie  passagem de determinado elemento no mais existir. 
Esse quadro pode ser relacionado com a distino efetuada por Breuer entre energia catxica quiescente (ou vinculada) e mvel nos elementos dos sistemas psquicos; 
os elementos do sistema Cs. no conduziriam energia vinculada, mas apenas energia capaz de descarga livre. Parece melhor, contudo, expressarmo-nos to cautelosamente 
quanto possvel sobre esses pontos. No obstante, essa especulao permitiu-nos colocar a origem da conscincia num certo tipo de vinculao com a situao do sistema 
Cs. e com as peculiaridades que devem ser atribudas aos processos excitatrios que neles se realizam.
        Contudo, temos mais a dizer sobre a vescula viva, com sua camada cortical receptiva. Esse pequeno fragmento de substncia viva acha-se suspenso no meio 
de um mundo externo carregado com as mais poderosas energias, e seria morto pela estimulao delas emanadas, se no dispusesse de um escudo protetor contra os estmulos. 
Ele adquire esse escudo da seguinte maneira: sua superfcie mais externa deixa de ter a estrutura apropriada  matria viva, torna-se at certo ponto inorgnica 
e, da por diante, funciona como um envoltrio ou membrana especial, resistente aos estmulos. Em conseqncia disso, as energias do mundo externo s podem passar 
para as camadas subjacentes seguintes, que permaneceram vivas, com um fragmento de sua intensidade original, e essas camadas podem dedicar-se, por trs do escudo 
protetor,  recepo das quantidades de estmulo que este deixou passar. Atravs de sua morte a camada exterior salvou todas as camadas mais profundas de um destino 
semelhante, a menos que os estmulos que a atinjam sejam to fortes que atravessem o escudo protetor. A proteo contra os estmulos , para os organismos vivos, 
uma funo quase mais importante do que a recepo deles. O escudo protetor  suprido com seu prprio estoque de energia e deve, acima de tudo, esforar-se por preservar 
os modos especiais de transformao de energia que nele operam, contra os efeitos ameaadores das enormes energias em ao no mundo externo, efeitos que tendem para 
o nivelamento deles e, assim, para a destruio. O principal intuito da recepo de estmulos  descobrir a direo e a natureza dos estmulos externos; para isso, 
 suficiente apanhar pequenos espcimes do mundo externo, para classific-lo em pequenas quantidades. Nos organismos altamente desenvolvidos, a camada cortical receptiva 
da antiga vescula h muito tempo j se retirou para as profundezas do corpo, embora partes dela tenham sido deixadas sobre a superfcie, imediatamente abaixo do 
escudo geral contra os estmulos. Essas partes so os rgos dos sentidos, que consistem essencialmente em aparelhos para a recepo de certos efeitos especficos 
de estimulao, mas que tambm incluem disposies especiais para maior proteo contra quantidades excessivas de estimulao e para a excluso de tipos inapropriados 
de estmulos.  caracterstico deles tratarem apenas com quantidades muito pequenas de estimulao externa e apenas apanharem amostras do mundo externo. Podem ser 
talvez comparados a tentculos que esto sempre efetuando avanos experimentais no sentido do mundo externo, e ento retirando-se dele.
        Nesse ponto, aventurar-me-ei a aflorar por um momento um assunto que mereceria tratamento mais exaustivo. Em conseqncia de certas descobertas psicanalticas, 
encontramo-nos hoje em posio de empenhar-nos num estudo do teorema kantiano segundo o qual tempo e espao so 'formas necessrias de pensamento'. Aprendemos que 
os processos mentais inconscientes so, em si mesmos, 'intemporais'. Isso significa, em primeiro lugar, que no so ordenados temporalmente, que o tempo de modo 
algum os altera e que a idia de tempo no lhes pode ser aplicada. Trata-se de caractersticas negativas que s podem ser claramente entendidas se se fizer uma comparao 
com os processos mentais conscientes. Por outro lado, nossa idia abstrata de tempo parece ser integralmente derivada do mtodo de funcionamento do sistema Pcpt.-Cs. 
e corresponder a uma percepo de sua prpria parte nesse mtodo de funcionamento, o qual pode talvez constituir uma outra maneira de fornecer um escudo contra os 
estmulos. Sei que essas observaes devem soar muito obscuras, mas tenho de limitar-me a essas sugestes.
        Indicamos como a vescula viva est provida de um escudo contra os estmulos provenientes do mundo externo e mostramos anteriormente que a camada cortical 
seguinte a esse escudo deve ser diferenciada como um rgo para a recepo de estmulos do exterior. Esse crtex sensitivo, contudo, que posteriormente deve tornar-se 
o sistema Cs., tambm recebe excitaes desde o interior. A situao do sistema, entre o exterior e o interior, e a diferena entre as condies que regem a recepo 
de excitaes nos dois casos, tm um efeito decisivo sobre o funcionamento do sistema e de todo o aparelho mental. No sentido do exterior, acha-se resguardado contra 
os estmulos, e as quantidades de excitao que sobre ele incidem possuem apenas efeito reduzido. No sentido do interior, no pode haver esse escudo; as excitaes 
das camadas mais profundas estendem-se para o sistema diretamente e em quantidade no reduzida, at onde algumas de suas caractersticas do origem a sentimentos 
da srie prazer-desprazer. As excitaes que provm de dentro, entretanto, em sua intensidade e em outros aspectos qualitativos - em sua amplitude, talvez -, so 
mais comensuradas com o mtodo de funcionamento do sistema do que os estmulos que afluem desde o mundo externo. Esse estado de coisas produz dois resultados definidos. 
Primeiramente, os sentimentos de prazer e desprazer (que constituem um ndice do que est acontecendo no interior do aparelho) predominam sobre todos os estmulos 
externos. Em segundo lugar,  adotada uma maneira especfica de lidar com quaisquer excitaes internas que produzam um aumento demasiado grande de desprazer; h 
uma tendncia a trat-las como se atuassem, no de dentro, mas de fora, de maneira que seja possvel colocar o escudo contra estmulos em operao, como meio de 
defesa contra elas.  essa a origem da projeo, destinada a desempenhar um papel to grande na causao dos processos patolgicos.
        Tenho a impresso de que essas ltimas consideraes nos levaram a uma melhor compreenso da dominncia do princpio de prazer, mas ainda no se lanou luz 
alguma sobre os casos que contradizem essa dominncia. Assim, avancemos um passo. Descrevemos como 'traumticas' quaisquer excitaes provindas de fora que sejam 
suficientemente poderosas para atravessar o escudo protetor. Parece-me que o conceito de trauma implica necessariamente uma conexo desse tipo com uma ruptura numa 
barreira sob outros aspectos eficazes contra os estmulos. Um acontecimento como um trauma externo est destinado a provocar um distrbio em grande escala no funcionamento 
da energia do organismo e a colocar em movimento todas as medidas defensivas possveis. Ao mesmo tempo, o princpio de prazer  momentaneamente posto fora de ao. 
No h mais possibilidade de impedir que o aparelho mental seja inundado com grandes quantidades de estmulos; em vez disso, outro problema surge, o problema de 
dominar as quantidades de estmulo que irromperam, e de vincul-las no sentido psquico, a fim de que delas se possa ento desvencilhar.
        O desprazer especfico do sofrimento fsico provavelmente resulta de que o escudo protetor tenha sido atravessado numa rea limitada. D-se ento um fluxo 
contnuo de excitaes desde a parte da periferia relacionada at o aparelho central da mente, tal como normalmente surgiria apenas desde o interior do aparelho. 
E como esperamos que a mente reaja a essa invaso? A energia catxica  convocada de todos os lados para fornecer catexias suficientemente altas de energia nos arredores 
da ruptura. Uma 'anticatexia' em grande escala  estabelecida, em cujo benefcio todos os outros sistemas psquicos so empobrecidos, de maneira que as funes psquicas 
remanescentes so grandemente paralisadas ou reduzidas. Devemos empenhar-nos em extrair uma lio de exemplos como esse e utiliz-los como base para nossas especulaes 
metapsicolgicas. Do presente caso, ento, inferimos que um sistema que  altamente catexizado  capaz de receber um influxo adicional de energia nova e de convert-la 
em catexia quiescente, isso , de vincul-la psiquicamente. Quanto mais alta a prpria catexia quiescente do sistema, maior parece ser a sua fora vinculadora; inversamente, 
entretanto, quanto mais baixa a catexia, menos capacidade ter para receber o influxo de energia e mais violentas sero as conseqncias de tal ruptura no escudo 
protetor contra estmulos. A essa concepo no se pode corretamente objetar que o aumento de catexia em redor da ruptura pode ser mais simplesmente explicado como 
sendo o resultado direto das massas afluentes de excitao. Se assim fosse, o aparelho mental meramente receberia um aumento em suas catexias de energia, e o carter 
paralisante do sofrimento e o empobrecimento de todos os outros sistemas permaneceriam inexplicados. Tampouco os fenmenos muito violentos de descarga a que o sofrimento 
d origem influenciam nossa explicao, porque ocorrem de maneira reflexa, ou seja, decorrem sem a interveno do aparelho mental. A indefinio de todas as nossas 
discusses sobre o que descrevemos como metapsicologia,  naturalmente devida ao fato de nada sabermos sobre a natureza do processo excitatrio que se efetua nos 
elementos dos sistemas psquicos, e ao fato de no nos sentirmos justificados em estruturar qualquer hiptese sobre o assunto. Por conseguinte, ficamos operando 
todo o tempo com um grande fator desconhecido, que somos obrigados a transportar para cada nova frmula. Poder-se-ia razoavelmente supor que esse processo excitatrio 
possa ser executado com energias que variam quantitativamente; pode tambm parecer provvel que ele tenha mais do que uma s qualidade (da natureza da amplitude, 
por exemplo). Como novo fator, tomamos em considerao a hiptese de Breuer de que as cargas de energia ocorrem sob duas formas [ver em [1] e [2] ], de maneira que 
temos de distinguir entre dois tipos de catexia dos sistemas psquicos ou seus elementos: uma catexia que flui livremente e pressiona no sentido da descarga e uma 
catexia quiescente. Podemos talvez suspeitar de que a vinculao da energia que flui para dentro do aparelho mental consiste em sua mudana de um estado de fluxo 
livre para um estado quiescente.
        Podemos, acredito, atrever-nos experimentalmente a considerar a neurose traumtica comum como conseqncia de uma grande ruptura que foi causada no escudo 
protetor contra os estmulos. Isso pareceria restabelecer a antiga e ingnua teoria do choque, em aparente contraste com a teoria posterior e psicologicamente mais 
ambiciosa que atribuiu importncia etiolgica no aos efeitos da violncia mecnica, mas ao susto e  ameaa  vida. Esses pontos de vista opostos no so, entretanto, 
irreconciliveis, nem tampouco a concepo psicanaltica das neuroses traumticas  idntica  teoria do choque em sua forma mais grosseira. Esta ltima considera 
a essncia do choque como sendo o dano direto  estrutura molecular ou mesmo  estrutura histolgica dos elementos do sistema nervoso, ao passo que aquilo que ns 
procuramos compreender so os efeitos produzidos sobre o rgo da mente pela ruptura do escudo contra estmulos e pelos problemas que se seguem em sua esteira. E 
atribumos ainda importncia ao elemento de susto. Ele  causado pela falta de qualquer preparao para a ansiedade, inclusive a falta de hipercatexia dos sistemas 
que seriam os primeiros a receber o estmulo. Devido  sua baixa catexia, esses sistemas no se encontram em boa posio para vincular as quantidades afluentes de 
excitao, e as conseqncias da ruptura no escudo defensivo decorrem mais facilmente ainda. Ver-se-, ento, que a preparao para a ansiedade e a hipercatexia 
dos sistemas receptivos constitui a ltima linha de defesa do escudo contra estmulos. No caso de bom nmero de traumas, a diferena entre sistemas que esto despreparados 
e sistemas que se acham bem preparados atravs da hipercatexia, pode constituir fator decisivo na determinao do resultado, embora, onde a intensidade do trauma 
exceda certo limite, esse fator indubitavelmente deixe de ter importncia. A realizao de desejo , como sabemos, ocasionada de maneira alucinatria pelos sonhos 
e sob a dominncia do princpio de prazer tornou-se funo deles. Mas no  a servio desse princpio que os sonhos dos pacientes que sofrem de neuroses traumticas 
nos conduzem de volta, com tal regularidade,  situao em que o trauma ocorreu. Podemos antes supor que aqui os sonhos esto ajudando a executar outra tarefa, a 
qual deve ser realizada antes que a dominncia do princpio de prazer possa mesmo comear. Esses sonhos esforam-se por dominar retrospectivamente o estmulo, desenvolvendo 
a ansiedade cuja omisso constituiu a causa da neurose traumtica. Concedem-nos assim a viso de uma funo do aparelho mental, viso que, embora no contradiga 
o princpio de prazer,  sem embargo independente dele, parecendo ser mais primitiva do que o intuito de obter prazer e evitar desprazer.
        Esse, ento, pareceria ser o lugar para, pela primeira vez, admitir uma exceo  proposio de que os sonhos so realizaes de desejos. Os sonhos de ansiedade, 
como repetida e pormenorizadamente demonstrei, no oferecem essa exceo, nem tampouco o fazem os 'sonhos de castigo', porque eles simplesmente substituem a realizao 
de desejo proibida pela punio adequada a ela, isto , realizam o desejo do sentimento de culpa que  a reao ao impulso repudiado. , porm, impossvel classificar 
como realizaes de desejos os sonhos que estivemos debatendo e que ocorrem nas neuroses traumticas, ou os sonhos tidos durante as psicanlises, os quais trazem 
 lembrana os traumas psquicos da infncia. Eles surgem antes em obedincia  compulso  repetio, embora seja verdade que, na anlise, essa compulso  apoiada 
pelo desejo (incentivado pela 'sugesto') de conjurar o que foi esquecido e reprimido. Dessa maneira, pareceria que a funo dos sonhos, que consiste em afastar 
quaisquer motivos que possam interromper o sono, atravs da realizao dos desejos dos impulsos perturbadores, no  a sua funo original. No lhes seria possvel 
desempenhar essa funo at que a totalidade da vida mental houvesse aceito a dominncia do princpio de prazer. Se existe um 'alm do princpio de prazer',  coerente 
conceber que houve tambm uma poca anterior em que o intuito dos sonhos foi a realizao de desejos. Isso no implicaria numa negao de sua funo posterior, mas, 
uma vez rompida a regra geral, surge uma outra questo. No podem os sonhos que, com vistas  sujeio psquica de impresses traumticas, obedecem  compulso  
repetio, no podem esses sonhos, perguntamos, ocorrer fora da anlise tambm? E a resposta s pode ser uma afirmativa decidida.
        Argumentei em outra parte que as 'neuroses de guerra' (at onde essa expresso implica algo mais do que uma referncia s circunstncias do desencadeamento 
da doena) podem muito bem ser neuroses traumticas que foram facilitadas por um conflito no ego. O fato a que me referi em [1], o de que um grande dano fsico causado 
simultaneamente pelo trauma diminui as possibilidades de que uma neurose se desenvolva, torna-se inteligvel se tivermos em mente dois fatos que foram enfatizados 
pela pesquisa psicanaltica: primeiramente, que a agitao mecnica deve ser reconhecida como uma das fontes de excitao sexual e, em segundo lugar, que molstias 
penosas e febris exercem um poderoso efeito, enquanto perduram, sobre a distribuio da libido. Assim, por um lado, a violncia mecnica do trauma liberaria uma 
quantidade de excitao sexual que, devido  falta de preparao para a ansiedade, teria um efeito traumtico, mas, por outro lado, o dano fsico simultneo, exigindo 
uma hipercatexia narcisista do rgo prejudicado, sujeitaria o excesso de excitao.  tambm bem conhecido, embora a teoria da libido ainda no tenha feito uso 
suficiente do fato, que distrbios graves na distribuio da libido, tal como a melancolia, so temporariamente interrompidos por uma molstia orgnica intercorrente, 
e, na verdade, que mesmo uma condio plenamente desenvolvida de demncia precoce  capaz de remisso temporria nessas mesmas circunstncias.

                                        V

        O fato de a camada cortical que recebe os estmulos achar-se sem qualquer escudo protetor contra as excitaes provindas do interior deve ter como resultado 
que essas ltimas transmisses de estmulos possuam uma preponderncia em importncia econmica e amide ocasionem distrbios econmicos comparveis s neuroses 
traumticas. As mais abundantes fontes dessa excitao interna so aquilo que  descrito como os 'instintos' do organismo, os representantes de todas as foras que 
se originam no interior do corpo e so transmitidas ao aparelho mental, desde logo o elemento mais importante e obscuro da pesquisa psicolgica.
        No se pensar que  precipitado demais supor que os impulsos que surgem dos instintos no pertencem ao tipo dos processos nervosos vinculados, mas sim ao 
de processos livremente mveis, que pressionam no sentido da descarga. A maior parte do que sabemos desses processos deriva de nosso estudo sobre a elaborao onrica. 
Nela descobrimos que os processos dos sistemas inconscientes eram fundamentalmente diferentes dos existentes nos sistemas pr-conscientes (ou conscientes). No inconsciente, 
as catexias podem com facilidade ser completamente transferidas, deslocadas e condensadas. Tal tratamento, no entanto, produziria apenas resultados no-vlidos se 
fosse aplicado ao material pr-consciente, e isso explica as familiares peculiaridades apresentadas pelos sonhos manifestos depois que os resduos pr-conscientes 
do dia anterior foram elaborados de acordo com as leis que operam no inconsciente. Descrevi o tipo de processo encontrado no inconsciente como sendo o processo psquico 
'primrio', em contraposio com o processo 'secundrio', que  o que impera em nossa vida de viglia normal. Visto que todos os impulsos instintuais tm os sistemas 
inconscientes como seu ponto de impacto, quase no constitui novidade dizer que eles obedecem ao processo primrio.  fcil ainda identificar o processo psquico 
primrio com a catexia livremente mvel de Breuer, e o processo secundrio, com alteraes em sua catexia vinculada ou tnica. Se assim , seria tarefa dos estratos 
mais elevados do aparelho mental sujeitar a excitao instintual que atinge o processo primrio. Um fracasso em efetuar essa sujeio provocaria um distrbio anlogo 
a uma neurose traumtica, e somente aps haver sido efetuada  que seria possvel  dominncia do princpio de prazer (e de sua modificao, o princpio de realidade) 
avanar sem obstculo. At ento, a outra tarefa do aparelho mental, a tarefa de dominar ou sujeitar as excitaes, teria precedncia, no, na verdade, em oposio 
ao princpio de prazer, mas independentemente dele e, at certo ponto, desprezando-o.
        As manifestaes de uma compulso  repetio (que descrevemos como ocorrendo nas primeiras atividades da vida mental infantil, bem como entre os eventos 
do tratamento psicanaltico) apresentam em alto grau um carter instintual e, quando atuam em oposio ao princpio de prazer, do a aparncia de alguma fora 'demonaca' 
em ao. No caso da brincadeira, parece que percebemos que as crianas repetem experincias desagradveis pela razo adicional de poderem dominar uma impresso poderosa 
muito mais completamente de modo ativo do que poderiam faz-lo simplesmente experimentando-a de modo passivo. Cada nova repetio parece fortalecer a supremacia 
que buscam. Tampouco podem as crianas ter as suas experincias agradveis repetidas com freqncia suficiente, e elas so inexorveis em sua insistncia de que 
a repetio seja idntica. Posteriormente, esse trao de carter desaparece. Se um chiste  escutado pela segunda vez, quase no produz efeito; uma produo teatral 
jamais cria, da segunda vez, uma impresso to grande como da primeira; na verdade,  quase impossvel persuadir um adulto que gostou muito de ler um livro, a rel-lo 
imediatamente. A novidade  sempre a condio do deleite, mas as crianas nunca se cansam de pedir a um adulto que repita um jogo que lhes ensinou ou que com elas 
jogou, at ele ficar exausto demais para prosseguir. E, se contarmos a uma criana uma linda histria, ela insistir em ouvi-la repetidas vezes, de preferncia a 
escutar uma nova, e sem remorsos estipular que a repetio seja idntica, corrigindo quaisquer alteraes de que o narrador tenha a culpa, embora, na realidade, 
estas possam ter sido efetuadas na esperana de obter uma nova aprovao. Nada disso contradiz o princpio de prazer: a repetio, a reexperincia de algo idntico, 
 claramente, em si mesma, uma fonte de prazer. No caso de uma pessoa em anlise, pelo contrrio, a compulso  repetio na transferncia dos acontecimentos da 
infncia evidentemente despreza o princpio de prazer sob todos os modos. O paciente comporta-se de modo puramente infantil e assim nos mostra que os traos de memria 
reprimidos de suas experincias primevas no se encontram presentes nele em estado de sujeio, mostrando-se elas, na verdade, em certo sentido, incapazes de obedecer 
ao processo secundrio. Alm disso,  ao fato de no se acharem sujeitas, que devem sua capacidade de formar, em conjuno com os resduos do dia anterior, uma fantasia 
de desejo que surge num sonho. A mesma compulso  repetio freqentemente se nos defronta como um obstculo ao tratamento, quando, ao fim da anlise, tentamos 
induzir o paciente a desligar-se completamente do mdico. Pode-se supor tambm que, quando pessoas desfamiliarizadas com a anlise sentem um medo obscuro, um temor 
de despertar algo que, segundo pensam,  melhor deixar adormecido, aquilo de que no fundo tm medo,  do surgimento dessa compulso com sua sugesto de posse por 
algum poder 'demonaco'.
        Mas como o predicado de ser 'instintual' se relaciona com a compulso  repetio? Nesse ponto, no podemos fugir  suspeita de que deparamos com a trilha 
de um atributo universal dos instintos e talvez da vida orgnica em geral que at o presente no foi claramente identificado ou, pelo menos, no explicitamente acentuado. 
Parece, ento que um instinto  um impulso, inerente  vida orgnica, a restaurar um estado anterior de coisas, impulso que a entidade viva foi obrigada a abandonar 
sob a presso de foras perturbadoras externas, ou seja,  uma espcie de elasticidade orgnica, ou, para diz-lo de outro modo, a expresso da inrcia inerente 
 vida orgnica.
        Essa viso dos instintos nos impressiona como estranha porque nos acostumamos a ver neles um fator impelidor no sentido da mudana e do desenvolvimento, 
ao passo que agora nos pedem para reconhecer neles o exato oposto, isto , uma expresso da natureza conservadora da substncia viva. Por outro lado, logo relembraremos 
exemplos tirados a vida animal que parecem confirmar a opinio de que os instintos so historicamente determinados. Certos peixes, por exemplo, empreendem laboriosas 
migraes na poca da desova, a fim de depositar sua prognie em guas especficas, muito afastadas de suas regies costumeiras. Na opinio de muitos bilogos, o 
que fazem  simplesmente procurar as localidades que suas espcies antigamente habitavam, mas que, no decorrer do tempo, trocaram por outras. Acredita-se que a mesma 
explicao se aplique aos vos migratrios das aves de arribao, mas somos rapidamente liberados da necessidade de buscar outros exemplos pela reflexo de que as 
mais impressivas provas de que h uma compulso orgnica a repetir esto nos fenmenos da hereditariedade e nos fatos da embriologia. Vemos como o germe de um animal 
vivo  obrigado, no curso de sua evoluo, a recapitular (mesmo se de maneira transitria e abreviada) as estruturas de todas as formas das quais se originou, em 
vez de avanar rapidamente, pela via mais curta, at sua forma final. Esse comportamento , apenas em grau muito tnue, atribuvel a causas mecnicas, e, por conseguinte, 
a explicao histrica no pode ser desprezada. Assim tambm o poder de regenerar um rgo perdido, fazendo crescer de novo um outro exatamente semelhante, estende-se 
bem acima do reino animal.
        Apresentar-se-nos- a plausvel objeo de que bem pode ser que, alm dos instintos de conservao que impelem  repetio, podero existir outros que impulsionam 
no sentido do progresso e da produo de nova formas. Esse argumento decerto no deve ser desprezado e ser levado em conta numa etapa posterior. No momento, porm, 
 tentador perseguir at sua concluso lgica a hiptese de que todos os instintos tendem  restaurao de um estado anterior de coisas. O resultado talvez d a 
impresso de misticismo ou de falsa profundidade, mas podemos sentir-nos inocentes de ter quaisquer desses propsitos em vista. Buscamos apenas os sbrios resultados 
da pesquisa ou da reflexo nela baseada, e no temos desejo algum de encontrar neles qualquer outra qualidade que no seja a certeza.
        Suponhamos, ento, que todos os instintos orgnicos so conservadores, que so adquiridos historicamente, e que tendem  restaurao de um estado anterior 
de coisas. Disso decorre que os fenmenos do desenvolvimento orgnico devem ser atribudos a influncias perturbadoras e desviadoras externas. A entidade viva elementar, 
desde seu incio, no teria desejo de mudar; se as condies permanecessem as mesmas, no faria mais do que constantemente repetir o mesmo curso de vida. Em ltima 
instncia, o que deixou sua marca sobre o desenvolvimento dos organismos deve ter sido a histria da Terra em que vivemos e de sua relao com o Sol. Toda modificao, 
assim imposta ao curso da vida do organismo,  aceita pelos instintos orgnicos conservadores e armazenada para ulterior repetio. Esses instintos, portanto, esto 
fadados a dar uma aparncia enganadora de serem foras tendentes  mudana e ao progresso, ao passo que, de fato, esto apenas buscando alcanar um antigo objetivo 
por caminhos tanto velhos quanto novos. Ademais,  possvel especificar esse objetivo final de todo o esforo orgnico. Estaria em contradio  natureza conservadora 
dos instintos que o objetivo da vida fosse um estado de coisas que jamais houvesse sido atingido. Pelo contrrio, ele deve ser um estado de coisas antigo, um estado 
inicial de que a entidade viva, numa ou noutra ocasio, se afastou e ao qual se esfora por retornar atravs dos tortuosos caminhos ao longo dos quais seu desenvolvimento 
conduz. Se tomarmos como verdade que no conhece exceo o fato de tudo o que vive morrer por razes internas, tornar-se mais uma vez inorgnico, seremos ento compelidos 
a dizer que 'o objetivo de toda vida  a morte', e, voltando o olhar para trs, que 'as coisas inanimadas existiram antes das vivas'.
        Os atributos da vida foram, em determinada ocasio, evocados na matria inanimada pela ao de uma fora de cuja natureza no podemos formar concepo. Pode 
ter sido um processo de tipo semelhante ao que posteriormente provocou o desenvolvimento da conscincia num estrato particular da matria viva. A tenso que ento 
surgiu no que at a fora uma substncia inanimada se esforou por neutralizar-se e, dessa maneira, surgiu o primeiro instinto: o instinto a retornar ao estado inanimado. 
Naquela poca, era ainda coisa fcil a uma substncia viva morrer; o curso de sua vida era provavelmente breve determinando-se sua direo pela estrutura qumica 
da jovem vida. Assim, por longo tempo talvez, a substncia viva esteve sendo constantemente criada de novo e morrendo facilmente, at que influncias externas decisivas 
se alteraram de maneira a obrigar a substncia ainda sobrevivente a divergir mais amplamente de seu original curso de vida e a efetuar dtours mais complicados antes 
de atingir seu objetivo de morte. Esses tortuosos caminhos para a morte, fielmente seguidos pelos instintos de conservao, nos apresentariam hoje, portanto, o quadro 
dos fenmenos da vida. Se sustentarmos com firmeza a natureza exclusivamente conservadora dos instintos, no poderemos chegar a nenhuma outra noo quanto  origem 
e ao objetivo da vida.
        As implicaes referentes aos grandes grupos de instintos que, segundo acreditamos, jazem por trs dos fenmenos da vida nos organismos, devem parecer no 
menos desnorteantes. A hiptese de instintos de autoconservao, tais como os atribumos a todos os seres vivos, alteia-se em acentuada oposio  idia de que a 
vida instintual, como um todo, sirva para ocasionar a morte. Vista sob essa luz, a importncia terica dos instintos de autoconservao, auto-afirmao e domnio 
diminui grandemente. Trata-se de instintos componentes cuja funo  garantir que o organismo seguir seu prprio caminho para a morte, e afastar todos os modos 
possveis de retornar  existncia inorgnica que no sejam os imanentes ao prprio organismo. No temos mais de levar em conta a enigmtica determinao do organismo 
(to difcil de encaixar em qualquer contexto) de manter sua prpria existncia frente a qualquer obstculo. O que nos resta  o fato de que o organismo deseja morrer 
apenas do seu prprio modo. Assim, originalmente, esses guardies da vida eram tambm os lacaios da morte. Da surgir a situao paradoxal de que o organismo vivo 
luta com toda a sua energia contra fatos (perigos, na verdade) que poderiam auxili-lo a atingir mais rapidamente seu objetivo de vida, por uma espcie de curto-circuito. 
Tal comportamento, entretanto,  precisamente o que caracteriza os esforos puramente instintuais, contrastados com os esforos inteligentes.
        Mas detenhamo-nos por um momento e reflitamos. No pode ser assim. Os instintos sexuais, a que a teoria das neuroses concede um lugar inteiramente especial, 
surgem sob aspecto muito diferente.
        A presso externa que provoca uma ampliao constantemente crescente do desenvolvimento no se imps a todos os organismos. Muitos conseguiram permanecer 
at os dias de hoje em seu nvel humilde. Na verdade, muitas - embora no todas - dessas criaturas, que devem assemelhar-se s fases primitivas dos animais e vegetais 
superiores, ainda hoje acham-se vivas. Da mesma maneira, a totalidade do caminho do desenvolvimento para a morte natural no  percorrido por todas as entidades 
elementares que compem o complicado corpo de um dos organismos mais elevados. Algumas delas, as clulas germinais, provavelmente retm a estrutura original da matria 
viva e, aps certo tempo, com todo o seu complemento de disposies instintuais herdadas e recentemente adquiridas, separam-se do organismo como um todo. Essas duas 
caractersticas podem ser exatamente aquilo que as capacita a ter uma existncia independente. Sob condies favorveis, comeam a desenvolver-se, isto , a repetir 
o desempenho a que devem sua existncia, e, ao final, mais uma vez uma parte de sua substncia leva sua evoluo a um trmino, ao passo que outra parte reverte novamente, 
como um germe residual novo, ao incio do processo de desenvolvimento. Essas clulas germinais, portanto, trabalham contra a morte da substncia viva e tm xito 
em conseguir para ela o que s podemos encarar como uma imortalidade potencial, ainda que isso possa significar nada mais do que um alongamento da estrada para a 
morte. Temos de considerar como significante, no mais elevado grau, o fato de essa funo da clula germinal ser reforada, ou s tornada possvel, se ela fundir-se 
com outra clula similar a si mesma e, contudo, diferente dela.
        Os instintos que cuidam dos destinos desses organismos elementares que sobrevivem  totalidade do indivduo, que lhes fornecem um abrigo seguro enquanto 
se acham indefesos contra os estmulos do mundo externo, que ocasionam seu encontro com outras clulas germinais etc., constituem o grupo dos instintos sexuais. 
So conservadores no mesmo sentido dos outros instintos porque trazem de volta estados anteriores de substncia viva; contudo, so conservadores num grau mais alto, 
por serem peculiarmente resistentes s influncias externas; e so conservadores ainda em outro sentido, por preservarem a prpria vida por um longo perodo. So 
os verdadeiros instintos de vida. Operam contra o propsito dos outros instintos, que conduzem, em razo de sua funo,  morte, e este fato indica que existe oposio 
entre eles e os outros, oposio que foi h muito tempo reconhecida pela teoria das neuroses.  como se a vida do organismo se movimentasse num ritmo vacilante. 
Certo grupo de instintos se precipita como que para atingir o objetivo final da vida to rapidamente quanto possvel, mas, quando determinada etapa no avano foi 
alcanada, o outro grupo atira-se para trs at um certo ponto, a fim de efetuar nova sada e prolongar assim a jornada. E ainda que seja certo que a sexualidade 
e a distino entre os sexos no existiam quando a vida comeou, permanece a possibilidade de que os instintos que posteriormente vieram a ser descritos como sexuais, 
possam ter estado em funcionamento desde o incio, e talvez no seja verdade que foi apenas em poca posterior que eles comearam seu trabalho de oposio s atividades 
dos 'instintos do ego'.
        Retornemos ns mesmos por um momento e consideremos se existe qualquer base para essas especulaes. Ser realmente o caso que,  parte os instintos sexuais, 
no existem instintos que no procurem restaurar um estado anterior de coisas? Que no haja nenhum que vise a um estado de coisas que nunca foi alcanado? No conheo 
exemplo certo do mundo orgnico que contradiga a caracterizao que assim propus. Indiscutivelmente no existe um instinto universal para desenvolvimento superior 
observvel no mundo animal ou vegetal, ainda que seja inegvel que o desenvolvimento realmente ocorre nessa direo. Mas, por um lado, trata-se amide de uma questo 
de opinio o fato de declararmos que determinado estgio de desenvolvimento  superior a outro, e, por outro lado, a biologia nos ensina que o desenvolvimento superior 
sob certo aspecto  com bastante freqncia compensado ou sobrepujado pela involuo sob outro aspecto. Alm disso, existem muitas formas animais de cujos primeiros 
estgios podemos inferir que seu desenvolvimento, pelo contrrio, assumiu carter retrgrado. Tanto o desenvolvimento superior quanto a involuo bem podem ser as 
conseqncias da adaptao  presso de foras externas e, em ambos os casos, o papel desempenhado pelos instintos pode-se limitar  reteno (na forma de um fonte 
interna de prazer) de uma modificao obrigatria.
        Pode tambm ser difcil, para muitos de ns, abandonar a crena de que existe em ao nos seres humanos um instinto para a perfeio, instinto que os trouxe 
a seu atual alto nvel de realizao intelectual e sublimao tica, e do qual se pode esperar que zele pelo seu desenvolvimento em super-homens. No tenho f, contudo, 
na existncia de tal instinto interno e no posso perceber por que essa iluso benvola deva ser conservada. A evoluo atual dos seres humanos no exige, segundo 
me parece, uma explicao diferente da dos animais. Aquilo que, numa minoria de indivduos humanos, parece ser um impulso incansvel no sentido de maior perfeio, 
pode ser facilmente compreendido como resultado da represso instintual em que se baseia tudo o que  mais precioso na civilizao humana. O instinto reprimido nunca 
deixa de esforar-se em busca da satisfao completa, que consistiria na repetio de uma experincia primria de satisfao. Formaes reativas e substitutivas, 
bem como sublimaes, no bastaro para remover a tenso persistente do instinto reprimido, sendo que a diferena de quantidade entre o prazer da satisfao que 
 exigida e a que  realmente conseguida,  que fornece o fator impulsionador que no permite qualquer parada em nenhuma das posies alcanadas, mas, nas palavras 
do poeta, 'ungebndigt immer vorwrts dringt'. O caminho para trs que conduz  satisfao completa acha-se, via de regra, obstrudo pelas resistncias que mantm 
as represses, de maneira que no h alternativa seno avanar na direo em que o crescimento ainda se acha livre, embora sem perspectiva de levar o processo a 
uma concluso ou de ser capaz de atingir o objetivo. Os processos envolvidos na formao de uma fobia neurtica, que nada mais  do que uma tentativa de fuga da 
satisfao de um instinto, apresentam-nos um modelo do modo de origem desse suposto 'instinto para a perfeio', o qual no tem possibilidades de ser atribudo a 
todos os seres humanos. Na verdade, as condies dinmicas para o seu desenvolvimento esto universalmente presentes, mas apenas em raros casos a situao econmica 
parece favorecer a produo do fenmeno.
        Acrescentarei apenas uma palavra para sugerir que os esforos de Eros para combinar substncias orgnicas em unidades cada vez maiores provavelmente fornecem 
um sucedneo para esse 'instinto para a perfeio', cuja existncia no podemos admitir. Os fenmenos que lhe so atribudos parecem passveis de explicao por 
esses esforos de Eros, tomados em conjunto com os resultados da represso.


                                        VI

        A essncia de nossa investigao at agora foi o traado de uma distino ntida entre os 'instintos do ego' e os instintos sexuais, e a viso de que os 
primeiros exercem presso no sentido da morte e os ltimos no sentido de um prolongamento da vida. Contudo, essa concluso est fadada a ser insatisfatria sob muitos 
aspectos, mesmo para ns. Ademais, na realidade,  apenas quanto ao primeiro grupo de instintos que podemos afirmar que possuem carter conservador, ou melhor, retrgrado, 
correspondente a uma compulso  repetio, porque, em nossa hiptese, os instintos do ego se originam da animao da matria inanimada e procuram restaurar o estado 
inanimado, ao passo que, quanto aos instintos sexuais, embora seja verdade que reproduzem estados primitivos do organismo, aquilo a que claramente visam, por todos 
os meios possveis,   coalescncia de duas clulas germinais que so diferenciadas de maneira particular. Se essa unio no  efetuada, a clula germinal morre 
juntamente com todos os outros elementos do organismo multicelular.  apenas com essa condio que a funo sexual pode prolongar a vida da clula e emprestar-lhe 
uma aparncia de imortalidade. Mas, qual  o acontecimento importante no desenvolvimento da substncia viva, que est sendo repetido na reproduo sexual ou em sua 
antecessora, a conjugao de dois protozorios? No podemos dizer, e, conseqentemente, deveramos sentir-nos aliviados se toda a estrutura de nossa argumentao 
se mostrou equivocada. A oposio entre os instintos do ego ou instintos de morte e os instintos sexuais ou instintos de vida deixaria ento de sustentar-se e a 
compulso  repetio no mais possuiria a importncia que lhe atribumos.
        Voltemo-nos, ento, para uma das suposies j feitas por ns, na expectativa de podermos dar-lhe uma negao categrica. Tiramos concluses de longo alcance 
da hiptese de que toda substncia viva est fadada a morrer por causas internas. Fizemos essa suposio assim descuidadamente porque ela no nos parece ser uma 
suposio. Estamos acostumados a pensar que esse  o fato, e somos fortalecidos em nossas reflexes pelos escritos de nossos poetas. Talvez tenhamos adotado a crena 
porque existe nela um certo consolo. Se temos de morrer, e primeiro perder para a morte aqueles que nos so mais caros,  mais fcil submeter-se a uma lei impiedosa 
da natureza,  sublime '??????' [Necessidade], do que a um acaso de que talvez pudssemos ter fugido. Pode ser, contudo, que essa crena na necessidade interna de 
morrer seja apenas outra daquelas iluses que criamos 'um die Schwere des Daseins zu ertragen'. Decerto no se trata de uma licena primeva. A noo de 'morte natural' 
 inteiramente estranha s raas primitivas; atribuem toda morte que ocorre entre elas  influncia de um inimigo ou de um esprito mau. Devemos, portanto, voltar-nos 
para a biologia, a fim de testar a validade da crena.
        Se assim fizermos, ficaremos estupefatos em descobrir quo pouco acordo existe entre os bilogos sobre a questo da morte natural e, na realidade, que todo 
o conceito de morte se dissolve em suas mos. O fato de haver uma durao mdia e fixa de vida, pelo menos entre os animais superiores, argi naturalmente em favor 
da existncia de algo como a morte por causas naturais. Mas essa impresso  contraditada quando consideramos que certos grandes animais e determinados crescimentos 
arbreos gigantescos atingem idade muito avanada, idade que atualmente no pode ser computada. De acordo com a grande concepo de Wilhelm Fliess [1906], todos 
os fenmenos vitais apresentados pelos organismos - e tambm, indubitavelmente, sua morte - esto vinculados  concluso de perodos fixos, os quais expressam a 
dependncia de dois tipos de substncia viva (um masculino e outro feminino) quanto ao ano solar. Quando vemos, contudo, quo fcil e extensamente a influncia de 
foras externas pode modificar a data do aparecimento dos fenmenos vitais (especialmente no mundo vegetal), precipitando-os ou retendo-os, temos de levantar dvidas 
quanto  rigidez das frmulas de Fliess ou, pelo menos, quanto s leis por ele estabelecidas constiturem os nicos fatores determinantes.
        De nosso ponto de vista, o maior interesse prende-se ao tratamento dado ao tema da durao da vida e da morte dos organismos nos escritos de Weismann (1882, 
1884, 1892 etc.). Foi ele que introduziu a diviso da substncia viva em partes mortais e imortais. A parte mortal  o corpo no sentido mais estrito, o 'soma', que, 
somente ele, se acha sujeito  morte natural. As clulas germinais, por outro lado, so potencialmente imortais, na medida em que so capazes, em determinadas condies, 
de desenvolver-se no indivduo novo ou, em outras palavras, de cercar-se de um novo soma (Weismann, 1884).
        O que nos impressiona nisso  a inesperada analogia com nosso prprio ponto de vista, ao qual chegamos ao longo de caminho to diferente. Weismann, encarando 
morfologicamente a substncia viva, enxerga nela uma parte que est destinada a morrer - o soma, o corpo separado da substncia relacionada com o sexo e a herana 
-, e uma parte imortal - o plasma germinal, que se relaciona com a sobrevivncia da espcie, com a reproduo. Ns, por outro lado, lidando no com a substncia 
viva, mas com as foras que nela operam, fomos levados a distinguir duas espcies de instintos: aqueles que procuram conduzir o que  vivo  morte, e os outros, 
os instintos sexuais, que esto perpetuamente tentando e conseguindo uma renovao da vida, o que soa como um corolrio dinmico  teoria morfolgica de Weismann.
        Contudo, a aparncia de uma correspondncia significante se dissipa to logo descobrimos as concepes de Weismann sobre o problema da morte, porque ele 
s relaciona a distino entre o soma mortal e o plasma germinal imortal aos organismos multicelulares; nos organismos unicelulares, o indivduo e a clula reprodutora 
so ainda um s e o mesmo (Weismann, 1882, 38). Desse modo, considera que os organismos unicelulares so potencialmente imortais e que a morte s faz seu aparecimento 
com os metazorios multicelulares.  verdade que essa morte dos organismos mais elevados  natural, uma morte provocada por causas internas, mas no se funda em 
nenhuma caracterstica primitiva da substncia viva (Weismann, 1884, 84) e no pode ser encarada como uma necessidade absoluta, com base na prpria natureza da vida 
(Weismann, 1882, 33). A morte  antes uma questo de convenincia, uma manifestao de adaptao s condies externas da vida, porque, uma vez as clulas do corpo 
tenham sido divididas em soma e plasma germinal, uma durao ilimitada da vida individual se tornaria um luxo inteiramente sem sentido. Feita essa diferenciao 
nos organismos multicelulares, a morte torna-se possvel e conveniente. Desde ento, o soma dos organismos superiores morreu a perodos fixos por razes internas, 
ao passo que os protistas permaneceram imortais. No  o caso, por outro lado, de a reproduo ter sido introduzida ao mesmo tempo que a morte. Pelo contrrio, trata-se 
de uma caracterstica primitiva da matria viva, como o crescimento (do qual se originou), e a vida foi contnua desde seu incio sobre a Terra (Weismann, 1884, 
84 e seg.).
        Ver-se- em seguida que concordar dessa maneira que os organismos superiores tenham uma morte natural  de muito pouco auxlio para ns, porque, se a morte 
 uma aquisio tardia dos organismos, ento no h o que falar quanto a ter havido instintos de morte desde o comeo da vida sobre a Terra. Os organismos multicelulares 
podem morrer por razes internas, devido a uma diferenciao deficiente ou a imperfeies de seu metabolismo, mas a questo no tem interesse do ponto de vista de 
nosso problema. Uma explicao da origem da morte como esta encontra-se, ademais, em muito menor varincia com nossos modos de pensamentos habituais do que a estranha 
pressuposio dos 'instintos de morte'.
        O debate que se seguiu s sugestes de Weismann no conduziu, at onde posso perceber, a nenhum resultado conclusivo em qualquer direo. Alguns escritores 
retornaram s opinies de Goethe (1883), que considerava a morte o resultado direto da reproduo. Hartmann (1906, 29) no considera a aparncia de um 'cadver' 
- uma parte morta da substncia viva - como critrio de morte, mas define esta como sendo 'o trmino do desenvolvimento individual'. Nesse sentido, tambm os protozorios 
so mortais; em seu caso, a morte tambm coincide com a reproduo, mas , at certo ponto, obscurecida por ela, desde que toda a substncia do animal pai pode ser 
diretamente transmitida  jovem prognie.
        Pouco depois, a pesquisa voltou-se para a verificao experimental, em organismos unicelulares, da alegada imortalidade da substncia viva. Um bilogo americano, 
Woodruff, fazendo experincias com um infusrio ciliado, o 'animlculo deslizador' (slipper-animalcule), que se reproduz por fisso em dois outros indivduos, persistiu 
at a 3.029 gerao (ocasio em que interrompeu a experincia), a cada vez isolando um dos produtos parciais e colocando-o em gua nova. Esse remoto descendente 
do primeiro animlculo era to vivaz quanto seu antepassado e no apresentava sinais de envelhecimento ou degenerao. Assim, at onde cifras desse tipo podem provar 
algo, a imortalidade dos protozorios pareceu ser experimentalmente demonstrvel.
        Outros experimentadores chegaram a resultados diferentes. Maupas, Calkins e outros, em contraste com Woodruff, descobriram que, aps certo nmero de divises, 
aqueles infusrios se tornavam mais dbeis, diminuam de tamanho, sofriam a perda de alguma parte de sua organizao e acabavam por morrer, a menos que certas medidas 
recuperadoras lhes fossem aplicadas. Se assim for, os protozorios pareceriam morrer aps uma fase de senescncia, exatamente como aos animais superiores, contraditando 
assim completamente a assertiva weismanniana de que a morte  uma aquisio tardia dos organismos vivos.
        Do conjunto dessas experincias surgem dois fatos que parecem fornecer-nos uma base firme.
        Primeiro: se dois dos animlculos, no momento antes de apresentarem sinais de senescncia, puderem coalescer um com o outro, isto , 'conjugarem-se' (pouco 
aps o que, mais uma vez se separam), salvam-se de ficarem velhos e tornam-se 'rejuvenescidos'. A conjugao  indubitavelmente a antecessora da reproduo sexual 
nas criaturas mais elevadas; ainda se acha, por enquanto, desvinculada da propagao e limita-se  mistura das substncias dos dois indivduos. (A 'anfimixia' de 
Weismann.) Os efeitos recuperadores da conjugao podem, contudo, ser substitudos por certos agentes estimulantes, atravs de alteraes na composio do fluido 
que proporciona sua nutrio, pela elevao de sua temperatura ou por sua agitao. Somos lembrados do clebre experimento efetuado por J. Loeb, no qual, atravs 
de certos estmulos qumicos, induziu a segmentao de ovos de ourio-do-mar, processo que normalmente s pode ocorrer aps a fertilizao.
        Segundo: no obstante,  provvel que os infusrios morram de morte natural em resultado de seus prprios processos vitais, porque a contradio entre as 
descobertas de Woodruff e dos outros deve-se ao fato de haver ele provido cada gerao de fluido nutriente novo. Se deixava de faz-lo, observava os mesmos sinais 
de senescncia que os outros experimentadores. Concluiu que os animlculos eram prejudicados pelos produtos do metabolismo que expeliam para o fluido circundante. 
Pde ento provar conclusivamente que eram apenas os produtos de seu prprio metabolismo que tinham resultados fatais para esse tipo especfico de animlculo, porque 
os mesmos animais que inevitavelmente pereciam se eram apinhados em seu prprio fluido nutriente, floresciam numa soluo supersaturada com os produtos excretrios 
de uma espcie distantemente aparentada. Um infusrio, portanto, se  deixado a si mesmo, morre de morte natural devido  evacuao incompleta dos produtos de seu 
prprio metabolismo. (Pode ser que a mesma incapacidade seja a causa suprema tambm da morte de todos os animais superiores.)
        Nesse ponto, bem pode surgir em nosso esprito a dvida quanto a saber se servimos a algum objetivo ao tentar solucionar o problema da morte natural a partir 
do estudo dos protozorios. A organizao primitiva dessas criaturas pode ocultar-nos condies importantes que, embora de fato presentes nelas tambm, s se tornam 
visveis nos animais superiores, quando podem encontrar expresso morfolgica. E, se abandonarmos o ponto de vista morfolgico e adotarmos o dinmico, torna-se-nos 
completamente indiferente poder demonstrar se a morte natural ocorre ou no nos protozorios. A substncia que posteriormente  reconhecida como imortal, neles no 
se separou ainda da mortal. As foras instintuais que procuram conduzir a vida para a morte podem tambm achar-se em funcionamento nos protozorios desde o incio; 
no entanto, seus esforos podem ser to completamente ocultos pelas foras preservadoras da vida, que talvez seja muito difcil encontrar qualquer prova direta de 
sua presena. Vimos tambm, alm disso, que as observaes efetuadas pelos bilogos nos permitem presumir que processos internos desse tipo, conducentes  morte, 
ocorrem tambm nos protistas. Mas, mesmo que estes ltimos se mostrassem imortais no sentido weismanniano, a assertiva de Weismann de que a morte  uma aquisio 
tardia, se aplicaria apenas a seus fenmenos manifestos e no tornaria impossvel a pressuposio de processos a ela tendentes.
        Assim, no se realizou nossa esperana de que a biologia contradissesse redondamente o reconhecimento dos instintos de morte. Estamos livres para continuar 
a nos preocupar com sua possibilidade, se tivermos outras razes para assim proceder. A notvel semelhana entre a distino weismanniana de soma e plasma germinal 
e nossa separao dos instintos de morte dos instintos de vida persiste e mantm a sua significncia.
        Podemos deter-nos por um momento sobre essa viso preeminentemente dualstica da vida instintual. De acordo com a teoria de E. Hering, dois tipos de processos 
esto constantemente em ao na substncia viva, operando em direes contrrias, uma construtiva ou assimilatria, e a outra destrutiva ou dissimilatria. Podemos 
atrever-nos a identificar nessas duas direes tomadas pelos processos vitais a atividade de nossos dois impulsos instintuais, os instintos de vida e os instintos 
de morte? Existe algo mais, de qualquer modo, a que no podemos permanecer cegos. Inadvertidamente voltamos nosso curso para a baa da filosofia de Schopenhauer. 
Para ele, a morte  o 'verdadeiro resultado e, at esse ponto, o propsito da vida', ao passo que o instinto sexual  a corporificao da vontade de viver.
        Faamos uma ousada tentativa de dar outro passo  frente. Considera-se geralmente que a unio de uma srie de clulas numa associao vital - o carter multicelular 
dos organismos - se tornou um meio de prolongar a sua vida. Uma clula ajuda a conservar a vida de outra, e a comunidade de clulas pode sobreviver mesmo que as 
clulas individuais tenham de morrer. J aprendemos que tambm a conjugao, a coalescncia temporria de dois organismos unicelulares, possui feito preservador 
de vida e rejuvenescedor sobre ambos. Por conseguinte, podemos tentar aplicar a teoria da libido a que se chegou na psicanlise  relao mtua das clulas. Podemos 
supor que os instintos de vida ou instintos sexuais ativos em cada clula tomam as outras clulas como seu objeto, que parcialmente neutralizam os instintos de morte 
(isto , os processos estabelecidos por estes) nessas clulas, preservando assim sua vida, ao passo que as outras clulas fazem o mesmo para elas e outras ainda 
se sacrificam no desempenho dessa funo libidinal. As prprias clulas germinais se comportariam de maneira completamente 'narcisista', para empregar a expresso 
que estamos acostumados a utilizar na teoria das neuroses para descrever um indivduo total que retm sua libido em seu ego e nada desembolsa dela em catexias de 
objeto. As clulas germinais exigem sua libido, a atividade de seus instintos de vida, para si mesmas, como uma reserva para sua posterior e momentosa atividade 
construtiva. (As clulas dos neoplasmas malignos que destroem o organismo, talvez tambm devessem ser descritas como narcisistas nesse mesmo sentido: a patologia 
est preparada para considerar seus germes como inatos e atribuir-lhes atitudes embrinicas.) Dessa maneira, a libido de nossos instintos sexuais coincidiria com 
o Eros dos poetas e dos filsofos, o qual mantm unidas todas as coisas vivas.
        Aqui se encontra, portanto, uma oportunidade para considerar o lento desenvolvimento de nossa teoria da libido. Em primeira instncia, a anlise das neuroses 
de transferncia forou  nossa observao a oposio entre os 'instintos sexuais', que se dirigem para um objeto, e certos outros instintos, com os quais nos achamos 
insuficientemente familiarizados e que descrevemos provisoriamente como 'instintos do ego'. Um lugar de proa entre estes foi necessariamente concedido aos instintos 
que servem  autoconservao do indivduo. Foi impossvel dizer que outras distines deveriam ser traadas entre eles. Nenhum conhecimento seria mais valioso como 
base para uma cincia verdadeiramente psicolgica do que uma compreenso aproximada das caractersticas comuns e dos possveis aspectos distintivos dos instintos, 
mas em nenhuma regio da psicologia tateamos mais no escuro. Cada um sups a existncia de tantos instintos ou 'instintos bsicos' quantos quis e fez malabarismos 
com eles, tal como os antigos filsofos naturalistas gregos faziam com seus quatro elementos: a terra, o ar, o fogo e a gua. A psicanlise, que no podia deixar 
de fazer alguma suposio sobre os instintos, ateve-se primeiramente  popular diviso de instintos tipificada na expresso 'fome e amor'. Pelo menos, nada havia 
de arbitrrio nisso e, com sua ajuda, a anlise das psiconeuroses foi levada  frente at uma boa distncia. O conceito de 'sexualidade' e, ao mesmo tempo, de instinto 
sexual, teve,  verdade, de ser ampliado de modo a abranger muitas coisas que no podiam ser classificadas sob a funo reprodutora, e isso provocou no pouco alarido 
num mundo austero, respeitvel, ou simplesmente hipcrita.
        O passo seguinte foi dado quando a psicanlise sondou de mais perto o caminho no sentido do ego psicolgico, que primeiramente fora conhecido apenas como 
rgo repressivo e censor, capaz de erguer estruturas protetoras e formaes reativas. H muito tempo, espritos crticos e de viso ampla j haviam,  verdade, 
feito objeo ao fato de o conceito de libido restringir-se  energia dos instintos sexuais dirigidos no sentido de um objeto, mas fracassaram em explicar como haviam 
chegado a seu melhor conhecimento, ou em derivar dele algo de que a anlise pudesse fazer uso. Avanando mais cautelosamente, a psicanlise observou a regularidade 
com que a libido  retirada do objeto e dirigida para o ego (o processo de introverso), e, pelo estudo do desenvolvimento libidinal das crianas em suas primeiras 
fases, chegou  concluso de que o ego  o verdadeiro e original reservatrio da libido, sendo apenas desse reservatrio que ela se estende para os objetos. O ego 
encontrou ento sua posio entre os objetos sexuais e imediatamente recebeu o lugar de proa entre eles. A libido que assim se alojara no ego foi descrita como 'narcisista'. 
Essa libido narcisista era tambm, naturalmente, uma manifestao da fora do instinto sexual, no sentido analtico dessas palavras, e necessariamente tinha de ser 
identificada com os instintos de autoconservao, cuja existncia fora reconhecida desde o incio. Assim, a oposio original entre os instintos do ego e os instintos 
sexuais mostrou-se inapropriada. Viu-se que uma parte dos instintos do ego era libidinal e que instintos sexuais (provavelmente ao lado de outros) operavam no ego. 
No obstante, temos justificao para dizer que a antiga frmula que estabeleceu que as psiconeuroses se baseiam num conflito entre os instintos do ego e os instintos 
sexuais no contm nada que precisemos rejeitar atualmente. Acontece simplesmente que a distino entre os dois tipos de instintos, que era originalmente considerada, 
de certa maneira, como qualitativa deve ser hoje diferentemente caracterizada, ou seja, como topogrfica. E, em particular,  ainda verdade que as neuroses de transferncia, 
o tema essencial do estudo psicanaltico, so o resultado de um conflito entre o ego e a catexia libidinal dos objetos.
        Mas ainda nos  mais necessrio enfatizar o carter libidinal dos instintos de autoconservao, agora que nos estamos aventurando ao novo passo de reconhecer 
o instinto sexual como Eros, o conservador de todas as coisas, e de derivar a libido narcisista do ego dos estoques de libido por meio da qual as clulas do soma 
esto ligadas umas s outras. Mas agora, subitamente, defrontamo-nos com outra questo. Se os instintos de autoconservao so tambm de natureza libidinal, talvez 
no existam quaisquer outros instintos, a no ser os libidinais? De qualquer modo, no existem outros visveis. Nesse caso, porm, seremos, no fim das contas, levados 
a concordar com os crticos que desconfiaram desde o incio que a psicanlise explica tudo pela sexualidade, ou com inovadores como Jung, que, fazendo um juzo apressado, 
utilizaram a palavra 'libido' para significar fora instintual em geral. No deve isso ser assim?
        De modo algum era nossa inteno produzir tal resultado. Nosso debate teve como ponto de partida uma distino ntida entre os instintos do ego, que equiparamos 
aos instintos de morte, e os instintos sexuais, que equiparamos aos instintos de vida. (Achvamo-nos preparados, em determinada etapa [ver em [1]], para incluir 
os chamados instintos de autoconservao do ego entre os instintos de morte, mas subseqentemente [ver em [1]] nos corrigimos sobre esse ponto e o retiramos.) Nossas 
concepes, desde o incio, foram dualistas e so hoje ainda mais definidamente dualistas do que antes, agora que descrevemos a oposio como se dando, no entre 
instintos do ego e instintos sexuais, mas entre instintos de vida e instintos de morte. A teoria da libido de Jung , pelo contrrio, monista; o fato de haver ele 
chamado sua nica fora instintual de 'libido', destina-se a causar confuso, mas no precisa afetar-nos sob outros aspectos. Suspeitamos que instintos outros que 
no os de autoconservao funcionam no ego, e deveria ser-nos possvel apont-los. Infelizmente, porm, a anlise do ego fez to poucos avanos, que nos  muito 
difcil proceder assim.  possvel, na verdade, que os instintos libidinais do ego possam estar vinculados de maneira peculiar a esses outros instintos do ego que 
ainda nos so estranhos. Mesmo antes de dispormos de qualquer compreenso clara do narcisismo, a psicanlise j desconfiava que os 'instintos do ego' tinham componentes 
libidinais a eles ligados. Mas trata-se de possibilidades muito incertas, a que nossos oponentes prestaro muito pouca ateno. Permanece a dificuldade de que a 
psicanlise at aqui no nos permitiu indicar quaisquer instintos [do ego] que no sejam os libidinais. Isso, contudo, no constitui razo para concordarmos com 
a concluso de que nenhum outro realmente existe.
        Na obscuridade que reina atualmente na teoria dos instintos, no seria avisado rejeitar qualquer idia que prometa lanar luz sobre ela. Partimos da grande 
oposio entre os instintos de vida e de morte. Ora, o prprio amor objetal nos apresenta um segundo exemplo de polaridade semelhante: a existente entre o amor (ou 
afeio) e o dio (ou agressividade). Se pudssemos conseguir relacionar mutuamente essas duas polaridades e derivar uma da outra! Desde o incio identificamos a 
presena de um componente sdico no instinto sexual. Como sabemos, ele pode tornar-se independente e, sob a forma de perverso dominar toda a atividade sexual de 
um indivduo. Surge tambm como um instinto componente predominante numa das 'organizaes pr-genitais', como as denominei. Mas, como pode o instinto sdico, cujo 
intuito  prejudicar o objeto, derivar de Eros, o conservador da vida? No  plausvel imaginar que esse sadismo seja realmente um instinto de morte que, sob a influncia 
da libido narcisista, foi expulso do ego e, conseqentemente, s surgiu em relao ao objeto? Ele entra em ao a servio da funo sexual. Durante a fase oral da 
organizao da libido, o ato de obteno de domnio ertico sobre um objeto coincide com a destruio desse objeto; posteriormente, o instinto sdico se isola, e, 
finalmente, na fase de primazia genital, assume, para os fins da reproduo, a funo de dominar o objeto sexual at o ponto necessrio  efetivao do ato sexual. 
Poder-se-ia verdadeiramente dizer que o sadismo que for expulso do ego apontou o caminho para os componentes libidinais do instinto sexual e que estes o seguiram 
para o objeto. Onde quer que o sadismo original no tenha sofrido mitigao ou mistura, encontramos a ambivalncia familiar de amor e dio na vida ertica.
        Se uma pressuposio assim  permissvel, atendemos ento a exigncia de que produzssemos um exemplo de instinto de morte, embora se trate, na verdade, 
de um instinto deslocado. Mas essa maneira de considerar as coisas est muito longe de ser fcil de captar e cria uma impresso positivamente mstica. Sua aparncia 
 suspeita, como se estivssemos tentando achar um modo de sair a qualquer preo de uma situao embaraosa. Podemos recordar, no entanto, que no existe nada de 
novo numa suposio desse tipo. J apresentamos outra, em ocasio anterior, antes que se falasse em qualquer situao embaraosa. As observaes clnicas nos conduziram, 
naquela ocasio,  concepo de que o masoquismo, o instinto componente complementar ao sadismo, deve ser encarado como um sadismo que se voltou para o prprio ego 
do sujeito. Mas, em princpio, no existe diferena entre um instinto voltar-se do objeto para o ego ou do ego para um objeto, que  o novo ponto que se acha em 
discusso atualmente. O masoquismo, a volta do instinto para o prprio ego do sujeito, constituiria, nesse caso, um retorno a uma fase anterior da histria do instinto, 
uma regresso. A descrio anteriormente fornecida do masoquismo exige uma emenda por ter sido ampla demais sob um aspecto: pode haver um masoquismo primrio, possibilidade 
que naquela poca contestei.
        Retornemos, porm, aos instintos sexuais autoconservadores. As experincias com os protistas j demonstraram que a conjugao, isto , a coalescncia de 
dois indivduos que se separam logo aps sem que qualquer diviso celular subseqente ocorra, tem efeito fortalecedor e rejuvenescedor sobre ambos. Nas geraes 
posteriores, no mostram sinais de degenerao e parecem aptos a opor resistncia mais prolongada aos efeitos prejudiciais de seu prprio metabolismo. Essa observao 
isolada pode, penso eu, ser tomada como tpica do efeito produzido tambm pela unio sexual. Mas, como  que a coalescncia de duas clulas apenas ligeiramente diferentes 
pode ocasionar essa renovao da vida? O experimento que substitui a conjugao dos protozorios pela aplicao de estmulos qumicos ou mesmo mecnicos (cf. Lipschtz, 
1914), permite-nos dar o que , indubitavelmente, uma resposta conclusiva a essa pergunta. O resultado  ocasionado pelo influxo de novas quantidades de estmulo. 
Isso condiz bem com a hiptese de que os processos vitais do indivduo levam, por razes internas, a uma abolio das tenses qumicas, isto ,  morte, ao passo 
que a unio com a substncia viva de um indivduo diferente aumenta essas tenses, introduzindo o que pode ser descrito como novas 'diferenas vitais', que devem 
ento ser vividas. Com referncia a essa dessemelhana, naturalmente tem de haver um ou mais pontos timos. A tendncia dominante da vida mental e, talvez, da vida 
nervosa em geral,  o esforo para reduzir, para manter constante ou para remover a tenso interna devida aos estmulos (o 'princpio do Nirvana', para tomar de 
emprstimo uma expresso de Barbara Low [1920, 73]), tendncia que encontra expresso no princpio de prazer, e o reconhecimento desse fato constitui uma de nossas 
mais fortes razes para acreditar na existncia dos instintos de morte.
        Contudo, ainda sentimos nossa linha de pensamento apreciavelmente entravada pelo fato de no podermos atribuir ao instinto sexual a caracterstica de uma 
compulso  repetio que primeiramente nos colocou na trilha dos instintos de morte. A esfera dos processos de desenvolvimento embrionrio , sem dvida alguma, 
extremamente rica em tais fenmenos de repetio; as duas clulas germinais que esto envolvidas na reproduo sexual, e a histria de sua vida so apenas repeties 
dos comeos da vida orgnica. Mas a essncia do processo a que a vida sexual se dirige  a coalescncia de dois corpos celulares. S isso  que assegura a imortalidade 
da substncia viva nos organismos superiores.
        Em outras palavras, precisamos de mais informaes sobre a origem da reproduo sexual e dos instintos sexuais em geral. Trata-se de problema capaz de atemorizar 
um leigo, e que os prprios especialistas ainda no foram capazes de resolver. Assim, forneceremos apenas o mais breve resumo do que parece pertinente  nossa linha 
de pensamento, entre as minhas assertivas e concepes discordantes.
        Uma dessas concepes despoja o problema da reproduo de sua fascinao misteriosa, representando-o como manifestao parcial do crescimento. (Cf. a multiplicao 
por fisso, brotao e gemiparidade). A origem da reproduo por clulas germinais sexualmente diferenciadas pode ser representada segundo sbrias linhas darwinianas, 
imaginando-se que a vantagem da anfimixia, a que se chegou em determinada ocasio pela conjugao fortuita de dois protistas, foi retida e posteriormente explorada 
para desenvolvimento ulterior. Segundo essa concepo, o 'sexo' no seria nada de muito antigo e os instintos extraordinariamente violentos, cujo objetivo  ocasionar 
a unio sexual, estariam repetindo algo que outrora ocorrera por acaso e desde ento se estabelecera, por ser vantajoso.
        Surge aqui a questo, como no caso da morte [ver em [1] e [2]], de saber se estamos certos em atribuir aos protistas s essas caractersticas que realmente 
apresentam, ou se ser correto supor que foras e processos que se tornam visveis apenas nos organismos superiores, se originaram pela primeira vez naqueles organismos. 
A concepo da sexualidade que acabamos de mencionar  de pouca ajuda para nossos fins. Contra ela pode ser levantada a objeo de postular a existncia de instintos 
de vida j a funcionar nos organismos mais simples, porque de outra maneira a conjugao, que trabalha contra o curso da vida e torna a tarefa de deixar de viver 
mais difcil, no teria sido mantida e elaborada, mas, ao contrrio, seria evitada. Se, portanto, no quisermos abandonar a hiptese dos instintos de morte, temos 
de supor que esto associados, desde o incio, com os instintos de vida. Deve-se, porm, admitir que, nesse caso, estaremos trabalhando com uma equao de duas quantidades 
desconhecidas.
         parte isso, a cincia tem to pouco a nos dizer sobre a origem da sexualidade, que podemos comparar o problema a uma escurido em que nem mesmo o raio 
de luz de uma hiptese penetrou. Em outra regio, inteiramente diferente,  verdade, defrontamo-nos realmente com tal hiptese, mas  de tipo to fantstico, mais 
mito do que explicao cientfica, que no me atreveria a apresent-la aqui se ela no atendesse precisamente quela condio cujo preenchimento desejamos, porque 
faz remontar a origem de um instinto a uma necessidade de restaurar um estado anterior de coisas.
        O que tenho no esprito , naturalmente, a teoria que Plato colocou na boca de Aristfanes no Symposium e que trata no apenas da origem do instinto sexual, 
mas tambm da mais importante de suas variaes em relao ao objeto. 'A natureza humana original no era semelhante  atual, mas diferente. Em primeiro lugar, os 
sexos eram originalmente em nmero de trs, e no dois, como so agora; havia o homem, a mulher, e a unio dos dois (...)' Tudo nesses homens primevos era duplo: 
tinham quatro mos e quatro ps, dois rostos, duas partes pudendas, e assim por diante. Finalmente, Zeus decidiu cort-los em dois, 'como uma sorva que  dividida 
em duas metades para fazer conserva'. Depois de feita a diviso, 'as duas partes do homem, cada uma desejando sua outra metade, reuniram-se e lanaram os braos 
uma em torno da outra, ansiosas por fundir-se.' 
Seguiremos a sugesto que nos foi oferecida pelo poeta-filsofo e aventurar-nos-emos pela hiptese de que a substncia viva, por ocasio de sua animao, foi dividida 
em pequenas partculas, que desde ento se esforaram por reunir-se atravs dos instintos sexuais? De que esses instintos, nos quais a afinidade qumica da matria 
inanimada persistiu, gradualmente conseguiram,  medida que evoluam pelo reino dos protistas, sobrepujar as dificuldades colocadas no caminho desse esforo por 
um ambiente carregado de estmulos perigosos, estmulos que os compeliram a formar uma camada cortical protetora? De que esses fragmentos estilhaados de substncia 
viva atingiram dessa maneira uma condio multicelular e finalmente transferiram o instinto de reunio, sob a forma mais altamente concentrada, para as clulas germinais? 
- Mas aqui, acho eu, chegou o momento de interromper-nos.
        No, contudo, sem o acrscimo de algumas palavras de reflexo crtica. Pode-se perguntar se, e at onde, eu prprio me acho convencido da verdade das hipteses 
que foram formuladas nestas pginas. Minha resposta seria que eu prprio no me acho convencido e que no procuro persuadir outras pessoas a nelas acreditar, ou, 
mais precisamente, que no sei at onde nelas acredito. No h razo, segundo me parece, para que o fator emocional da convico tenha, de algum modo, de entrar 
nessa questo.  certamente possvel que nos lancemos por uma linha de pensamento e que a sigamos aonde quer que ela leve, por simples curiosidade cientfica, ou, 
se o leitor preferir, como um advocatus diaboli, que no se acha, por essa razo, vendido ao demnio. No discuto o fato de que o terceiro passo pela teoria dos 
instintos, por mim dado aqui, no pode reivindicar o mesmo grau de certeza que os dois primeiros: a extenso do conceito de sexualidade e a hiptese do narcisismo. 
Essas duas novidades foram uma traduo direta da observao para a teoria e no se achavam mais abertas a fontes de erro do que  inevitvel em todos os casos assim. 
 verdade que minha afirmativa do carter regressivo dos instintos tambm se apia em material observado, ou seja, nos fatos da compulso  repetio. Pode ser, 
contudo, que eu tenha superestimado sua significao. E, de qualquer modo,  impossvel perseguir uma idia desse tipo, exceto pela combinao repetida de material 
concreto com o que  puramente especulativo e, assim, amplamente divergente da observao imprica. Quanto mais freqentemente isso  feito no decurso da construo 
de uma teoria, menos fidedigno, como sabemos, deve ser o resultado final. Mas o grau de incertezas no  atribuvel. Podemos ter dado um golpe de sorte ou havermo-nos 
extraviado vergonhosamente. No penso que, num trabalho desse tipo, uma parte grande seja desempenhada pelo que  chamado de 'intuio'. Pelo que tenho visto da 
intuio, ela me parece ser o produto de um tipo de imparcialidade intelectual. Infelizmente, porm, as pessoas raramente so imparciais no que concerne s coisas 
supremas, aos grandes problemas da cincia e da vida. Em tais casos, cada um de ns  dirigido por preconceitos internos profundamente enraizados, aos quais nossa 
especulao inadvertidamente d vantagem. J que possumos to bons fundamentos para sermos desconfiados, nossa atitude para com os resultados de nossas prprias 
deliberaes no pode ser outra que a de uma fria benevolncia. Apresso-me a acrescentar, contudo, que uma autocrtica como esta acha-se longe de vincular-nos a 
qualquer tolerncia especial para com opinies discordantes.  perfeitamente legtimo rejeitar sem remorsos teorias que so contraditadas pelos prprios primeiros 
passos dados na anlise dos fatos observados, enquanto nos achamos ao mesmo tempo cientes de que a validade de nossas prprias teorias  apenas provisria.
        No precisamos sentir-nos grandemente perturbados em ajuizar nossas especulaes sobre os instintos de vida e de morte pelo fato de tantos processos desnorteantes 
e obscuros nelas ocorrerem, tal como um instinto ser expulso por outro, ou um instinto voltar-se do ego para um objeto, e assim por diante. Isso se deve simplesmente 
ao fato de sermos obrigados a trabalhar com termos cientficos, isto , com a linguagem figurativa, peculiar  psicologia (ou, mais precisamente,  psicologia profunda). 
No poderamos, de outra maneira, descrever os processos em questo e, na verdade, no nos teramos tornado cientes deles. As deficincias de nossa posio provavelmente 
se desvaneceriam se nos achssemos em posio de substituir os termos psicolgicos por expresses fisiolgicas ou qumicas.  verdade que estas tambm so apenas 
parte de uma linguagem figurativa, mas trata-se de uma linguagem com que h muito tempo nos familiarizamos, sendo tambm, talvez, uma linguagem mais simples.
        Por outro lado, deve-se deixar completamente claro que a incerteza de nossa especulao foi muito aumentada pela necessidade de pedir emprstimos  cincia 
da biologia. A biologia , verdadeiramente, uma terra de possibilidades ilimitadas. Podemos esperar que ela nos fornea as informaes mais surpreendentes, e no 
podemos imaginar que respostas nos dar, dentro de poucas dezenas de anos, s questes que lhe formulamos. Podero ser de um tipo que ponha por terra toda a nossa 
estrutura artificial de hipteses. Se assim for, poder-se- perguntar por que nos embrenhamos numa linha de pensamento como a presente e, em particular, por que 
decidi torn-la pblica. Bem, no posso negar que algumas das analogias, correlaes e vinculaes que ela contm pareceram-me merecer considerao.


                                        VII

        Se procurar restaurar um estado anterior de coisas constitui caracterstica to universal dos instintos, no precisaremos surpreender-nos com que tantos 
processos se realizem na vida mental independentemente do princpio de prazer. Essa caracterstica seria partilhada por todos os instintos componentes e, em seu 
caso, visariam a retornar mais uma vez a uma fase especfica do curso do desenvolvimento. Trata-se de questes sobre as quais o princpio de prazer ainda no possui 
controle, mas disso no decorre que alguma delas seja necessariamente oposta a este, e ainda temos de solucionar o problema da relao dos processos instintuais 
de repetio com a dominncia do princpio de prazer.
        Descobrimos que uma das mais antigas e importantes funes do aparelho mental  sujeitar os impulsos instintuais que com ele se chocam, substituir o processo 
primrio que neles predomina pelo processo secundrio, e converter sua energia catxica livremente mvel numa catexia principalmente quiescente (tnica). Enquanto 
essa transformao se est realizando, nenhuma ateno pode ser concedida ao desenvolvimento do desprazer, mas isso no implica a suspenso do princpio de prazer. 
Pelo contrrio, a transformao ocorre em favor dele; a sujeio constitui o ato preparatrio que introduz e assegura a dominncia do princpio de prazer.
        Faamos uma distino mais ntida, do que at aqui fizemos, entre funo e tendncia. O princpio de prazer, ento,  uma tendncia que opera a servio de 
uma funo, cuja misso  libertar inteiramente o aparelho mental de excitaes, conservar a quantidade de excitao constante nele, ou mant-la to baixa quanto 
possvel. Ainda no podemos decidir com certeza em favor de nenhum desses enunciados, mas  claro que a funo estaria assim relacionada com o esforo mais fundamental 
de toda substncia viva: o retorno  quiescncia do mundo inorgnico. Todo ns j experimentamos como o maior prazer por ns atingvel, o do ato sexual, acha-se 
associado  extino momentnea altamente intensificada. A sujeio de um impulso instintual seria uma funo preliminar, destinada a preparar a excitao para sua 
eliminao final no prazer da descarga.
        Isso levanta a questo de saber se sentimentos de prazer e desprazer podem ser igualmente produzidos por processos excitatrios vinculados e livres. E no 
parece haver qualquer dvida de que os processos livres ou primrios do origem a sentimentos muito mais intensos em ambos os sentidos do que os vinculados ou secundrios. 
Alm disso, os processos primrios so os mais antigos no tempo; no comeo da vida mental no existem outros e podemos inferir que, se o princpio de prazer no 
tivesse sido operante neles, jamais se poderia ter estabelecido para os posteriores. Chegamos assim ao que, no fundo, no  uma concluso muito simples, a saber, 
que no comeo da vida mental a luta pelo prazer era muito mais intensa do que posteriormente, mas no to irrestrita; tinha de submeter-se a freqentes interrupes. 
Em pocas posteriores, a dominncia do princpio de prazer  muitssimo mais segura, mas ele prprio no fugiu aos processos de sujeio que os outros instintos 
em geral. De qualquer modo, seja l o que for aquilo que causa o aparecimento de sentimentos de prazer e desprazer nos processos de excitao, deve estar presente 
no processo secundrio, tal como est no primrio.
        Aqui poderia achar-se o ponto de partida para novas investigaes. Nossa conscincia nos comunica sentimentos provindos de dentro que no so apenas de prazer 
e desprazer, mas tambm de uma tenso peculiar que, por sua vez, tanto pode ser agradvel quanto desagradvel. Permitir-nos- a diferena entre esses sentimentos 
distinguir entre processos de energia vinculados e livres? Ou deve o sentimento de tenso ser relacionado  magnitude absoluta, ou talvez ao nvel da catexia, ao 
passo que a srie prazer e desprazer indica uma mudana na magnitude da catexia dentro de determinada unidade de tempo? Outro fato notvel  que os instintos de 
vida tm muito mais contato com nossa percepo interna, surgindo como rompedores da paz e constantemente produzindo tenses cujo alvio  sentido como prazer, ao 
passo que os instintos de morte parecem efetuar seu trabalho discretamente. O princpio de prazer parece, na realidade, servir aos instintos de morte.  verdade 
que mantm guarda sobre os estmulos provindos de fora, que so encarados como perigos por ambos os tipos de instintos, mas se acha mais especialmente em guarda 
contra os aumentos de estimulao provindos de dentro, que tornariam mais difcil a tarefa de viver. Isso, por sua vez, levanta uma infinidade de outras questes, 
para as quais, no presente, no podemos encontrar resposta. Temos de ser pacientes e aguardar novos mtodos e ocasies de pesquisa. Devemos estar prontos, tambm, 
para abandonar um caminho que estivemos seguindo por certo tempo, se parecer que ele no leva a qualquer bom fim. Somente os crentes, que exigem que a cincia seja 
um substituto para o catecismo que abandonaram, culparo um investigador por desenvolver ou mesmo transformar suas concepes. Podemos confortar-nos tambm, pelos 
lentos avanos de nosso conhecimento cientfico, com as palavras do poeta:

Was man nicht erfliegen kann, muss man erhinken.        
Die Schrift sagt, es ist keine Snde zu hinken.

























PSICOLOGIA DE GRUPO E A ANLISE DO EGO (1921)

        
         NOTA DO EDITOR INGLS - MASSENPSYCHOLOGIE UND ICH-ANALYSE

(a) EDIES ALEMS:
1921 Leipzig, Viena e Zurique, Internationaler Psychoanalytischer Verlag, III +140 pgs.
1923 2 ed., mesmos editores, IV + 120 pgs.
1925 G.S., 6, 261-349.
1931 Theoretische Schriften, 248-337.
1940 G.W, 13, 71-161.

(b) TRADUO INGLESA:
        Group Psychology and the Analysis of the Ego
1922 Londres e Viena, Internacional Psycho-Analytical Press, VIII + 134 pgs. (Trad. de James Strachey.)
1940 Londres, Hogarth Press e Instituto de Psicanlise; Nova Iorque, Liveright. (Reimpresso da anterior.)

        Na primeira edio alem alguns pargrafos do texto foram impressos em tipo menor. Na ocasio, o tradutor ingls foi instrudo por Freud para transferir 
esses pargrafos para notas de rodap. A mesma transposio foi feita em todas as edies alems posteriores,  exceo do caso mencionado na pg. 106, adiante. 
Freud fez algumas ligeiras alteraes e acrscimos nas edies posteriores do trabalho. A presente traduo inglesa constitui verso consideravelmente alterada da 
publicada em 1922.

        As cartas de Freud mostram que a primeira 'idia simples' de uma explicao da psicologia de grupo lhe ocorreu durante a primavera de 1919. Nada resultou 
disso na ocasio; em fevereiro de 1920, porm, estava trabalhando no assunto e j escrevera um primeiro rascunho em agosto do mesmo ano. Foi somente em fevereiro 
de 1921, contudo, que comeou a lhe dar forma final. O livro foi terminado antes do fim do maro de 1921 e publicado cerca de trs ou quatro meses mais tarde.
        H pouca ligao direta entre o presente trabalho e seu predecessor imediato, Alm do Princpio de Prazer (1920g). As seqncias de pensamento aqui seguidas 
por Freud derivam mais especialmente do quarto ensaio de Totem e Tabu (1912-13), de seus artigos sobre o narcisismo (1914c) (cujo ltimo pargrafo aborda, de forma 
altamente condensada, muitos dos pontos aqui debatidos) e de 'Luto e Melancolia' (1917e). Freud tambm retorna a seu primeiro interesse pelo hipnotismo e pela sugesto, 
que datava de seus estudos com Charcot em 1885-6.
        Tal como o ttulo indica, o trabalho  importante em dois sentidos diferentes. Por um lado, explica a psicologia dos grupos com base em alteraes na psicologia 
da mente individual, e, por outro, leva um passo  frente a investigao freudiana da estrutura anatmica da mente, j prenunciada em Alm do Princpio de Prazer 
(1920g) e a ser completamente elaborada em O Ego e o Id (1923b).

        Extratos da primeira (1922) traduo deste trabalho foram includos na General Selection from the Works of Sigmund Freud, de Rickman (1937, 195-244).

        PSICOLOGIA DE GRUPO E A ANLISE DO EGO

         I - INTRODUO

        O contraste entre a psicologia individual e a psicologia social ou de grupo, que  primeira vista pode parecer pleno de significao, perde grande parte 
de sua nitidez quando examinado mais de perto.  verdade que a psicologia individual relaciona-se com o homem tomado individualmente e explora os caminhos pelos 
quais ele busca encontrar satisfao para seus impulsos instintuais; contudo, apenas raramente e sob certas condies excepcionais, a psicologia individual se acha 
em posio de desprezar as relaes desse indivduo com os outros. Algo mais est invariavelmente envolvido na vida mental do indivduo, como um modelo, um objeto, 
um auxiliar, um oponente, de maneira que, desde o comeo, a psicologia individual, nesse sentido ampliado mas inteiramente justificvel das palavras, , ao mesmo 
tempo, tambm psicologia social.
        As relaes de um indivduo com os pais, com os irmos e irms, com o objeto de seu amor e com seu mdico, na realidade, todas as relaes que at o presente 
constituram o principal tema da pesquisa psicanaltica, podem reivindicar serem consideradas como fenmenos sociais, e, com respeito a isso, podem ser postas em 
contraste com certos outros processos, por ns descritos como 'narcisistas', nos quais a satisfao dos instintos  parcial ou totalmente retirada da influncia 
de outras pessoas. O contraste entre atos mentais sociais e narcisistas - Bleuler [1912] talvez os chamasse de 'autsticos' - incide assim inteiramente dentro do 
domnio da psicologia individual, no sendo adequado para diferen-la de uma psicologia social ou de grupo.
        O indivduo, nas relaes que j mencionei - com os pais, com os irmos e irms, com a pessoa amada, com os amigos e com o mdico -, cai sob a influncia 
de apenas uma s pessoa ou de um nmero bastante reduzido de pessoas, cada uma das quais se torna enormemente importante para ele. Ora, quando se fala de psicologia 
social ou de grupo, costuma-se deixar essas relaes de lado e isolar como tema de indagao o influenciamento de um indivduo por um grande nmero de pessoas simultaneamente, 
pessoas com quem se acha ligado por algo, embora, sob outros aspectos e em muitos respeitos, possam ser-lhe estranhas. A psicologia de grupo interessa-se assim pelo 
indivduo como membro de uma raa, de uma nao, de uma casta, de uma profisso, de uma instituio, ou como parte componente de uma multido de pessoas que se organizaram 
em grupo, numa ocasio determinada, para um intuito definido. Uma vez a continuidade natural tenha sido interrompida desse modo, se uma ruptura  assim efetuada 
entre coisas que so por natureza interligadas,  fcil encarar os fenmenos surgidos sob essas condies especiais como expresses de um instinto especial que j 
no  redutvel - o instinto social (herd instinct, group mind), que no vem  luz em nenhuma outra situao. Contudo, talvez possamos atrever-nos a objetar que 
parece difcil atribuir ao fator numrico uma significao to grande, que o torne capaz, por si prprio, de despertar em nossa vida mental um novo instinto, que 
de outra maneira no seria colocado em jogo. Nossa expectativa dirige-se assim para duas outras possibilidades: que o instinto social talvez no seja um instinto 
primitivo, insuscetvel de dissociao, e que seja possvel descobrir os primrdios de sua evoluo num crculo mais estreito, tal como o da famlia.
        Embora a psicologia de grupo ainda se encontre em sua infncia, ela abrange imenso nmero de temas independentes e oferece aos investigadores incontveis 
problemas que at o momento nem mesmo foram corretamente distinguidos uns dos outros. A mera classificao das diferentes formas de formao de grupo e a descrio 
dos fenmenos mentais por elas produzidos exigem grande dispndio de observao e exposio, que j deu origem a uma copiosa literatura. Qualquer pessoa que compare 
as exguas dimenses deste pequeno livro com a ampla extenso da psicologia de grupo, poder perceber em seguida que apenas alguns pontos, escolhidos dentre a totalidade 
do material, sero tratados aqui. E, realmente,  em apenas algumas questes que a psicologia profunda da psicanlise est especialmente interessada.

         II - A DESCRIO DE LE BON DA MENTE GRUPAL

        Em vez de partir de uma definio, parece mais proveitoso comear com alguma indicao do campo de ao dos fenmenos em exame e selecionar dentre eles alguns 
fatos especialmente notveis e caractersticos, aos quais nossa indagao possa ligar-se. Podemos alcanar ambos os objetivos por meio de citaes da obra merecidamente 
famosa de Le Bon, Psychologie des foules [1855].
        Esclareamos mais uma vez o assunto. Se uma psicologia - interessada em explorar as predisposies, os impulsos instintuais, os motivos e os fins de um indivduo 
at as suas aes e suas relaes com aqueles que lhe so mais prximos - houvesse atingido completamente seu objetivo e esclarecido a totalidade dessas questes, 
com suas interconexes, defrontar-se-ia ento subitamente com uma nova tarefa, que perante ela se estenderia incompleta. Seria obrigada a explicar o fato surpreendente 
de que, sob certa condio, esse indivduo, a quem havia chegado a compreender, pensou, sentiu e agiu de maneira inteiramente diferente daquela que seria esperada. 
Essa condio  a sua incluso numa reunio de pessoas que adquiriu a caracterstica de um 'grupo psicolgico'. O que , ento, um 'grupo'? Como adquire ele a capacidade 
de exercer influncia to decisiva sobre a vida mental do indivduo? E qual  a natureza da alterao mental que ele fora no indivduo?
        Constituiu tarefa de uma psicologia de grupo terica responder a essas trs perguntas. A melhor maneira de abord-las , evidentemente, comear pela terceira. 
 a observao das alteraes nas reaes do indivduo que fornece  psicologia de grupo seu material, de uma vez que toda tentativa de explicao deve ser precedida 
pela descrio da coisa que tem de ser explicada.
        Deixarei que agora Le Bon fale por si prprio. Diz ele: 'A peculiaridade mais notvel apresentada por um grupo psicolgico  a seguinte: sejam quem forem 
os indivduos que o compem, por semelhantes ou dessemelhantes que sejam seu modo de vida, suas ocupaes, seu carter ou sua inteligncia, o fato de haverem sido 
transformados num grupo coloca-os na posse de uma espcie de mente coletiva que os faz sentir, pensar e agir de maneira muito diferente daquela pela qual cada membro 
dele, tomado individualmente, sentiria, pensaria e agiria, caso se encontrasse em estado de isolamento. H certas idias e sentimentos que no surgem ou que no 
se transformam em atos, exceto no caso de indivduos que formam um grupo. O grupo psicolgico  um ser provisrio, formado por elementos heterogneos que por um 
momento se combinam, exatamente como as clulas que constituem um corpo vivo, formam, por sua reunio, um novo ser que apresenta caractersticas muito diferentes 
daquelas possudas por cada uma das clulas isoladamente.' (Trad., 1920, 29.)
        Tomaremos a liberdade de interromper a exposio de Le Bon com comentrios nossos; por conseguinte, inseriremos uma observao nesse ponto. Se os indivduos 
do grupo se combinam numa unidade, deve haver certamente algo para uni-los, e esse elo poderia ser precisamente a coisa que  caracterstica de um grupo. Mas Le 
Bon no responde a essa questo; prossegue considerando a alterao que o indivduo experimenta quando num grupo, e a descreve em termos que se harmonizam bem com 
os postulados fundamentais de nossa prpria psicologia profunda.
        ' fcil provar quanto o indivduo que faz parte de um grupo difere do indivduo isolado; mas no  to fcil descobrir as causas dessa diferena.'
        'Para obter, de qualquer modo, um vislumbre delas,  necessrio em primeiro lugar trazer  mente a verdade estabelecida pela psicologia moderna, a de que 
os fenmenos inconscientes desempenham papel inteiramente preponderante no apenas na vida orgnica, mas tambm nas operaes da inteligncia. A vida consciente 
da mente  de pequena importncia, em comparao com sua vida inconsciente. O analista mais sutil, o observador mais agudo dificilmente obtm xito em descobrir 
mais do que um nmero muito pequeno dos motivos conscientes que determinam sua conduta. Nossos atos conscientes so o produto de um substrato inconsciente criado 
na mente, principalmente por influncias hereditrias. Esse substrato consiste nas inumerveis caractersticas comuns, transmitidas de gerao a gerao, que constituem 
o gnio de uma raa. Por detrs das causas confessadas de nossos atos jazem indubitavelmente causas secretas que no confessamos, mas por detrs dessas causas secretas 
existem muitas outras, mais secretas ainda, ignoradas por ns prprios. A maior parte de nossas aes cotidianas so resultados de motivos ocultos que fogem  nossa 
observao.' (Ibid., 30.)
        Le Bon pensa que os dotes particulares dos indivduos se apagam num grupo e que, dessa maneira, sua distintividade se desvanece. O inconsciente racial emerge; 
o que  heterogneo submerge no que  homogneo. Como diramos ns, a superestrutura mental, cujo desenvolvimento nos indivduos apresenta tais dessemelhanas,  
removida, e as funes inconscientes, que so semelhantes em todos, ficam expostas  vista.
        Assim, os indivduos de um grupo viriam a mostrar um carter mdio. Mas Le Bon acredita que eles tambm apresentam novas caractersticas que no possuam 
anteriormente, e busca a razo disso em trs fatores diferentes.
        'O primeiro  que o indivduo que faz parte de um grupo adquire, unicamente por consideraes numricas, um sentimento de poder invencvel que lhe permite 
render-se a instintos que, estivesse ele sozinho, teria compulsoriamente mantido sob coero. Ficar ele ainda menos disposto a controlar-se pela considerao de 
que, sendo um grupo annimo e, por conseqncia, irresponsvel, o sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivduos, desaparece inteiramente.' (Ibid., 
33.)
        Segundo nosso ponto de vista, no precisamos atribuir tanta importncia ao aparecimento de caractersticas novas. Para ns, seria bastante dizer que, num 
grupo, o indivduo  colocado sob condies que lhe permitem arrojar de si as represses de seus impulsos instintuais inconscientes. As caractersticas aparentemente 
novas que ento apresenta so na realidade as manifestaes desse inconsciente, no qual tudo o que  mau na mente humana est contido como uma predisposio. No 
h dificuldade alguma em compreender o desaparecimento da conscincia ou do senso de responsabilidade, nessas circunstncias. H muito tempo  assero nossa que 
a 'ansiedade social' constitui a essncia do que  chamado de conscincia.
        'A segunda causa, que  o contgio, tambm intervm para determinar nos grupos a manifestao de suas caractersticas especiais e, ao mesmo tempo, a tendncia 
que devem tomar. O contgio  um fenmeno cuja presena  fcil estabelecer e difcil explicar. Deve ser classificado entre aqueles fenmenos de ordem hipntica 
que logo estudaremos. Num grupo, todo sentimento e todo ato so contagiosos, e contagiosos em tal grau, que o indivduo prontamente sacrifica seu interesse pessoal 
ao interesse coletivo. Trata-se de aptido bastante contrria  sua natureza e da qual um homem dificilmente  capaz, exceto quando faz parte de um grupo.' (Ibid., 
33.)
        Mais tarde, basearemos uma importante conjectura nessa ltima afirmao.
        'Uma terceira causa, de longe a mais importante, determina nos indivduos de um grupo caractersticas especiais que so s vezes inteiramente contrrias 
s apresentadas pelo indivduo isolado. Aludo quela sugestionabilidade, da qual, alm disso, o contgio acima mencionado no  mais do que um efeito.'
        'Para compreender esse fenmeno,  necessrio ter em mente certas recentes descobertas psicolgicas. Sabemos hoje que, por diversos processos, um indivduo 
pode ser colocado numa condio em que, havendo perdido inteiramente sua personalidade consciente, obedece a todas as sugestes do operador que o privou dela e comete 
atos em completa contradio com seu carter e hbitos. As investigaes mais cuidadosas parecem demonstrar que um indivduo imerso por certo lapso de tempo num 
grupo em ao, cedo se descobre - seja em conseqncia da influncia magntica emanada do grupo, seja devido a alguma outra causa por ns ignorada - num estado especial, 
que se assemelha muito ao estado de 'fascinao' em que o indivduo hipnotizado se encontra nas mos do hipnotizador. (...) A personalidade consciente desvaneceu-se 
inteiramente; a vontade e o discernimento se perderam. Todos os sentimentos e o pensamento inclinam-se na direo determinada pelo hipnotizador.'
        'Esse tambm , aproximadamente, o estado do indivduo que faz parte de um grupo psicolgico. Ele j no se acha consciente de seus atos. Em seu caso, como 
no do sujeito hipnotizado, ao mesmo tempo que certas faculdades so destrudas, outras podem ser conduzidas a um alto grau de exaltao. Sob a influncia de uma 
sugesto, empreender a realizao de certos atos com irresistvel impetuosidade. Essa impetuosidade  ainda mais irresistvel no caso dos grupos do que no do sujeito 
hipnotizado, porque, sendo a sugesto a mesma para todos os indivduos do grupo, ela ganha fora pela reciprocidade.' (Ibid., 34.)
        'Vemos ento que o desaparecimento da personalidade consciente, a predominncia da personalidade inconsciente, a modificao por meio da sugesto e do contgio 
de sentimentos e idias numa direo idntica, a tendncia a transformar imediatamente as idias sugeridas em atos, estas, vemos, so as caractersticas principais 
do indivduo que faz parte de um grupo. Ele no  mais ele mesmo, mas transformou-se num autmato que deixou de ser dirigido pela sua vontade.' (Ibid., 35.)
        Citei essa passagem to integralmente a fim de tornar inteiramente claro que Le Bon explica a condio de um indivduo num grupo como sendo realmente hipntica, 
e no faz simplesmente uma comparao entre os dois estados. No temos inteno de levantar qualquer objeo a esse argumento, mas queremos apenas dar nfase ao 
fato de que as duas ltimas causas pelas quais um indivduo se modifica num grupo (o contgio e a alta sugestionabilidade), no se encontram evidentemente no mesmo 
plano, de modo que o contgio parece, na realidade, ser uma manifestao da sugestionabilidade. Alm disso, os efeitos dos dois fatores no parecem ser nitidamente 
diferenciados no texto das observaes de Le Bon. Talvez possamos interpretar melhor seu enunciado se vincularmos o contgio aos efeitos dos membros do grupo, tomados 
individualmente, uns sobre os outros, enquanto apontamos outra fonte para essas manifestaes de sugestes no grupo, as quais ele considera semelhantes aos fenmenos 
da influncia hipntica. Mas que fonte? No podemos deixar de ficar impressionados por uma sensao de lacuna quando observarmos que um dos principais elementos 
da comparao, a saber, a pessoa que deve substituir o hipnotizador no caso do grupo, no  mencionada na exposio de Le Bon. Entretanto, ele faz distino entre 
essa influncia da 'fascinao' que permanece mergulhada na obscuridade e o efeito contagioso que os indivduos exercem uns sobre os outros e atravs do qual a sugesto 
original  fortalecida.
        Temos aqui outra importante comparao para ajudar-nos a entender o indivduo num grupo: 'Alm disso, pelo simples fato de fazer parte de um grupo organizado, 
um homem desce vrios degraus na escada da civilizao. Isolado, pode ser um indivduo culto; numa multido,  um brbaro, ou seja, uma criatura que age pelo instinto. 
Possui a espontaneidade, a violncia, a ferocidade e tambm o entusiasmo e o herosmo dos seres primitivos.' (Ibid., 36.) Le Bon demora-se ento especialmente na 
reduo da capacidade intelectual que um indivduo experimenta quando se funde num grupo.
        Abandonemos agora o indivduo e voltemo-nos para a mente grupal, tal como delineada por Le Bon. Ela no apresenta um nico aspecto que um psicanalista encontre 
qualquer dificuldade em situar ou em fazer derivar de sua fonte. O prprio Le Bon nos mostra o caminho, apontando para sua semelhana com a vida mental dos povos 
primitivos e das crianas (ibid., 40).
        Um grupo  impulsivo, mutvel e irritvel.  levado quase que exclusivamente por seu inconsciente. Os impulsos a que um grupo obedece, podem, de acordo com 
as circunstncias, ser generosos ou cruis, hericos ou covardes, mas so sempre to imperiosos, que nenhum interesse pessoal, nem mesmo o da autopreservao, pode 
fazer-se sentir (ibid., 41). Nada dele  premeditado. Embora possa desejar coisas apaixonadamente, isso nunca se d por muito tempo, porque  incapaz de perseverana. 
No pode tolerar qualquer demora entre seu desejo e a realizao do que deseja. Tem um sentimento de onipotncia: para o indivduo num grupo a noo de impossibilidade 
desaparece.
        Um grupo  extremamente crdulo e aberto  influncia; no possui faculdade crtica e o improvvel no existe para ele. Pensa por imagens, que se chamam 
umas s outras por associao (tal como surgem nos indivduos em estados de imaginao livre), e cuja concordncia com a realidade jamais  conferida por qualquer 
rgo razovel. Os sentimentos de um grupo so sempre muito simples e muito exagerados, de maneira que no conhece a dvida nem a incerteza.
        Ele vai diretamente a extremos; se uma suspeita  expressa, ela instantaneamente se modifica numa certeza incontrovertvel; um trao de antipatia se transforma 
em dio furioso (ibid., 56).
        Inclinado como  a todos os extremos, um grupo s pode ser excitado por um estmulo excessivo. Quem quer que deseje produzir efeito sobre ele, no necessita 
de nenhuma ordem lgica em seus argumentos; deve pintar nas cores mais fortes, deve exagerar e repetir a mesma coisa diversas vezes.
        Desde que no se acha em dvida quanto ao que constitui verdade ou erro e, alm disso, tem conscincia de sua prpria grande fora, um grupo  to intolerante 
quanto obediente  autoridade. Respeita a fora e s ligeiramente pode ser influenciado pela bondade, que encara simplesmente como uma forma de fraqueza. O que exige 
de seus heris,  fora ou mesmo violncia. Quer ser dirigido, oprimido e temer seus senhores. Fundamentalmente,  inteiramente conservador e tem profunda averso 
por todas as inovaes e progressos, e um respeito ilimitado pela tradio (ibid., 62).
        A fim de fazer um juzo correto dos princpios ticos do grupo, h que levar em considerao o fato de que, quando indivduos se renem num grupo, todas 
as suas inibies individuais caem e todos os instintos cruis, brutais e destrutivos, que neles jaziam adormecidos, como relquias de uma poca primitiva, so despertados 
para encontrar gratificao livre. Mas, sob a influncia da sugesto, os grupos tambm so capazes de elevadas realizaes sob forma de abnegao, desprendimento 
e devoo a um ideal. Ao passo que com os indivduos isolados o interesse pessoal  quase a nica fora motivadora, nos grupos ele muito raramente  proeminente. 
 possvel afirmar que um indivduo tenha seus padres morais elevados por um grupo (ibid., 65). Ao passo que a capacidade intelectual de um grupo est sempre muito 
abaixo da de um indivduo, sua conduta tica pode tanto elevar-se muito acima da conduta deste ltimo, quanto cair muito abaixo dela.
        Alguns outros aspectos da descrio de Le Bon mostram, a uma clara luz, quo justificada  a identificao da mente grupal com a mente dos povos primitivos. 
Nos grupos, as idias mais contraditrias podem existir lado a lado e tolerar-se mutuamente, sem que nenhum conflito surja da contradio lgica entre elas. Esse 
 tambm o caso da vida mental inconsciente dos indivduos, das crianas e dos neurticos, como a psicanlise h muito tempo indicou.
        Um grupo, ainda, est sujeito ao poder verdadeiramente mgico das palavras, que podem evocar as mais formidveis tempestades na mente grupal, sendo tambm 
capazes de apazigu-las (ibid., 117). 'A razo e os argumentos so incapazes de combater certas palavras e frmulas. Elas so proferidas com solenidade na presena 
dos grupos e, assim que foram pronunciadas, uma expresso de respeito se torna visvel em todos os semblantes e todas as cabeas se curvam. Por muitos, so consideradas 
como foras naturais ou como poderes sobrenaturais.' (Ibid., 117.) A esse respeito, basta recordar os tabus sobre nomes entre os povos primitivos e os poderes mgicos 
que atribuem aos nomes e s palavras.
        E, finalmente, os grupos nunca ansiaram pela verdade. Exigem iluses e no podem passar sem elas. Constantemente do ao que  irreal precedncia sobre o 
real; so quase to intensamente influenciados pelo que  falso quanto pelo que  verdadeiro. Possuem tendncia evidente a no distinguir entre as duas coisas (ibid., 
77).
        J indicamos que essa predominncia da vida da fantasia e da iluso nascida de um desejo irrealizado  o fator dominante na psicologia das neuroses. Descobrimos 
que aquilo por que os neurticos se guiam no  a realidade objetiva comum, mas a realidade psicolgica. Um sintoma histrico baseia-se na fantasia, em vez de na 
repetio da experincia real, e o sentimento de culpa na neurose obsessiva fundamenta-se no fato de uma inteno m que nunca foi executada. Na verdade, tal como 
nos sonhos e na hipnose, nas operaes mentais de um grupo a funo de verificao da realidade das coisas cai para o segundo plano, em comparao com a fora dos 
impulsos plenos de desejo com sua catexia afetiva.
        O que Le Bon diz sobre o tema dos lderes de grupos  menos exaustivo e no nos permite elaborar to claramente um princpio subjacente. Pensa ele que, assim 
que seres vivos se renem em certo nmero, sejam eles um rebanho de animais ou um conjunto de seres humanos, se colocam instintivamente sob a influncia de um chefe 
(ibid., 134). Um grupo  um rebanho obediente, que nunca poderia viver sem um senhor. Possui tal anseio de obedincia, que se submete instintivamente a qualquer 
um que se indique a si prprio como chefe.
        Embora, dessa maneira, as necessidades de um grupo o conduzam at meio caminho ao encontro de um lder, este, contudo, deve ajustar-se quele em suas qualidades 
pessoais. Deve ser fascinado por uma intensa f (numa idia), a fim de despertar a f do grupo; tem de possuir vontade forte e imponente, que o grupo, que no tem 
vontade prpria, possa dele aceitar. Le Bon discute ento os diferentes tipos de lderes e os meios pelos quais atuam sobre o grupo. Em geral, acredita que os lderes 
se fazem notados por meio das idias em que eles prprios acreditam fanaticamente.
        Alm disso, atribui tanto s idias quanto aos lderes um poder misterioso e irresistvel, a que chama de 'prestgio'. O prestgio  uma espcie de domnio 
exercido sobre ns por um indivduo, um trabalho ou uma idia. Paralisa inteiramente nossas faculdades crticas e enche-nos de admirao e respeito. Parece que desperta 
um sentimento como o da 'fascinao' na hipnose (ibid., 148). Le Bon faz distino entre o prestgio adquirido ou artificial e o prestgio pessoal. O primeiro se 
liga s pessoas em virtude de seu nome, fortuna e reputao, e a opinies, obras de arte etc. em virtude da tradio. Desde que em todos os casos ele remonta ao 
passado, no nos pode ser de grande auxlio para a compreenso dessa influncia enigmtica. O prestgio pessoal liga-se a umas poucas pessoas, que se tornam lderes 
por meio dele, e tem o efeito de fazer com que todos as obedeam como se fosse pelo funcionamento de alguma magia magntica. Todo prestgio, contudo, depende tambm 
do sucesso e se perde em caso de fracasso (ibid., 159).
        Le Bon no d a impresso de haver conseguido colocar a funo do lder e a importncia do prestgio completamente em harmonia com seu retrato brilhantemente 
executado da mente grupal.


         III - OUTRAS DESCRIES DA VIDA MENTAL COLETIVA

        Utilizamos a descrio de Le Bon  guisa de introduo, por ajustar-se to bem  nossa prpria psicologia na nfase que d  vida mental inconsciente. Mas 
temos agora de acrescentar que, na realidade, nenhuma das afirmativas desse autor apresentou algo de novo. Tudo o que diz em detrimento e depreciao das manifestaes 
da mente grupal, j fora dito por outros antes dele, com igual nitidez e igual hostilidade, e fora repetido em unssono por pensadores, estadistas e escritores desde 
os primeiros perodos da literatura. As duas teses que abrangem as mais importantes das opinies de Le Bon, ou seja, as que tocam na inibio coletiva do funcionamento 
intelectual e na elevao da afetividade nos grupos, foram formuladas pouco antes por Sighele. No fundo, tudo o que resta como peculiar a Le Bon so as duas noes 
do inconsciente e da comparao com a vida mental dos povos primitivos, e mesmo estas naturalmente, j haviam sido com freqncia aludidas antes dele.
        Contudo - o que  mais -, a descrio e a estimativa da mente grupal, tal como fornecidas por Le Bon e os outros, de modo algum foram deixadas sem objeo. 
No h dvida de que todos os fenmenos da mente grupal que acabaram de ser mencionados, foram corretamente observados; mas  tambm possvel distinguir outras manifestaes 
de formao de grupo que atuam em sentido exatamente contrrio, e das quais uma opinio muito mais elevada da mente grupal deve necessariamente decorrer.
        O prprio Le Bon estava pronto a admitir que, em certas circunstncias, os princpios ticos de um grupo podem ser mais elevados que os dos indivduos que 
o compem, e que apenas as coletividades so capazes de um alto grau de desprendimento e devoo. 'Ao passo que com os indivduos isolados o interesse pessoal  
quase a nica fora motivadora, nos grupos ele muito raramente  proeminente.' (Le Bon, trad., 1920, 65.) Outros escritores aduzem o fato de que apenas a sociedade 
prescreve quaisquer padres ticos para o indivduo, enquanto que, via de regra, este fracassa, de uma maneira ou de outra, em mostrar-se  altura de suas elevadas 
exigncias. Ou ento indicam eles que, em circunstncias excepcionais, pode surgir nas comunidades o fenmeno do entusiasmo, que tornou possveis as mais esplndidas 
realizaes grupais.
        Quanto ao trabalho intelectual, permanece um fato, na verdade, que as grandes decises no domnio do pensamento e as momentosas descobertas e solues de 
problemas s so possveis ao indivduo que trabalha em solido. Contudo, mesmo a mente grupal  capaz de gnio criativo no campo da inteligncia, como  demonstrado, 
acima de tudo, pela prpria linguagem, bem como pelo folclore, pelas canes populares e outros fatos semelhantes. Permanece questo aberta, alm disso, saber quanto 
o pensador ou o escritor, individualmente, devem ao estmulo do grupo em que vivem, e se eles no fazem mais do que aperfeioar um trabalho mental em que os outros 
tiveram parte simultnea.
        Frente a essas descries completamente contraditrias, talvez parecesse que o trabalho da psicologia de grupo estivesse fadado a chegar a um fim infrutfero. 
Mas  fcil encontrar uma sada mais esperanosa para o dilema. Uma srie de estruturas bastante diferentes provavelmente se fundiram sob a expresso 'grupo' e podem 
exigir que sejam distinguidas. As assertivas de Sighele, Le Bon e outros referem-se a grupos de carter efmero, que algum interesse passageiro apressadamente aglomerou 
a partir de diversos tipos de indivduos. As caractersticas dos grupos revolucionrios, especialmente os da grande Revoluo Francesa, influenciaram inequivocamente 
suas descries. As opinies contrrias devem sua origem  considerao daqueles grupos ou associaes estveis em que a humanidade passa a sua vida e que se acham 
corporificados nas instituies da sociedade. Os grupos do primeiro tipo encontram-se, com os do segundo, no mesmo tipo de relao que um mar alto, mas encapelado, 
tem com uma ondulao de terreno.
        McDougall, em seu livro sobre The Group Mind (A Mente Grupal) (1920a), parte da mesma contradio que acabou de ser mencionada, e encontra uma soluo para 
ela no fato da organizao. No caso mais simples, diz ele, o 'grupo' no possui organizao alguma, ou uma que mal merece esse nome. Descreve um grupo dessa espcie 
como sendo uma 'multido'. Admite, porm, que uma multido de seres humanos dificilmente pode reunir-se sem possuir, pelo menos, os rudimentos de uma organizao, 
e que, precisamente nesses grupos simples, certos fatos fundamentais da psicologia coletiva podem ser observados com facilidade especial (McDougall, 1920a, 22). 
Antes que os membros de uma multido ocasional de pessoas possam constituir algo semelhante a um grupo no sentido psicolgico, uma condio tem de ser satisfeita: 
esses indivduos devem ter algo em comum uns com os outros, um interesse comum num objeto, uma inclinao emocional semelhante numa situao ou noutra e ('conseqentemente', 
gostaria eu de interpolar) 'certo grau de influncia recproca' (ibid., 23). Quanto mais alto o grau dessa 'homogeneidade mental', mais prontamente os indivduos 
constituem um grupo psicolgico e mais notveis so as manifestaes da mente grupal.
        O resultado mais notvel e tambm o mais importante da formao de um grupo  a 'exaltao ou intensificao de emoo' produzida em cada membro dele (ibid., 
24). Segundo McDougall, num grupo as emoes dos homens so excitadas at um grau que elas raramente ou nunca atingem sob outras condies, e constitui experincia 
agradvel para os interessados entregar-se to irrestritamente s suas paixes, e assim fundirem-se no grupo e perderem o senso dos limites de sua individualidade. 
A maneira pela qual os indivduos so assim arrastados por um impulso comum  explicada por McDougall atravs do que chama de 'princpio da induo direta da emoo 
por via da reao simptica primitiva' (ibid., 25), ou seja, atravs do contgio emocional com que j estamos familiarizados. O fato  que a percepo dos sinais 
de um estado emocional  automaticamente talhada para despertar a mesma emoo na pessoa que os percebe. Quanto maior for o nmero de pessoas em que a mesma emoo 
possa ser simultaneamente observada, mais intensamente cresce essa compulso automtica. O indivduo perde seu poder de crtica e deixa-se deslizar para a mesma 
emoo. Mas, ao assim proceder, aumenta a excitao das outras pessoas que produziram esse resultado nele, e assim a carga emocional dos indivduos se intensifica 
por interao mtua. Acha-se inequivocamente em ao algo da natureza de uma compulso a fazer o mesmo que os outros, a permanecer em harmonia com a maioria. Quanto 
mais grosseiros e simples so os impulsos emocionais, mais aptos se encontram a propagar-se dessa maneira atravs de um grupo (ibid., 39).
        Esse mecanismo de intensificao da emoo  favorecido por algumas outras influncias que emanam dos grupos. Um grupo impressiona um indivduo como sendo 
um poder ilimitado e um perigo insupervel. Momentaneamente, ele substitui toda a sociedade humana, que  a detentora da autoridade, cujos castigos o indivduo teme 
e em cujo benefcio se submeteu a tantas inibies. -lhe claramente perigoso colocar-se em oposio a ele, e ser mais seguro seguir o exemplo dos que o cercam, 
e talvez mesmo 'caar com a matilha'. Em obedincia  nova autoridade, pode colocar sua antiga 'conscincia' fora de ao e entregar-se  atrao do prazer aumentado, 
que  certamente obtido com o afastamento das inibies. No todo, portanto, no  to notvel que vejamos um indivduo num grupo fazendo ou aprovando coisas que 
teria evitado nas condies normais de vida, e assim podemos mesmo esperar esclarecer um pouco da obscuridade to freqentemente coberta pela enigmtica palavra 
'sugesto'.
        McDougall no discute a tese relativa  inibio coletiva da inteligncia nos grupos (ibid., 41). Diz que as mentes de inteligncia inferior fazem com que 
as de ordem mais elevada desam a seu prprio nvel. Estas ltimas so obstrudas em sua atividade, porque em geral a intensificao da emoo cria condies desfavorveis 
para o trabalho intelectual correto, e, ademais, porque os indivduos so intimidados pelo grupo e sua atividade mental no se acha livre, bem como porque h uma 
reduo, em cada indivduo, de seu senso de responsabilidade por seus prprios desempenhos.
        O juzo com que McDougall resume o comportamento psicolgico de um grupo 'no organizado' simples no  mais amistoso do que o de Le Bon. Tal grupo ' excessivamente 
emocional, impulsivo, violento, inconstante, contraditrio e extremado em sua ao, apresentando apenas as emoes rudes e os sentimentos menos refinados; extremamente 
sugestionvel, descuidado nas deliberaes, apressado nos julgamentos, incapaz de qualquer forma que no seja a mais simples e imperfeita das formas de raciocnio; 
facilmente influenciado e levado, desprovido de autoconscincia, despido de auto-respeito e de senso de responsabilidade, e apto a ser conduzido pela conscincia 
de sua prpria fora, de maneira que tende a produzir todas as manifestaes que aprendemos a esperar de qualquer poder irresponsvel e absoluto. Da seu comportamento 
assemelhar-se mais ao de uma criana indisciplinada ou de um selvagem passional e desassistido numa situao estranha, do que ao de seu membro mdio, e, nos piores 
casos, ser mais semelhante ao de um animal selvagem que ao de seres humanos.' (Ibid., 45).
        De uma vez que McDougall contrasta o comportamento de um grupo altamente organizado com o que acabou de ser descrito, estaremos particularmente interessados 
em saber no que essa organizao consiste e por que fatores  produzida. O autor enumera cinco 'condies principais' para a elevao da vida mental coletiva a um 
nvel mais alto.
        A primeira e fundamental condio  que haja certo grau de continuidade de existncia no grupo. Esta pode ser material ou formal: material, se os mesmos 
indivduos persistem no grupo por certo tempo, e formal, se se desenvolveu dentro do grupo um sistema de posies fixas que so ocupadas por uma sucesso de indivduos.
        A segunda condio  que em cada membro do grupo se forme alguma idia definida da natureza, composio, funes e capacidades do grupo, de maneira que, 
a partir disso, possa desenvolver uma relao emocional com o grupo como um todo.
        A terceira  que o grupo deva ser colocado em interao (talvez sob a forma de rivalidade) com outros grupos semelhantes, mas que dele difiram em muitos 
aspectos.
        A quarta  que o grupo possua tradies, costumes e hbitos, especialmente tradies, costumes e hbitos tais, que determinem a relao de seus membros uns 
com os outros.
        A quinta  que o grupo tenha estrutura definida, expressa na especializao e diferenciao das funes de seus constituintes.
        De acordo com McDougall, se essas condies forem satisfeitas, afastam-se as desvantagens psicolgicas das formaes de grupo. A reduo coletiva da capacidade 
intelectual  evitada retirando-se do grupo o desempenho das tarefas intelectuais e reservando-as para alguns membros dele.
        Parece-nos que a condio que McDougall designa como sendo a 'organizao' de um grupo pode, mais justificadamente, ser descrita de outra maneira. O problema 
consiste em saber como conseguir para o grupo exatamente aqueles aspectos que eram caractersticos do indivduo e nele se extinguiram pela formao do grupo, pois 
o indivduo, fora do grupo primitivo, possua sua prpria continuidade, sua autoconscincia, suas tradies e seus costumes, suas prprias e particulares funes 
e posies, e mantinha-se apartado de seus rivais. Devido  sua entrada num grupo 'inorganizado', perdeu essa distintividade por certo tempo. Se assim reconhecemos 
que o objetivo  aparelhar o grupo com os atributos do indivduo, lembrar-nos-emos de uma valiosa observao de Trotter, no sentido de que a tendncia para a formao 
de grupos , biologicamente, uma continuao do carter multicelular de todos os organismos superiores.

         IV - SUGESTO E LIBIDO

        Partimos do fato fundamental de que o indivduo num grupo est sujeito, atravs da influncia deste, ao que com freqncia constitui profunda alterao em 
sua atividade mental. Sua submisso  emoo torna-se extraordinariamente intensificada, enquanto que sua capacidade intelectual  acentuadamente reduzida, com ambos 
os processos evidentemente dirigindo-se para uma aproximao com os outros indivduos do grupo; e esse resultado s pode ser alcanado pela remoo daquelas inibies 
aos instintos que so peculiares a cada indivduo, e pela resignao deste quelas expresses de inclinaes que so especialmente suas. Aprendemos que essas conseqncias, 
amide importunas, so, at certo ponto pelo menos, evitadas por uma 'organizao' superior do grupo, mas isto no contradiz o fato fundamental da psicologia de 
grupo: as duas teses relativas  intensificao das emoes e  inibio do intelecto nos grupos primitivos. Nosso interesse dirige-se agora para a descoberta da 
explicao psicolgica dessa alterao mental que  experimentada pelo indivduo num grupo.
         claro que fatores racionais (tais como a intimidao do indivduo que j foi mencionada, ou seja, a ao de seu instinto de autopreservao) no abrangem 
os fenmenos observveis. Alm disso, o que nos  oferecido como explicao por autoridade em sociologia e psicologia de grupo  sempre a mesma coisa, embora receba 
diversos nomes: a palavra mgica 'sugesto'. Tarde [1890] chama-a de 'imitao', mas no podemos deixar de concordar com um escritor que protesta que a imitao 
se subordina ao conceito de sugesto, sendo, na realidade, um de seus resultados (Brugeilles, 1913). Le Bon faz com que a origem de todas as enigmticas caractersticas 
dos fenmenos sociais remonte a dois fatores: a sugesto mtua dos indivduos e o prestgio dos lderes. Contudo, mais uma vez, o prestgio s  reconhecvel por 
sua capacidade de evocar a sugesto. McDougall por um momento nos d a impresso de que seu princpio da 'induo primitiva de emoo' pode permitir-nos passar sem 
a suposio da sugesto. Numa considerao mais detida, porm, somos forados a perceber que esse princpio no faz mais do que as familiares afirmativas sobre 'imitao' 
ou 'contgio', exceto pela decidida nfase dada ao fator emocional. No h dvida de que existe algo em ns que, quando nos damos conta de sinais de emoo em algum 
mais, tende a fazer-nos cair na mesma emoo; contudo, quo amide no nos opomos com sucesso a isso, resistimos  emoo e reagimos de maneira inteiramente contrria? 
Por que, portanto, invariavelmente cedemos a esse contgio quando nos encontramos num grupo? Mais uma vez teramos de dizer que o que nos compele a obedecer a essa 
tendncia  a imitao, e o que induz a emoo em ns  a influncia sugestiva do grupo. Ademais, inteiramente  parte disso, McDougall no nos permite escapar  
sugesto; aprendemos com ele, bem como com outros autores, que os grupos se distinguem por sua especial sugestionabilidade.
        Estaremos assim preparados para a assertiva de que a sugesto (ou, mais corretamente, a sugestionabilidade)  na realidade um fenmeno irredutvel e primitivo, 
um fato fundamental na vida mental do homem. Essa tambm era a opinio de Bernheim, de cuja espantosa arte fui testemunha em 1889. Posso, porm, lembrar-me de que 
mesmo ento sentia uma hostilidade surda contra essa tirania da sugesto. Quando um paciente que no se mostrava dcil enfrentava o grito: 'Mas o que est fazendo? 
Vou vous contre-suggestionnez!', eu dizia a mim mesmo que isso era uma injustia evidente e um ato de violncia, porque o homem certamente tinha direito a contra-sugestes, 
se estavam tentando domin-lo com sugestes. Mais tarde, minha resistncia tomou o sentido de protestar contra a opinio de que a prpria sugesto, que explicava 
tudo, era isenta de explicao. Pensando nisso, eu repetia a velha adivinhao:

Christoph trug Christum,
Christus trug die ganze Welt,
Sag' wo hat Christoph
Damals hin den Fuss gestellt?


Christophorus Christum, sed Christus sustulit orbem:
Constiterit pedibus dic ubi Christophorus?


        Agora que mais uma vez abordo o enigma da sugesto, depois que me mantive afastado dele por cerca de trinta anos, descubro que no houve mudana na situao. 
(H uma exceo a ser feita a essa afirmativa, exceo que d testemunho exatamente da influncia da psicanlise.) Observo que esforos particulares esto sendo 
efetuados para formular corretamente o conceito de sugesto, isto , fixar o emprego convencional do nome (por exemplo, McDougall, 1920b). E isso de maneira alguma 
 suprfluo, porque a palavra est adquirindo uso casa vez mais impreciso [em alemo] e cedo vir a designar uma espcie de influncia, por qualquer que seja, tal 
como acontece em ingls, em que 'sugerir' e 'sugesto' correspondem aos nossos nahelegen e Anregung. Entretanto, no houve explicao da natureza da sugesto, ou 
seja, das condies sob as quais a influncia sem fundamento lgico e adequado se realiza. Eu no fugiria  tarefa de sustentar aquela afirmativa por uma anlise 
da literatura dos ltimos trinta anos, se no me achasse ciente de que est sendo empreendida, muito prximo, uma exaustiva investigao que tem por objetivo a realizao 
dessa mesma tarefa.
        Em vez disso, tentarei utilizar o conceito de libido, que nos prestou bons servios no estudo das psiconeuroses, a fim de lanar luz sobre a psicologia de 
grupo.
        Libido  expresso extrada da teoria das emoes. Damos esse nome  energia, considerada como uma magnitude quantitativa (embora na realidade no seja presentemente 
mensurvel), daqueles instintos que tm a ver com tudo o que pode ser abrangido sob a palavra 'amor'. O ncleo do que queremos significar por amor consiste naturalmente 
(e  isso que comumente  chamado de amor e que os poetas cantam) no amor sexual, com a unio sexual como objetivo. Mas no isolamos disso - que, em qualquer caso, 
tem sua parte no nome 'amor' -, por um lado, o amor prprio, e, por outro, o amor pelos pais e pelos filhos, a amizade e o amor pela humanidade em geral, bem como 
a devoo a objetos concretos e a idias abstratas. Nossa justificativa reside no fato de que a pesquisa psicanaltica nos ensinou que todas essas tendncias constituem 
expresso dos mesmos impulsos instintuais; nas relaes entre os sexos, esses impulsos foram seu caminho no sentido da unio sexual, mas, em outras circunstncias, 
so desviados desse objetivo ou impedidos de atingi-lo, embora sempre conservem o bastante de sua natureza original para manter reconhecvel sua identidade (como 
em caractersticas tais como o anseio de proximidade e o auto-sacrifcio).
        Somos de opinio, pois, que a linguagem efetuou uma unificao inteiramente justificvel ao criar a palavra 'amor' com seus numerosos usos, e que no podemos 
fazer nada melhor seno tom-la tambm como base de nossas discusses e exposies cientficas. Por chegar a essa deciso, a psicanlise desencadeou uma tormenta 
de indignao, como se fosse culpada de um ato de ultrajante inovao. Contudo, no fez nada de original em tomar o amor nesse sentido 'mais amplo'. Em sua origem, 
funo e relao com o amor sexual, o 'Eros' do filsofo Plato coincide exatamente com a fora amorosa, a libido da psicanlise, tal como foi pormenorizadamente 
demonstrado por Nachmansohn (1915) e Pfister (1921), e, quando o apstolo Paulo, em sua famosa Epstola aos Corntios, louva o amor sobre tudo o mais, certamente 
o entende no mesmo sentido 'mais amplo'. Mas isso apenas demonstra que os homens nem sempre levam a srio seus grandes pensadores, mesmo quando mais professam admir-los.
        A psicanlise, portanto, d a esses instintos amorosos o nome de instintos sexuais, a potiori e em razo de sua origem. A maioria das pessoas 'instrudas' 
encarou essa nomenclatura como um insulto e fez sua vingana retribuindo  psicanlise a pecha de 'pansexualismo'. Qualquer pessoa que considere o sexo como algo 
mortificante e humilhante para a natureza humana est livre para empregar as expresses mais polidas 'Eros' e 'ertico'. Eu poderia ter procedido assim desde o comeo 
e me teria poupado muita oposio. Mas no quis faz-lo, porque me apraz evitar fazer concesses  pusilanimidade. Nunca se pode dizer at onde esse caminho nos 
levar; cede-se primeiro em palavras e depois, pouco a pouco, em substncia tambm. No posso ver mrito algum em se ter vergonha do sexo; a palavra grega 'Eros', 
destinada a suavizar a afronta, ao final nada mais  do que traduo de nossa palavra alem Liebe [amor], e finalmente, aquele que sabe esperar no precisa de fazer 
concesses.
        Tentaremos nossa sorte, ento, com a suposio de que as relaes amorosas (ou, para empregar expresso mais neutra, os laos emocionais) constituem tambm 
a essncia da mente grupal. Recordemos que as autoridades no fazem meno a nenhuma dessas relaes. Aquilo que lhes corresponderia est evidentemente oculto por 
detrs do abrigo, do biombo da sugesto. Em primeira instncia, nossa hiptese encontra apoio em duas reflexes de rotina. Primeiro, a de que um grupo  claramente 
mantido unido por um poder de alguma espcie; e a que poder poderia essa faanha ser mais bem atribuda do que a Eros, que mantm unido tudo o que existe no mundo? 
Segundo, a de que, se um indivduo abandona a sua distintividade num grupo e permite que seus outros membros o influenciem por sugesto, isso nos d a impresso 
de que o faz por sentir necessidade de estar em harmonia com eles, de preferncia a estar em oposio a eles, de maneira que, afinal de contas, talvez o faa 'ihnen 
zu Liebe'.

         V - DOIS GRUPOS ARTIFICIAIS: A IGREJA E O EXRCITO

        Daquilo que sabemos sobre a morfologia dos grupos podemos recordar que  possvel distinguir tipos muito diferentes de grupos e linhas opostas em seu desenvolvimento. 
H grupos muito efmeros e outros extremamente duradouros; grupos homogneos, constitudos pelos mesmos tipos de indivduos, e grupos no homogneos; grupos naturais 
e grupos artificiais, que exigem uma fora externa para mant-los reunidos; grupos primitivos e grupos altamente organizados, com estrutura definida. Entretanto, 
por razes ainda no explicadas, gostaramos de dar nfase especial a uma distino a que os que escreveram sobre o assunto, inclinaram-se a conceder muito pouca 
ateno; refiro-me  distino existente entre grupos sem lderes e grupos com lderes. E, em completa oposio  prtica costumeira, no escolherei, como nosso 
ponto de partida, uma formao de grupo relativamente simples, mas comearei por grupos altamente organizados, permanentes e artificiais. Os mais interessantes exemplos 
de tais estruturas so as Igrejas - comunidades de crentes - e os exrcitos.
        Uma Igreja e um exrcito so grupos artificiais, isto , uma certa fora externa  empregada para impedi-los de desagregar-se e para evitar alteraes em 
sua estrutura. Via de regra, a pessoa no  consultada ou no tem escolha sobre se deseja ou no ingressar em tal grupo; qualquer tentativa de abandon-lo se defronta 
geralmente com a perseguio ou severas punies, ou possui condies inteiramente definidas a ela ligadas. Acha-se inteiramente fora de nosso interesse atual indagar 
a razo por que essas associaes precisam de tais salvaguardas especiais. Somos atrados apenas por uma circunstncia, a saber, a de que certos fatos, muito mais 
ocultos em outros casos, podem ser observados de modo bastante claro nesses grupos altamente organizados, que so protegidos da dissoluo pela maneira j mencionada.Numa 
Igreja (e podemos com proveito tomar a Igreja Catlica como exemplo tpico), bem como num exrcito, por mais diferentes que ambos possam ser em outros aspectos, 
prevalece a mesma iluso de que h um cabea - na Igreja Catlica, Cristo; num exrcito, o comandante-chefe - que ama todos os indivduos do grupo com um amor igual. 
Tudo depende dessa iluso; se ela tivesse de ser abandonada, ento tanto a Igreja quanto o exrcito se dissolveriam, at onde a fora externa lhes permitisse faz-lo. 
Esse amor igual foi expressamente enunciado por Cristo: 'Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmos, a mim o fizestes.' Ele coloca-se, para cada membro 
do grupo de crentes, na relao de um bondoso irmo mais velho;  seu pai substituto. Todas as exigncias feitas ao indivduo derivam desse amor de Cristo. Um trao 
democrtico perpassa pela Igreja, pela prpria razo de que, perante Cristo, todos so iguais e todos possuem parte igual de seu amor. No  sem profunda razo que 
se invoca a semelhana entre a comunidade crist e uma famlia, e que os crentes chamam-se a si mesmos de irmos em Cristo, isto , irmos atravs do amor que Cristo 
tem por eles. No h dvida de que o lao que une cada indivduo a Cristo  tambm a causa do lao que os une uns aos outros. A mesma coisa se aplica a um exrcito. 
O comandante-chefe  um pai que ama todos os soldados igualmente e, por essa razo, eles so camaradas entre si. O exrcito difere estruturalmente da Igreja por 
compor-se de uma srie de tais grupos. Todo capito , por assim dizer, o comandante-chefe e o pai de sua companhia, e assim tambm todo oficial inferior o de sua 
unidade.  verdade que uma hierarquia semelhante foi construda na Igreja; contudo, no desempenha nela, economicamente, o mesmo papel, pois um maior conhecimento 
e cuidado quanto aos indivduos pode ser atribudo a Cristo, mas no a um comandante-chefe humano.
        Levantar-se- justificadamente uma objeo contra essa concepo da estrutura libidinal de um exrcito, com base no fato de nela no se ter encontrado lugar 
para idias como as do prprio pas, da glria nacional etc., de tanta importncia para manter unido um exrcito. A resposta  que esse  um caso diferente de lao 
grupal, e no mais um lao simples, porque os exemplos dos grandes generais, como Csar, Wallenstein, ou Napoleo, mostram que tais idias no so indispensveis 
 existncia de um exrcito. Tocaremos dentro em pouco na possibilidade de um lder ser substitudo por uma idia dominante, e nas relaes entre ambos. Parece que 
o desprezo desse fator libidinal num exrcito, mesmo quando no constitui o nico fator em atuao, no  apenas uma omisso terica, mas tambm um perigo prtico. 
O militarismo prussiano, que era exatamente to carente de psicologia quanto a cincia alem, pode ter sofrido as conseqncias disso na [primeira] Guerra Mundial. 
Sabemos que as neuroses de guerra que assolaram o exrcito alemo foram identificadas como sendo um protesto do indivduo contra o papel que se esperava que ele 
desempenhasse no exrcito, e, de acordo com a comunicao de Simmel (1918), o duro tratamento dos soldados pelos seus superiores pode ser considerado como a principal 
entre as foras motivadoras da molstia. Se a importncia das reivindicaes da libido no tocante a isso houvesse sido mais bem apreciada, provavelmente no se teria 
acreditado to facilmente nas fantsticas promessas dos Quatorze Pontos do presidente americano, e o esplndido instrumento no se teria rompido nas mos dos lderes 
alemes.
         de notar que nesses dois grupos artificiais, cada indivduo est ligado por laos libidinais por um lado ao lder (Cristo, o comandante-chefe) e por outro 
aos demais membros do grupo. Como esses dois laos se relacionam, se so da mesma espcie e do mesmo valor, e como devem ser descritos psicologicamente, constituem 
questes que devemos reservar para investigao subseqente. Mas, j agora, nos aventuraremos a fazer uma leve censura contra os escritores anteriores, por no terem 
apreciado suficientemente a importncia do lder na psicologia de grupo, enquanto que nossa prpria escolha disso como primeiro tema de investigao nos colocou 
numa posio mais favorvel. Pareceria que nos achamos no caminho certo para uma explicao do principal fenmeno da psicologia de grupo: a falta de liberdade do 
indivduo num grupo. Se cada indivduo est preso em duas direes por um lao emocional to intenso, no encontraremos dificuldade em atribuir a essa circunstncia 
a alterao e a limitao que foram observadas em sua personalidade.
        Uma sugesto no mesmo sentido, a de que a essncia de um grupo reside nos laos libidinais que nele existem, pode tambm ser encontrada no fenmeno do pnico, 
que se acha mais bem estudado nos grupos militares. Surge o pnico se um grupo desse tipo se desintegra. Suas caractersticas so a de que as ordens dadas pelos 
superiores no so mais atendidas e a de que cada indivduo se preocupa apenas consigo prprio, sem qualquer considerao pelos outros. Os laos mtuos deixaram 
de existir e libera-se um medo gigantesco e insensato. Nesse ponto, mais uma vez, far-se- naturalmente a objeo de que ocorre antes exatamente o contrrio, e a 
de que o medo tornou-se grande a ponto de poder desprezar todos os laos e todos os sentimentos de considerao pelos outros. McDougall (1920a, 24) chegou mesmo 
a utilizar o pnico (embora no o pnico militar) como exemplo tpico daquela intensificao da emoo pelo contgio ('induo primria') a que d tanta nfase. 
No obstante, porm, esse mtodo racional de explicao  aqui inteiramente inadequado. A prpria questo que necessita de explicao  saber por que o medo se torna 
to gigantesco. A magnitude do perigo no pode ser a responsvel, porque o mesmo exrcito que agora tomba vtima de pnico pode anteriormente ter enfrentado perigos 
iguais ou maiores com sucesso total; pertence  prpria essncia do pnico no apresentar relao com o perigo que ameaa, e irromper freqentemente nas ocasies 
mais triviais. Se um indivduo com medo pnico comea a se preocupar apenas consigo prprio, d testemunho, ao faz-lo, do fato de que os laos emocionais, que at 
ento haviam feito o perigo parecer-lhe mnimo, cessaram de existir. Agora que est sozinho, a enfrentar o perigo, pode certamente ach-lo maior. Dessa maneira, 
o fato  que o medo pnico pressupe relaxamento na estrutura libidinal do grupo e reage a esse relaxamento de maneira justificvel, e que a conceituao contrria, 
ou seja, a de que os laos libidinais do grupo so destrudos devido ao medo em face do perigo, pode ser refutada.
        A afirmativa de que o medo num grupo  aumentado em propores enormes atravs da induo (contgio), de modo algum  contraditada por essas observaes. 
A conceituao de McDougall atende completamente ao caso quando o perigo  realmente grande e o grupo no possui fortes laos emocionais, condies que so preenchidas, 
por exemplo, quando irrompe um incndio num teatro ou numa casa de diverses. Mas o caso verdadeiro instrutivo e que pode ser mais bem empregado para nossos fins 
 o mencionado acima, no qual um corpo de tropa irrompe em pnico, embora o perigo no tenha aumentado alm de um grau que  costumeiro e que anteriormente j foi 
amide enfrentado. No  de esperar que o uso da palavra 'pnico' seja claro e determinado sem ambigidade. s vezes ela  utilizada para descrever qualquer medo 
coletivo, outras at mesmo o medo no indivduo quando ele excede todos os limites, e, com freqncia, a palavra parece reservada para os casos em que a irrupo 
do medo no  justificada pela ocasio. Tomando a palavra 'pnico' no sentido de medo coletivo, podemos estabelecer uma analogia de grandes conseqncias. No indivduo 
o medo  provocado seja pela magnitude de um perigo, seja pela cessao dos laos emocionais (catexias libidinais); este ltimo  o caso do medo neurtico ou ansiedade. 
Exatamente da mesma maneira, o pnico surge, seja devido a um aumento do perigo comum, seja ao desaparecimento dos laos emocionais que mantm unido o grupo, e esse 
ltimo caso  anlogo ao da ansiedade neurtica.
        Qualquer pessoa que, como McDougall (1920), descreva o pnico como uma das funes mais claras da 'mente grupal', chega  posio paradoxal de que essa mente 
grupal se extingue numa de suas mais notveis manifestaes.  impossvel duvidar de que o pnico signifique a desintegrao de um grupo; ele envolve a cessao 
de todos os sentimentos de considerao que os membros do grupo, sob outros aspectos, mostram uns para com os outros.
        A ocasio tpica da irrupo de pnico assemelha-se muito  que  representada na pardia de Nestroy, da pea de Hebbel, sobre Judite e Holofernes. Um soldado 
brada: 'O general perdeu a cabea!' e, imediatamente, todos os assrios empreendem a fuga. A perda do lder, num sentido ou noutro, o nascimento de suspeitas sobre 
ele, trazem a irrupo do pnico, embora o perigo permanea o mesmo; os laos mtuos entre os membros do grupo via de regra desaparecem ao mesmo tempo que o lao 
com seu lder. O grupo desvanece-se em poeira, como uma Gota do Prncipe Rupert, quando uma de suas extremidades  partida.
        A dissoluo de um grupo religioso no  to fcil de observar. Pouco tempo atrs, caiu-me nas mos um romance ingls de origem catlica, recomendado pelo 
Bispo de Londres, com o ttulo When It Was Dark (Quando Estava Escuro). Esse romance fornecia um hbil e, segundo me pareceu, convincente relato de tal possibilidade 
e suas conseqncias. O romance, que pretende relacionar-se com os dias de hoje, conta como uma conspirao de inimigos da pessoa de Cristo e da f crist teve xito 
em conseguir que um sepulcro fosse descoberto em Jerusalm. Nesse sepulcro encontra-se uma inscrio em que Jos de Arimatia confessa que, por razes de piedade, 
retirou secretamente o corpo de Cristo de sua sepultura, no terceiro dia aps o sepultamento, e enterrou-o naquele lugar. A ressurreio de Cristo e sua natureza 
divina so dessa maneira refutadas e o resultado da descoberta arqueolgica  uma convulso na civilizao europia e um extraordinrio aumento em todos os crimes 
e atos de violncia, os quais s cessam quando a conspirao dos falsificadores  revelada.
        O fenmeno que acompanha a dissoluo que aqui se supe dominar um grupo religioso, no  o medo, para o qual falta a ocasio. Em vez dele, impulsos cruis 
e hostis para com outras pessoas fazem seu aparecimento, impulsos que, devido ao amor equnime de Cristo, haviam sido anteriormente incapazes de faz-lo. Mas, mesmo 
durante o reino de Cristo, aqueles que no pertencem  comunidade de crentes, que no o amam e a quem ele no ama, permanecem fora de tal lao. Desse modo, uma religio, 
mesmo que se chame a si mesma de religio do amor, tem de ser dura e inclemente para com aqueles que a ela no pertencem. Fundamentalmente, na verdade, toda religio 
, dessa mesma maneira, uma religio de amor para todos aqueles a quem abrange, ao passo que a crueldade e a intolerncia para com os que no lhes pertencem, so 
naturais a todas as religies. Por mais difcil que possamos ach-lo pessoalmente, no devemos censurar os crentes severamente demais por causa disso; as pessoas 
que so descrentes ou indiferentes esto psicologicamente em situao muito melhor nessa questo [da crueldade e da intolerncia]. Se hoje a intolerncia no mais 
se apresenta to violenta e cruel como em sculos anteriores, dificilmente podemos concluir que ocorreu uma suavizao nos costumes humanos. A causa deve ser antes 
achada no inegvel enfraquecimento dos sentimentos religiosos e dos laos libidinais que deles dependem. Se outro lao grupal tomar o lugar do religioso - e o socialista 
parece estar obtendo sucesso em conseguir isso -, haver ento a mesma intolerncia para com os profanos que ocorreu na poca das Guerras de Religio, e, se diferenas 
entre opinies cientficas chegassem um dia a atingir uma significao semelhante para grupos, o mesmo resultado se repetiria mais uma vez com essa nova motivao.



         VI - OUTROS PROBLEMAS E LINHAS DE TRABALHO

        At aqui consideramos dois grupos artificiais e descobrimos que ambos so dominados por laos emocionais de dois tipos. Um destes, o lao com o lder, parece 
(pelo menos para esses casos) ser um fator mais dominante do que o outro, que  mantido entre os membros do grupo.
        Ora, muito mais resta a ser examinado e descrito na morfologia dos grupos. Teremos de partir do fato verificado segundo o qual uma simples reunio de pessoas 
no constitui um grupo enquanto esses laos no se tiverem estabelecido nele; teremos, porm, de admitir que em qualquer reunio de pessoas a tendncia a formar 
um grupo psicolgico pode muito facilmente vir  tona. Teremos de conceder ateno aos diferentes tipos de grupos, mais ou menos estveis, que surgem espontaneamente, 
e estudar as condies de sua origem e dissoluo. Teremos de nos interessar, acima de tudo, pela distino existente entre os grupos que possuem um lder e os grupos 
sem lder. Teremos de considerar se os grupos com lderes talvez no sejam os mais primitivos e completos, se nos outros uma idia, uma abstrao, no pode tomar 
o lugar do lder (estado de coisas para o qual os grupos religiosos, com seu chefe invisvel, constituem etapa transitria), e se uma tendncia comum, um desejo, 
em que certo nmero de pessoas tenha uma parte, no poder, da mesma maneira, servir de sucedneo. Essa abstrao, ainda, poder achar-se mais ou menos completamente 
corporificada na figura do que poderamos chamar de lder secundrio, e interessantes variaes surgiriam da relao entre a idia e o lder. O lder ou a idia 
dominante poderiam tambm, por assim dizer, ser negativos; o dio contra uma determinada pessoa ou instituio poderia funcionar exatamente da mesma maneira unificadora 
e evocar o mesmo tipo de laos emocionais que a ligao positiva. Surgiria ento a questo de saber se o lder  realmente indispensvel  essncia de um grupo, 
e outras ainda, alm dessa.
        Contudo, todas essas questes, que podem, alm disso, ter sido apenas parcialmente tratadas na literatura sobre psicologia de grupo, no conseguiro desviar 
nosso interesse dos problemas psicolgicos fundamentais com que nos defrontamos na estrutura de um grupo. E nossa ateno ser atrada em primeiro lugar por uma 
considerao que promete levar-nos da maneira mais direta a uma prova de que os laos libidinais so o que caracteriza um grupo.
        Mantenhamos perante ns a natureza das relaes emocionais que existem entre os homens em geral. De acordo com o famoso smile schopenhaueriano dos porcos-espinhos 
que se congelam, nenhum deles pode tolerar uma aproximao demasiado ntima com o prximo.
        As provas da psicanlise demonstram que quase toda relao emocional ntima entre duas pessoas que perdura por certo tempo - casamento, amizade, as relaes 
entre pais e filhos - contm um sedimento de sentimentos de averso e hostilidade, o qual s escapa  percepo em conseqncia da represso. Isso se acha menos 
disfarado nas altercaes comuns entre scios comerciais ou nos resmungos de um subordinado em relao a seu superior. A mesma coisa acontece quando os homens se 
renem em unidades maiores. Cada vez que duas famlias se vinculam por matrimnio, cada uma delas se julga superior ou de melhor nascimento do que a outra. De duas 
cidades vizinhas, cada uma  a mais ciumenta rival da outra; cada pequeno canto encara os outros com desprezo. Raas estreitamente aparentadas mantm-se a certa 
distncia uma da outra: o alemo do sul no pode suportar o alemo setentrional, o ingls lana todo tipo de calnias sobre o escocs, o espanhol despreza o portugus. 
No ficamos mais espantados que diferenas maiores conduzam a uma repugnncia quase insupervel, tal como a que o povo gauls sente pelo alemo, o ariano pelo semita 
e as raas brancas pelos povos de cor.
        Quando essa hostilidade se dirige contra pessoas que de outra maneira so amadas, descrevemo-la como ambivalncia de sentimentos e explicamos o fato, provavelmente 
de maneira demasiadamente racional, por meio das numerosas ocasies para conflitos de interesse que surgem precisamente em tais relaes mais prximas. Nas antipatias 
e averses indisfaradas que as pessoas sentem por estranhos com quem tm de tratar, podemos identificar a expresso do amor a si mesmo, do narcisismo. Esse amor 
a si mesmo trabalha para a preservao do indivduo e comporta-se como se a ocorrncia de qualquer divergncia de suas prprias linhas especficas de desenvolvimento 
envolvesse uma crtica delas e uma exigncia de sua alterao. No sabemos por que tal sensitividade deva dirigir-se exatamente a esses pormenores de diferenciao, 
mas  inequvoco que, com relao a tudo isso, os homens do provas de uma presteza a odiar, de uma agressividade cuja fonte  desconhecida, e  qual se fica tentado 
a atribuir um carter elementar.
        Mas, quando um grupo se forma, a totalidade dessa intolerncia se desvanece, temporria ou permanentemente, dentro do grupo. Enquanto uma formao de grupo 
persiste ou at onde ela se estende, os indivduos do grupo comportam-se como se fossem uniformes, toleram as peculiaridades de seus outros membros, igualam-se a 
eles e no sentem averso por eles. Uma tal limitao do narcisismo, de acordo com nossas conceituaes tericas, s pode ser produzida por um determinado fator, 
um lao libidinal com outras pessoas. O amor por si mesmo s conhece uma barreira: o amor pelos outros, o amor por objetos. Levantar-se- imediatamente a questo 
de saber se a comunidade de interesse em si prpria, sem qualquer adio de libido, no deve necessariamente conduzir  tolerncia das outras pessoas e  considerao 
para com elas. Essa objeo pode ser enfrentada pela resposta de que, no obstante, nenhuma limitao duradoura do narcisismo  efetuada dessa maneira, visto que 
essa tolerncia no persiste por mais tempo do que o lucro imediato obtido pela colaborao de outras pessoas. Contudo, a importncia prtica desse debate  menor 
do que se poderia supor, porque a experincia demonstrou que, nos casos de colaborao, se formam regularmente laos libidinais entre os companheiros de trabalho, 
laos que prolongam e solidificam a relao entre eles at um ponto alm do que  simplesmente lucrativo. A mesma coisa ocorre nas relaes sociais dos homens, como 
se tornou familiar  pesquisa psicanaltica no decurso do desenvolvimento da libido individual. A libido se liga  satisfao das grandes necessidades vitais e escolhe 
como seus primeiros objetos as pessoas que tm uma parte nesse processo. E, no desenvolvimento da humanidade como um todo, do mesmo modo que nos indivduos, s o 
amor atua como fator civilizador, no sentido de ocasionar a modificao do egosmo em altrusmo. E isso  verdade tanto do amor sexual pelas mulheres, com todas 
as obrigaes que envolve de no causar dano s coisas que so caras s mulheres, quanto do amor homossexual, dessexualizado e sublimado, por outros homens, que 
se origina do trabalho em comum.
        Se assim, nos grupos, o amor a si mesmo narcisista est sujeito a limitaes que no atuam fora deles, isso  prova irresistvel de que a essncia de uma 
formao grupal consiste em novos tipos de laos libidinais entre os membros do grupo.
        Nosso interesse nos conduz agora  premente questo de saber qual possa ser a natureza desses laos que existem nos grupos. No estudo psicanaltico das neuroses, 
ocupamo-nos, at aqui, quase exclusivamente com os laos com objetos feitos pelos instintos amorosos que ainda perseguem objetivos diretamente sexuais. Nos grupos, 
evidentemente, no se pode falar de objetivos sexuais dessas espcies. Preocupamo-nos aqui com instintos amorosos que foram desviados de seus objetivos originais, 
embora no atuem com menor energia devido a isso. Ora, no mbito das habituais catexias sexuais de objeto, j observamos fenmenos que representam um desvio do instinto 
de seu objetivo sexual. Descrevemos esses fenmenos como gradaes do estado de estar amando e reconhecemos que elas envolvem certa usurpao do ego. Voltaremos 
agora mais de perto nossa ateno para esses fenmenos de estar enamorado ou amando, na firme expectativa de neles encontrar condies que possam ser transferidas 
para os laos existentes nos grupos. Mas gostaramos tambm de saber se esse tipo de catexia de objeto, tal como a conhecemos na vida sexual, representa a nica 
maneira de lao emocional com outras pessoas, ou se devemos levar em considerao outros mecanismos desse tipo. Na verdade, aprendemos da psicanlise que existem 
realmente outros mecanismos para os laos emocionais, as chamadas identificaes, processos insuficientemente conhecidos e difceis de descrever, cuja investigao 
nos manter afastados, por algum tempo, do tema da psicologia de grupo.

         VII - IDENTIFICAO

        A identificao  conhecida pela psicanlise como a mais remota expresso de um lao emocional com outra pessoa. Ela desempenha um papel na histria primitiva 
do complexo de dipo. Um menino mostrar interesse especial pelo pai; gostaria de crescer como ele, ser como ele e tomar seu lugar em tudo. Podemos simplesmente 
dizer que toma o pai como seu ideal. Este comportamento nada tem a ver com uma atitude passiva ou feminina em relao ao pai (ou aos indivduos do sexo masculino 
em geral); pelo contrrio,  tipicamente masculina. Combina-se muito bem com o complexo de dipo, cujo caminho ajuda a preparar.
        Ao mesmo tempo que essa identificao com o pai, ou pouco depois, o menino comea a desenvolver uma catexia de objeto verdadeira em relao  me, de acordo 
com o tipo [anacltico] de ligao. Apresenta ento, portanto, dois laos psicologicamente distintos: uma catexia de objeto sexual e direta para com a me e uma 
identificao com o pai que o toma como modelo. Ambos subsistem lado a lado durante certo tempo, sem qualquer influncia ou interferncia mtua. Em conseqncia 
do avano irresistvel no sentido de uma unificao da vida mental, eles acabam por reunir-se e o complexo de dipo normal origina-se de sua confluncia. O menino 
nota que o pai se coloca em seu caminho, em relao  me. Sua identificao com eles assume ento um colorido hostil e se identifica com o desejo de substitu-lo 
tambm em relao  me. A identificao, na verdade,  ambivalente desde o incio; pode tornar-se expresso de ternura com tanta facilidade quanto um desejo do 
afastamento de algum. Comporta-se como um derivado da primeira fase da organizao da libido, da fase oral, em que o objeto que prezamos e pelo qual ansiamos  
assimilado pela ingesto, sendo dessa maneira aniquilado como tal. O canibal, como sabemos, permaneceu nessa etapa; ele tem afeio devoradora por seus inimigos 
e s devora as pessoas de quem gosta.
        A histria subseqente dessa identificao com o pai pode facilmente perder-se de vista. Pode acontecer que o complexo de dipo se inverta e que o pai seja 
tomado como objeto de uma atitude feminina, objeto no qual os instintos diretamente sexuais buscam satisfao; nesse caso, a identificao com o pai torna-se a precursora 
de uma vinculao de objeto com ele. A mesma coisa tambm se aplica, com as substituies necessrias,  menina.
         fcil enunciar numa frmula a distino entre a identificao com o pai e a escolha deste como objeto. No primeiro caso, o pai  o que gostaramos de ser; 
no segundo, o que gostaramos de ter, ou seja, a distino depende de o lao se ligar ao sujeito ou ao objeto do ego. O primeiro tipo de lao, portanto, j  possvel 
antes que qualquer escolha sexual de objeto tenha sido feita.  muito mais difcil fornecer a representao metapsicolgica clara da distino. Podemos apenas ver 
que a identificao esfora-se por moldar o prprio ego de uma pessoa segundo o aspecto daquele que foi tomado como modelo.
        Desemaranhemos a identificao, tal como ocorre na estrutura de um sintoma neurtico, de suas conexes bastante complicadas. Suponhamos que uma menininha 
(e, no momento, nos ateremos a ela) desenvolve o mesmo penoso sintoma que sua me, a mesma tosse atormentadora, por exemplo. Isso pode ocorrer de diversas maneiras. 
A identificao pode provir do complexo de dipo; nesse caso, significa um desejo hostil, por parte da menina, de tomar o lugar da me, e o sintoma expressa seu 
amor objetal pelo pai, ocasionando realizao, sob a influncia do sentimento de culpa, de seu desejo de assumir o lugar da me: 'Voc queria ser sua me e agora 
voc a  - pelo menos, no que concerne a seus sofrimentos'. Esse  o mecanismo completo da estrutura de um sintoma histrico. Ou, por outro lado, o sintoma pode 
ser o mesmo que o da pessoa que  amada; assim, por exemplo, Dora imitava a tosse do pai. Nesse caso, s podemos descrever o estado de coisas dizendo que a identificao 
apareceu no lugar da escolha de objeto e que a escolha de objeto regrediu para a identificao. J aprendemos que a identificao constitui a forma mais primitiva 
e original do lao emocional; freqentemente acontece que, sob as condies em que os sintomas so construdos, ou seja, onde h represso e os mecanismos do inconsciente 
so dominantes, a escolha de objeto retroaja para a identificao: o ego assume as caractersticas do objeto.  de notar que, nessas identificaes, o ego s vezes 
copia a pessoa que no  amada e, outras, a que . Deve tambm causar-nos estranheza que em ambos os casos a identificao seja parcial e extremamente limitada, 
tomando emprestado apenas um trao isolado da pessoa que  objeto dela.
        Existe um terceiro caso, particularmente freqente e importante, de formao de sintomas, no qual a identificao deixa inteiramente fora de considerao 
qualquer relao de objeto com a pessoa que est sendo copiada. Suponha-se, por exemplo, que uma das moas de um internato receba de algum de quem est secretamente 
enamorada uma carta que lhe desperta cimes e que a ela reaja por uma crise de histeria. Ento, algumas de suas amigas que so conhecedoras do assunto pegaro a 
crise, por assim dizer, atravs de uma infeco mental. O mecanismo  o da identificao baseada na possibilidade ou desejo de colocar-se na mesma situao. As outras 
moas tambm gostariam de ter um caso amoroso secreto e, sob a influncia do sentimento de culpa, aceitam tambm o sofrimento envolvido nele. Seria errado supor 
que assumissem o sintoma por simpatia. Pelo contrrio, a simpatia s surge da identificao e isso  provado pelo fato de que uma infeco ou imitao desse tipo 
acontece em circunstncias em que  de presumir uma simpatia preexistente ainda menor do que a que costumeiramente existe entre amigas, numa escola para moas. Um 
determinado ego percebeu uma analogia significante com outro sobre certo ponto, em nosso exemplo sobre a receptividade a uma emoo semelhante. Uma identificao 
 logo aps construda sobre esse ponto e, sob a influncia da situao patognica, deslocada para o sintoma que o primeiro ego produziu. A identificao por meio 
do sintoma tornou-se assim o sinal de um ponto de coincidncia entre os dois egos, sinal que tem de ser mantido reprimido.
        O que aprendemos dessas trs fontes pode ser assim resumido: primeiro, a identificao constitui a forma original de lao emocional com um objeto; segundo, 
de maneira regressiva, ela se torna sucedneo para uma vinculao de objeto libidinal, por assim dizer, por meio de introjeo do objeto no ego; e, terceiro, pode 
surgir com qualquer nova percepo de uma qualidade comum partilhada com alguma outra pessoa que no  objeto de instinto sexual. Quanto mais importante essa qualidade 
comum , mais bem-sucedida pode tornar-se essa identificao parcial, podendo representar assim o incio de um novo lao.
        J comeamos a adivinhar que o lao mtuo existente entre os membros de um grupo  da natureza de uma identificao desse tipo, baseada numa importante qualidade 
emocional comum, e podemos suspeitar que essa qualidade comum reside na natureza do lao com o lder. Outra suspeita pode dizer-nos que estamos longe de haver exaurido 
o problema da identificao e que nos defrontamos com o processo que a psicologia chama de 'empatia' [Einfhlung] o qual desempenha o maior papel em nosso entendimento 
do que  inerentemente estranho ao nosso ego nas outras pessoas. Aqui, porm, teremos de nos limitar aos efeitos emocionais imediatos da identificao, e deixaremos 
de lado sua significao em nossa vida intelectual.
        A pesquisa psicanaltica, que j atacou ocasionalmente os mais difceis problemas das psicoses, tambm pde mostrar-nos a identificao em alguns outros 
casos que no so imediatamente compreensveis. Tratarei de dois deles em pormenor, como material para nossa considerao posterior.
        A gnese do homossexualismo masculino, em grande quantidade de casos,  a seguinte: um jovem esteve inusitadamente e por longo tempo fixado em sua me, no 
sentido do complexo de dipo. Finalmente, porm, aps o trmino da puberdade, chega a ocasio de trocar a me por algum outro objeto sexual. As coisas sofrem uma 
virada repentina: o jovem no abandona a me, mas identifica-se com ela; transforma-se e procura ento objetos que possam substituir o seu ego para ele, objetos 
aos quais possa conceder um amor e um carinho iguais aos que recebeu de sua me. Trata-se de processo freqente, que pode ser confirmado to amide quanto se queira, 
e que, naturalmente,  inteiramente independente de qualquer hiptese que se possa efetuar quanto  fora orgnica impulsora e aos motivos de repentina transformao. 
Uma coisa notvel sobre essa identificao  sua ampla escala; ela remolda o ego em um de seus mais importantes aspectos, em seu carter sexual, segundo o modelo 
do que at ento constitura o objeto. Neste processo, o objeto em si mesmo  renunciado, se inteiramente ou se no sentido de ser preservado apenas no inconsciente 
sendo uma questo que se acha fora do escopo do presente estudo. A identificao com um objeto que  renunciado ou perdido, como um sucedneo para esse objeto - 
introjeo dele no ego - no constitui verdadeiramente mais novidade para ns. Um processo dessa espcie pode s vezes ser diretamente observado em crianas pequenas. 
H pouco tempo atrs uma observao desse tipo foi publicada no Internationale Zeitschrift fr Psychoanalyse. Uma criana que se achava pesarosa pela perda de um 
gatinho declarou francamente que ela agora era o gatinho e, por conseguinte, andava de quatro, no comia  mesa etc.
        Outro exemplo de introjeo do objeto foi fornecido pela anlise da melancolia, afeco que inclui entre as mais notveis de suas causas excitadoras a perda 
real ou emocional de um objeto amado. Uma caracterstica principal desses casos  a cruel autodepreciao do ego, combinada com uma inexorvel autocrtica e acerbas 
autocensuras. As anlises demonstraram que essa depreciao e essas censuras aplicam-se, no fundo, ao objeto e representam a vingana do ego sobre ele. A sombra 
do objeto caiu sobre o ego, como disse noutra parte. Aqui a introjeo do objeto  inequivocamente clara.
        Essas melancolias, porm, tambm nos mostram mais alguma coisa, que pode ser importante para nossos estudos posteriores. Mostram-nos o ego dividido, separado 
em duas partes, uma das quais vocifera contra a segunda. Esta segunda parte  aquela que foi alterada pela introjeo e contm o objeto perdido. Porm a parte que 
se comporta to cruelmente tampouco a desconhecemos. Ela abrange a conscincia, uma instncia crtica dentro do ego, que at em ocasies normais assume, embora nunca 
to implacvel e injustificadamente, uma atitude crtica para com a ltima. Em ocasies anteriores, fomos levados  hiptese de que no ego se desenvolve uma instncia 
assim, capaz de isolar-se do resto daquele ego e entrar em conflito com ele. A essa instncia chamamos de 'ideal do ego' e, a ttulo de funes, atribumos-lhe a 
auto-observao, a conscincia moral, a censura dos sonhos e a principal influncia na represso. Dissemos que ele  o herdeiro do narcisismo original em que o ego 
infantil desfrutava de auto-suficincia; gradualmente rene, das influncias do meio ambiente, as exigncias que este impe ao ego, das quais este no pode sempre 
estar  altura; de maneira que um homem, quando no pode estar satisfeito com seu prprio ego, tem, no entanto, possibilidade de encontrar satisfao no ideal do 
ego que se diferenciou do ego. Nos delrios de observao, como demonstramos noutro lugar, a desintegrao dessa instncia tornou-se patente e revelou assim sua 
origem na influncia de poderes superiores e, acima de tudo, dos pais. Mas no nos esquecemos de acrescentar que o valor da distncia entre esse ideal do ego e o 
ego real  muito varivel de um indivduo para outro e que, em muitas pessoas, essa diferenciao dentro do ego no vai alm da que sucede em crianas.
        Antes que possamos empregar este material, a fim de compreender a organizao libidinal dos grupos, devemos, contudo, tomar em considerao alguns outros 
exemplos das relaes mtuas entre o objeto e o ego.

         VIII - ESTAR AMANDO E HIPNOSE
        
         Mesmo em seus caprichos, o uso da linguagem permanece fiel a uma certa espcie de realidade. Assim, ela d o nome de 'amor' a numerosos tipos de relaes 
emocionais que agrupamos, tambm, teoricamente como amor; por outro lado, porm, sente, a seguir, dvidas se esse amor  amor real, verdadeiro, genuno, e assim 
insinua toda uma gama de possibilidades no mbito dos fenmenos do amor. No teremos dificuldade em efetuar a mesma descoberta por nossas prprias observaes.
        Em determinada classe de casos, estar amando nada mais  que uma catexia de objeto por parte dos instintos sexuais com vistas a uma satisfao diretamente 
sexual, catexia que, alm disso, expira quando se alcanou esse objetivo:  o que se chama de amor sensual comum. Mas, como sabemos, raramente a situao libidinal 
permanece to simples. Era possvel calcular com certeza a revivescncia da necessidade que acabara de expirar e, sem dvida, isso deve ter constitudo o primeiro 
motivo para dirigir uma catexia duradoura sobre o objeto sexual e para 'am-lo' tambm nos intervalos desapaixonados.
        A isso  preciso acrescentar outro fato derivado do notvel curso de evoluo seguido pela vida ertica do homem. Em sua primeira fase, que geralmente termina 
na ocasio em que a criana est com cinco anos de idade, ela descobriu o primeiro objeto para seu amor em um ou outro dos pais, e todos os seus instintos sexuais, 
com sua exigncia de satisfao, unificaram-se nesse objeto. A represso que ento se estabelece, compele-a a renunciar  maior parte desse objetivos sexuais infantis 
e deixa atrs de si uma profunda modificao em sua relao com os pais. A criana ainda permanece ligada a eles, mas por instintos que devem ser descritos como 
'inibidos em seu objetivo'. As emoes que da passa a sentir por esses objetos de seu amor so caracterizadas como 'afetuosas'. Sabe-se que as primitivas tendncias 
'sensuais' permanecem mais ou menos intensamente preservadas no inconsciente, de maneira que, em certo sentido, a totalidade da corrente original continua a existir.
        Na puberdade, como sabemos, estabelecem-se impulsos novos e muito fortes, dirigidos a objetivos diretamente sexuais. Em casos desfavorveis eles permanecem, 
sob a forma de uma corrente sensual, separados das tendncias 'afetuosas' de sentimento que persistem. Temos ento  frente um quadro cujos dois aspectos so tipificados 
com deleite por certas escolas de literatura. Um homem mostrar um entusiasmo sentimental por mulheres a quem respeita profundamente, mas no o excitam a atividades 
sexuais, e s ser potente com outras mulheres a quem no 'ama', a quem pouco considera, ou mesmo despreza. Com mais freqncia, contudo, o adolescente consegue 
efetuar um certo grau de sntese entre o amor no sensual e celeste e o amor sensual e terreno, e sua relao com seu objeto sexual se caracteriza pela interao 
de instintos desinibidos e instintos inibidos em seu objetivo. A profundidade em que qualquer um est amando, quando contrastada com seu desejo puramente sensual, 
pode ser medida pela dimenso da parte assumida pelos instintos de afeio inibidos em seu objetivo.
        Com relao a essa questo de estar amando, sempre ficamos impressionados pelo fenmeno da supervalorizao sexual: o fato de o objeto amado desfrutar de 
certa liberdade quanto  crtica, e o de todas as suas caractersticas serem mais altamente valorizadas do que as das pessoas que no so amadas, ou do que as prprias 
caractersticas dele numa ocasio em que no era amado. Se os impulsos sexuais esto mais ou menos eficazmente reprimidos ou postos do lado, produz-se a iluso de 
que o objeto veio a ser sensualmente amado devido aos seus mritos espirituais, ao passo que, pelo contrrio, na realidade esses mritos s podem ter sido emprestados 
a ele pelo seu encanto sensual.
        A tendncia que falsifica o julgamento nesse respeito  a da idealizao. Agora, porm,  mais fcil encontrarmos nosso rumo. Vemos que o objeto est sendo 
tratado da mesma maneira que nosso prprio ego, de modo que, quando estamos amando, uma quantidade considervel de libido narcisista transborda para o objeto. Em 
muitas formas de escolha amorosa,  fato evidente que o objeto serve de sucedneo para algum inatingido ideal do ego de ns mesmos. Ns o amamos por causa das perfeies 
que nos esforamos por conseguir para nosso prprio ego e que agora gostaramos de adquirir, dessa maneira indireta, como meio de satisfazer nosso narcisismo.
        Se a supervalorizao sexual e o estar amando aumentam ainda mais, a interpretao do quadro se torna ainda mais inequvoca. Os impulsos cuja inclinao 
se dirige para a satisfao diretamente sexual podem agora ser empurrados inteiramente para o segundo plano, como por exemplo acontece regularmente com a paixo 
sentimental de um jovem; o ego se torna cada vez mais despretensioso e modesto e o objeto cada vez mais sublime e precioso, at obter finalmente a posse de todo 
o auto-amor do ego, cujo auto-sacrifcio decorre, assim, como conseqncia natural. O objeto, por assim dizer, consumiu o ego. Traos de humildade, de limitao 
do narcisismo e de danos causados a si prprio ocorrem em todos os casos de estar amando; no caso extremo, so simplesmente intensificados e como resultado da retirada 
das reivindicaes sexuais, permanecem em solitria supremacia.
        Isso acontece com especial facilidade com o amor infeliz e que no pode ser satisfeito, porque, a despeito de tudo, cada satisfao sexual envolve sempre 
uma reduo da supervalorizao sexual. Ao mesmo tempo desta 'devoo' do ego ao objeto, a qual no pode mais ser distinguida de uma devoo sublimada a uma idia 
abstrata, as funes atribudas ao ideal do ego deixam inteiramente de funcionar. A crtica exercida por essa instncia silencia; tudo que o objeto faz e pede  
correto e inocente. A conscincia no se aplica a nada que seja feito por amor do objeto; na cegueira do amor, a falta de piedade  levada at o diapaso do crime. 
A situao total pode ser inteiramente resumida numa frmula: o objeto foi colocado no lugar do ideal do ego.
         fcil agora definir a diferena entre a identificao e esse desenvolvimento to extremo do estado de estar amando que podem ser descritos como 'fascinao' 
ou 'servido'. No primeiro caso, o ego enriqueceu-se com as propriedades do objeto, 'introjetou' o objeto em si prprio, como Ferenczi [1909] o expressa. No segundo 
caso, empobreceu-se, entregou-se ao objeto, substituiu o seu constituinte mais importante pelo objeto. Uma considerao mais prxima, contudo, logo esclarece que 
esse tipo de descrio cria uma iluso de contradies que no possuem existncia real. Economicamente, no se trata de empobrecimento ou enriquecimento;  mesmo 
possvel descrever um caso extremo de estar amando como um estado em que o ego introjetou o objeto em si prprio. Outra distino talvez esteja mais bem talhada 
para atender  essncia da questo. No caso da identificao, o objeto foi perdido ou abandonado; assim ele  novamente erigido dentro do ego e este efetua uma alterao 
parcial em si prprio, segundo o modelo do objeto perdido. No outro caso, o objeto  mantido e d-se uma hipercatexia dele pelo ego e s expensas do ego. Aqui, porm, 
apresenta-se nova dificuldade. Ser inteiramente certo que a identificao pressupe que a catexia de objeto tenha sido abandonada? No pode haver identificao 
enquanto o objeto  mantido? E antes de nos empenharmos numa discusso dessa delicada questo, j poder estar alvorecendo em ns a percepo de que mais outra alternativa 
abrange a essncia real da questo, ou seja, se o objeto  colocado no lugar do ego ou do ideal do ego.
        Do estado de estar amando  hipnose vai, evidentemente, apenas um curto passo. Os aspectos em que os dois concordam so evidentes. Existe a mesma sujeio 
humilde, que h para com o objeto amado. H o mesmo debilitamento da iniciativa prpria do sujeito; ningum pode duvidar que o hipnotizador colocou-se no lugar do 
ideal do ego. Acontece apenas que tudo  ainda mais claro e mais intenso na hipnose, de maneira que seria mais apropriado explicar o estado de estar amando por meio 
da hipnose, que fazer o contrrio. O hipnotizador constitui o nico objeto e no se presta ateno a mais ningum que no seja ele. O fato de o ego experimentar, 
de maneira semelhante  do sonho, tudo que o hipnotizador possa pedir ou afirmar, relembra-nos que nos esquecemos de mencionar entre as funes de ideal do ego a 
tarefa de verificar a realidade das coisas. No admira que o ego tome uma percepo por real, se a realidade dela  corroborada pela instncia mental que ordinariamente 
desempenha o dever de testar a realidade das coisas. A completa ausncia de impulsos que se acham inibidos em seus objetivos sexuais contribui ainda mais para a 
pureza extrema dos fenmenos. A relao hipntica  a devoo ilimitada de algum enamorado, mas excluda a satisfao sexual, ao passo que no caso real de estar 
amando esta espcie de satisfao  apenas temporariamente refreada e permanece em segundo plano, como um possvel objeto para alguma ocasio posterior. 
        Por outro lado, porm, tambm podemos dizer que a relao hipntica  (se permissvel a expresso) uma formao de grupo composta de dois membros. A hipnose 
no constitui um bom objeto para comparao com uma formao de grupo, porque  mais verdadeiro dizer que ela  idntica a essa ltima. Da complicada textura do 
grupo, ela isola um elemento para ns: o comportamento do indivduo em relao ao lder. A hipnose  distinguida da formao de grupo por esta limitao de nmero, 
tal como se distingue do estado de estar amando pela ausncia de inclinaes diretamente sexuais. A esse respeito, ocupa uma posio intermediria entre ambos.
         interessante ver que so precisamente esses impulsos sexuais inibidos em seus objetivos que conseguem tais laos permanentes entre as pessoas. Porm isso 
pode ser facilmente compreendido pelo fato de no serem capazes de satisfao completa, ao passo que os impulsos sexuais desinibidos em seus objetivos sofrem uma 
reduo extraordinria mediante a descarga de energia, sempre que o objetivo sexual  atingido.  o destino do amor sensual extinguir-se quando se satisfaz; para 
que possa durar, desde o incio tem de estar mesclado com componentes puramente afetuosos - isto , que se acham inibidos em seus objetivos - ou deve, ele prprio, 
sofrer uma transformao desse tipo.
        A hipnose solucionaria imediatamente o enigma da constituio libidinal dos grupos, no fosse pelo fato de ela prpria apresentar alguns aspectos no atendidos 
pela explicao racional que dela vimos fornecendo como sendo um estado de estar amando sem as tendncias diretamente sexuais. Nela ainda existe muita coisa que 
devemos reconhecer como inexplicada e misteriosa. A hipnose contm um elemento adicional de paralisia derivado da relao entre algum com poderes superiores e algum 
que est sem poder e desamparado - o que pode facultar uma transio para a hipnose do susto que ocorre nos animais. A maneira pela qual a hipnose  produzida e 
sua relao com o sono no so claras e o modo enigmtico pelo qual algumas pessoas lhe esto sujeitas, enquanto outras lhe resistem completamente, indica algum 
fator desconhecido nela compreendido que, sozinho, talvez torne possvel a pureza das atitudes da libido que ela apresenta.  de notar que, mesmo existindo uma completa 
submisso sugestiva sob outros aspectos, a conscincia moral da pessoa hipnotizada pode apresentar resistncia. Porm,  possvel que isso se atribua ao fato de 
que na hipnose, tal como  habitualmente praticada, pode ser mantido um certo conhecimento de que o que est acontecendo seja apenas um jogo, uma reproduo inverdica 
de outra situao muito mais importante para a vida. 
        Aps as discusses anteriores, estamos, no entanto, em perfeita posio de fornecer a frmula para a constituio libidinal dos grupos, ou, pelo menos, de 
grupos como os que at aqui consideramos, ou seja, aqueles grupos que tm um lder e no puderam, mediante uma 'organizao' demasiada, adquirir secundariamente 
as caractersticas de um indivduo. Um grupo primrio desse tipo  um certo nmero de indivduos que colocaram um s e mesmo objeto no lugar de seu ideal do ego 
e, conseqentemente, se identificaram uns com os outros em seu ego. Esta condio admite uma representao grfica.

         
         IX - O INSTINTO GREGRIO

        No podemos desfrutar por muito tempo da iluso de havermos solucionado o enigma do grupo com essa frmula.  impossvel fugir  lembrana imediata e perturbadora 
de que tudo que realmente fizemos foi deslocar a questo para o enigma da hipnose, sobre o qual tantos pontos ainda precisam ser esclarecidos. E agora uma outra 
objeo nos mostra nosso novo caminho.
        Poder-se-ia dizer que os intensos vnculos emocionais que observamos nos grupos, so inteiramente suficientes para explicar uma de suas caractersticas: 
a falta de independncia e iniciativa de seus membros, a semelhana nas reaes de todos eles, sua reduo, por assim dizer, ao nvel de indivduos grupais. Mas, 
se o considerarmos como um todo, um grupo nos mostra mais que isso. Alguns de seus aspectos - a fraqueza de capacidade intelectual, a falta de controle emocional, 
a incapacidade de moderao ou adiamento, a inclinao a exceder todos os limites na expresso da emoo e descarreg-la completamente sob a forma de ao - essas 
e outras caractersticas semelhantes to impressivamente descritas por Le Bon apresentam um quadro inequvoco de regresso da atividade mental a um estgio anterior, 
como no nos surpreendemos em descobri-la entre os selvagens e as crianas. Uma regresso desse tipo , particularmente, uma caracterstica essencial dos grupos 
comuns, ao passo que, como soubemos, nos grupos organizados e artificiais ela pode em grande parte ser controlada.
        Temos assim a impresso de um estado no qual os impulsos emocionais particulares e os atos intelectuais de um indivduo so fracos demais para chegar a algo 
por si prprios; para isso dependem inteiramente de serem reforados por sua igual repetio nos outros membros do grupo. Somos lembrados de quantos desses fenmenos 
de dependncia fazem parte da constituio normal da sociedade humana, de quo pouca originalidade e coragem pessoal podem encontrar-se nela, de quanto cada indivduo 
 governado por essas atitudes da mente grupal que se apresentam sob formas tais como caractersticas raciais, preconceitos de classe, opinio pblica etc. A influncia 
da sugesto torna-se um grande enigma para ns quando admitimos que ela no  exercida apenas pelo lder, mas por cada indivduo sobre outro indivduo, e temos de 
censurar-nos por havermos injustamente enfatizado a relao com o lder e mantido demais em segundo plano o outro fator da sugesto mtua.
        Aps esse incentivo  modstia, ficaremos inclinados a escutar outra voz, que nos promete uma explicao baseada em fundamentos mais simples. Essa voz pode 
ser encontrada no refletido livro de Trotter sobre o instinto de rebanho ou instinto gregrio (1916), com relao ao qual meu nico pesar  que ele no escapa inteiramente 
s antipatias desencadeadas pela recente grande guerra.
        Trotter deriva os fenmenos mentais, descritos como ocorrentes nos grupos, de um instinto gregrio ('gregariousness', gregarismo) inato aos seres humanos, 
tal como a outras espcies de animais. Biologicamente, diz ele, esse gregarismo constitui uma analogia  multicelularidade, sendo, por assim dizer, uma continuao 
dela. (Em termos da teoria da libido, trata-se de uma outra manifestao da tendncia proveniente da libido e sentida por todos os seres vivos da mesma espcie, 
a combinar-se em unidades cada vez mais abrangentes. Se est sozinho, o indivduo sente-se incompleto. O medo apresentado pelas crianas pequenas j pareceria ser 
uma expresso desse instinto gregrio. A oposio  grei  to boa quanto a separao dela, sendo assim ansiosamente evitada. Mas a grei se afasta de tudo que  
novo ou fora do comum. O instinto gregrio pareceria ser algo primrio, something which cannot be split up (algo que no pode ser dividido).
        Trotter pe na relao de instintos que considera primrios os da autopreservao, nutrio, sexo e gregrio. O ltimo freqentemente entra em oposio com 
os outros. Os sentimentos de culpa e de dever so possesses peculiares de um animal gregrio. Trotter tambm deriva do instinto gregrio as foras repressivas que 
a psicanlise demonstrou existirem no ego, e deriva da mesma fonte, por conseguinte, as resistncias com que o mdico se defronta no tratamento psicanaltico. A 
fala deve sua importncia  aptido para o entendimento mtuo na grei, sendo nela que a identificao mtua dos indivduos repousa em grande parte.
        Enquanto Le Bon preocupa-se com as formaes grupais passageiras tpicas e McDougall com as associaes estveis, Trotter escolheu como centro de seu interesse 
a forma mais generalizada de reunio em que o homem, esse ??????????????, passa sua vida e nos fornece sua base psicolgica. Mas Trotter no v necessidade de remontar 
 origem do instinto gregrio, por caracteriz-lo como primrio e no mais redutvel. A tentativa de Boris Sidis, a que se refere, de buscar a origem do instinto 
gregrio na sugestionabilidade  afortunadamente suprflua, at onde lhe concerne; trata-se de uma explicao de tipo familiar e insatisfatrio, e a proposio inversa 
de que a sugestionabilidade  um derivado do instinto gregrio, me pareceria lanar muito mais luz sobre o assunto.
        A exposio de Trotter, porm, est aberta, com mais justia ainda que as outras,  objeo de levar muito pouco em conta o papel do lder num grupo, ao 
passo que nos inclinamos, antes, para o juzo oposto, ou seja, de que  impossvel apreender a natureza de um grupo se se desprezar o lder. O instinto de grei no 
deixa lugar algum para o lder; ele  simplesmente arremessado junto com a multido, quase que fortuitamente; da decorre tambm que nenhum caminho conduz desse 
instinto  necessidade de um Deus; o rebanho est sem pastor. Mas, alm disso, a exposio de Trotter pode ser psicologicamente solapada, isto , pode-se tornar 
pelo menos provvel que o instinto gregrio no seja irredutvel, que no seja primrio no mesmo sentido que o so o instinto de autopreservao e o instinto sexual.
        Naturalmente, no  fcil a tarefa de traar a ontognese do instinto gregrio. O medo mostrado pelas crianas pequenas quando so deixadas sozinhas, e que 
Trotter alega constituir j uma manifestao do instinto, no entanto sugere mais facilmente uma outra interpretao. O medo relaciona-se  me da criana e, posteriormente, 
a outras pessoas familiares, sendo a expresso de um desejo irrealizado, que a criana ainda no sabe tratar de outra maneira, exceto transformando-o em ansiedade. 
O medo da criana, quando est sozinha, tampouco  apaziguado pela viso de qualquer fortuito 'membro da grei'; pelo contrrio,  criado pela aproximao de um 'estranho' 
desse tipo. Assim, durante longo tempo nada na natureza de um instinto gregrio ou sentimento de grupo pode ser observado nas crianas. Algo semelhante a ele primeiro 
se desenvolve, num quarto de crianas com muitas crianas, fora das relaes dos filhos com os pais, e assim sucede como uma reao  inveja inicial com que a criana 
mais velha recebe a mais nova. O filho mais velho certamente gostaria de ciumentamente pr de lado seu sucessor, mant-lo afastado dos pais e despoj-lo de todos 
os seus privilgios; mas,  vista de essa criana mais nova (como todas as que viro depois) ser amada pelos pais tanto quanto ele prprio, e em conseqncia da 
impossibilidade de manter sua atitude hostil sem prejudicar-se a si prprio, aquele  forado a identificar-se com as outras crianas. Assim, no grupo de crianas 
desenvolve-se um sentimento comunal ou de grupo, que  ainda mais desenvolvido na escola. A primeira exigncia feita por essa formao reativa  de justia, de tratamento 
igual para todos. Todos sabemos do modo ruidoso e implacvel como essa reivindicao  apresentada na escola. Se ns mesmos no podemos ser os favoritos, pelo menos 
ningum mais o ser. Essa transformao, ou seja, a substituio do cime por um sentimento grupal no quarto das crianas e na sala de aula, poderia ser considerada 
improvvel, se mais tarde o mesmo processo no pudesse ser de novo observado em outras circunstncias. Basta-nos pensar no grupo de mulheres e moas, todas elas 
apaixonadas de forma entusiasticamente sentimental, que se aglomeram em torno de um cantor ou pianista aps a sua apresentao. Certamente seria fcil para cada 
uma delas ter cimes das outras; porm, diante de seu nmero e da conseqente impossibilidade de alcanarem o objetivo de seu amor, renunciam a ele e, em vez de 
uma puxar os cabelos da outra, atuam como um grupo unido, prestam homenagem ao heri da ocasio com suas aes comuns e provavelmente ficariam contentes em ficar 
com um pedao das esvoaantes madeixas dele. Originariamente rivais, conseguiram identificar-se umas com as outras por meio de um amor semelhante pelo mesmo objeto. 
Quando, como de hbito, uma situao instintual  capaz de resultados diversos, no nos surpreender que o resultado real seja algum que traga consigo a possibilidade 
de uma certa quantidade de satisfao, ao passo que um outro resultado, mais bvio em si, seja desprezado, j que as circunstncias da vida impedem que ele conduza 
quela satisfao.
        O que posteriormente aparece na sociedade sob a forma de Gemeingeist, esprit de corps, 'esprito de grupo' etc. no desmente a sua derivao do que foi originalmente 
inveja. Ningum deve querer salientar-se, todos devem ser o mesmo e ter o mesmo. A justia social significa que nos negamos muitas coisas a fim de que os outros 
tenham de passar sem elas, tambm, ou, o que d no mesmo, no possam pedi-las. Essa exigncia de igualdade  a raiz da conscincia social e do senso de dever. Revela-se 
inesperadamente no pavor que tem o sifiltico de contagiar outras pessoas, coisa que a psicanlise nos ensinou a compreender. O pavor demonstrado por esses pobres 
infelizes corresponde s suas violentas lutas contra o desejo inconsciente de propagar sua infeco a outros; por que razo apenas eles deveriam ser infectados e 
apartados de tantas coisas? Por que tambm no os outros? E o mesmo princpio pode-se encontrar na apropriada histria do julgamento de Salomo. Se o filho de uma 
mulher morreu, a outra tampouco dever ter um filho, e a mulher despojada  identificada por esse desejo.
        O sentimento social, assim, se baseia na inverso daquilo que a princpio constituiu um sentimento hostil em uma ligao da tonalidade positiva, da natureza 
de uma identificao. Na medida em que, at aqui, pudemos acompanhar o curso dos acontecimentos, essa inverso parece ocorrer sob a influncia de um vnculo afetuoso 
comum com uma pessoa fora do grupo. Ns prprios no encaramos nossa anlise da identificao como exaustiva, mas, para nosso presente objetivo, basta que retrocedamos 
a esta caracterstica determinada: sua exigncia de que o igualamento seja sistematicamente realizado. J aprendemos do exame de dois grupos artificiais, a Igreja 
e o exrcito que sua premissa necessria  que todos os membros sejam amados da mesma maneira por uma s pessoa, o lder. No nos esqueamos, contudo, de que a exigncia 
de igualdade num grupo aplica-se apenas aos membros e no ao lder. Todos os membros devem ser iguais uns aos outros, mas todos querem ser dirigidos por uma s pessoa. 
Muitos iguais, que podem identificar-se uns com os outros, e uma pessoa isolada, superior a todos eles: essa  a situao que vemos realizada nos grupos capazes 
de subsistir. Ousemos, ento, corrigir o pronunciamento de Trotter de que o homem  um animal gregrio, e asseverar ser ele de preferncia um animal de horda, uma 
criatura individual numa horda conduzida por um chefe.
        
        X - O GRUPO E A HORDA PRIMEVA

        Em 1912 concordei com uma conjectura de Darwin, segundo a qual a forma primitiva da sociedade humana era uma horda governada despoticamente por um macho 
poderoso. Tentei demonstrar que os destinos dessa horda deixaram traos indestrutveis na histria da descendncia humana e, especialmente, que o desenvolvimento 
do totemismo, que abrange em si os primrdios da religio, da moralidade e da organizao social, est ligado ao assassinato do chefe pela violncia e  transformao 
da horda paterna em uma comunidade de irmos. Para dizer a verdade, isso constitui apenas uma hiptese, como tantas outras com que os arquelogos se esforam por 
iluminar as trevas dos tempos pr-histricos, uma 'estria mais ou menos', como foi divertidamente chamada por um crtico ingls sem maldade; porm essa hiptese 
para mim tem mrito se se mostrar capaz de trazer coerncia e compreenso a um nmero cada vez maior de novas regies.
        Os grupos humanos apresentam mais uma vez o quadro familiar de um indivduo de fora superior em meio a um bando de companheiros iguais, quadro que tambm 
 abarcado em nossa idia da horda primeva. A psicologia de um grupo assim, como a conhecemos a partir das descries a que com tanta freqncia nos referimos, o 
definhamento da personalidade individual consciente, a focalizao de pensamentos e sentimentos numa direo comum, a predominncia do lado afetivo da mente e da 
vida psquica inconsciente, a tendncia  execuo imediata das intenes to logo ocorram: tudo isso corresponde a um estado de regresso a uma atividade mental 
primitiva, exatamente da espcie que estaramos inclinados a atribuir  horda primeva. 
        Assim, o grupo nos aparece como uma revivescncia da horda primeva. Do mesmo modo como o homem primitivo sobrevive potencialmente em cada indivduo, a horda 
primeva pode mais uma vez surgir de qualquer reunio fortuita; na medida em que os homens se acham habitualmente sob a influncia da formao de grupo, reconhecemos 
nela a sobrevivncia da horda primeva. Temos de concluir que a psicologia dos grupos  a mais antiga psicologia humana; o que isolamos como psicologia individual, 
desprezando todos os traos do grupo, s depois veio a ser notrio a partir da velha psicologia de grupo, atravs de um processo gradual, que talvez possa, ainda, 
ser descrito como incompleto. Posteriormente nos arriscaremos  tentativa de especificar o ponto de partida desse desenvolvimento. [Ver em [1] e segs.]
        Uma reflexo mais demorada ir demonstrar-nos sob que aspecto essa afirmativa exige uma correo. A psicologia individual, pelo contrrio, deve ser to antiga 
quanto a psicologia de grupo, porque, desde o princpio, houve dois tipos de psicologia, a dos membros individuais do grupo e a do pai, chefe ou lder. Os membros 
do grupo achavam-se sujeitos a vnculos, tais como os que percebemos atualmente; o pai da horda primeva, porm, era livre. Os atos intelectuais deste eram fortes 
e independentes, mesmo no isolamento, e sua vontade no necessitava do reforo de outros. A congruncia leva-nos a presumir que seu ego possua poucos vnculos libidinais; 
ele no amava ningum, a no ser a si prprio, ou a outras pessoas, na medida em que atendiam s suas necessidades. Aos objetos, seu ego no dava mais que o estritamente 
necessrio.
        Ele, no prprio incio da histria da humanidade, era o 'super-homem' que Nietzsche somente esperava do futuro. Ainda hoje os membros de um grupo permanecem 
na necessidade da iluso de serem igual e justamente amados por seu lder; ele prprio, porm, no necessita amar ningum mais, pode ser de uma natureza dominadora, 
absolutamente narcisista, autoconfiante e independente. Sabemos que o amor impe um freio ao narcisismo, e seria possvel demonstrar como, agindo dessa maneira, 
ele se tornou um fator de civilizao.
        O pai primevo da horda no era ainda imortal, como posteriormente veio a ser, pela deificao. Se morria, tinha de ser substitudo; seu lugar era provavelmente 
tomado por um filho mais jovem, que at ento fora um membro do grupo, como qualquer outro. Deve existir, portanto, uma possibilidade de transformar a psicologia 
de grupo em psicologia individual; h que descobrir uma condio sob a qual tal transformao seja facilmente realizada, como  possvel s abelhas transformarem, 
em caso de necessidade, uma larva numa rainha em lugar de uma operria. Pode-se imaginar apenas uma possibilidade: o pai primevo impedira os filhos de satisfazer 
seus impulsos diretamente sexuais; forara-os  abstinncia e, conseqentemente, aos laos emocionais com ele e uns com os outros, que poderiam surgir daqueles de 
seus impulsos antes inibidos em seu objetivo sexual. Ele os forara, por assim dizer,  psicologia de grupo. Seu cime e intolerncia sexual tornaram-se, em ltima 
anlise, as causas da psicologia de grupo.
        Quem quer que se haja tornado seu sucessor recebeu tambm a possibilidade de satisfao sexual e, por esse meio, lhe foi dada uma sada para as condies 
de psicologia de grupo. A fixao da libido na mulher e a possibilidade de satisfao sem qualquer necessidade de adiamento ou acmulo puseram fim  importncia 
daqueles entre seus impulsos sexuais que se achavam inibidos em seu objetivo, e permitiram ao seu narcisismo elevar-se sempre, at chegar a seu apogeu total. Retornaremos, 
em um ps-escrito [ver em [1] e segs.] a essa conexo entre amor e formao do carter.
        A seguir, como algo especialmente instrutivo, podemos dar nfase  relao que existe entre o ardil pelo qual um grupo artificial se mantm unido, e a constituio 
da horda primeva. Vimos que, com o exrcito e a Igreja, esse artifcio  a iluso de que o lder ama todos os indivduos de modo igual e justo. Mas isso constitui 
apenas uma remodelao idealstica do estado de coisas na horda primeva, onde todos os filhos sabiam que eram igualmente perseguidos pelo pai primevo e o temiam 
igualmente. Essa mesma remoldagem sobre a qual todos os deveres sociais se erguem, j se acha pressuposta pela forma seguinte da sociedade humana, o cl totmico. 
A fora indestrutvel da famlia como formao natural de grupo reside no fato de que essa pressuposio necessria do amor igual do pai pode ter uma aplicao real 
na famlia.
        Ns, todavia, esperamos mais ainda dessa derivao do grupo a partir da horda primeva. Ela deveria tambm ajudar-nos a entender o que ainda  incompreensvel 
e misterioso nas formaes de grupo, tudo o que jaz escondido por trs das enigmticas palavras 'hipnose' e 'sugesto'. E acho que isso tambm pode ser bem-sucedido. 
Relembremos que nela a hipnose tem algo de positivamente misterioso, mas a caracterstica de mistrio sugere algo de antigo e familiar que experimentou uma represso. 
Consideremos como a hipnose  induzida. O hipnotizador afirma que se acha de posse de um poder misterioso que despoja o sujeito de sua prpria vontade ou, o que 
 a mesma coisa, o sujeito cr nisso. Esse poder misterioso (que ainda hoje  muitas vezes popularmente descrito como 'magnetismo animal') deve ser o mesmo poder 
encarado pelos povos primitivos como a fonte do tabu, o mesmo poder emanante dos rei e chefes de tribo e que torna perigoso o aproximar-se deles (mana). Imagina-se, 
ento, que o hipnotizador esteja na posse desse poder. E como o manifesta? Dizendo ao sujeito para olh-lo nos olhos: seu mtodo mais tpico de hipnotizao  pelo 
olhar. Mas  precisamente a viso do chefe que  perigosa e insuportvel para os povos primitivos, tal como, mais tarde, a da Divindade  para os mortais. O prprio 
Moiss teve de agir como intermedirio entre seu povo e Jav, de vez que o povo no poderia suportar a viso divina, e quando retornou da presena de Deus seu rosto 
resplandecia: um pouco do mana lhe havia sido comunicado, tal como acontece com o intermedirio entre os povos primitivos.
         verdade que tambm se pode evocar a hipnose por outras maneiras, como, por exemplo, fixando os olhos sobre um objeto brilhante ou escutando um som montono. 
Isso pode equivocar e j ocasionou teorias fisiolgicas inapropriadas. Na realidade, esses procedimentos servem apenas para desviar a ateno consciente e mant-la 
retida. A situao seria a mesma, se o hipnotizador houvesse dito ao sujeito: 'Agora, preocupe-se exclusivamente com a minha pessoa; o resto do mundo  totalmente 
desinteressante.' Naturalmente, seria tecnicamente desaconselhvel a um hipnotizador fazer tal declarao; ela arrancaria o sujeito de sua atitude inconsciente e 
o estimularia a uma oposio consciente. O hipnotizador evita dirigir os pensamentos conscientes do sujeito para suas prprias intenes e faz a pessoa com quem 
realiza a experincia mergulhar numa atividade na qual o mundo est fadado a parecer-lhe desinteressante. Ao mesmo tempo, porm, o sujeito est, na realidade, concentrando 
inconscientemente toda a sua ateno no hipnotizador e entrando numa atitude de rapport, de transferncia, para com ele. Assim, os mtodos indiretos de hipnotizar, 
iguais a muitos procedimentos tcnicos utilizados para fazer chistes, tm o efeito de controlar certas distribuies de energia mental que interfeririam com o curso 
dos acontecimentos no inconsciente, e acabam por levar ao mesmo resultado que os mtodos diretos de influncia atravs do olhar fixo ou das batidas.
        Ferenczi [1909] realizou a descoberta real de que, quando o hipnotizador d a ordem para dormir, o que com freqncia se faz no comeo da hipnose, ele est 
se colocando no lugar dos pais do sujeito. Pensa ele que dois tipos de hipnotismo devem ser distinguidos: um persuasor e tranqilizador, segundo ele modelado na 
me, e um outro ameaador, que deriva do pai. Ora, na hipnose a ordem para dormir significa, nem mais nem menos, uma ordem para afastar do mundo todo o interesse 
e concentr-lo na pessoa do hipnotizador. E ela  assim entendida pelo sujeito, pois nessa retrao de interesse do mundo externo reside a caracterstica psicolgica 
do sono e nela se baseia o parentesco entre este e o estado de hipnose.
        Pelas medidas que toma, o hipnotizador desperta no sujeito uma parte de sua herana arcaica que tambm o tornara submisso aos genitores e experimentara uma 
reanimao individual em sua relao com o pai; o que  assim despertado  a idia de uma personalidade predominante e perigosa, para com quem s  possvel ter 
uma atitude passivo-masoquista, a quem se tem de entregar a prpria vontade, ao passo que estar com ele, 'olh-lo no rosto', parece ser um empreendimento arriscado. 
S de uma outra maneira semelhante podemos representar a relao do membro individual da horda primeva com o pai primevo. Como sabemos de outras reaes, os indivduos 
preservaram um grau varivel de aptido pessoal para reviver velhas situaes desse tipo. Um certo conhecimento de que, apesar de tudo, a hipnose  apenas um jogo, 
uma renovao enganadora dessas antigas impresses, pode contudo remanescer e cuidar para que haja uma resistncia contra quaisquer conseqncias demasiado srias 
da suspenso da vontade na hipnose.
        As caractersticas misteriosas e coercivas das formaes grupais, presentes nos fenmenos de sugesto que as acompanham, podem assim, com justia, ser remontadas 
 sua origem na horda primeva. O lder do grupo ainda  o temido pai primevo; o grupo ainda deseja ser governado pela fora irrestrita e possui uma paixo extrema 
pela autoridade; na expresso de Le Bon, tem sede de obedincia. O pai primevo  o ideal do grupo, que dirige o ego no lugar do ideal do ego. A hipnose bem pode 
reivindicar sua descrio como um grupo de dois. Aqui fica como definio para a sugesto: uma convico que no est baseada na percepo e no raciocnio, mas em 
um vnculo ertico.

         XI - UMA GRADAO DIFERENCIADORA NO EGO

        Se examinarmos a vida de um homem de hoje como indivduo, tendo em mente as descries mutuamente complementares da psicologia de grupo fornecidas pelas 
autoridades, pode ser que, diante das complicaes reveladas, percamos a coragem de tentar uma exposio abrangente. Cada indivduo  uma parte componente de numerosos 
grupos, acha-se ligado por vnculos de identificao em muitos sentidos e construiu seu ideal do ego segundo os modelos mais variados. Cada indivduo, portanto, 
partilha de numerosas mentes grupais - as de sua raa, classe, credo, nacionalidade etc. - podendo tambm elevar-se sobre elas, na medida em que possui um fragmento 
de independncia e originalidade. Essas formaes grupais estveis e duradouras, com seus efeitos constantes e uniformes, so menos notveis para um observador que 
os grupos rapidamente formados e transitrios a partir dos quais Le Bon traou seu brilhante esboo psicolgico do carter da mente grupal. E  exatamente nesses 
ruidosos grupos efmeros, superpostos uns aos outros, por assim dizer, que encontramos o prodgio do desaparecimento completo, embora apenas temporrio, exatamente 
daquilo que identificamos como aquisies individuais.
        Interpretamos esse prodgio com a significao de que o indivduo abandona seu ideal do ego e o substitui pelo ideal do grupo, tal como  corporificado no 
lder. E temos de acrescentar, a ttulo de correo, que o prodgio no  igualmente grande em todos os casos. Em muitos indivduos, a separao entre o ego e o 
ideal do ego no se acha muito avanada e os dois ainda coincidem facilmente; o ego amide preservou sua primitiva autocomplacncia narcisista. A seleo do lder 
 muitssimo facilitada por essa circunstncia. Com freqncia precisa apenas possuir as qualidades tpicas dos indivduos interessados sob uma forma pura, clara 
e particularmente acentuada, necessitando somente fornecer uma impresso de maior fora e de mais liberdade de libido. Nesse caso, a necessidade de um chefe forte 
freqentemente o encontrar a meio caminho, e o investir de uma predominncia que de outro modo talvez no pudesse reivindicar. Os outros membros do grupo, cujo 
ideal do ego, salvo isso, no se haveria corporificado em sua pessoa sem alguma correo, so ento arrastados com os demais por 'sugesto', isto , por meio da 
identificao.
        Estamos cientes de que aquilo com que pudemos contribuir para a explicao da estrutura libidinal dos grupos, reconduz  distino entre o ego e o ideal 
do ego e  dupla espcie de vnculo que isso possibilita: a identificao e a colocao do objeto no lugar do ideal do ego. A pressuposio dessa espcie de gradao 
diferenciadora no ego como um primeiro passo para a anlise do ego deve gradualmente estabelecer sua justificativa nas quais diversas regies da psicologia. Em meu 
artigo sobre narcisismo [1914c], reuni todo o material patolgico que na ocasio podia ser utilizado em apoio dessa diferenciao. Contudo, podemos esperar que, 
ao penetrarmos mais profundamente na psicologia das psicoses, descobriremos que sua significao  muito maior. Reflitamos que o ego ingressa agora na relao de 
um objeto para com o ideal do ego, dele desenvolvido, e que a ao recproca total entre um objeto externo e o ego como um todo, com que nosso estudo das neuroses 
nos familiarizou, deve possivelmente repetir-se nessa nova cena de ao dentro do ego.
        Nesse ponto acompanharei apenas uma das conseqncias que, partindo desse enfoque, parecem possveis retomando assim o debate de um problema que fui obrigado 
a deixar, noutra parte, sem soluo.Cada uma das diferenciaes mentais com que nos familiarizamos, representa um novo agravamento das dificuldades de funcionamento 
mental, aumenta a sua instabilidade, podendo tornar-se o ponto de partida para a sua desintegrao, isto , para o desencadeamento de uma doena. Assim, com o nascimento, 
demos o primeiro passo de um narcisismo absolutamente auto-suficiente para a percepo de um mundo externo cambiante e para os primrdios da descoberta dos objetos. 
A isso est associado o fato de no podermos suportar o novo estado de coisas por muito tempo, de periodicamente dele revertermos, no sono,  nossa anterior condio 
de ausncia de estimulao e fuga de objetos.  verdade, contudo, que nisto estamos seguindo uma sugesto do mundo externo que, atravs da mudana peridica do dia 
e da noite, afasta temporariamente a maior parte dos estmulos que nos influenciam. O segundo exemplo de um tal passo, patologicamente mais importante, no est 
sujeito a essa restrio. No curso de nossa evoluo, efetuamos uma separao de nossa existncia mental em um ego coerente e em uma parte inconsciente e reprimida 
que  deixada fora dele; ficamos sabendo que a estabilidade dessa nova aquisio se acha exposta a abalos constantes. Nos sonhos e neuroses, o que  assim excludo 
bate aos portes em busca de admisso, guardados no obstante pelas resistncias, e em nossa sade desperta fazemos uso de artifcios especiais para permitir que 
o que est reprimido contorne as resistncias e o recebamos temporariamente em nosso ego, para aumento de nosso prazer. Os chistes e o humor e, at certo ponto, 
o cmico em geral, podem ser encarados sob esta luz. Qualquer um que esteja familiarizado com a psicologia das neuroses pensar em exemplos semelhantes de menor 
importncia, mas apresso-me  aplicao do que tenho em vista.
         inteiramente concebvel que a separao do ideal do ego do prprio ego no pode ser mantida por muito tempo, tendo de ser temporariamente desfeita. Em 
todas as renncias e limitaes impostas ao ego, uma infrao peridica da proibio  a regra. Isso, na realidade,  demonstrado pela instituio dos festivais, 
que, na origem, nada mais eram do que excessos previstos em lei e que devem seu carter alegre ao alvio que proporcionam. As saturnais dos romanos e o nosso moderno 
carnaval concordam nessa caracterstica essencial com os festivais dos povos primitivos, que habitualmente terminam com deboches de toda espcie e com a transgresso 
daquilo que, noutras ocasies, constituem os mandamentos mais sagrados. Mas o ideal do ego abrange a soma de todas as limitaes a que o ego deve aquiescer e, por 
essa razo, a revogao do ideal constituiria necessariamente um magnfico festival para o ego, que mais uma vez poderia ento sentir-se satisfeito consigo prprio.
        H sempre uma sensao de triunfo quando algo no ego coincide com o ideal do ego. E o sentimento de culpa (bem como o de inferioridade) tambm pode ser entendido 
como uma expresso da tenso entre o ego e o ideal do ego.
        Sabe-se bem que existem pessoas cujo colorido geral do estado de nimo oscila periodicamente de uma depresso excessiva, atravessando algum tipo de estado 
intermedirio, a uma sensao exaltada de bem-estar. Essas oscilaes aparecem em graus de amplitude muito diferentes, desde o que  apenas observvel at exemplos 
extremos tais que, sob a forma de melancolia e mania, empreendem as mais perturbadoras ou atormentadoras incurses na vida da pessoa interessada. Nos casos tpicos 
dessa depresso cclica, as causas precipitantes externas no parecem desempenhar qualquer papel decisivo; quanto aos motivos internos, nesses pacientes, no se 
encontra nada a mais, ou nada mais, do que em todos os outros. Conseqentemente, tornou-se costume considerar esses casos como no sendo psicognicos. Dentro em 
pouco nos referiremos queles outros casos exatamente semelhantes de depresso cclica que podem ser facilmente remontados a traumas mentais.
        Os fundamentos dessas oscilaes espontneas de estado de nimo so, assim, desconhecidos. Falta-nos compreenso do mecanismo do deslocamento de uma melancolia 
realizado por uma mania, de modo que nos achamos livres para supor que esses pacientes sejam pessoas em quem nossa conjectura poderia encontrar uma aplicao real: 
seu ideal do ego poderia ter-se temporariamente convertido no ego, aps hav-lo anteriormente governado com especial rigidez.
        Atenhamo-nos ao que  claro: com base em nossa anlise do ego, no se pode duvidar que, nos casos de mania, o ego e o ideal do ego se fundiram, de maneira 
que a pessoa, em estado de nimo de triunfo e auto-satisfao, imperturbada por nenhuma autocrtica, pode desfrutar a abolio de suas inibies, sentimentos de 
considerao pelos outros e autocensuras. No  to bvio, no obstante muito provvel, que o sofrimento do melanclico seja a expresso de um agudo conflito entre 
as duas instncias de seu ego, conflito em que o ideal, em excesso de sensitividade, incansavelmente exibe sua condenao do ego com delrios de inferioridade e 
com autodepreciao. A nica questo  se devemos procurar as causas dessas relaes alteradas entre o ego e o ideal do ego nas rebelies peridicas, que acima postulamos, 
contra a nova instituio, ou se devemos responsabilizar por elas outras circunstncias.
        Uma mudana para a mania no constitui caracterstica indispensvel da sintomatologia da depresso melanclica. Existem melancolias simples - umas em crises 
isoladas, outras em crises recorrentes - que nunca apresentam essa evoluo.
        Por outro lado, h melancolias em que a causa precipitadora desempenha claramente um papel etiolgico. So aquelas que ocorrem aps a perda de um objeto 
amado, seja pela morte, seja por efeito de circunstncias que tornaram necessria a retirada da libido do objeto. Uma melancolia psicognica desse tipo pode terminar 
em mania e o ciclo repetir-se diversas vezes, to facilmente como num caso que parece ser espontneo. Assim, o estado de coisas  um tanto obscuro, especialmente 
porque s poucas formas e casos de melancolia foram submetidos  investigao psicanaltica. At aqui, compreendemos somente casos em que o objeto  abandonado porque 
demonstrou ser indigno de amor. Ele , ento, novamente erigido dentro do ego, mediante identificao, e severamente condenado pelo ideal do ego. As censuras e ataques 
dirigidos ao objeto vm  luz sob a forma de autocensuras melanclicas.
        Uma melancolia desse tipo, alm disso, pode acabar em uma mudana para a mania, de sorte que a possibilidade de isso acontecer representa uma caracterstica 
que independe das outras caractersticas do quadro clnico.
        No obstante, no vejo dificuldade em atribuir ao fato da rebelio peridica do ego contra o ideal do ego uma cota em ambos os tipos de melancolia, tanto 
o psicognico quanto o espontneo. No espontneo, pode-se supor que o ideal do ego est inclinado a apresentar uma rigidez peculiar, que ento resulta automaticamente 
em sua suspenso temporria. No tipo psicognico, o ego seria incitado  rebelio pelo mau tratamento por parte de seu ideal, mau tratamento que ele encontra quando 
houve uma identificao com um objeto rejeitado.
        
         XII - PS-ESCRITO

        No decorrer da indagao que acabou de ser levada a um final provisrio, encontramos um certo nmero de caminhos laterais que evitamos seguir em primeiro 
lugar, mas nos quais existia muita coisa oferecendo-nos promessas de compreenso. Propomo-nos agora considerar alguns desses pontos que, assim, foram deixados de 
lado.

        A.A distino entre a identificao do ego com um objeto e a substituio do ideal do ego por um objeto encontra uma ilustrao interessante nos dois grandes 
grupos artificiais que comeamos por estudar, o exrcito e a Igreja crist.
         bvio que um soldado toma o seu superior, que , na realidade, o lder do exrcito, como seu ideal, enquanto se identifica com os seus iguais e deriva 
dessa comunidade de seus egos as obrigaes de prestar ajuda mtua e partilhar das posses que o companheirismo implica. Mas, se tenta identificar-se com o general, 
torna-se ridculo. O soldado em Wallensteins Lager ri do sargento por essa mesma razo:

Wie er ruspert und wie er spuckt,
Das habt ihr ihm glcklich abgeguckt!

         diferente na Igreja catlica. Todo cristo ama Cristo como seu ideal e sente-se unido a todos os outros cristos pelo vnculo da identificao. Mas a Igreja 
exige mais dele. Tem tambm de identificar-se com Cristo e amar todos os outros cristos como Cristo os amou. Em ambos os pontos, portanto, a Igreja exige que a 
posio da libido fornecida pela formao grupal seja suplementada. H que acrescentar a identificao ali onde a escolha objetal j se realizou, e o amor objetal 
onde h identificao. Esse acrscimo, evidentemente, vai alm da constituio do grupo. Pode-se ser um bom cristo e, contudo, estar distante da idia de se pr 
no lugar de Cristo e ter, como ele, um amor abrangente pela humanidade. No precisamos nos sentir capazes, fracos mortais que somos, da grandeza de alma e da fora 
de amor do Salvador. Porm, esse novo desenvolvimento na distribuio da libido no grupo constitui provavelmente o fator sobre o qual o cristianismo baseia sua alegao 
de haver atingido um nvel tico mais elevado.

        B.Dissemos que seria possvel especificar o ponto do desenvolvimento mental da humanidade em que a passagem da psicologia de grupo para a psicologia individual 
foi alcanada tambm pelos membros do grupo [ver em [1]].
        Para esse fim, devemos retornar por um momento ao mito cientfico do pai da horda primeva. Ele foi posteriormente exaltado como criador do mundo, e com justia, 
porque produzira todos os filhos que compuseram o primeiro grupo. Era o ideal de cada um deles, ao mesmo tempo temido e honrado, o que conduziu mais tarde  idia 
do tabu. Esses numerosos indivduos acabaram por se agrupar, mataram-no e despedaaram-no. Ningum do grupo de vitoriosos podia tomar o seu lugar, ou, se algum o 
fez, retomaram-se os combates, at compreenderem que deviam todos renunciar  herana do pai. Formaram ento a comunidade totmica de irmos, todos com direitos 
iguais e unidos pelas proibies totmicas que se destinavam a preservar e a expiar a lembrana do assassinato. No entanto, a insatisfao com o que fora conseguido 
ainda permanecia e tornou-se fonte de novos desfechos. As pessoas que estavam unidas nesse grupo de irmos gradualmente chegaram a uma revivescncia do antigo estado 
de coisas, em novo nvel. O macho tornou-se mais uma vez o chefe de uma famlia e destruiu as prerrogativas da ginecocracia que se estabelecera durante o perodo 
em que no havia pai. Em compensao, ele, nessa ocasio, pode ter reconhecido as divindades maternas, cujos sacerdotes eram castrados para a proteo da me, segundo 
o exemplo que fora fornecido pelo pai da horda primeva. Contudo, a nova famlia era apenas uma sombra da antiga; havia um grande nmero de pais e cada um deles era 
limitado pelos direitos dos outros.
        Foi ento que talvez algum indivduo, na urgncia de seu anseio, tenha sido levado a libertar-se do grupo e a assumir o papel do pai. Quem conseguiu isso 
foi o primeiro poeta pico e o progresso foi obtido em sua imaginao. Esse poeta disfarou a verdade com mentiras consoantes com seu anseio: inventou o mito herico. 
O heri era um homem que, sozinho, havia matado o pai - o pai que ainda aparecia no mito como um monstro totmico. Como o pai fora o primeiro ideal do menino, tambm 
no heri que aspira ao lugar do pai o poeta criava agora o primeiro ideal do ego. A transio para o heri foi provavelmente fornecida pelo filho mais moo, o favorito 
da me, filho que ela protegera do cime paterno e que, na poca da horda primeva, fora o sucessor do pai. Nas mentirosas fantasias poticas dos tempos pr-histricos, 
a mulher, que constitura o prmio do combate e a tentao para o assassinato, foi provavelmente transformada na sedutora e na instigadora ativa do crime.
        O heri reivindica haver agido sozinho na realizao da faanha,  qual certamente s a horda como um todo ter-se-ia aventurado. Porm, como Rank observou, 
os contos de fadas preservaram traos claros dos fatos que foram desmentidos, porque neles amide descobrimos que o heri, tendo de realizar alguma tarefa difcil 
(geralmente o filho mais novo e no poucas vezes um filho que se fez passar, perante o substituto paterno, por estpido, isto , inofensivo), s pode, ele prprio, 
realizar sua misso com a ajuda de uma multido de animais pequenos, tais como abelhas ou formigas. Esses seriam os irmos da horda primeva, da mesma forma que no 
simbolismo onrico insetos ou animais nocivos significam irmos e irms (considerados desprezivelmente como bebs). Ademais, todas as tarefas dos mitos e contos 
de fadas so facilmente reconhecveis como sucedneos do feito herico.
        Assim, o mito  o passo com o qual o indivduo emerge da psicologia de grupo. O primeiro mito foi certamente o psicolgico, o mito do heri; o mito explicativo 
da natureza deve t-lo seguido muito depois. O poeta que dera esse passo, com isso libertando-se do grupo em sua imaginao, , no obstante (como Rank observa ainda), 
capaz de encontrar seu caminho de volta ao grupo na realidade - porque ele vai e relata ao grupo as faanhas do heri, as quais inventou. No fundo, esse heri no 
 outro seno ele prprio. Assim, desce ao nvel da realidade e eleva seus ouvintes ao nvel da imaginao. Seus ouvintes, porm, entendem o poeta e, em virtude 
de terem a mesma relao de anseio pelo pai primevo, podem identificar-se com o heri.
        A mentira do mito herico culmina pela deificao do heri. Talvez o heri deificado possa ter sido mais antigo que o Deus Pai e precursor do retorno do 
pai primevo como deidade. A srie dos deuses, ento, seria cronologicamente esta: Deusa Me - Heri - Deus Pai. Mas s com a elevao do pai primevo nunca esquecido 
a divindade adquire as caractersticas que ainda hoje nela identificamos. 

        C.Muito se disse, neste artigo, sobre instintos diretamente sexuais e instintos inibidos em seus objetivos, podendo-se esperar que essa distino no experimente 
demasiada resistncia. Um estudo pormenorizado da questo, contudo, no ficar deslocado, ainda que apenas repita o que, em grande parte, j foi dito antes.
        O desenvolvimento da libido nas crianas familiarizou-nos com o primeiro, mas tambm o melhor, exemplo de instintos sexuais inibidos em seus objetivos. Todos 
os sentimentos que uma criana tem para com os pais e para com aqueles que cuidam dela transformam-se, por uma fcil transio, em desejos que do expresso aos 
impulsos sexuais da criana. Ela reivindica desses objetos de seu amor todos os sinais de afeio que conhece; quer beij-los, toc-los e olh-los; tem curiosidade 
de ver seus rgos genitais e estar com eles quando realizam suas funes excretrias ntimas; promete casar-se com a me ou com a bab, no importa o que entenda 
por casamento; prope-se a si mesma ter um filho do pai etc. A observao direta, bem como a subseqente investigao analtica dos resduos da infncia, no deixa 
dvidas quanto  completa fuso de sentimentos ternos e ciumentos e de intenes sexuais, mostrando-nos de que maneira fundamental a criana faz da pessoa que ama 
o objeto de todas as suas tendncias sexuais, ainda no corretamente centradas.
        Essa primeira configurao do amor da criana, que nos casos tpicos toma a forma do complexo de dipo, sucumbe, tanto quanto sabemos a partir do comeo 
do perodo de latncia, a uma onda de represso. O que resta dela apresenta-se como um lao emocional puramente afetuoso, referente s mesmas pessoas; porm, no 
mais pode ser descrito como 'sexual'. A psicanlise, que ilumina as profundezas da vida mental, no tem dificuldade em demonstrar que os vnculos sexuais dos primeiros 
anos da infncia tambm persistem, embora reprimidos e inconscientes. Ela nos d coragem para afirmar que um sentimento afetuoso, onde quer que o encontremos, constitui 
um sucessor de uma vinculao de objeto completamente 'sensual' com a pessoa em pauta ou, antes, com o prottipo (ou Imago) dessa pessoa. Ela no pode verdadeiramente 
revelar-nos, sem uma investigao especial, se em dado caso essa antiga corrente sexual completa ainda existe sob represso ou j se exauriu. Mais precisamente: 
 inteiramente certo que essa corrente ainda se encontra l, como forma e possibilidade, podendo sempre ser catexizada e novamente colocada em atividade por meio 
da regresso; a nica questo  (e nem sempre pode ser respondida) que grau de catexia e fora operativa ela ainda possui no presente momento. Nessa referncia, 
deve-se tomar idntico cuidado em evitar duas fontes de erro: o Sila de subestimar a importncia do inconsciente reprimido e o Caribde de julgar o normal inteiramente 
pelos padres do patolgico.
        Uma psicologia que no penetre ou no possa penetrar nas profundezas do que  reprimido, considera os laos emocionais afetuosos como sendo invariavelmente 
a expresso de impulsos que no possuem objetivo sexual, ainda que derivem de impulsos com esse fim.
        Temos justificativa para dizer que eles foram desviados desses fins sexuais, embora exista certa dificuldade de fornecer uma descrio de um desvio de objetivo 
assim, que se adapte s exigncias da metapsicologia. Ademais, esses instintos inibidos em seus objetivos conservam alguns de seus objetivos sexuais originais; mesmo 
um devoto afetuoso, mesmo um amigo ou um admirador, desejam a proximidade fsica e a viso da pessoa que  agora amada apenas no sentido 'paulino'. Se preferirmos, 
podemos identificar nesse desvio de objetivo um incio da sublimao dos instintos sexuais ou, por outro lado, podemos fixar os limites da sublimao em algum ponto 
mais distante. Esses instintos sexuais inibidos em seus objetivos possuem uma grande vantagem funcional sobre os desinibidos. Desde que no so capazes de satisfao 
realmente completa, acham-se especialmente aptos a criar vnculos permanentes, ao passo que os instintos diretamente sexuais incorrem numa perda de energia sempre 
que se satisfazem e tm de esperar serem renovados por um novo acmulo de libido sexual; assim, nesse meio tempo, o objeto pode ter-se alterado. Os instintos inibidos 
so capazes de realizar qualquer grau de mescla com os desinibidos; podem ser novamente transformados em desinibidos, exatamente como deles se originaram.  bem 
conhecido com que facilidade se desenvolvem desejos erticos a partir de relaes emocionais de carter amistoso, baseadas na apreciao e na admirao (compare-se 
o 'Beije-me pelo amor do grego', de Molire), entre professor e aluno, recitalista e ouvinte deliciada, especialmente no caso das mulheres. Na realidade, o crescimento 
de laos emocionais desse tipo, com seus comeos despropositados, fornece uma via muito freqentada para a escolha sexual de objeto. Pfister, em sua Frommigkeit 
des Grafen von Zinzendorf (1910), forneceu um exemplo extremamente claro e certamente no isolado de quo facilmente at um intenso vnculo religioso pode converter-se 
em ardente excitao sexual. Por outro lado, tambm  muito comum aos impulsos diretamente sexuais de pequena durao em si mesmos transformarem-se em um lao permanente 
e puramente afetuoso; e a consolidao de um apaixonado casamento de amor repousa em grande parte nesse processo.
        Naturalmente no ficaremos surpresos ao ouvir que os impulsos sexuais inibidos em seus objetivos se originam daqueles diretamente sexuais quando obstculos 
internos ou externos tornam inatingveis os objetivos sexuais. A represso durante o perodo de latncia  um obstculo interno desse tipo, ou melhor, um obstculo 
que se tornou interno. Presumimos que o pai da horda primeva, devido  sua intolerncia sexual, compeliu todos os filhos  abstinncia, forando-os assim a laos 
inibidos em seus objetivos, enquanto reservava para si a liberdade de gozo sexual, permanecendo, desse modo, sem vnculos. Todos os vnculos de que um grupo depende 
tm o carter de instintos inibidos em seus objetivos. Porm, aqui nos aproximamos da discusso de um novo assunto, que trata da relao existente entre os instintos 
diretamente sexuais e a formao de grupos.

        D.As duas ltimas observaes nos tero preparado para descobrir que os impulsos diretamente sexuais so desfavorveis para a formao de grupos. Na histria 
da evoluo da famlia  fato que tambm houve relaes grupais de carter sexual (casamentos grupais), mas, quanto mais importante o amor sexual se tornou para 
o ego e mais desenvolveu o ego as caractersticas de estar amando, com maior premncia exigiu ser limitado a duas pessoas - una cum uno -, como  prescrito pela 
natureza do objetivo genital. As inclinaes polgamas tiveram de contentar-se em encontrar satisfao numa sucesso de objetos mutveis.
        Duas pessoas que se renem com o intuito de satisfao sexual, na medida em que buscam a solido, esto realizando uma demonstrao contra o instinto gregrio, 
o sentimento de grupo. Quanto mais enamoradas se encontram, mais completamente se bastam uma  outra. Sua rejeio da influncia do grupo se expressa sob a forma 
de um sentimento de vergonha. Sentimentos de cime da mais extrema violncia so convocados para proteger a escolha de um objeto sexual da usurpao por um lao 
grupal. Apenas quando o fator afetuoso, isto , pessoal, de uma relao amorosa cede inteiramente lugar ao sensual, torna-se possvel a duas pessoas manterem relaes 
sexuais na presena de outros, ou haver atos sexuais simultneos num grupo, tal como ocorre em uma orgia. Nesse ponto, porm, afetuou-se uma regresso a uma fase 
anterior das relaes sexuais, na qual estar amando ainda no desempenhava um papel e todos os objetos eram julgados como de igual valor, um pouco no sentido do 
malicioso aforismo de Bernard Shaw, segundo o qual estar apaixonado significa exagerar grandemente a diferena existente entre uma mulher e outra.
        Existem abundantes indicaes de que o estado de estar amando s fez seu aparecimento tardiamente nas relaes sexuais entre homens e mulheres, de maneira 
que a oposio entre amor sexual e vnculos grupais constitui tambm um desenvolvimento tardio. Ora, pode parecer que essa pressuposio seja incompatvel com nosso 
mito da famlia primeva, pois, afinal de contas, por seu amor pelas mes e irms a turba de irmos, conforme supomos, foi levada ao parricdio, sendo difcil imaginar 
esse amor como algo que no fosse indiviso e primitivo, isto , como uma unio ntima do afetuoso e do sensual. Uma considerao mais atenta, entretanto, transforma 
essa objeo  nossa teoria em confirmao dela. Uma das reaes ao parricdio foi, em ltima anlise, a instituio da exogamia totmica, a proibio de qualquer 
relao sexual com aquelas mulheres da famlia que haviam sido ternamente amadas desde a infncia. Desse modo, enfiou-se uma cunha entre os sentimentos afetuosos 
e sensuais do homem, que, atualmente, ainda se acha firmemente fixada em sua vida ertica. Em resultado dessa exogamia, as necessidades sensuais dos homens tiveram 
de ser satisfeitas com mulheres estranhas e no amadas.
        Nos grandes grupos artificiais, a Igreja e o exrcito, no h lugar para a mulher como objeto sexual. As relaes amorosas entre homens e mulheres permanecem 
fora dessas organizaes. Mesmo onde se formam grupos compostos tanto de homens como de mulheres, a distino entre os sexos no desempenha nenhum papel. Mal h 
sentido em perguntar se a libido que mantm reunidos os grupos  de natureza homossexual ou heterossexual, porque ela no se diferencia de acordo com os sexos e, 
particularmente, mostra um completo desprezo pelos objetivos da organizao genital da libido.
        Mesmo na pessoa que, sob outros aspectos, se absorveu em um grupo, os impulsos diretamente sexuais conservam um pouco de sua atividade individual. Se se 
tornam fortes demais, desintegram qualquer formao grupal. A Igreja Catlica possui o melhor dos motivos para recomendar a seus seguidores que permaneam solteiros, 
e para impor o celibato a seus sacerdotes, mas o apaixonar-se com freqncia impeliu mesmo padres a abandonar a Igreja. Da mesma maneira, o amor pela mulheres rompe 
os vnculos grupais de raa, divises nacionais e sistema de classes sociais, produzindo importantes efeitos como fator de civilizao. Parece certo que o amor homossexual 
 muito mais compatvel com os laos grupais, mesmo quando toma o aspecto de impulsos sexuais desinibidos, fato notvel cuja explicao poderia levar-nos longe.
        A investigao psicanaltica das psiconeuroses nos ensinou que seus sintomas devem ser remetidos a impulsos diretamente sexuais que so reprimidos mas permanecem 
ainda ativos. Podemos completar essa frmula acrescentando: 'ou a impulsos inibidos nos objetivos, cuja inibio no foi inteiramente bem-sucedida ou permitiu um 
retorno do objetivo sexual reprimido'. Est de acordo com isso que uma neurose torne associal a sua vtima ou a afaste das formaes habituais de grupo. Pode-se 
dizer que uma neurose tem sobre o grupo o mesmo efeito desintegrador que o estado de estar amando. Por outro lado, parece que onde foi dado um poderoso mpeto  
formao de grupo, as neuroses podem diminuir ou, pelo menos temporariamente, desaparecer. Justificveis tentativas foram feitas para situar esse antagonismo entre 
as neuroses e as formaes de grupo a servio da teraputica. Mesmo os que no lamentam o desaparecimento das iluses religiosas do mundo civilizado de hoje, admitem 
que, enquanto estiveram em vigor, ofereceram aos que a elas se achavam presos a mais poderosa proteo contra o perigo da neurose. Tampouco  difcil discernir que 
todos os vnculos que ligam as pessoas a seitas e comunidades mstico-religiosas ou filosfico-religiosas, so expresses de curas distorcidas de todos os tipos 
de neuroses. Tudo isso se correlaciona com o contraste entre os impulsos diretamente sexuais e os inibidos em seus objetivos.
        Se  abandonado a si prprio, um neurtico  obrigado a substituir por suas prprias formaes de sintomas as grandes formaes de grupo de que se acha excludo. 
Ele cria seu prprio mundo de imaginao, sua prpria religio, seu prprio sistema de delrios, recapitulando assim as instituies da humanidade de uma maneira 
distorcida, que constitui prova evidente do papel dominante desempenhado pelos impulsos diretamente sexuais.

        E.Em concluso, acrescentaremos, do ponto de vista da teoria da libido, uma estimativa comparativa dos estados em que estivemos interessados: estar amando, 
hipnose, formao grupal e neurose.
        Estar amando baseia-se na presena simultnea de impulsos diretamente sexuais e impulsos sexuais inibidos em seus objetivos, enquanto o objeto arrasta uma 
parte da libido do ego narcisista do sujeito para si prprio. Trata-se de uma condio em que h lugar apenas para o ego e o objeto.
        A hipnose assemelha-se ao estado de estar amando por limitar-se a essas duas pessoas, mas baseia-se inteiramente em impulsos sexuais inibidos em seus objetivos 
e coloca o objeto no lugar do ideal do ego.
        O grupo multiplica esse processo; concorda com a hipnose na natureza dos instintos que o mantm unido e na substituio do ideal do ego pelo objeto, mas 
acrescenta a identificao com outros indivduos, o que foi talvez, originalmente, tornado possvel por terem eles a mesma relao com o objeto.
        Ambos os estados, hipnose e formao de grupo, constituem um depsito herdado da filognese da libido humana; a hipnose sob a forma de uma predisposio 
e o grupo, ademais disso, como uma sobrevivncia direta. A substituio dos impulsos diretamente sexuais por aqueles que so inibidos em seus objetivos promove em 
ambos os estados uma separao entre o ego e o ideal do ego, separao da qual j se realizara um comeo no estado de estar amando.
        A neurose permanece fora dessa srie. Baseia-se tambm numa peculiaridade do desenvolvimento da libido humana - o incio duas vezes repetido, feito pela 
funo diretamente sexual, com um perodo intermedirio de latncia. At aqui, ela assemelha-se  hipnose e  formao de grupo, por ter o carter de uma regresso, 
que se acha ausente do estado de estar amando. Faz seu aparecimento onde quer que a passagem dos instintos diretamente sexuais para os que so inibidos em seus objetivos 
no foi inteiramente bem-sucedida; e representa um conflito entre aquelas partes dos instintos que foram recebidas no ego, aps haverem passado por essa evoluo, 
e as partes deles que, originando-se do inconsciente reprimido, esforam-se - como outros impulsos instintuais completamente reprimidos - por conseguir satisfao 
direta. As neuroses so extremamente ricas em contedo, por abrangerem todas as relaes possveis entre o ego e o objeto - tanto aquelas nas quais o objeto  mantido, 
como noutras, em que  abandonado ou erigido dentro do prprio ego - e tambm as relaes conflitantes entre o ego e o seu ideal do ego.













A PSICOGNESE DE UM CASO DE HOMOSSEXUALISMO NUMA MULHER (1920)


         NOTA DO EDITOR INGLS 
         BER DIE PSYCHOGENESE EINES FALLES VONWEIBLICHER HOMOSEXUALITT


(a) EDIES ALEMS:
1920 Int. Z. Psychoanal., 6 (1), 1-24.
1922 S.K.S.N., 5, 159-94.
1924 G.S., 5, 312-43.
1926 Psychoanalyse der Neurosen, 87-124.
1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 155-88.
1947 G.W., 12, 271-302

.(b) TRADUO INGLESA:
        'The Psychogenesis of a Case of Homosexuality in a Woman'
1920 Int. J. Psycho-Anal., 1, 125-49. (Trad. de Barbara Low e R. Gabler.)
1924 C.P., 2, 202-31. (Mesmos tradutores.)

        A presente traduo inglesa  uma verso consideravelmente modificada da publicada em 1924.

        Aps um intervalo de quase vinte anos, Freud publicou no presente artigo uma histria clnica bastante pormenorizada, embora incompleta, de uma paciente. 
Mas, ao passo que o caso de 'Dora' (1905e [1901]), bem como suas contribuies aos Estudos sobre a Histeria (1905d), tratavam exclusivamente da histeria, comeou 
agora a considerar mais profundamente toda a questo da sexualidade nas mulheres. Suas investigaes deveriam posteriormente conduzir aos artigos sobre os efeitos 
da distino anatmica entre os sexos (1925j) e sobre a sexualidade feminina (1931b), tambm  Conferncia XXIII de suas New Introductory Lectures (1933a). Afora 
isso, o artigo contm uma exposio de algumas opinies posteriores de Freud sobre o homossexualismo em geral, bem como certas observaes interessantes sobre pontos 
tcnicos.
        
        


         A PSICOGNESE DE UM CASO DE HOMOSSEXUALISMO NUMA MULHER        

                                        I

        O homossexualismo nas mulheres, que certamente no  menos comum que nos homens, embora muito menos manifesto, no s tem sido ignorado pela lei, mas tambm 
negligenciado pela pesquisa psicanaltica. A narrao de um caso isolado, no muito marcante em categoria, no qual foi possvel determinar sua origem e desenvolvimento 
na mente com uma segurana completa e quase sem lacunas, pode assim reivindicar certa ateno. Se essa apresentao do caso fornece apenas os contornos mais gerais 
dos diversos fatos correlacionados e das concluses obtidas de um estudo do caso, suprimindo ao mesmo tempo todos os pormenores caractersticos sobre os quais se 
funda a interpretao, essa limitao pode ser facilmente explicada pela discrio mdica necessria  discusso de um caso recente.
        Uma bela e inteligente jovem de dezoito anos, pertencente a uma famlia de boa posio, despertara desprazer e preocupao em seus pais pela devotada adorao 
com que perseguia certa 'dama da sociedade' cerca de dez anos mais velha que ela prpria. Os pais asseguravam que, a despeito de seu nome eminente, essa senhora 
no era mais que uma cocotte. Era bem conhecido, diziam, que vivia com uma amiga, uma mulher casada, com quem tinha relaes ntimas ao mesmo tempo que mantinha 
casos promscuos com certo nmero de homens. A moa no desmentia esses relatos maldosos, mas sequer permitia-lhes interferir em sua adorao da dama, embora de 
modo algum lhe faltasse certo senso de decncia e propriedade. Nem as proibies nem a vigilncia impediam a jovem de aproveitar todas as suas raras oportunidades 
de encontrar-se com a bem-amada, de verificar todos os seus hbitos, de esperar por ela durante horas diante de sua porta ou numa parada de bonde, de mandar-lhe 
presentes ou flores, e assim por diante. Era evidente que esse interesse nico havia engolfado todos os outros na mente da jovem. No se preocupava mais com os estudos, 
no se interessava por funes sociais ou prazeres de moa e mantinha relaes apenas com algumas amigas que podiam auxili-la na questo ou servir-lhe de confidentes. 
Os pais no podiam dizer a que ponto a filha havia chegado em suas relaes com a discutvel senhora, se os limites da admirao devotada j haviam ou no sido ultrapassados. 
Jamais tinham observado na filha qualquer interesse em moos, nem prazer em seus galanteios, ao passo que, por outro lado, se achavam seguros de sua presente ligao 
a uma mulher constituir apenas a seqncia, em grau mais acentuado, de um sentimento que em anos recentes demonstrara por outros membros de seu prprio sexo, sentimento 
que j despertara a suspeita e a ira do pai.
        Dois pormenores em seu comportamento, estando um em aparente contraste com o outro, mais especialmente agastavam os pais. De um lado, no tinha escrpulos 
quanto a aparecer nas ruas mais freqentadas em companhia de sua indesejvel amiga, ento sendo bastante negligente quanto  prpria reputao; de resto, no desprezava 
nenhum meio de embuste, desculpas e mentiras que possibilitassem seus encontros com a amiga e os acobertassem. Assim, mostrava-se demasiado franca sob um dos aspectos 
e noutros, cheia de embustes. Um dia ocorreu de fato, como mais cedo ou mais tarde seria inevitvel nas circunstncias, o pai encontrar a filha em companhia da senhora, 
acerca de quem chegara a conhecer. Passou por elas de olhar irado, prenunciando nada de bom. Subitamente, a jovem saiu correndo e arremeteu-se em direo a um muro, 
saltando-o para o lado de um corte que dava para a linha ferroviria suburbana ali perto. Pagou essa tentativa indiscutivelmente sria de suicdio com um tempo considervel 
deitada de costas na cama, embora, afortunadamente, fossem poucos os danos permanentes causados. Aps a recuperao, descobriu ser mais fcil que antes conseguir 
o que queria. Os pais no ousaram opor-se-lhe com tanta determinao e a senhora, que at ento recebera friamente seus avanos, comoveu-se com prova to inequvoca 
de sria paixo e comeou a trat-la de maneira mais amistosa.
        Aproximadamente seis meses aps o episdio, os pais buscaram orientao mdica e confiaram ao mdico a tarefa de reconduzir sua filha a um estado normal 
de esprito. A tentativa de suicdio da jovem evidentemente lhes tinha mostrado que fortes medidas disciplinares em casa eram impotentes para vencer esse seu distrbio. 
Antes de prosseguir ser, porm, desejvel considerar separadamente as atitudes do pai e da me perante o assunto. O pai, um homem srio e conceituado, no fundo 
de corao muito terno; porm, at certo ponto tinha alheado de si os filhos com a rigidez que adotara para com eles. Seu tratamento com a filha nica era demasiadamente 
influenciado pela considerao que tinha pela mulher. Quando soubera, pela primeira vez, das tendncias homossexuais da filha, ficara enfurecido e tentara suprimi-las 
com ameaas. Naquela ocasio, talvez, hesitava entre opinies diferentes, embora do mesmo modo aflitivas: encarando a filha como viciosa, ou degenerada ou mentalmente 
perturbada. Sequer aps a tentativa de suicdio no lograra a eloqente resignao demonstrada por um de nossos colegas mdicos que observou de uma irregularidade 
semelhante em sua prpria famlia: 'Bem,  apenas uma infelicidade como qualquer outra'. Havia algo no homossexualismo da filha que lhe despertava a mais profunda 
amargura, e estava determinado a combat-lo por todos os meios em seu poder. A pouca estima em que a psicanlise geralmente  tida em Viena no impediu que se voltasse 
a ela em busca de auxlio. Falhasse essa soluo, ele ainda tinha de reserva sua mais forte medida defensiva: um casamento rpido deveria despertar os instintos 
naturais da moa e abafar suas tendncias inaturais.
        A atitude da me para com a jovem no era to fcil de compreender. Ela era uma mulher jovem, evidentemente pouco disposta a abandonar seus prprios direitos 
 atrao. Claro era o fato global de ela no tomar o enamoramento da filha to tragicamente como o pai, e tampouco se enfurecia com ele. Havia mesmo, por certo 
tempo, desfrutado da confiana da filha relativamente  paixo dela. Sua oposio a ela parecia ter sido sobretudo despertada pela danosa publicidade com que a moa 
demonstrava seus sentimentos. Ela prpria sofrera, durante alguns anos, de problemas neurticos e gozava de grande considerao por parte do marido. Tratava os filhos 
de modos inteiramente diferentes, sendo decididamente spera com a filha e de excessiva indulgncia com os trs filhos, dos quais o mais novo nascera aps longo 
intervalo e no contava, ento, ainda trs anos de idade. No era fcil apurar algo de mais definido a respeito do seu carter, porque, por motivos que posteriormente 
se tornaro inteligveis, a paciente era sempre reservada no que dizia sobre a me, ao passo que, em relao ao pai, nada disso acontecia.
        Para um mdico que fosse empreender o tratamento psicanaltico da jovem, havia muitos fundamentos para desconfiana. A situao que devia tratar no era 
a que a anlise exige, na qual somente ela pode demonstrar sua eficcia. Sabe-se bem que a situao ideal para a anlise  a circunstncia de algum que, sob outros 
aspectos,  seu prprio senhor, estar no momento sofrendo de um conflito interno, que  incapaz de resolver sozinho; assim leva seu problema ao analista e lhe pede 
auxlio. O mdico ento trabalha de mos dadas com uma das partes da personalidade patologicamente dividida, contra a outra parte no conflito. Qualquer situao 
que dessa difira , em maior ou menor grau, desfavorvel para a psicanlise e acrescenta novas dificuldades s internas, j presentes. Situaes como as de um proprietrio 
em perspectiva, que ordena a um arquiteto construir-lhe uma vivenda de acordo com seus prprios gostos e exigncias, ou de doador piedoso que comissiona um artista 
para pintar um quadro sacro, em cujo canto deve haver um seu retrato em adorao: tais so, no fundo, incompatveis com as condies necessrias  psicanlise. Assim, 
acontece constantemente que um marido instrua o mdico do seguinte modo: 'Minha esposa sofre dos nervos e, por isso, d-se muito mal comigo; por favor, cure-a, a 
fim de podermos levar novamente uma vida conjugal feliz.' Com muita freqncia, porm, fica provado que a um pedido desses  impossvel atender, isto , o mdico 
no poder expor o resultado para o qual o marido procurou o tratamento. Assim que a esposa se liberta de suas inibies neurticas, pe-se a conseguir uma separao, 
porque sua neurose era a nica condio sob a qual o matrimnio podia ser mantido. Ou ento os pais esperam que curem seu filho nervoso e desobediente. Entendem 
por criana sadia a que nunca cause problemas aos pais e nada lhes d seno prazer. O mdico pode conseguir a cura da criana, mas, depois, ela faz o que quer com 
mais deciso ainda, e a insatisfao dos pais  bem maior que antes. Em suma, no  indiferente que algum venha  psicanlise por sua prpria vontade ou seja levado 
a ela, quando  ele prprio que deseja mudar, ou apenas os seus parentes, que o amam (ou se supe que o amem).
        Outros aspectos desfavorveis no presente caso eram os fatos de a jovem no estar de modo algum doente (no sofria em si de nada, nem se queixava de sua 
condio) e de a tarefa a cumprir no consistir em solucionar um conflito neurtico, mas em transformar determinada variedade da organizao genital da sexualidade 
em outra. Tal realizao - a remoo da inverso genital ou homossexualismo - nunca, pela minha experincia,  matria fcil. Pelo contrrio, s achei possvel o 
xito em circunstncias especialmente favorveis e, assim mesmo, o sucesso consistia essencialmente em facilitar o acesso ao sexo oposto (at ento barrado) a uma 
pessoa restrita ao homossexualismo, restaurando assim suas funes bissexuais plenas. Depois, competia a ela escolher se desejava abandonar o caminho que  proibido 
pela sociedade, e, em alguns casos, assim procedia. Devemos lembrar-nos de que tambm a sexualidade normal depende de uma restrio na escolha do objeto. Em geral, 
empreender a converso de um homossexual plenamente desenvolvido em um heterossexual no oferece muito maiores perspectivas de sucesso que o inverso; exceto que, 
por boas e prticas razes, o ltimo caso nunca  tentado.
        O nmero de xitos conseguidos pelo tratamento psicanaltico das diversas formas de homossexualismo, que, por casualidade, so mltiplas, na verdade no 
 muito notvel. Via de regra, o homossexual no  capaz de abandonar o objeto que o abastece de prazer e no se pode convenc-lo de que, se fizesse a mudana, descobriria 
em outro objeto o prazer a que renunciou. Se chega a ser tratado, isso se d principalmente pela presso de motivos externos, tais como as desvantagens sociais e 
os perigos ligados  sua escolha de objetos; e esses componentes do instinto de autoconservao mostram-se fracos demais na luta contra os impulsos sexuais. Ento, 
logo descobrimos seu plano secreto, que  obter do notvel fracasso de sua tentativa um sentimento de satisfao por ter feito tudo quanto possvel contra a sua 
anormalidade, com o qual pode resignar-se agora de conscincia tranqila. O caso  um tanto diferente quando a considerao por pais e parentes queridos foi o motivo 
da sua tentativa de curar-se. Aqui esto realmente presentes impulsos libidinais que podem aplicar energias opostas  escolha homossexual de objeto, contudo sua 
fora raramente  suficiente. Apenas onde a fixao homossexual ainda no se tornou suficientemente forte, ou onde existem considerveis rudimentos e vestgios de 
uma escolha heterossexual de objeto, isto , numa organizao ainda oscilante ou definitivamente bissexual,  que se pode efetuar um prognstico mais favorvel para 
a psicoterapia psicanaltica.
        Por essas razes me abstive por completo de oferecer aos pais qualquer perspectiva de realizao de seu desejo. Simplesmente lhes disse que estava preparado 
para estudar cuidadosamente a moa durante algumas semanas ou meses, para ento poder julgar em que medida uma continuao da anlise teria probabilidade de influenci-la. 
Em bom nmero de casos  fato uma anlise incidir em duas fases claramente distinguveis. Na primeira, o mdico consegue do paciente as informaes necessrias, 
familiariza-o com as premissas e os postulados da psicanlise e lhe revela a reconstruo da gnese de seu distrbio, como essa  deduzida do material trazido  
anlise. Na segunda fase, o prprio paciente se apossa do material que lhe foi apresentado; trabalha sobre ele, recorda-se do que pode de lembranas aparentemente 
reprimidas e tenta repetir o resto, como se de alguma forma o estivesse vivendo novamente. Pode assim confirmar, suplementar e corrigir as inferncias do mdico. 
S durante esse trabalho que ele experimenta, pela vitria sobre as resistncias, a mudana interior a que visa e adquire para si as convices que o tornam independente 
da autoridade do mdico. Essas duas fases no curso do tratamento analtico no esto sempre nitidamente separadas uma da outra, o que s pode acontecer quando a 
resistncia obedece a certas condies. Mas sendo assim, pode-se apresentar, como analogia, as duas etapas de uma viagem. A primeira compreende todos os preparativos 
necessrios, hoje to complicados e difceis de efetuar, antes de, passagem na mo, poder-se finalmente chegar  plataforma e garantir um lugar no trem. Tem-se ento 
o direito e a possibilidade de viajar para um pas distante; mas, passadas aquelas diligncias, ainda no nos encontramos l; na verdade, no estamos um quilmetro 
sequer mais prximos de nosso destino. Para que isso acontea, h que efetuar a prpria viagem, de uma estao  outra, e essa parte da execuo bem pode ser comparada 
 segunda fase da anlise.
        O curso da anlise da atual paciente acompanhou esse modelo de duas fases, todavia no foi continuado aps o incio da segunda. Uma constelao especial 
da resistncia tornou possvel, no obstante, conseguir uma plena confirmao de minhas construes tericas e obter uma compreenso interna (insight) adequada, 
em linhas gerais, da maneira pela qual sua inverso se desenvolvera. Mas antes de relatar as descobertas da anlise, devo tratar de alguns pontos que ou j foram 
aflorados por mim ou despertaro um interesse especial no leitor.
        Fiz o prognstico parcialmente na dependncia da extenso em que a jovem lograra satisfazer sua paixo. As informaes que obtive durante a anlise pareceram 
favorveis nesse respeito. Com nenhum dos objetos de sua adorao havia a paciente frudo de algo alm de alguns beijos e abraos; sua castidade genital, se se pode 
usar essa expresso, permanecera intacta. Quanto  demi-mondaine que despertava suas mais recentes e, de longe, mais intensas emoes, ela sempre a tratara friamente 
e nunca lhe fora permitido qualquer favor maior do que beijar-lhe a mo. Provavelmente ela transformava a necessidade em virtude, quando insistia na pureza de seu 
amor e em sua repulso fsica  idia de qualquer relao sexual. Mas pode ser que no se achasse inteiramente enganada ao gabar-se de sua maravilhosa bem-amada, 
que, sendo de boa famlia como era, e forada  presente situao apenas devido a circunstncias familiares adversas, havia conservado a despeito de sua situao 
atual, muita nobreza de carter. A dama costumava recomendar  moa, sempre quando se encontravam, que afastasse sua afeio dela e das mulheres em geral, havendo 
persistentemente rejeitado todos os avanos da jovem at a ocasio da tentativa de suicdio.
        Um segundo ponto, que imediatamente tentei investigar, relacionava-se com quaisquer motivos possveis na prpria moa que pudessem servir de base para o 
tratamento psicanaltico. Ela no procurou enganar-me dizendo sentir alguma necessidade urgente de libertar-se de seu homossexualismo. Pelo contrrio, disse ser 
incapaz de imaginar outra maneira de enamorar-se, mas acrescentou que, por amor aos pais, auxiliaria honestamente no esforo teraputico, de vez que lhe doa muito 
ser-lhes a causa de tanto pesar. Inicialmente, no pude deixar de considerar essa inteno tambm como um signo propcio, pois no podia imaginar a atitude emocional 
inconsciente que jazia oculta por trs dela. O que nessa correlao posteriormente veio  luz influenciou decisivamente o curso tomado pela anlise e determinou 
a sua concluso prematura.
        Os leitores no versados em psicanlise h muito estaro aguardando uma resposta a duas outras perguntas. Apresentava essa jovem homossexual caractersticas 
fsicas claramente pertinentes ao sexo oposto, e o caso provou ser homossexualismo congnito ou adquirido (desenvolvido posteriormente)?
        Estou ciente da importncia que se prende  primeira das perguntas, contudo no se deve exager-la e permitir-lhe que obscurea o fato de caractersticas 
secundrias espordicas do sexo oposto amide estarem presentes em indivduos normais, e de caractersticas fsicas bem acentuadas do sexo oposto poderem existir 
em pessoas cuja escolha de objeto no experimentou mudana no sentido da inverso. Noutras palavras, em ambos os sexos  o grau de hermafroditismo fsico , em grande 
parte, independente do hermafroditismo psquico. Alterando essas afirmativas, deve-se acrescentar que tal independncia  mais evidente nos homens que nas mulheres, 
onde traos corporais e mentais pertencentes ao sexo oposto tendem a coincidir. Entretanto, no me encontro em posio de fornecer uma resposta satisfatria  primeira 
de nossas questes sobre minha paciente. O psicanalista de hbito se abstm de um exame fsico detalhado de seus pacientes, em certos casos. Certamente no havia 
desvio bvio do tipo fsico feminino, sequer qualquer distrbio menstrual. A jovem bela e bem-feita tinha, de fato, a figura alta do pai e suas feies eram mais 
agudas do que suaves e feminis, traos que podiam ser vistos como indicadores de masculinidade fsica. Alguns de seus atributos intelectuais tambm podiam estar 
vinculados  masculinidade, como, por exemplo, sua acuidade de compreenso e sua lcida objetividade, na medida em que no se achava dominada por sua paixo. Mas 
essas distines so antes convencionais que cientificas. O que certamente tem importncia maior  a jovem, em seu comportamento para com seu objeto amoroso, haver 
assumido inteiramente o papel masculino, isto , apresentava a humildade e a sublime supervalorizao do objeto sexual to caractersticas do amante masculino, a 
renncia a toda satisfao narcisista e a preferncia de ser o amante e no o amado. Havia, assim, no apenas escolhido um objeto amoroso feminino, mas desenvolvera 
tambm uma atitude masculina para com esse objeto.
        A segunda questo - se se tratava de um caso de homossexualismo congnito ou adquirido - ser respondida pela histria completa da anormalidade da paciente 
e de sua evoluo. O estudo desse aspecto nos mostrar at onde essa questo  estril e despropositada. 

                                        II

        Aps essa introduo altamente discursiva, apenas posso apresentar um resumo muito conciso da histria sexual do caso em considerao. Na infncia, a jovem 
passou pela atitude normal caracterstica do complexo de dipo feminino de maneira no tanto notvel e posteriormente comeara a substituir o pai por um irmo ligeiramente 
mais velho que ela. No se lembrava de quaisquer traumas sexuais no comeo da vida, nem tampouco algum foi descoberto pela anlise. A comparao entre os rgos 
genitais do irmo e os seus, que fez pelo incio do perodo de latncia (aos cinco anos de idade ou, talvez, um pouco antes), deixara-lhe forte impresso e tivera 
efeitos posteriores de grandes conseqncias. Havia poucos sinais a apontar para a masturbao infantil ou, ento, a anlise no foi suficientemente longe para lanar 
luz sobre este ponto. O nascimento de um segundo irmo quando contava entre cinco e seis anos de idade, no exerceu influncia especial sobre seu desenvolvimento. 
Durante os anos de pr-puberdade, na escola, gradualmente familiarizou-se com os fatos do sexo e recebeu este conhecimento com sentimentos mistos de lascvia e assustada 
averso, de uma maneira que se pode chamar de anormal e sem exagero em grau. Este nmero de informaes sobre ela parece bastante escasso e tampouco posso garantir 
que seja completo. Pode ser que a histria de sua juventude fosse muito mais rica em experincias; no sei. Como j disse, a anlise foi interrompida aps curto 
tempo e, portanto, produziu uma anamnese no muito mais digna de f que as outras anamneses de homossexuais, de que h bons motivos para duvidar. Alm disso, a jovem 
nunca fora neurtica e chegara a anlise sem um nico sintoma histrico, de modo que as oportunidades para investigar a histria de sua infncia no se apresentaram 
to prontamente quanto de hbito.
        Na idade dos treze aos quatorze anos apresentara uma afeio terna e, segundo a opinio geral, exageradamente forte por um menino de menos de trs anos de 
idade, a quem costumava ver regularmente num playground infantil. Apegou-se  criana to calorosamente que, em conseqncia, uma amizade duradoura surgiu entre 
ela e os pais dele. Pode-se inferir desse episdio que, naquela poca, achava-se possuda de forte desejo de ser me e ter um filho. Contudo, aps curto tempo, tornou-se 
indiferente ao menino e comeou a interessar-se por mulheres maduras porm de aparncia ainda jovem. As manifestaes desse interesse logo lhe valeram um severo 
castigo das mos de seu pai.
        Ficou estabelecido, alm de qualquer dvida, que essa mudana ocorreu simultaneamente com certo acontecimento na famlia e, assim, pode-se examin-lo em 
busca de alguma explicao para a mudana. Antes que acontecesse, sua libido se concentrava em uma atitude maternal, a seguir tornando-se uma homossexual atrada 
por mulheres maduras, assim permanecendo desde ento. O acontecimento, to significante para a nossa compreenso do caso, foi uma nova gravidez de sua me, e o nascimento 
de um terceiro irmo quando a paciente contava cerca de dezesseis anos de idade.
        A situao de ocorrncias que agora passarei a revelar no  produto de minhas foras inventivas; baseia-se em provas analticas to dignas de f, que para 
ela posso reivindicar uma validez objetiva. Foi, em particular, uma srie de sonhos, inter-relacionados e fceis de interpretar, que me fizeram decidir em favor 
de sua realidade.
        A anlise da jovem revelou, sem sombra de dvida, que a amada era uma substituta de sua me.  verdade que a prpria dama no era me; contudo, tambm no 
era o primeiro amor da moa. Os primeiros objetos de sua afeio aps o nascimento do irmo mais novo haviam sido realmente mes, mulheres entre trinta e trinta 
e cinco anos de idade, a quem havia encontrado com os filhos durante frias de vero ou no crculo familiar de conhecidos na cidade. A maternidade como condio 
sine qua non em seu objeto amoroso foi posteriormente abandonada, de vez que na vida real essa precondio era difcil de combinar com outra, que foi tornando-se 
cada vez mais importante. A ligao sobremodo intensa com seu ltimo amor tinha, ainda, outro fundamento que a jovem com facilidade descobriu certo dia. A figura 
esbelta, a beleza severa e a postura ereta de sua dama faziam-na lembrar-se do irmo que era um pouco mais velho que ela. Assim, sua ltima escolha correspondia 
no s ao ideal feminino, como tambm ao masculino; combinava a satisfao da tendncia homossexual com a da tendncia heterossexual.  bem sabido que a anlise 
de homossexuais masculinos em numerosos casos revelou a mesma combinao, o que deveria nos alertar contra formarmos uma concepo demasiado simples de natureza 
e gnese da inverso e mantermos em mente a bissexualidade universal dos seres humanos.
        Como, porm, devemos compreender o fato de ter sido precisamente o nascimento de uma criana, chegada  famlia extemporaneamente (numa ocasio em que a 
prpria jovem j estava madura e com intensos desejos prprios), que a levou a aplicar sua ternura apaixonada  mulher que dera  luz essa criana, isto ,  sua 
prpria me, e expressar esse sentimento para com um substituto materno? De tudo quanto sabemos seria de esperarmos exatamente o oposto. Em tais circunstncias, 
as mes com filhas em idade prxima de casar geralmente se sentem embaraadas em relao a elas, e as filhas capazes de sentir pelas mes uma mescla de compaixo, 
desprezo e inveja, que em nada contribui para aumentar sua ternura com elas. A jovem que estamos considerando tinha, de modo geral, poucos motivos para sentir afeio 
pela me. A me, moa ainda, via na filha, que se desenvolvia rapidamente, uma competidora inconveniente; favorecia os filhos em detrimento dela, limitava-lhe a 
independncia tanto quanto possvel e mantinha vigilncia especialmente estrita contra qualquer relao mais chegada entre a jovem e o pai. Assim, ansiar, desde 
o comeo, por uma me mais bondosa fora inteiramente compreensvel, contudo difcil de entender  a razo por que deveria ter-se inflamado exatamente naquela ocasio 
e sob a forma de uma paixo consumidora.
        A explicao  a seguinte: no exato perodo em que a jovem experimentava a revivescncia de seu complexo de dipo infantil, na puberdade, sofreu seu grande 
desapontamento. Tornou-se profundamente cnscia do desejo de possuir um filho, um filho homem; seu desejo de ter o filho de seu pai e uma imagem dele, na conscincia 
ela no podia conhecer. Que sucedeu depois? No foi ela quem teve o filho, mas sua rival inconscientemente odiada, a me. Furiosamente ressentida e amargurada, afastou-se 
completamente do pai e dos homens. Passado esse primeiro grande revs, abjurou de sua feminidade e procurou outro objetivo para sua libido.
        Assim procedendo, comportou-se exatamente como muitos homens que, aps uma primeira experincia penosa, do as costas, para sempre, ao infiel sexo feminino 
e se tornam odiadores de mulheres. Relata-se de uma das mais atraentes e infelizes figuras principescas de nossa poca que ele se tornou homossexual porque a dama 
com quem estava comprometido em matrimnio traiu-o com outro homem. Ignoro se isso  historicamente verdadeiro, mas por trs do boato h um elemento de verdade psicolgica. 
Em todos ns, no decorrer da vida, a libido oscila normalmente entre objetos masculinos e femininos; o solteiro abandona seus amigos homens, ao casar-se, e retorna 
 vida de clube quando a vida conjugal perdeu o sabor. Naturalmente, quando a amplitude da oscilao  fundamental e final, suspeitamos da presena de algum fator 
especial que favorece definidamente um lado ou outro e que talvez s tenha esperado pelo momento apropriado para voltar a escolha de objeto em sua direo. 
        Assim, aps seu desapontamento a jovem repudiara inteiramente seu desejo de um filho, o amor dos homens e o papel feminino em geral.  evidente que, nesse 
ponto, algumas coisas bem diferentes poderiam ter acontecido. O que realmente ocorreu foi o caso mais extremo. Ela se transformou em homem e tomou a me, em lugar 
do pai, como objeto de seu amor. Sua relao com a me certamente fora ambivalente desde o incio, foi fcil reviver o primitivo amor por ela e, com o seu auxlio, 
provocar uma supercompensao de sua hostilidade atual para com a mesma. De vez que pouco havia a fazer com a me real, dessa transformao de sentimentos nasceu 
a busca de uma me substituta, a quem poderia ligar-se apaixonadamente.
        Ademais, havia um motivo prtico para essa mudana, derivado de suas relaes reais com a me, que serviu como novo ganho [secundrio]  sua doena. A prpria 
me ainda ligava grande valor s atenes e  admirao dos homens. A jovem, tornando-se homossexual e deixando os homens para a me (noutras palavras, 'se se retirasse 
em benefcio' dela), poderia afastar algo que at ento fora parcialmente responsvel pela antipatia da me.
        Essa posio libidinal da jovem, a que se chegou, foi grandemente reforada to logo percebeu o quanto ela desagradava a seu pai. Aps ter sido punida por 
sua atitude to afetuosa para com uma mulher, compreendeu como poderia ferir o pai e vingar-se dele. Desde ento permaneceu homossexual em desafio ao pai, sequer 
tambm tinha escrpulos em mentir-lhe e engan-lo de todas as formas. Para com a me, na verdade, s era falsa na medida do necessrio, para impedir o pai de saber 
de coisas. Tive a impresso de que seu comportamento seguia o princpio de Talio: 'De vez que voc me traiu, tem de se conformar com que eu o traia.' No cheguei 
a nenhuma outra concluso sobre a notvel falta de precaues apresentada pela jovem, sob outros aspectos de uma excessiva sagacidade. Ela queria que o pai soubesse 
ocasionalmente de suas relaes com a dama, do contrrio ficaria privada da satisfao de seu desejo mais penetrante, ou seja, a vingana. Assim, tomou essa providncia 
mostrando-se abertamente em companhia de sua adorada, passeando com ela pelas ruas prximas de onde o pai tinha seus negcios, e coisas semelhantes. Ademais, essa 
inabilidade absolutamente no era intencional. Era notvel, tambm, que ambos os genitores se comportavam como se entendessem a psicologia secreta da filha. A me 
era tolerante, como se apreciasse a 'retirada' da filha como um favor feito a ela; o pai se enfurecia, como se compreendesse a vingana deliberada dirigida contra 
ele.
        A inverso da jovem, entretanto, recebeu o reforo final quando descobriu em sua 'dama' um objeto que prometia satisfazer no apenas as suas inclinaes 
homossexuais, como tambm aquela parte de sua libido que ainda se achava ligada ao irmo.

                                        III

        A apresentao linear no constitui um meio muito adequado de descrever complicados processos mentais que se desenrolam em camadas diferentes da mente. Dessa 
forma, sou obrigado a fazer uma pausa no exame do caso e tratar mais ampla e profundamente alguns dos pontos acima apresentados.
        Mencionei que, em seu comportamento para com a dama adorada, a jovem adotara o caracterstico tipo masculino de amor. Sua humildade e sua terna ausncia 
de pretenses, 'che poco spera e nulla chiede', sua felicidade quando lhe permitiam acompanhar um pouco a senhora e beijar sua mo ao se separar, sua alegria quando 
ouvia elogiarem-na de bela ao passo que qualquer reconhecimento de sua prpria beleza por outra pessoa no lhe significava absolutamente nada, suas peregrinaes 
a lugares outrora visitados pela bem-amada, o silncio de todos os desejos mais sensuais - todos esses pequenos traos seus se assemelhavam  primeira e apaixonada 
admirao de um jovem por uma atriz clebre, a quem considera estar em plano muito mais alto do que ele e para quem mal se atreve a levantar os acanhados olhos. 
A correspondncia com 'um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens' que descrevi noutra parte (1910h) e cujas caractersticas especiais remeti  ligao 
com a me, aplicava-se mesmo nos menores detalhes. Pode parecer digno de nota que ela no fosse de modo algum repelida pela m reputao de sua amada, embora suas 
prprias observaes confirmassem suficientemente a verdade de tais boatos. Era, afinal de contas, uma jovem bem educada e recatada, que evitava para si aventuras 
sexuais e encarava como antiestticas as satisfaes grosseiramente sensuais. No entanto, j as suas primeiras paixes haviam sido por mulheres, no afamadas por 
um comportamento especialmente rgido. O primeiro protesto lanado pelo pai contra sua escolha amorosa fora evocado pela pertincia com que procurara a companhia 
de uma atriz cinematogrfica num lugar de veraneio. Ademais, em todos esses casos, nunca se tratara de mulheres que tivessem qualquer reputao por homossexualismo 
e que, portanto, poderiam ter-lhe oferecido alguma perspectiva de satisfao homossexual; pelo contrrio, ilogicamente cortejava mulheres coquetes, no sentido comum 
da palavra, e rejeitara sem hesitao os avanos condescendentes feitos por uma amiga homossexual de sua mesma idade. Para ela, a m reputao de sua 'dama', contudo, 
era positivamente uma 'condio necessria para o amor'. Tudo de enigmtico nessa atitude se desvanece quando recordamos que tambm no caso do tipo masculino de 
escolha de objeto derivado da me  condio necessria que o objeto amado seja, de uma maneira ou outra, sexualmente 'de m reputao', algum que realmente possa 
ser chamada de cocotte. Quando a jovem mais tarde descobriu o quanto sua adorada dama merecia essa qualificao e que vivia simplesmente de oferecer seus favores 
corporais, sua reao assumiu a forma de uma grande compaixo e de fantasias e planos para 'resgatar' sua querida dessas circunstncias ignbeis. Ficamos impressionados 
com o mesmo mpeto de 'resgatar', nos homens do tipo acima mencionado, e, em minha descrio tentei fornecer a derivao analtica desse impulso.
        Somos levados a outro domnio inteiramente diferente de explicao pela anlise da tentativa de suicdio, que devo encarar como seriamente intencionada e 
que, incidentalmente, melhorou bastante sua posio tanto com relao aos pais quanto  senhora que amava. Saiu, certo dia, de passeio com ela, numa parte da cidade 
e em hora que no era improvvel encontrar seu pai de volta do escritrio. Assim aconteceu. O pai passou por ela, na rua, de olhar furioso para ela e sua companheira, 
de que, nessa poca, vinha tomando conhecimento. Poucos momentos depois, ela atirou-se para dentro do corte ferrovirio. A sua explicao das razes imediatas que 
determinaram sua deciso, pareciam inteiramente plausveis. Confessara  senhora que o homem que lhes dirigira o olhar to enfurecido era seu pai, e que ele proibira 
por completo a amizade entre elas. A dama encolerizara-se com isso e ordenara  jovem que a deixasse ali mesmo e nunca mais esper-la ou a ela se dirigir: o caso 
tinha de terminar ali. Desesperada por haver dessa forma perdido para sempre sua bem-amada, quis pr termo  sua prpria vida. A anlise, contudo, pode descobrir 
outra interpretao mais profunda por trs da que forneceu, confirmada pela interpretao dos prprios sonhos da paciente. A tentativa de suicdio, como se podia 
esperar, foi determinada por dois outros motivos, alm do que ela forneceu: a realizao de uma punio (autopunio) e a realizao de um desejo. Esse ltimo significava 
a consecuo do prprio desejo que, quando frustrado, a impelira ao homossexualismo: o desejo de ter um filho do pai, pois agora ela 'cara' por culpa do pai. O 
fato de, naquele momento, a senhora haver-lhe falado exatamente nos mesmos termos que o pai e proferido a mesma proibio, forma o elo vinculatrio entre essa interpretao 
profunda e a superficial, de que a prpria jovem estava ciente. Do ponto de vista da autopunio, a ao da jovem nos mostra que desenvolvera no inconsciente intensos 
desejos de morte contra um ou outro de seus genitores, talvez contra o pai, como vingana por impedir seu amor, porm mais provavelmente contra a me, quando grvida 
do irmo pequeno, tendo a anlise explicado o enigma do suicdio da seguinte maneira:  provvel que ningum encontre a energia mental necessria para matar-se, 
a menos que, em primeiro lugar, agindo assim, esteja ao mesmo tempo matando um objeto com quem se identificou e, em segundo lugar, voltando contra si prprio um 
desejo de morte antes dirigido contra outrem. Tampouco a descoberta regular desses desejos de morte inconscientes naqueles que tentaram o suicdio precisa surpreender-nos 
(no mais do que deveria para fazer-nos refletir que isso confirma nossas dedues), de vez que o inconsciente de todos os seres humanos se acha bem repleto de tais 
desejos de morte, at contra aqueles a quem amam. Uma vez que a jovem se identificava com a me, que deveria ter morrido no nascimento do filho, a ela negado, essa 
realizao de punio constitua mais uma vez uma realizao de desejo. Finalmente, a descoberta de que vrios motivos inteiramente diversos, todos de grande intensidade, 
devem ter cooperado para tornar possvel tal ao, est de estrito acordo com o que esperaramos.
        No relato da jovem, de seus motivos conscientes, o pai no figurou em absoluto; sequer foi mencionado o temor de sua ira. Nos motivos desnudados pela anlise, 
por outro lado, ele desempenhava o papel principal. Sua relao com o pai teve a mesma importncia decisiva para o curso e o resultado do tratamento analtico, ou 
antes, explorao analtica. Por trs de sua pretensa considerao pelos genitores, por amor dos quais dispusera-se a efetuar as tentativa de transformao, jazia 
escondida sua atitude de desafio e vingana contra o pai, atitude que a fizera aferrar-se ao homossexualismo. Protegida sob essa cobertura, a resistncia liberou 
 investigao analtica uma considervel regio. A anlise prosseguiu quase sem sinais de resistncia, a paciente participando ativamente com o seu intelecto, embora 
emocionalmente bastante tranqila. Certa vez, ao lhe expor uma parte especialmente importante da teoria, que lhe tocava de perto, ela respondeu num tom inimitvel, 
'Que interessante', como se fosse uma grande dame levada a um museu e passando o olhar, atravs de seu lorgnon, por objetos a que era completamente indiferente. 
A impresso que se tinha de sua anlise no era diferente da que se tem de um tratamento hipntico, em que a resistncia, da mesma maneira, se retirou para certa 
linha limtrofe, alm da qual mostra ser inconquistvel. A resistncia com muita freqncia emprega tticas semelhantes, tticas russas, como se poderia cham-las, 
em casos de neuroses obsessivas. Em conseqncia, durante certo tempo, esses casos apresentam os mais claros resultados e permitem uma profunda compreenso interna 
(insight) da causa dos sintomas. Dentro em pouco, porm, comea-se a imaginar como um progresso to acentuado na compreenso analtica pode estar desacompanhado 
at mesmo da mais ligeira mudana nas compulses e inibies do paciente, at que por fim se percebe que tudo quanto foi realizado est sujeito a uma reserva mental 
de dvida e que por trs dessa barreira protetora a neurose pode sentir-se segura. 'Tudo seria muito bom', pensa o paciente, muitas vezes de modo inteiramente consciente, 
'se eu fosse obrigado a acreditar no que o homem diz, mas como no se trata disso e enquanto for assim, no preciso mudar nada.' Depois, ao nos aproximarmos dos 
motivos para essa dvida, a batalha com as resistncias irrompe a srio.
        No caso de nossa paciente, no havia dvida de que fora o fator emocional de vingana contra o pai que tornara possvel sua fria reserva, dividira a anlise 
em duas fases distintas e tornara to completos e claros os resultados da primeira fase. Parecia, ademais, como se nada semelhante a uma transferncia para o mdico 
se houvesse efetuado. Isso, contudo,  naturalmente absurdo ou, pelo menos,  uma maneira imprecisa de expressar as coisas, de vez que algum tipo de relao com 
o analista deve surgir e esta quase sempre  transferida de uma relao infantil. Na realidade, ela me transferira o abrangente repdio dos homens que a dominara 
desde o desapontamento sofrido com o pai. O azedume contra os homens, via de regra,  fcil de ser gratificado com o mdico; no precisa evocar quaisquer manifestaes 
emocionais violentas, simplesmente expressa-se pelo tornar fteis todos os esforos dele e pelo aferrar-se  doena. Sei por experincia quo difcil  fazer um 
paciente entender precisamente esse tipo silencioso de comportamento sintomtico e torn-lo ciente dessa hostilidade latente e excessivamente forte, amide, sem 
pr em perigo o tratamento. Assim, logo que identifiquei a atitude da jovem para com o pai, interrompi o tratamento e aconselhei aos genitores que, se davam valor 
ao procedimento teraputico, este deveria ser continuado por uma mdica. Nesse meio tempo, a jovem prometera ao pai que, de qualquer jeito, deixaria de ver a 'senhora', 
e desconheo se meu conselho, cujas razes so bvias, ser seguido.
        Houve um nico fragmento de material no curso desta anlise, que pude considerar como transferncia positiva, como uma revivescncia grandemente enfraquecida 
do original e apaixonado amor da jovem pelo pai. Mesmo essa manifestao no estava inteiramente livre de outras motivaes, s a menciono por apresentar, noutro 
sentido, um problema interessante de tcnica analtica. Em certo perodo, no muito depois de comeado o tratamento, a jovem trouxe uma srie de sonhos que, deformados 
segundo a regra e enunciados na costumeira linguagem onrica, podiam, no obstante, ser facilmente traduzidos com certeza. No entanto, seu contedo, quando interpretado, 
era fora do comum. Previam a cura da inverso por meio do tratamento, expressavam sua alegria pelas perspectivas de vida que ento se lhe abririam, confessavam seu 
anseio pelo amor de um homem e por filhos, e assim poderiam ter sido acolhidos como uma preparao gratificante para a mudana desejada. A contradio entre eles 
e as afirmativas da jovem na vida desperta, na ocasio, era muito grande. No escondia de mim que pretendia casar-se, mas s para fugir  tirania do pai e seguir 
imperturbada suas verdadeiras inclinaes. Quanto ao marido, observava com bastante desprezo, lidaria facilmente com ele e, alm disso, podia-se ter relaes com 
um homem e uma mulher a um s e mesmo tempo, como demonstrava o exemplo da dama adorada. Advertido por uma ou outra ligeira impresso, disse-lhe certo dia que no 
acreditava naqueles sonhos, que os encarava como falsos ou hipcritas e que ela pretendia enganar-me, tal como habitualmente enganava o pai. Eu estava certo; aps 
hav-lo esclarecido, esse tipo de sonhos cessou. Mas ainda acredito que, alm da inteno de desorientar-me, os sonhos parcialmente expressavam o desejo de conquistar 
meu favor; eram tambm uma tentativa de ganhar meu interesse e minha boa opinio, talvez a fim de, posteriormente, desapontar-me mais completamente ainda.
        Posso imaginar que apontar a existncia de sonhos mentirosos desse tipo, de sonhos 'obsequiosos', levantar uma positiva tempestade de impotente indignao 
em certos leitores que se denominam a si mesmos analistas. 'O qu!', exclamaro, 'O inconsciente, o centro real de nossa vida mental, a parte de ns que se acha 
to mais prxima do divino que nossa pobre conscincia, pode mentir tambm? Ento como poderemos continuar a trabalhar sobre as interpretaes da anlise e a exatido 
de nossas descobertas?' A isso precisa-se responder que o reconhecimento desses sonhos mentirosos no constitui nenhuma novidade destruidora. Na verdade, sei que 
o anseio da humanidade pelo misticismo  inerradicvel e faz esforos incessantes por retomar para este o territrio de que A Interpretao de Sonhos o privou, mas 
certamente, no caso em pauta, tudo  bastante simples. Um sonho no  o 'inconsciente'; trata-se da forma pela qual um pensamento remanescente da vida desperta pr-consciente 
ou mesmo consciente pode, graas ao estado favorecedor de sono, ser remoldado. No estado de sono, esse pensamento foi reforado por impulsos inconscientes plenos 
de desejo e assim experimentou uma deformao atravs da elaborao onrica, que  determinada pelos mecanismos predominantes no inconsciente. Com a jovem que sonhou, 
a inteno de enganar-me, tal como fizera com o pai, certamente emanava do pr-consciente e pode, de fato, ter sido consciente; poderia conseguir expresso entrando 
em conexo com o impulso desejoso inconsciente de agradar o pai (ou substituto paterno), assim criando um sonho mentiroso. As duas intenes, trair e agradar o pai, 
originaram-se do mesmo complexo; a primeira resultou da represso da ltima e a posterior foi, pela elaborao onrica, conduzida de volta  anterior. Desse modo, 
no se pode falar em qualquer desvalorizao do inconsciente, nem na desagregao de nossa confiana nos resultados da anlise.
        No posso desprezar a oportunidade de expressar, de passagem, meu espanto de que os seres humanos possam atravessar to grandes e importantes momentos de 
sua vida ertica sem not-los muito; na verdade, s vezes nem mesmo possuir a mais plida suspeita de sua existncia, ou ento, havendo-se dado conta desses momentos, 
enganar-se a si mesmos to completamente no julgamento deles. Isto no acontece apenas em condies neurticas, onde estamos familiarizados com o fenmeno, mas parece 
ser tambm bastante comum na vida ordinria. No presente caso, por exemplo, uma jovem desenvolve uma adorao sentimental por mulheres, que os pais a princpio acham 
vexatria simplesmente, e raramente tomam a srio; ela prpria sabe muito bem estar muito ocupada com essas relaes, porm ainda experimenta poucas das sensaes 
de amor intenso at que uma frustrao especfica  seguida por uma reao bastante excessiva, que mostra a qualquer um interessado que elas tm algo a ver com uma 
paixo consumidora de fora elementar. Tampouco a jovem nunca percebera do estado de coisas algo que constitua uma preliminar necessria ao desencadeamento dessa 
tormenta mental. Noutros casos tambm encontramos moas ou mulheres em estado de grave depresso, que ao serem interrogadas sobre a possvel causa de sua condio, 
nos dizem que, realmente, tiveram um ligeiro sentimento por determinada pessoa, mas que no fora nada profundo, logo superando o sentimento quando tiveram de abandon-la. 
No entanto foi essa renncia, aparentemente to bem suportada, que se tornou a causa do grave distrbio mental. Encontramos ainda homens que passaram por casos amorosos 
ocasionais, e s pelos efeitos subseqentes compreendem que estiveram apaixonadamente amorosos da pessoa a quem, aparentemente, consideraram levianamente. Fica-se 
tambm estupefato com os resultados inesperados que se podem seguir a um aborto artificial,  morte de um filho no nascido, decidido sem remorso e sem hesitao. 
Tem-se de admitir que os poetas esto certos em gostar de retratar pessoas que esto enamoradas sem sab-lo ou incertas se amam, ou que pensam que odeiam quando 
na realidade amam. Pareceria que as informaes recebidas por nossa conscincia acerca de nossa vida ertica so especialmente passveis de serem incompletas, cheias 
de lacunas ou falsificadas.  desnecessrio dizer que, neste exame, no deixei de dar espao para o papel desempenhado pelo esquecimento subseqente. 

                                        IV

        Retorno agora, aps essa digresso,  considerao do caso de minha paciente. Fizemos um levantamento das foras que conduziram a libido da jovem da atitude 
de dipo normal  do homossexualismo, e dos caminhos psquicos percorridos por ela no processo. O mais importante nesse respeito foi a impresso causada pelo nascimento 
de seu irmozinho e a partir disso poderamos inclinar-nos a classificar o caso como de inverso posteriormente adquirida.
        A essa altura, porm, nos damos conta de um estado de coisas com que nos defrontamos em muitos outros casos nos quais a psicanlise lanou luz sobre um processo 
mental. Fazendo recuo do desenvolvimento a partir de seu produto final a cadeia de acontecimento parece contnua, e sentimos que obtivemos uma compreenso interna 
(insight) completamente satisfatria ou mesmo exaustiva. Mas, se avanarmos de maneira inversa, isto , se partirmos das premissas inferidas da anlise e tentarmos 
segui-las at o resultado final, ento no mais teremos a impresso de uma seqncia inevitvel de eventos que no poderiam ter sido determinados de outra forma. 
Observamos, a seguir, que poderia ter havido outro resultado e que poderamos ter sido capazes de compreend-lo e explic-lo. A sntese, portanto, no  to satisfatria 
quanto a anlise; noutras palavras, de um conhecimento das premissas no poderamos ter previsto a natureza do resultado.
         muito fcil explicar este perturbador estado de coisas. Mesmo supondo que tivssemos um conhecimento completo dos fatores etiolgicos que decidem um determinado 
resultado, a seu respeito conhecemos apenas a sua qualidade, no a sua fora relativa. Alguns so suprimidos por outros por serem fracos demais, no influenciando, 
assim, o resultado final. De antemo, nunca sabemos, porm, qual dos fatores determinantes se revelar o mais fraco ou o mais forte. Dizemos apenas, no final, que 
os bem-sucedidos devem ter sido os mais fortes. Da podermos reconhecer, sempre, com exatido, a cadeia de causao, se seguirmos a linha da anlise, ao passo que 
prediz-la ao longo da linha da sntese  impossvel.
        No sustentaremos, portanto, que toda jovem que experimenta um desapontamento, como esse do anseio de amor, que brota da atitude de dipo na puberdade, necessariamente 
cair, por causa disso, vtima do homossexualismo. Pelo contrrio, outros tipos de reao a esse trauma sem dvida so mais comuns. Contudo, sendo assim, na jovem 
paciente podem ter existido fatores especiais que fizeram pender a balana, fatores externos ao trauma, provavelmente de natureza interna. Alm do mais, no h qualquer 
dificuldade em apont-los.
        Sabe-se bem que, mesmo em uma pessoa normal, leva algum tempo antes de se tomar finalmente a deciso com referncia ao sexo do objeto amoroso. Entusiasmos 
homossexuais, amizades exageradamente intensas e matizadas de sensualidades so bastante comuns em ambos os sexos durante os primeiros anos aps a puberdade. Assim 
tambm aconteceu com nossa paciente; nela, porm, essas tendncias mostraram-se sem dvida mais fortes e permaneceram mais tempo do que noutras pessoas. Alm disso, 
esses pressgios de homossexualismo posterior haviam ocupado sempre a sua vida consciente, enquanto a atitude originria do complexo de dipo permanecera inconsciente 
e se mostrara apenas em sinais, tais como o seu comportamento terno com o garotinho. Quando estudante, estivera longo tempo enamorada de uma professora rgida e 
inaproximvel, evidentemente uma me substituta. Mostrara muito vivo interesse em certo nmero de jovens mes, bem antes do nascimento do irmo, portanto com mais 
certeza ainda, antes da primeira reprimenda do pai. Assim, desde anos muito precoces sua libido flura em duas correntes, das quais a da superfcie  a que, sem 
hesitao, podemos designar como homossexual. Essa ltima era provavelmente uma continuao direta e imodificada de uma fixao infantil na me. Possivelmente a 
anlise aqui descrita na realidade no revelou nada mais que o processo pelo qual, em ocasio apropriada, tambm a corrente heterossexual e mais profunda da libido 
foi desviada para a homossexual e manifesta.
        A anlise demonstrou, alm disso, que a jovem trouxera consigo, desde a infncia, um 'complexo de masculinidade' fortemente acentuado. Jovem fogosa, sempre 
pronta a traquinagens e lutas, no se achava de modo algum preparada para ser a segunda diante do irmo ligeiramente mais velho; aps inspecionar seus rgos genitais 
[ver em [1]] desenvolvera uma acentuada inveja do pnis e as reflexes derivadas dessa inveja ainda continuavam a povoar-lhe o esprito. Era na realidade uma feminista; 
achava injusto que as meninas no gozassem da mesma liberdade que os rapazes e rebelava-se contra a sorte das mulheres em geral. Na ocasio da anlise, as idias 
de gravidez e parto eram-lhe desagradveis, em parte, presumo, devido ao desfiguramento corporal a elas vinculado. Seu narcisismo de moa recorrera a essa defesa 
e deixara de expressar-se como orgulho por sua boa aparncia. Diversas pistas indicavam que, anteriormente, deveria ter tido fortes tendncias exibicionistas e escopoflicas. 
Quem ansiosamente desejar que as reivindicaes dos fatores adquiridos, em oposio aos hereditrios, no sejam subestimadas na etiologia, chamar a ateno para 
o fato de que o comportamento da jovem, tal como antes descrito, era exatamente o que decorreria em uma pessoa com forte fixao materna, do efeito combinado das 
duas influncias da negligncia da me e da comparao de seus rgos genitais com os do irmo. Aqui,  marca da operao da influncia externa nos primeiros anos 
de vida  possvel atribuir algo que seria bom considerar como uma peculiaridade constitucional. Por outro lado, de fato uma parte dessa disposio adquirida (se 
foi realmente adquirida) tem de ser atribuda  constituio inata. Assim, na prtica, vemos uma contnua mescla e mistura do que em teoria tentaramos separar em 
um par de opostos, a saber, caracteres herdados e adquiridos.
        Se a anlise tivesse terminado mais cedo, mais prematuramente ainda, haveria a possvel opinio de que se tratava de um caso de homossexualismo posteriormente 
adquirido; porm, tal como foi, uma considerao do material nos impele a concluir tratar-se, antes, de um caso de homossexualismo congnito, o qual, como de praxe, 
fixou-se e se tornou inequivocamente manifesto apenas no perodo seguinte  puberdade. Cada uma dessas classificaes faz justia apenas a uma parte do estado de 
coisas verificvel pela observao, mas despreza a outra. Seria melhor no ligar demasiado valor a esse modo de enunciar o problema.
        A literatura do homossexualismo em geral deixa de distinguir claramente entre as questes da escolha do objeto, por um lado, e das caractersticas sexuais 
e da atitude sexual do sujeito, pelo outro, como se a resposta  primeira necessariamente envolvesse as respostas s ltimas. A experincia, contudo, demonstra o 
contrrio: um homem com caractersticas predominantemente masculinas e tambm masculino em sua vida ertica pode ainda ser invertido com respeito ao seu objeto, 
amando apenas homens, em vez de mulheres. Um homem em cujo carter os atributos femininos obviamente predominam, que possa, na verdade, comportar-se no amor como 
uma mulher, dele se poderia esperar, com essa atitude feminina, que escolhesse um homem como objeto amoroso; no obstante, pode ser heterossexual e no mostrar, 
com respeito a seu objeto, mais inverso do que um homem mdio normal. O mesmo procede, quanto s mulheres; tambm aqui o carter sexual mental e a escolha de objeto 
no coincidem necessariamente. O mistrio do homossexualismo, portanto, no  de maneira alguma to simples quanto comumente se retrata nas exposies populares: 
'uma mente feminina, fadada assim a amar um homem, mas infelizmente ligada a um corpo masculino; uma mente masculina, irresistivelmente atrada pelas mulheres, mas, 
ai dela, aprisionada em um corpo feminino'. Trata-se, em seu lugar, de uma questo de trs conjuntos de caractersticas, a saber:

        Caracteres sexuais fsicos
(hermafroditismo fsico)

        Caracteres sexuais mentais
(atitude masculina ou feminina)

        Tipo de escolha de objeto

        Essas caractersticas, at certo ponto, variam independentemente uma da outra e em indivduos diferentes so encontradas em permutaes mltiplas. A literatura 
tendenciosa obscureceu nossa viso dessa inter-relao, colocando em primeiro plano, por razes prticas, o terceiro aspecto (tipo de escolha de objeto), que  o 
nico que impressiona o leigo, e, alm disso, exagerando a proximidade de associao entre esta e a primeira caracterstica. Ademais, ela bloqueia o caminho para 
uma compreenso interna (insight) mais profunda de tudo que uniformemente se designa de homossexualismo, rejeitando dois fatos fundamentais, revelados pela investigao 
psicanaltica. O primeiro deles  que os homens homossexuais experimentaram uma fixao especialmente forte na me; o segundo  que, alm de sua heterossexualidade 
manifesta, uma medida muito considervel de homossexualismo latente ou inconsciente pode ser detectada em todas as pessoas normais. Se tomarmos em considerao essas 
descobertas, evidentemente, cai por terra a suposio de que a natureza criou, de maneira aberrante, um 'terceiro sexo'.
        No compete  psicanlise solucionar o problema do homossexualismo. Ela deve contentar-se com revelar os mecanismos psquicos que culminaram na determinao 
da escolha de objeto, e remontar os caminhos que levam deles at s disposies instintuais. Aqui o seu trabalho termina e ela deixa o restante  pesquisa biolgica, 
que recentemente trouxe  luz, atravs dos experimentos de Steinach, resultados muito importantes concernentes  influncia exercida pelo primeiro conjunto de caractersticas, 
acima mencionadas, sobre o segundo e o terceiro. A psicanlise possui uma base comum com a biologia, ao pressupor uma bissexualidade original nos seres humanos (tal 
como nos animais). Mas a psicanlise no pode elucidar a natureza intrnseca daquilo que, na fraseologia convencional ou biolgica,  denominado de 'masculino' e 
'feminino': ela simplesmente toma os dois conceitos e faz deles a base de seu trabalho. Quando tentamos reduzi-los mais ainda, descobrimos a masculinidade desvanecendo-se 
em atividade e a feminilidade em passividade, e isso no nos diz o bastante. J tentei [ver em [1] e seg.] explicar at onde podemos razoavelmente esperar, ou at 
onde a experincia j provou, que o trabalho de elucidao como parte da tarefa da anlise nos fornea os meios de efetuar uma modificao da inverso. Quando se 
compara at onde podemos influenci-la com as notveis transformaes que Steinach efetuou em alguns casos, atravs de suas operaes, o resultado no provoca uma 
impresso muito imponente. Mas seria prematuro, ou exagero prejudicial, se, nessa fase, cedssemos a esperanas de uma 'terapia' da inverso que pudesse ser geralmente 
aplicada. Os casos de homossexualismo masculino em que Steinach foi bem-sucedido, atendiam  condio, nem sempre presente, de um 'hermafroditismo' fsico muito 
patente. Qualquer tratamento anlogo do homossexualismo feminino , atualmente, bastante obscuro. Se consistisse em remover o que so provavelmente ovrios hermafroditas 
e enxertar outros, que se supe serem de um nico sexo, haveria poucas perspectivas de ser aplicado na prtica. Uma mulher que j se sentiu ser um homem e amou  
maneira masculina, dificilmente permitir que a forcem a desempenhar o papel de mulher, quando deve pagar pela transformao, no vantajosa sob todos os aspectos, 
com a renncia a toda esperana de maternidade.
        
        
        
        
        






PSICANLISE E TELEPATIA (1941 [1921])

         NOTA DO EDITOR INGLS - PSYCHOANALYSE UND TELEPATHIE
        
(a) EDIO ALEM:
(1921 Agosto, data do manuscrito.)
1941 G.W., 17, 27-44.
        
(b) TRADUO INGLESA:
'Psychoanalysis and Telepathy'
1953 Em Psychoanalysis and the Occult, Nova Iorque, International Universities Press, 56-68. (Trad. de George Devereux.)
        
        A presente traduo inglesa  nova, de autoria de James Strachey.
        
        O manuscrito apresenta em seu incio a data '2 ago. 21' e, ao final, 'Gastein, 6 ago. 21'. O original no apresenta ttulo e o aqui adotado  o escolhido 
pelos editores das Gesammelte Werke.
        Uma nota prefaciadora  edio alem afirma que o artigo 'foi escrito para a reunio da Executiva Central da Associao Psicanaltica Internacional, realizada 
nas montanhas do Harz no comeo de setembro de 1921'. O Dr. Ernest Jones, na ocasio Presidente da Executiva Central, conta-nos, porm, que nenhuma reunio desse 
rgo se realizou nas montanhas do Harz na referida data, embora houvesse uma reunio dos seguidores mais chegados de Freud: Abraham, Eitingon, Ferenczi, Rank e 
Sachs, alm do prprio Dr. Jones. Foi para esse grupo no oficial que o artigo parece ter sido lido.
        Freud pretendera que o artigo fornecesse relatos de trs casos, mas, quando foi preparar o manuscrito em Gastein, descobriu haver deixado em Viena o material 
do terceiro caso, e foi obrigado a substitu-lo por material de carter bastante diferente. O 'terceiro caso' original, contudo, sobreviveu como manuscrito separado 
e est assim intitulado: 'Ps-escrito'. Aqui se acha o relato, omitido devido  resistncia, sobre um caso de transmisso de pensamento durante a prtica analtica'. 
O caso, na realidade,  o relativo ao Dr. Forsyth e  Forsyte Saga, o ltimo dos registrados na Conferncia XXX das New Introductory Lectures. As duas verses do 
caso concordam muito de perto, com algumas poucas diferenas verbais; assim, no pareceu necessrio inclu-lo aqui. Quaisquer pontos substanciais de diferenas sero 
encontrados registrados na Standard Ed.,22.
        Esse foi o primeiro dos artigos de Freud sobre telepatia e nunca foi publicado em vida, embora a maior parte de seu material estivesse includo, sob diversas 
formas, em seus ltimos artigos publicados sobre o assunto. Seu artigo seguinte, o primeiro a ser publicado,  o que logo se segue neste volume, sobre o tpico um 
tanto diferente de Sonhos e Telepatia (1922a). Pouco depois deste, escreveu uma breve nota sobre 'The Occult Significance of Dreams' (1925i), aparentemente destinada 
 incluso em A Interpretao de Sonhos e que foi na realidade pela primeira vez impressa como parte de um apndice ao volume III da edio dos Gesammelte Schriften 
daquela obra, mas no includo em nenhuma de suas edies posteriores. Finalmente, houve a conferncia, j mencionada, sobre 'Dreams and Occultism' nas New Introductory 
Lectures, (1933a). Vale a pena observar que nesse ltimo de seus escritos sobre o assunto no mais sentia as dvidas sobre a propriedade de discuti-lo, to evidentes 
no presente artigo; na verdade, perto do final da conferncia, afasta especificamente os temores, aqui expressos, de as perspectivas cientficas da psicanlise poderem 
ser colocadas em perigo, caso a verdade da transmisso de pensamento viesse a ser estabelecida.

         PSICANLISE E TELEPATIA INTRODUO
        
        No estamos destinados, segundo parece, a dedicar-nos com tranqilidade  ampliao de nossa cincia. Mal acabamos de repelir triunfalmente dois ataques 
- um dos quais procurava mais uma vez negar o que trouxemos  luz e s nos oferecia em troca o tema do repdio, ao passo que o outro tentava persuadir-nos de que 
nos equivocramos da natureza do que descobrimos e poderamos, com vantagem, tomar outra coisa em seu lugar -, logo, ento, que nos sentimos seguros quanto a esses 
inimigos e j outro perigo surgiu. E, desta vez,  algo tremendo, algo de elementar, que ameaa no somente a ns, ameaa, talvez mais ainda, a nossos inimigos.
        No mais parece possvel manter-se afastado do estudo daqueles fenmenos conhecidos como 'ocultos', ou seja, dos fatos que professam falar em favor da existncia 
real de foras psquicas outras que no as mentes humanas e animais com que estamos familiarizados, ou que parecem revelar a posse, por essas mentes, de faculdades 
at aqui irreconhecidas. O mpeto no sentido dessa investigao parece irresistivelmente forte. Durante essas ltimas breves frias, tive trs oportunidades de recusar 
associar-me a peridicos recentemente fundados, e relacionados com esses estudos. Tampouco existem muitas dvidas quanto  origem dessa tendncia. , em parte, uma 
expresso da perda de valor pela qual tudo foi afetado desde a catstrofe mundial da Grande Guerra, uma parte da abordagem experimental  grande revoluo, em cujo 
sentido nos estamos dirigindo e de cuja extenso no podemos fazer estimativa; mas indubitavelmente se trata de uma tentativa de compensao, de criar noutra esfera, 
supermundana, as atraes perdidas pela vida sobre esta Terra. Na verdade, alguns dos procedimentos das prprias cincias exatas podem ter contribudo para esse 
desenvolvimento. A descoberta do rdio confundiu, tanto quanto fez progredir, as possibilidades de explicar o mundo fsico, e o novssimo conhecimento adquirido 
do que  chamado de teoria da relatividade teve, sobre tantos que a admiram sem compreend-la, o efeito de diminuir sua crena na fidedignidade objetiva da cincia. 
Lembrar-se-o de que h no muito tempo atrs o prprio Einstein aproveitou a ocasio para protestar contra essa m interpretao.
        No decorre como fato lgico que um interesse intensificado no ocultismo deva encerrar um perigo para a psicanlise. Deveramos, pelo contrrio, estar preparados 
para encontrar uma simpatia recproca entre eles. Ambos experimentaram o mesmo tratamento desdenhoso e arrogante por parte da cincia oficial. At os dias de hoje, 
a psicanlise  encarada como cheirando a misticismo e o seu inconsciente  olhado como uma daquelas coisas existentes entre o cu e a terra com que a filosofia 
se recusa a sonhar. As numerosas sugestes que ocultistas nos fizeram de que deveramos cooperar com eles, demonstra que gostariam de tratarmos como meio pertencentes 
a eles, e que contam com o nosso apoio contra as presses das autoridades exatas. Sequer, por outro lado, tem a psicanlise qualquer interesse em sair do seu caminho 
para defender essas autoridades, pois ela prpria se coloca em oposio a tudo que  convencionalmente restrito, bem estabelecido e geralmente aceito. No seria 
a primeira vez que estaria oferecendo seu auxlio s obscuras, porm indestrutveis, conjecturas das pessoas comuns contra o obscurantismo da opinio culta. A aliana 
e a cooperao entre analistas e ocultistas poderiam surgir-nos como plausveis e promissoras.
        Contudo, se olharmos mais de perto, as dificuldades comeam a aparecer. A imensa maioria dos ocultistas no  impulsionada por um desejo de conhecimento 
por um sentimento de vergonha de que a cincia tenha por tanto tempo se recusado a tomar conhecimento do que so problemas indiscutveis, ou por um desejo de conquistar 
essa nova esfera de fenmenos. So, pelo contrrio, crentes convictos buscando confirmao e algo que os justifique para abertamente confessarem sua f. Porm, a 
f que primeiramente adotaram e depois procuraram impor a outros, ou  a velha f religiosa, empurrada para o segundo plano pela cincia no curso do desenvolvimento 
humano, ou ento outra, mais prxima ainda das convices ultrapassadas dos povos primitivos. Os analistas, por outro lado, no podem repudiar sua descendncia da 
cincia exata e sua comunho com os representantes desta ltima. Movidos por uma extrema desconfiana do poder dos desejos humanos e das tentaes do princpio de 
prazer, acham-se prontos, para alcanar algum fragmento de certeza objetiva, a sacrificar tudo: o brilhantismo deslumbrante de uma teoria impecvel, a conscincia 
exaltada de haver conseguido uma viso abrangente do universo e a calma mental ocasionada pela posse de amplos fundamentos para uma ao tica e conveniente. Em 
lugar de tudo isso, contentam-se com pedaos fragmentrios de conhecimento e com hipteses bsicas, carentes de exatido e sempre abertas  reviso. Em vez de esperar 
pelo momento em que poder escapar da coero das leis familiares da fsica e da qumica, tm esperanas no surgimento de leis naturais mais amplas e de alcance 
mais profundo, s quais esto prontos a submeter-se. Os analistas so, no fundo, incorrigveis mecanicistas e materialistas, ainda que procurem evitar despojar a 
mente e o esprito de suas caractersticas ainda irreconhecidas. Da mesma forma, dedicam-se  investigao dos fenmenos ocultos apenas porque esperam, com isso, 
excluir finalmente da realidade material os desejos da humanidade.
        Em vista dessa diferena entre suas atitudes mentais, a cooperao entre analistas e ocultistas oferece poucas perspectivas de lucro. O analista tem a sua 
prpria provncia de trabalho, a qual no deve abandonar: o elemento inconsciente da vida mental. Se, no curso de seu trabalho, tivesse de estar atento aos fenmenos 
ocultos, correria o perigo de no se dar conta de tudo o que mais de perto lhe fosse concernente. Estaria abandonando a imparcialidade, a ausncia de preconceitos 
e prevenes que constituram uma parte essencial de sua armadura e aparelhamento analtico. Se fenmenos ocultos se fizerem sentir sobre ele da mesma maneira que 
ocorre com outros fenmenos, no fugir deles mais que a estes. Pareceria ser esse o nico plano de comportamento coerente com a atividade de um analista.
        Pela autodisciplina, o analista pode defender-se contra um perigo especfico, o perigo de permitir que seu interesse seja arrastado para os fenmenos ocultos. 
Com relao ao perigo objetivo, a situao  diferente.  pouco duvidoso que, sendo a ateno dirigida para os fenmenos ocultos, seu resultado muito em breve seja 
que ocorra a confirmao de um certo nmero deles, e provavelmente decorrer longo tempo antes de se poder chegar a uma teoria aceitvel que abranja esses fatos 
novos. Os espectadores avidamente atentos no esperaro tanto.  primeira confirmao, os ocultistas proclamaro o triunfo de suas opinies. Transportaro o acolhimento 
de um determinado fenmeno para todos os outros e estendero a crena nos fenmenos  crena em quaisquer explicaes mais fceis e mais a seu gosto. Estaro aptos 
a empregar os mtodos da indagao cientfica, apenas como uma escada para elev-los por sobre a cabea da cincia. O cu nos ajude se chegarem a tal altura! No 
haver ceticismo dos assistentes em torno que os faa hesitar, nem clamor pblico que os faa parar. Sero saudados como libertadores do fardo da servido intelectual, 
alacremente aclamados por toda a credulidade que se acha pronta e  mo desde a infncia da raa humana e a infncia do indivduo. Poder seguir-se um temvel colapso 
do pensamento crtico, dos padres deterministas e da cincia mecanicista. Ser possvel ao mtodo cientfico, por uma insistncia inexorvel sobre a magnitude das 
foras, da massa e das qualidades do material em questo, impedir esse colapso?
         v esperana imaginar que o trabalho analtico, precisamente por relacionar-se com o misterioso inconsciente, poder escapar de um colapso de valores como 
esse. Se os seres espirituais, que so os amigos ntimos dos indagadores humanos, podem fornecer explicaes definitivas para tudo, nenhum interesse  capaz de sobrar 
para as laboriosas abordagens s foras mentais desconhecidas efetuadas pela pesquisa analtica. Tanto assim, que os mtodos da tcnica analtica sero abandonados 
se houver uma esperana de entrar em contato direto com os espritos operantes atravs de processos ocultos, tal como os hbitos do trabalho paciente e enfadonho 
so abandonados quando h a esperana de se ficar rico de um s golpe, mediante uma especulao bem-sucedida. Ouvimos falar, durante a guerra, de pessoas situadas 
no meio-termo entre duas naes hostis, pertencendo a uma delas pelo nascimento e  outra pela escolha e domiclio; foi seu destino serem tratados como inimigos, 
primeiro por um dos lados e depois, se tinham a sorte de fugir, pelo outro. Essa poder igualmente ser a sorte da psicanlise. Contudo, h que suportar a prpria 
sorte, seja ela qual for, e a psicanlise, de uma ou doutra forma, ter de chegar a um acordo com a sua.
        Retornemos  situao atual,  nossa tarefa imediata. No decurso dos ltimos anos, efetuei algumas observaes que no ocultarei, pelo menos do crculo mais 
chegado a mim. Um desagrado de cair no que  atualmente uma corrente predominante, um temor de desviar o interesse da psicanlise e a total ausncia de qualquer 
vu de discrio sobre o que tenho a dizer, tudo isso se combina, constituindo motivos para subtrair minhas observaes de um pblico mais amplo. Meu material pode 
reivindicar duas vantagens que raramente esto presentes. Em primeiro lugar, ele est isento das incertezas e dvidas a que se inclina a maioria das observaes 
dos ocultistas e, em segundo, s desenvolve sua fora convincente depois de analiticamente elaborado. Consiste, devo mencionar, em apenas dois casos de carter semelhante; 
um terceiro caso, de outra espcie e aberto a uma avaliao diferente,  acrescentado  maneira de apndice. Os primeiros dois casos, que agora comunicarei minuciosamente, 
esto relacionados a acontecimentos do mesmo tipo, ou seja, a profecias feitas por adivinhos profissionais que no se realizaram. A despeito disso, essas profecias 
causaram impresso extraordinria nas pessoas a quem foram anunciadas, de modo que sua relao com o futuro no pode constituir seu ponto essencial. Qualquer coisa 
capaz de contribuir para sua explicao, bem como tudo que lance dvidas sobre sua fora probatria, para mim sero extremamente bem-vindos. Minha atitude pessoal 
para com o material permanece sem entusiasmo e ambivalente. 

                                        I

        Alguns anos antes da guerra, um jovem procedente da Alemanha veio at mim a fim de ser analisado. Queixava-se de ser incapaz de trabalhar, de haver esquecido 
sua vida passada e de ter perdido todo o interesse. Era estudante de filosofia em Munique e estava preparando-se para o exame final. Casualmente, era um jovem altamente 
instrudo bastate dissimulado, velhaco de uma maneira infantil e filho de um financista; como veio a surgir depois, o jovem remodelara com sucesso uma quantidade 
colossal de erotismo anal. Quando lhe perguntei se no havia realmente nada de que pudesse lembrar-se sobre sua vida ou sua esfera de interesse, recordou-se do enredo 
de um romance que esboara, passado no Egito durante o reinado de Amenfis IV e no qual um anel em particular representava um papel importante. Tomamos esse romance 
como ponto de partida; o anel mostrou ser um smbolo de matrimnio e, a partir da, conseguimos reviver todas as suas lembranas e interesses. Descobrimos que seu 
colapso fora o resultado de um grande ato de autodisciplina mental de sua parte. Tinha uma nica irm, alguns anos mais nova que ele, a quem era sincera e muito 
indisfaradamente devotado. 'Por que  que no podemos casar-nos?', haviam amide perguntado um ao outro, mas a afeio entre eles nunca fora alm do ponto permissvel 
entre irmos e irms.
        Um jovem engenheiro se enamorara da irm. Seu amor era retribudo por ela, mas de seus rgidos pais no encontrava aprovao. Em seu problema, os dois jovens 
amorosos voltaram-se para o irmo em busca de ajuda. Este deu apoio  causa deles, tornou-lhes possvel que se correspondessem, conseguiu que se encontrassem enquanto 
se achava em casa, de frias, e acabou por persuadir os pais a darem seu consentimento ao noivado e casamento. Durante o tempo de noivado, houve uma ocorrncia altamente 
suspeita. O irmo levou seu futuro cunhado para escalar o Zugspitze e ele prprio serviu de guia. Perderam-se na montanha, envolveram-se em problemas e somente com 
dificuldade evitaram uma queda. O paciente ofereceu pouca objeo  minha interpretao dessa aventura como uma tentativa de assassinato e suicdio. Foi alguns meses 
aps o casamento da irm que o jovem comeou a anlise.
        Cerca de seis ou nove meses depois havia reconquistado completamente sua capacidade de trabalhar e interrompeu a anlise a fim de prestar o exame e escrever 
sua dissertao. Um ano ou mais depois, voltou - agora doutor em filosofia - para retomar a anlise, porque, segundo disse, como filsofo, a psicanlise tinha para 
ele um interesse que ia alm do sucesso teraputico. Foi em outubro que a recomeou, e algumas semanas mais tarde, numa ou noutra conexo, contou-me a seguinte histria.
        Vivia em Munique uma adivinha que gozava de grande reputao. Os prncipes bvaros costumavam visit-la quando tinham algum empreendimento em mente. Tudo 
o que ela pedia era que lhe fornecessem uma data. (Deixei de indagar se esta tinha de incluir a data do ano). Entendia-se que a data era a do nascimento de alguma 
pessoa especfica, mas ela no perguntava de quem. Fornecida essa data, consultaria seus livros de astrologia sobre a pessoa em questo. No ms de maro anterior, 
meu paciente resolvera visitar a adivinha. Apresentou-lhe a data do nascimento do cunhado, sem, naturalmente, mencionar seu nome ou revelar o fato de que o tinha 
em mente. O orculo assim manifestou-se: 'A pessoa em causa morrer no prximo julho ou agosto, de envenenamento por lagosta ou ostras.' Aps contar-me isso, meu 
paciente exclamou: 'Foi maravilhoso!'
        No pude entender e contradisse-o energicamente: 'O que v nisso de maravilhoso? Voc est trabalhando comigo j faz diversas semanas e se seu cunhado houvesse 
realmente morrido, j me teria contado h muito tempo atrs. Logo, ele deve estar vivo. A profecia foi feita em maro e deveria realizar-se pelo auge do vero. Agora 
estamos em novembro, de modo que ela no se realizou. O que acha voc de to maravilhoso nisso?'
        'No h dvida de que ela no se realizou', respondeu ele. 'Mas o notvel a respeito  o seguinte: meu cunhado gosta apaixonadamente de lagostins, ostras 
etc., e, em agosto passado, teve realmente uma crise de envenenamento por lagostim e quase morreu.' O assunto no foi mais discutido.
        Consideremos agora o caso.
        Acredito na veracidade do narrador.  inteiramente digno de confiana, sendo atualmente professor de filosofia em K -. No consigo imaginar motivos que pudessem 
hav-lo induzido a me enganar. A histria foi incidental e no serviu a intuitos posteriores; nada mais surgiu, nem dela se tiraram concluses. No era sua inteno 
persuadir-me da existncia de fenmenos mentais ocultos e, na verdade, tenho a impresso de que no estava em absoluto esclarecido sobre o significado de sua experincia. 
Eu prprio fiquei to impressionado - para falar a verdade, desagradavelmente afetado - que omiti fazer qualquer emprego analtico de seu relato.
        E a observao me parece igualmente inobjetvel, de outro ponto de vista.  certo que a adivinha no conhecia o homem que apresentou a questo. Mas considere-se 
que grau de intimidade com algum conhecido seria necessrio, antes que se pudesse identificar a data do aniversrio de seu cunhado. Por outro lado, sem dvida todos 
concordaro comigo em oferecer a mais obstinada resistncia  possibilidade de se inferir da data do nascimento do sujeito pelo auxlio de quaisquer tbuas ou frmulas 
um acontecimento to pormenorizado como cair doente de envenenamento por lagostim. No se esqueam de quantas pessoas nascem no mesmo dia. Ser crvel que a semelhana 
dos futuros de pessoas nascidas no mesmo dia possa ser levada a pormenores como esse? Arrisco-me, assim, a excluir inteiramente da discusso os clculos astrolgicos; 
acredito que a adivinha poderia ter adotado um outro procedimento sem afetar o resultado da indagao. Por conseguinte, segundo me parece, ns tambm podemos por 
completo excluir a adivinha (ou, como podemos dizer diretamente, a mdium) da considerao como possvel fonte de embuste.
        Se anuirmos  genuidade e verdade dessa observao, a sua explicao estar prxima. E em seguida descobrimos - e assim se d com a maioria desses fenmenos 
- que sua explanao numa base oculta  excepcionalmente adequada e abrange por completo o que tem de ser explicado, salvo quando  to insatisfatria em si prpria. 
 impossvel que a adivinha pudesse saber que esse homem - nascido no dia referido - teria uma crise de envenenamento por lagostim, nem que ela pudesse ter logrado 
tal conhecimento a partir de suas tbuas e clculos. Entretanto, isso estava presente na mente de quem a interrogou. O fato torna-se completamente explicvel se 
estivermos preparados para presumir que o conhecimento foi transferido dele parta a suposta profetisa, por algum mtodo desconhecido que excluiu os meios de comunicao 
que nos so familiares, ou seja, teremos de inferir que existe algo como a transmisso de pensamento. As atividades astrolgicas da adivinha, nesse caso, teriam 
desempenhado a funo de desviar suas prprias foras psquicas e ocup-las de maneira incua, de modo a poder tornar-se receptiva e acessvel aos efeitos sobre 
ela causados pelos pensamentos do cliente, podendo, assim, tornar-se uma verdadeira 'mdium'. J vimos empregados artifcios desviadores semelhantes (no caso dos 
chistes, por exemplo), onde se procura assegurar uma descarga mais automtica para algum processo mental.
        A aplicao da anlise a esse caso faz mais que isso, entretanto; aumenta mais ainda a sua significao. Ensina-nos que o que foi comunicado por este meio 
de induo de uma pessoa para outra no constituiu simplesmente um fragmento fortuito de conhecimento indiferente. Mostra-nos que um desejo extraordinariamente poderoso, 
abrigado por determinada pessoa e colocado numa relao especial com sua conscincia, conseguiu, com o auxlio de uma segunda pessoa, encontrar expresso consciente 
sob forma ligeiramente disfarada, tal como a extremidade sensvel do espectro se revela aos sentidos, em uma chapa sensvel  luz, como uma extenso colorida. Parece 
possvel reconstruir a seqncia de pensamento do jovem aps a doena e recuperao do cunhado que era o seu odiado rival: 'Bem, ele escapou desta vez, mas no abandonar 
seu perigoso gosto por causa disso; esperemos que a prxima vez seja o seu fim'. Foi esse 'esperemos' que foi transformado na profecia. Poderia citar um fato paralelo, 
em um sonho (de outra pessoa), no qual uma profecia fazia parte do tema geral. A anlise do sonho demonstrou que o contedo da profecia coincidia com a realizao 
de um desejo.
        No posso simplificar minha afirmao descrevendo o desejo de morte de meu paciente contra o cunhado como sendo um desejo inconsciente, reprimido, porque 
ele fora tornado consciente durante o tratamento, no ano anterior, e as conseqncias decorrentes de sua represso cederam ao tratamento. Ele, porm, ainda persistia, 
e, embora no fosse mais patognico, era suficientemente intenso. Poderia ser descrito como um desejo 'suprimido'.

                                        II

        Na cidade de F - cresceu uma criana que era a mais velha de uma famlia de cinco, todas meninas. A caula era dez anos mais moa que ela; certa ocasio, 
deixara a menor cair-lhe dos braos, quando beb; mais tarde, chamava-a de 'sua filha'. A me era mais velha que o pai, e no era uma pessoa agradvel. O pai - e 
no s na idade era mais jovem - via bastante as menininhas e as impressionava por suas muitas destrezas. Infelizmente, no impressionara sob nenhum outro aspecto: 
era incompetente nos negcios e incapaz de sustentar a famlia sem o auxlio dos parentes. A filha mais velha tornou-se, em tenra idade, o repositrio de todas as 
preocupaes que surgiam pela falta de poder aquisitivo do pai.
        Uma vez deixado para trs o carter rgido e apaixonado de sua infncia, ela se transformou em um bom espelho de todas as virtudes. Seus elevados sentimentos 
morais faziam-se acompanhar de uma inteligncia estreitamente limitada. Tornou-se professora de uma escola primria e era muito respeitada. A tmida homenagem que 
lhe prestou um jovem conhecido, professor de msica, deixou-a indiferente. Nenhum homem at ento havia atrado sua ateno.
        Certo dia, um parente da me apareceu em cena, homem bem mais idoso que ela, mas ainda jovem (pois ela contava apenas dezenove anos de idade). Era um estrangeiro 
que vivia na Rssia como diretor de uma grande empresa comercial e se enriquecera. Foi preciso nada menos que uma guerra mundial e a derrota de um grande despotismo 
para empobrec-lo. Apaixonou-se por sua jovem e severa prima e pediu-lhe para ser sua esposa. Os pais no a pressionaram, mas ela entendeu seus desejos. Por trs 
de todas as suas idias morais, sentiu a atrao da realizao de uma fantasia plena do desejo de ajudar o pai e resgat-lo de seu estado de necessidade. Calculou 
que o primo daria ao pai apoio financeiro enquanto este continuasse com o negcio e uma penso quando finalmente o abandonasse, bem como forneceria s irms dotes 
e trousseaux, a fim de poderem casar-se. E apaixonou-se por ele, casou-se pouco depois e o acompanhou  Rssia.
        Salvo por algumas ocorrncias que no eram inteiramente compreensveis  primeira vista e cujo significado s se evidenciou em retrospecto, tudo decorreu 
muito bem no casamento. Ela se transformou em esposa afetuosa, sexualmente satisfeita, e um apoio providencial para sua famlia. Somente uma coisa faltava: no tinha 
filhos. Estava agora com 27 anos de idade e no oitavo ano de seu matrimnio. Morava na Alemanha e, aps vencer todo tipo de hesitao, foi consultar um ginecologista 
alemo. Com a habitual leviandade do especialista, ele assegurou-lhe a cura se se submetesse a uma pequena operao. Ela concordou e, na vspera da operao, discutiu 
o assunto com o marido. Era a hora do crepsculo e estava prestes a acender as luzes, quando o marido lhe pediu para no faz-lo: tinha algo a dizer-lhe e preferiria 
estar no escuro. Disse-lhe para cancelar a operao porque a culpa de sua esterilidade era dele. Durante um congresso mdico, dois anos antes, ele soubera que certas 
molstias podem privar um homem da capacidade de procriar filhos. Um exame lhe demonstrara ser esse o seu caso. Aps tal revelao, a operao foi abandonada. Ela 
prpria sofreu um colapso, que durou algum tempo e que inutilmente procurou disfarar. S pudera am-lo como um pai substituto e agora soubera que ele nunca poderia 
ser pai. Trs caminhos estavam abertos para ela, todos igualmente intransponveis: a infidelidade, a renncia ao desejo de um filho ou a separao do marido. Esse 
ltimo estava excludo pelas melhores razes prticas e o intermedirio pelas mais fortes razes inconscientes, fceis de adivinhar: toda a sua infncia fora dominada 
pelo desejo trs vezes frustrado de ter um filho do pai. Restava uma via de sada, que  a que nos interessa em seu caso. Caiu seriamente enferma com uma neurose. 
Durante certo tempo ergueu uma defesa contra vrias tentaes com o auxlio de uma neurose de angstia, mas, posteriormente, seu sintomas se transformaram em graves 
atos obsessivos. Passou algum tempo em institutos e por fim, com 10 anos de molstia, veio at mim. Seu sintoma mais notvel era que, quando se achava na cama, costumava 
prender [anstecken = colocar em contato] os lenis aos cobertores com alfinetes de segurana. Dessa maneira, revelara o segredo do contgio [Ansteckung] de seu 
marido, ao qual sua esterilidade era devida.
        Em certa ocasio, contando talvez 40 anos de idade, a paciente narrou-me um episdio que remontava  poca em que sua depresso estava comeando, antes do 
desencadeamento da neurose obsessiva. Para distrair-lhe o esprito, o marido levara-a consigo numa viagem de negcios a Paris. Estavam sentados com um amigo de negcios 
do marido no saguo do seu hotel quando perceberam alguma agitao e movimento. Perguntara a um dos empregados do hotel o que estava acontecendo e foi-lhe dito que 
Monsieur le Professeur havia chegado para dar consultas em sua salinha prxima  entrada do hotel. Monsieur le Professeur, segundo parecia, era um famoso adivinho; 
no formulava perguntas, mas fazia os clientes imprimirem a mo em um prato cheio de areia, e predizia o futuro pelo estudo da impresso deixada. Minha paciente 
disse que iria entrar, para que lhe dissessem o futuro. O marido a dissuadiu, que era tolice. No entanto, aps ele haver sado com o amigo, ela tirou a aliana e 
esgueirou-se para o gabinete do adivinho. Este estudou longamente a impresso da sua mo e ento falou: 'No futuro prximo, voc ter de passar por severos conflitos, 
mas tudo sair bem. Casar-se- e ter dois filhos quando estiver com 32 anos de idade'. Ela, fazendo esse relato, dava todos os sinais de achar-se grandemente impressionada 
por ele, sem compreend-lo. No lhe causou impresso meu comentrio de que, lamentavelmente, a data fixada pela profecia j havia passado h cerca de oito anos. 
Refleti que talvez estivesse admirando a confiante audcia da profecia, tal como o fiel discpulo do rabino profeta.
        Infelizmente minha memria, geralmente to digna de confiana, no assegura se a primeira parte da profecia dizia: 'Tudo sair bem. Voc se casar', ou 'Voc 
ser feliz.' Minha ateno estava completamente focalizada em minha ntida impresso da frase final, com seus notveis pormenores. Na realidade, porm, as primeiras 
observaes, sobre conflitos que teriam um final feliz, incluem-se entre as expresses vagas que figuram em todas as profecias, at mesmo nas que se podem comprar 
prontas. O contraste oferecido pelos dois nmeros especficos na frase final  mais notvel ainda. No obstante, seria de fato interessante saber se o Professor 
realmente falou no casamento dela. Havia tirado fora sua aliana e, aos 27 anos de idade, parecia muito jovem, podendo facilmente ter sido tomada por uma solteira. 
Em compensao, no seria necessria uma observao refinada, para notar a marca da aliana em seu dedo.
        Limitemo-nos ao problema contido na ltima frase, que lhe prometia dois filhos aos 32 anos de idade. Estes pormenores parecem cabalmente arbitrrios e inexplicveis. 
A pessoa mais crdula dificilmente empreenderia deduzi-los de uma interpretao das linhas da mo. Recebiam uma justificao indiscutvel, se confirmados pelo futuro. 
Porm, no era esse o caso. Ela tinha agora 40 anos de idade, e nenhum filho. Qual, ento, era a fonte e o significado desses nmeros? A prpria paciente no sabia. 
O bvio seria pr de lado toda questo e destin-la ao monte de lixo, entre muitas outras mensagens sem sentido e ostensivamente ocultas. Isso seria muito agradvel: 
a soluo mais simples e um alvio grandemente desejvel. Infelizmente, porm, tenho de acrescentar que era possvel - e exatamente com a ajuda da anlise - encontrar 
uma explicao para os dois nmeros, uma explicao que, mais uma vez, foi completamente satisfatria, surgindo, quase naturalmente, da situao real, de vez que 
os dois nmeros se ajustavam perfeitamente  histria da vida da me de nossa paciente. A me s se casara aos trinta anos e fora em seu trigsimo segundo ano de 
vida que (diferentemente da maioria das mulheres e para compensar, por assim dizer, o seu atraso) dera  luz dois filhos. Dessa maneira,  fcil traduzir a profecia: 
'No h necessidade de preocupar-se com a sua atual esterilidade. Isso no tem importncia. Voc ainda pode seguir o exemplo de sua me, que ainda nem se achava 
casada em sua idade e, no obstante, teve dois filhos aos 32 anos de idade.' A profecia prometia-lhe a realizao da identificao com a me, que constitura o segredo 
de sua infncia, e fora enunciada pela boca de um adivinho desconhecedor de todos os seus problemas pessoais, ocupando-se com examinar uma impresso deixada na areia. 
Podemos tambm acrescentar, como precondio dessa realizao de desejo (inconsciente como era, em todos os sentidos): 'Voc se libertar de seu esposo intil pela 
morte ou encontrar foras para separar-se dele.' A primeira alternativa ajustar-se-ia melhor  natureza de uma neurose obsessiva, ao passo que a segunda  sugerida 
pela luta que, segundo a profecia, ela deveria vencer com xito.
        Como observao, o papel representado pela interpretao analtica  ainda mais importante nesse exemplo que no anterior. Pode-se realmente dizer que a anlise 
criou o fato oculto. Em conseqncia, o exemplo tambm pareceria oferecer positivamente uma prova conclusiva de poder transmitir um desejo inconsciente, assim como 
os pensamentos e o conhecimento a ele relacionados. Apenas posso perceber um modo de escapar  conclusividade desse ltimo caso e, acreditem, no vou ocult-lo. 
 possvel que, no decurso dos doze ou treze anos passados entre a profecia e sua narrao, feita durante o tratamento, a paciente tivesse formado uma paramnsia: 
o Professor poderia haver enunciado algum consolo geral e incolor - o que no seria de admirar - e a paciente ter gradualmente inserido nele os nmeros significantes, 
tirados de seu inconsciente. Se assim foi, teramos evitado o fato que nos ameaou com conseqncias to graves. Alegremente nos identificaremos com os cticos que 
s do valor a um relato desse tipo quando feito imediatamente aps o fato, e assim mesmo no sem hesitao. Lembro-me de que, aps ter sido indicado para uma ctedra 
de professor, tive uma audincia com o Ministro [da Educao] para expressar-lhe meus agradecimentos. Quando me achava a caminho de casa, de volta da audincia, 
apanhei-me no ato de tentar falsificar as palavras trocadas entre ns, e nunca mais pude recapturar corretamente a conversa real. Deixo aos senhores decidir se a 
explicao que sugeri  sustentvel. No posso prov-la nem neg-la. Assim, essa segunda observao, embora em si prpria mais comovente que a primeira, no est 
igualmente isenta de dvidas.
        Os dois casos que lhes comuniquei acham-se relacionados com profecias no realizadas. As observaes desse tipo, a meu ver, podem fornecer o melhor material 
sobre a questo da transmisso de pensamento, e gostaria de incentiv-los a coligir outras semelhantes. Pretendia tambm trazer-lhes um exemplo baseado em um material 
de outra espcie, um caso em que, durante determinada sesso, um paciente especial falou de coisas notavelmente relacionadas a uma experincia que eu prprio tivera 
pouco antes. Contudo, posso dar-lhes agora uma prova visvel do fato de que discuto o assunto sobre ocultismo sob presso de enorme resistncia. Quando, em Gastein, 
procurei as notas que reunira e comigo trouxera [de Viena] para este trabalho, a folha onde havia anotado essa ltima observao no se encontrava l; em seu lugar, 
porm, encontrei outra folha de lembretes irrelevantes sobre um tpico inteiramente diverso, que trouxera comigo por engano. Nada se pode fazer contra uma resistncia 
to clara. Devo pedir-lhes que me perdoem por omitir esse caso, pois no posso preencher a perda por memria.
        Em seu lugar acrescentarei algumas observaes sobre algum muito conhecido em Viena, o grafologista Rafael Schermann, que tem uma reputao de desempenhos 
muito espantosos. Diz-se que  capaz no apenas de ler o carter de uma pessoa por uma amostra de sua letra, mas tambm de descrever sua aparncia e adicionar a 
seu respeito predies que posteriormente se realizam. Incidentalmente, muitas dessas notveis realizaes se baseiam em suas prprias histrias. Certa vez, um amigo 
meu, sem meu conhecimento prvio, efetuou a experincia de permitir-lhe que sua imaginao divagasse sobre uma amostra de minha letra. Tudo o que produziu foi que 
a escrita pertencia a um senhor de idade (o que era fcil de adivinhar), com quem era difcil viver, visto tratar-se de um tirano intolervel no lar. Aqueles que 
desfrutam de minha casa dificilmente confirmaro isso. Mas, como sabemos, o campo do oculto est sujeito ao conveniente princpio de que os casos negativos nada 
provam. No efetuei observaes diretas sobre Schermann, porm, atravs de um paciente meu, entrei em contato com ele, sem que o soubesse. Contar-lhes-ei a respeito.
        H alguns anos atrs procurou-me um jovem que me causou impresso particularmente simptica, e eu, assim, lhe dei preferncia sobre alguns outros. Parecia 
estar envolvido com uma das mais conhecidas demi-mondaines e que desejava livrar-se dela, de vez que a relao o privava de toda independncia de ao, mas era incapaz 
de faz-lo. Consegui libert-lo e, ao mesmo tempo, logrei uma plena compreenso de sua compulso. No muitos meses atrs noivara de modo normal e respeitvel. A 
anlise logo mostrou que a compulso contra a qual estava lutando, no era a ligao com a demi-mondaine, mas com uma senhora casada de seu prprio crculo, com 
quem tivera uma liaison, desde o incio da juventude. A demi-mondaine servia apenas de bode expiatrio em quem podia satisfazer todos os sentimentos de vingana 
e cime que realmente se aplicavam  outra senhora. Segundo um modelo que nos  familiar, fizera uso do deslocamento para um novo objeto, a fim de escapar  inibio 
ocasionada por sua ambivalncia.
        Era hbito seu infligir os tormentos mais refinados  demi-mondaine, que se apaixonara por ele de uma maneira quase desprendida. Entretanto, quando no mais 
podia esconder seus sofrimentos, ele, por sua vez, transportava para ela a afeio que sentira pela mulher que amara desde a juventude; dava-lhe presentes e a aplacava, 
e o ciclo retomava seu curso. Quando enfim, sob a influncia do tratamento, rompeu com ela, tornou-se claro o que estivera tentando conseguir por aquele comportamento 
em relao a esse sucedneo de seu primeiro amor: a vingana com a tentativa de suicdio que fizera quando essa amada rejeitara suas propostas. Aps a tentativa, 
conseguiu por fim vencer a relutncia dela. Durante esse perodo do tratamento costumava visitar o famoso Schermann. Com base em amostras da letra da demi-mondaine, 
o grafologista repetidamente lhe disse,  guisa de interpretao, que ela se achava em seu ltimo alento, que se encontrava  beira do suicdio e que certamente 
se mataria. Ela, contudo, assim no procedeu, mas arremessou de si suas fraquezas humanas e recordou os princpios de sua profisso e seus deveres para com o amigo 
oficial. Percebi com clareza que o homem milagroso havia simplesmente revelado a meu paciente o seu desejo mais ntimo.
        Aps descartar-se dessa figura espria, meu paciente empreendeu seriamente a tarefa de libertar-se de seu vnculo real. Depreendi de seus sonhos um plano 
que estava formando, com o qual poderia escapar da relao com o seu primeiro amor sem causar-lhe demasiada mortificao ou prejuzos materiais. Ela tinha uma filha, 
que gostava muito do jovem amigo da famlia e ostensivamente nada sabia do papel secreto que desempenhava. Propunha-se agora a casar-se com essa jovem. Pouco depois, 
o esquema tornou-se consciente e o homem deu os primeiros passos para o pr em funcionamento. Apoiei suas intenes, uma vez que o plano oferecia o que constitua 
uma possvel sada de sua difcil situao, ainda que irregular. Dentro em pouco, porm, teve um sonho em que mostrava hostilidade pela jovem, e ento, voltou a 
consultar Schermann; o grafologista informou que a jovem era infantil e neurtica, e ele no deveria casar-se com ela. Dessa vez, o grande observador da natureza 
humana estava certo. Ela, j ento considerada como a fiance do homem, comportava-se de maneira cada vez mais contraditria e decidiu-se que ela devia analisar-se. 
Em resultado da anlise, o esquema de casamento foi abandonado. A jovem tinha completo conhecimento inconsciente das relaes entre a me e o fianc, achando-se 
ligada a ele apenas por causa de seu complexo de dipo.
        Por essa poca, a anlise interrompeu-se. O paciente achava-se livre e capaz de seguir seu prprio caminho no futuro. Escolheu para esposa uma moa respeitvel 
fora de seu crculo familiar,  qual Schermann concedera um julgamento favorvel. Esperemos que esteja certo mais uma vez.
        Tero compreendido o sentido de minha inclinao a interpretar essas experincias minhas com Schermann. Vero que todo o meu material se relaciona apenas 
ao ponto isolado da transmisso de pensamento. Nada tenho a dizer sobre todos os outros milagres que reivindica o ocultismo. Minha prpria vida, como j abertamente 
admiti, tem sido particularmente pobre, no sentido do oculto. Talvez o problema da transmisso de pensamento possa parecer-lhes muito trivial em comparao com o 
grande mgico do oculto, mas considerem que grave medida alm do que at aqui acreditamos estaria envolvida apenas nessa hiptese. O que o zelador de [a baslica 
de] So Dionsio costumava acrescentar  sua narrao do martrio do santo permanece uma verdade. Conta-se que So Dionsio, aps sua cabea haver sido cortada, 
apanhou-a do cho e caminhou boa distncia com ela sob o brao. Mas o zelador costumava acrescentar: 'Dans des cas pareils, ce n'est que le premier pas qui cote.' 
O resto  fcil.
        
        





















SONHOS E TELEPATIA (1922)

TRAUM UND TELEPATHIE
        
(a) EDIES ALEMS:
1922 Imago, 8 (1), 1-22.
1925 G.S., 3, 278-304.
1925 Traumlehre, 22-48.
1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 326-354.
1940 G.W., 13, 165-91.

(b) TRADUO INGLESA:
        'Dreams and Telepathy'
1922 Int. J. Psycho-Anal., 3, 283-305. (Trad. de C. J. M. Hubback.)
1925 C.P., 4, 408-35. (Mesmo tradutor.)

        A presente traduo inglesa  uma verso consideravelmente modificada da publicada em 1925.

        Este foi o primeiro dos escritos de Freud sobre telepatia a ser publicado, embora houvesse sido escrito aps o anterior (pg. 189). No pode ter sido escrito 
muito antes do final de novembro de 1921, visto que uma data oito semanas aps 27 de setembro desse ano aparece realmente no material em estudo (pg. 223). Provas 
internas demonstram que foi projetado como uma conferncia, e no manuscrito original (bem como nas edies de 1922 e 1925) as palavras 'conferncia proferida perante 
a Sociedade Psicanaltica de Viena' ocorrem abaixo do ttulo. Por outro lado, as minutas publicadas da Sociedade de Viena no fornecem provas de que o trabalho tenha 
sido lido perante ela. Parece provvel que a inteno de Freud em l-la foi por alguma razo abandonada, aps o primeiro nmero de Imago de 1922 j se achar composto.
        
         SONHOS E TELEPATIA        

        Atualmente, quando se sente to grande interesse pelo que  chamado de fenmenos 'ocultos', expectativas muito definidas sero indubitavelmente despertadas 
pelo anncio de um artigo com esse ttulo. No obstante, apresso-me em explicar que no h fundamento para tais expectativas. Nada aprendero, deste meu trabalho, 
sobre o enigma da telepatia; na verdade, nem mesmo depreendero se acredito ou no em sua existncia. Nesta ocasio, propus-me a tarefa muito modesta de examinar 
a relao das ocorrncias telepticas em causa, seja qual for sua origem, com os sonhos, ou, mais exatamente, com nossa teoria dos sonhos. Sabero que comumente 
se acredita ser muito ntima a conexo entre sonhos e telepatia; apresentarei a opinio de que ambos pouco tm a ver reciprocamente, e que, viesse a existncia de 
sonhos telepticos a ser estabelecida, no haveria necessidade de modificar nossa concepo dos sonhos, em absoluto.
        O material em que se baseia o presente relato  muito tnue. Em primeiro lugar, devo expressar meu pesar de no poder fazer uso de meus prprios sonhos, 
como fiz quando escrevi A Interpretao de Sonhos (1900a). Porm, nunca tive um sonho 'teleptico'. No que eu passasse sem sonhos do tipo que transmitem a impresso 
de que um certo evento definido est acontecendo em algum lugar distante, deixando ao que sonha decidir se o fato est acontecendo naquele momento ou acontecer 
em alguma poca posterior. Tambm na vida desperta amide me dei conta de pressentimentos de acontecimentos distantes. Contudo, nenhuma dessas impresses, previses 
e premonies se 'realizaram', como dizemos; no se demonstrou existir uma realidade externa correspondente a elas e, portanto, tiveram de ser encaradas como previses 
puramente subjetivas.
        Sonhei certa vez, por exemplo, durante a guerra, que um de meus filhos ento servindo na frente de batalha fora morto. Isso no estava diretamente enunciado 
no sonho, mas expresso de uma maneira inequvoca atravs do bem conhecido simbolismo de morte, cuja descrio foi dada pela primeira vez por Stekel [1911a]. (No 
devemos nos esquecer de cumprir o dever, que amide se sente ser inconveniente, de apresentar agradecimentos literrios.) Vi o jovem soldado de p sobre um patamar, 
entre a terra e a gua, digamos, e ele me apareceu muito plido. Falei-lhe, mas no me respondeu. Havia outras indicaes inequvocas. No estava usando uniforme 
militar, mas um costume de esqui que usara quando um grave acidente de esquiagem lhe acontecera, vrios anos antes da guerra. Ficou de p sobre algo semelhante a 
um banquinho, com um armrio  sua frente, situao sempre associada em meu esprito  idia de 'cair', atravs de uma lembrana de minha prpria infncia. Menino 
de pouco mais de dois anos de idade, eu subira num banquinho como aquele para apanhar algo de cima de um armrio - provavelmente algo bom de comer -, ca e causei-me 
um ferimento de que ainda hoje posso mostrar a cicatriz. Meu filho, contudo, a quem o sonho pronunciava como morto, voltou ileso da guerra para casa.
        Apenas h pouco tempo atrs tive outro sonho trazendo ms notcias; deu-se, penso eu, exatamente antes de me decidir a reunir essas poucas observaes. Dessa 
vez, no houve muita tentativa de disfarce. Vi minhas duas sobrinhas que moram na Inglaterra. Estavam vestidas de preto e me disseram: 'Enterramo-la na quinta-feira.' 
Soube que a referncia era  morte de sua me, ento com 87 anos de idade, viva de meu irmo mais velho.
        Seguiu-se um tempo de desagradvel expectativa; certamente nada haveria de surpreendente no fato de uma senhora to idosa ter-se finado subitamente; contudo, 
seria muito desagradvel que o sonho coincidisse exatamente com a ocorrncia. A prxima carta da Inglaterra, contudo, dissipou esse temor. Em benefcio daqueles 
que se interessam pela teoria onrica da realizao de desejos posso interpolar a reafirmao de que no houve dificuldade em detectar pela anlise os motivos inconscientes 
que se poderia presumir existirem nesses sonhos de morte, bem como em outros.
        Espero que no contestem o valor do que acabo de relatar, conquanto as experincias negativas provem to pouco aqui quanto o fazem em assuntos ocultos. Estou 
bem ciente disso e no aduzi esses exemplos com qualquer inteno de provar algo ou de sub-repticiamente influenci-los em algum sentido especfico. Meu nico propsito 
foi explicar a pobreza de meu material.
        Outro fato por certo me parece de maior significao: que durante cerca de 27 anos de trabalho como analista, nunca me achei em posio de observar um sonho 
verdadeiramente teleptico em qualquer de meus pacientes. E esses pacientes, contudo, constituam uma boa coleo de naturezas gravemente neuropticas e 'altamente 
sensveis'. Vrios deles relataram-me incidentes bem notveis em sua vida anterior, nos quais baseavam uma crena em misteriosas influncias ocultas. Acontecimentos 
como acidentes ou doenas de parentes prximos, sobretudo a morte de um dos genitores, ocorreram com bastante freqncia durante o tratamento e o interromperam, 
mas sequer numa nica ocasio essas ocorrncias, eminentemente apropriadas, como eram, em carter, permitiram-me a oportunidade de registrar um nico sonho teleptico, 
embora o tratamento se estendesse por diversos meses ou mesmo anos. Quem se interessar, pode procurar uma explicao para este fato, que restringe ainda mais o material 
 minha disposio. Seja como for, ver-se- que tal explicao no influenciaria o tema deste artigo.
        Tampouco me embaraa indagarem-me por que no fiz uso da abundante reserva de sonhos telepticos ocorrida na literatura do assunto. No teria de procurar 
muito, visto que as publicaes tanto da Sociedade Inglesa quanto da Sociedade Americana de Pesquisas Psquicas me so acessveis como membro de ambas. Em nenhum 
desses relatos h qualquer tentativa de submeter tais sonhos  investigao analtica, que seria nosso primeiro interesse em casos assim. Ademais, logo percebero 
que, para os fins do presente artigo, um nico sonho ser o bastante.
        Assim, meu material consiste simples e unicamente em dois relatos que chegaram at mim de correspondentes na Alemanha. Os autores no me so pessoalmente 
conhecidos, mas fornecem seus nomes e endereos; no tenho o menor fundamento para presumir, de sua parte, qualquer inteno de embuste.

                                        I

        Com o primeiro dos dois j havia mantido correspondncia; fora suficientemente gentil em enviar-me, como muitos de meus leitores fazem, observaes de ocorrncias 
cotidianas e coisas assim. Trata-se obviamente de um homem instrudo e extremamente inteligente; dessa vez, coloca expressamente seu material  minha disposio, 
caso me interesse em transform-lo em 'relato literrio'.
        Sua carta diz o seguinte:
        'Considero o seguinte sonho como de interesse suficiente para que o transmita ao senhor, a ttulo de material para suas pesquisas.
        'Devo primeiro enunciar os seguintes fatos. Minha filha, que  casada e mora em Berlim, esperava seu primeiro parto em meados de dezembro deste ano. Eu pretendia 
ir a Berlim, na ocasio, com minha (segunda) esposa, madrasta de minha filha. Durante a noite de 16 para 17 de novembro sonhei, com vividez e clareza nunca experimentada, 
que minha esposa havia dado  luz gmeos. Vi os dois saudveis bebs muito claramente, com seus rostos rechonchudos, deitados em seu bero, lado a lado. No lhes 
observei o sexo; um, de cabelos claros, tinha distintamente as minhas feies e algo das de minha esposa; o outro, de cabelos castanhos, parecia-se claramente com 
ela, com algum aspecto meu. Disse a minha esposa, que tem cabelos louro-arruivados: "Provavelmente o cabelo castanho de 'seu' filho tambm ficar ruivo mais tarde." 
Minha mulher deu-lhe o seio. No sonho, ela tambm fizera um pouco de gelia numa bacia de lavar e as duas crianas engatinhavam pela bacia e lambiam-lhe o contedo.
        'Quanto ao sonho,  s. Quatro ou cinco vezes que despertei durante ele perguntei-me se era verdade que tnhamos gmeos, mas no cheguei, com exatido alguma, 
 concluso de ser apenas um sonho. Este durou at eu despertar e, aps, ainda decorreu tempo at que me sentisse inteiramente esclarecido sobre o verdadeiro estado 
de coisas. Ao desjejum, contei  minha esposa o sonho, que muito a divertiu. Disse ela: "Ser que Ilse (minha filha) vai ter gmeos?" Respondi: "Dificilmente, uma 
vez que os gmeos no so costume, seja em minha famlia ou na de G" (marido dela). Em 18 de novembro, s dez horas da manh, recebi um telegrama de meu genro, passado 
na tarde anterior, comunicando-me o nascimento de gmeos, um menino e uma menina. O nascimento, assim, dera-se na ocasio em que estava sonhando que minha esposa 
tivera gmeos. O parto ocorrera quatro semanas mais cedo do que qualquer de ns esperava, com base nos clculos de minha filha e meu genro.
        'Mas h ainda uma outra circunstncia: na noite seguinte [isto , antes tambm de recebido o telegrama], sonhara que minha falecida esposa, me de minha 
filha, tomara a seu cargo 48 bebs recm-nascidos. Quando a primeira dzia estava chegando, protestei. Nesse ponto, o sonho findou.
        'Minha falecida esposa gostava muito de crianas. Freqentemente falava a esse respeito, dizendo que gostaria de ter um bando inteiro delas em torno de si, 
quanto mais, melhor; que se sairia muito bem se a encarregassem de um jardim de infncia e que seria muito feliz assim. O barulho que as crianas fazem era msica 
para ela. De tempos em tempos convidava um bando inteiro de crianas das ruas e as regalava com chocolate e bolos no ptio de nossa vivenda. Minha filha deve ter 
pensado em seguida na me aps o parto, especialmente devido  surpresa de sua prematuridade, da vinda de gmeos e de sua diferena de sexo. Sabia que a me teria 
acolhido o fato com a mais viva alegria e simpatia: "Pense s no que mame diria, se estivesse comigo agora!" Esse pensamento deve, indubitavelmente, ter-lhe passado 
pela mente. E ento sonhei com minha falecida esposa, com quem raramente sonho, e em quem no falara nem pensara aps o primeiro sonho.
        'O senhor acha que a coincidncia entre o sonho e o fato foi acidental em ambos os casos? Minha filha  muito ligada a mim e estava certamente pensando em 
mim durante o trabalho de parto, particularmente porque amide trocramos cartas sobre o seu modo de vida durante a gravidez e eu lhe havia constantemente dado conselhos.'
         fcil adivinhar o que foi minha resposta a essa carta. Fiquei triste por descobrir que o interesse de meu correspondente pela anlise havia sido to completamente 
morto por seu interesse na telepatia. Evitei assim sua pergunta direta e, observando que o sonho continha muito coisa alm da vinculao com o nascimento dos gmeos, 
pedi-lhe para fornecer-me quaisquer informaes ou idias que lhe ocorressem e pudessem dar-me uma pista quanto ao significado do sonho.
        Logo aps recebi a seguinte segunda carta que, deve-se admitir, no me forneceu inteiramente tudo o que eu queria:
        'No pude responder sua amvel carta do dia 24 seno hoje. Ficarei encantado em contar-lhe, "sem omisso ou reserva", todas as associaes que me ocorrerem. 
Infelizmente no so muitas, e outras viriam em conversa.
        'Pois bem: minha esposa e eu no queremos mais filhos. Quase nunca temos relaes sexuais; seja como for, por ocasio do sonho certamente no havia "perigo". 
O parto de minha filha, que era esperado para meados de dezembro, constitua naturalmente um tema freqente de conversa entre ns. Minha filha fora examinada e radiografada 
no vero e o mdico que fizera o exame estava certo de que a criana seria um menino. Minha esposa disse na ocasio: "Vou rir se, ao fim das contas, for uma menina." 
Na ocasio, tambm observou que seria melhor que fosse um H. em vez de um G. (nome de famlia de meu genro); minha filha  mais bonita e faz melhor figura que ele 
embora ele tenha sido oficial da marinha. Efetuei alguns estudos da questo da hereditariedade e tenho o hbito de olhar para bebs, a fim de ver com quem se parecem. 
Uma coisa ainda: temos um cozinho que se senta conosco  mesa,  noite, para receber sua comida, e que lambe os pratos. Todo esse material aparece no sonho.
        'Gosto de crianas pequenas e amide tenho dito que gostaria de novamente cuidar da educao de uma criana, agora que devo possuir bem mais compreenso, 
interesse e tempo para dedicar-lhe; porm, com minha esposa no o desejaria, visto que no possui as qualidades necessrias para criar judiciosamente uma criana. 
O sonho faz-me presente de dois filhos; no observei seu sexo. Vejo-os ainda neste momento, deitados na cama, e reconheo-lhes as feies, um deles mais "eu" e o 
outro mais minha esposa, cada qual, porm, com traos menores do outro lado. Minha esposa possui cabelos louro-arruivados, mas um dos filhos tem cabelos castanhos 
(avermelhados). Digo eu: "Ora bem, eles tambm ficaro ruivos mais tarde." Ambas as crianas engatinham por uma grande bacia de lavar em que minha esposa esteve 
mexendo gelia e lambem-lhe o fundo e os lados (sonho). A origem desse pormenor  facilmente explicvel, assim como o sonho como um todo. Ele no seria difcil de 
compreender ou interpretar se no houvesse coincidido com a chegada inesperadamente precoce de meus netos (trs semanas mais cedo), uma coincidncia de tempo quase 
exata. (No posso dizer exatamente quando comeou o sonho; meus netos nasceram s 9 e 9 e 15 da noite; fui deitar-me por volta das onze horas e tive o sonho no decorrer 
da noite.) Tambm o nosso conhecimento de que a criana seria um menino junta-se  dificuldade, embora possivelmente a dvida sobre se isso fora inteiramente determinado 
possa explicar o aparecimento de gmeos no sonho. Mesmo assim, a coincidncia do sonho com o aparecimento inesperado e prematuro dos gmeos de minha filha permanece.
        'No foi a primeira vez que fatos distantes se me tornaram conhecidos antes que recebesse as notcias reais. Para fornecer um exemplo entre muitos, em outubro 
recebi uma visita de meus trs irmos. No nos havamos reunido durante trinta anos, exceto por um tempo muito breve, uma vez nos funerais de meu pai e outra nos 
de minha me. Ambas as mortes eram esperadas e no tivera "pressentimentos" em nenhum dos casos. Mas, h cerca de 25 anos atrs, meu irmo mais moo faleceu de modo 
inteiramente sbito e inesperado, quando tinha dez anos. Quando o carteiro entregou-me o carto-postal com a notcia de sua morte, antes que passasse o olhar por 
ele veio-me logo o pensamento: " para dizer que meu irmo morreu." Fora o nico que ficara em casa, um rapaz forte e sadio, ao passo que ns, os quatro irmos mais 
velhos, j estvamos plenamente desenvolvidos e havamos deixado a casa paterna. Por ocasio da visita de meus irmos, a conversa fortuitamente girou em torno dessa 
experincia minha e, como se fosse uma palavra de ordem, todos os trs irmos declaravam haver-lhes acontecido exatamente a mesma coisa. Se ocorreu exatamente da 
mesma maneira, no posso dizer; de qualquer modo, cada um declarou que se sentira perfeitamente certo da morte, exatamente antes que a notcia inesperada chegasse. 
Somos todos, pelo lado materno, de disposio sensvel, embora homens fortes e altos, mas nenhum de ns , de modo algum, inclinado ao espiritismo ou ao ocultismo; 
pelo contrrio, rejeitamos a adeso a qualquer dos dois. Meus irmos so todos homens de formao universitria, dois professores, o outro agrimensor, todos antes 
formalistas que visionrios. Isto  tudo o que posso contar-lhe em relao ao sonho. Se puder transform-lo em um relato literrio, fico encantado em coloc-lo  
sua disposio.'
        Temo que os leitores possam comportar-se como o autor dessas duas cartas. Tambm estaro primariamente interessados em saber se o sonho pode ser realmente 
considerado como uma notificao teleptica do nascimento inesperado dos gmeos, e no estaro dispostos a submeter o sonho  anlise, como qualquer outro. Prevejo 
que sempre ser assim quando a psicanlise e o ocultismo se encontrarem. A primeira tem, por assim dizer, todos os nossos instintos mentais contra ela; do ltimo, 
vamos a seu encontro a meio caminho, movidos por simpatias poderosas e misteriosas. Entretanto, no vou assumir a posio de no ser mais que um psicanalista, de 
os problemas do ocultismo no me serem concernentes; com acerto julgariam isso como apenas uma fuga ao problema. Nada disso eu posso dizer que constituiria uma grande 
satisfao para mim, se pudesse convencer-me, assim como a outros, da inatacvel evidncia da existncia de processos telepticos, mas considero tambm que as informaes 
fornecidas sobre esse sonho so inteiramente inadequadas para justificar um pronunciamento desse tipo. Observao que nem uma s vez ocorre a esse homem inteligente, 
profundamente interessado em saber como se acha no problema de seu sonho, dizer-nos quando pela ltima vez viu a filha ou que notcias teve dela ultimamente. Escreve, 
na primeira carta, que o nascimento foi um ms mais cedo; na segunda, porm, esse ms transformou-se em apenas trs semanas e nenhuma delas nos diz se o nascimento 
foi realmente prematuro ou se, como to amide acontece, os interessados estavam enganados em seus clculos. Temos, porm, de considerar esses e outros pormenores 
da ocorrncia, se quisermos pesar a probabilidade de aquele que sonhou haver feito estimativas e palpites inconscientes. Sinto tambm que isso no seria til, ainda 
que conseguisse obter resposta a tais perguntas. No processo de chegar  informao, sempre surgiriam novas dvidas, que s poderiam ser acalmadas se tivssemos 
o homem  nossa frente e pudssemos reviver todas as lembranas pertinentes que talvez ele tenha afastado como no essenciais. Tem certamente razo no que diz no 
comeo de sua segunda carta, de que mais coisas surgiriam conversando.
        Considerem um outro caso semelhante, em que nenhum papel desempenha o intrprete perturbado pelo ocultismo. Amide devem os leitores ter estado em posio 
de comparar a anamnese e as informaes sobre a doena, dadas durante a primeira sesso por qualquer neurtico, com o que dele obtiveram aps alguns meses de psicanlise. 
 parte as abreviaes inevitveis, quantas coisas essenciais foram omitidas ou suprimidas, quantas conexes foram deslocadas; na realidade, quanto de incorreto 
ou inverdico lhes foi contado naquela primeira ocasio! No me chamaro de hipercrtico se recusar-me, nas circunstncias, a fazer qualquer pronunciamento sobre 
se o sonho em causa  um evento teleptico, uma realizao particularmente sutil por parte do inconsciente do que sonhou, ou se deve simplesmente ser tomado como 
uma coincidncia notvel. Nossa curiosidade deve satisfazer-se com a esperana de que, em alguma ocasio posterior, seja possvel efetuar um exame oral pormenorizado 
do que sonhou. Mas no podem dizer que esse resultado de nossa investigao os desapontou, porque os preparei para ele; disse-lhes que no ouviriam nada que lanasse 
luz sobre o problema da telepatia.
        Se agora passarmos ao tratamento analtico do sonho, seremos novamente obrigados a expressar nossa insatisfao. Os pensamentos que aquele que sonhou associa 
ao contedo manifesto do sonho, so mais uma vez insuficientes e no nos permitem efetuar qualquer anlise do sonho. Por exemplo, o sonho entra em grandes pormenores 
sobre as semelhanas das crianas com os pais, discute a cor de seus cabelos e a provvel mudana de cor numa idade posterior, e como explicao desses elaborados 
detalhes recebemos apenas, do que sonhou, a rida informao de que sempre se interessou por questes de semelhana e hereditariedade. Estamos acostumados a esperar 
um material bastante mais amplo que este! Em determinado ponto, porm, o sonho admite uma interpretao analtica e exatamente nesse ponto a anlise, que sob outros 
aspectos no possui conexo com o ocultismo, vem em auxlio da telepatia de uma maneira digna de nota.  apenas por causa desse ponto isolado que lhes estou pedindo 
sua ateno para este sonho.
        Corretamente falando, o sonho no tem qualquer direito a ser chamado de 'teleptico'. No informou quem o sonhou de nada que (fora de seu conhecimento normal) 
se estivesse realizando noutro lugar. O que o sonho contou foi algo inteiramente diferente do acontecimento comunicado no telegrama recebido no segundo dia aps 
a noite do sonho. Este e a ocorrncia real divergem num ponto particularmente importante, mas concordam, afora a coincidncia de tempo, noutro elemento muito interessante. 
No sonho, a esposa do que sonhou teve gmeos. A ocorrncia, contudo, fora que a filha dele dera  luz gmeos, em sua casa distante. O que sonhou no desprezou essa 
diferena; no parecia conhecer nenhum modo de super-la e como, de acordo com seu prprio relato, no tinha inclinaes para o oculto, perguntava apenas, de modo 
bastante experimental, se a coincidncia entre o sonho e a ocorrncia sobre o ponto do nascimento de gmeos poderia ser mais que um acidente. A interpretao analtica 
dos sonhos, contudo, extingue essa diferena entre o sonho e o acontecimento e d a ambos o mesmo contedo. Se consultarmos o material associado ao sonho, ele mostra, 
a despeito de sua disperso, que existia um vnculo ntimo de sentimento entre o pai e a filha, um vnculo de sentimento que  to costumeiro e natural que deveramos 
deixar de nos envergonharmos dele, um vnculo que, na vida cotidiana, simplesmente se expressa como um interesse terno e s  impulsionado  sua concluso lgica 
nos sonhos. O pai sabia que a filha se aferrava a ele, estava convencido de que amide pensara nele durante o trabalho de parto. Penso que, em seu corao, dera-a 
de m vontade ao genro, a que, em uma das cartas, faz algumas referncias depreciativas. Na ocasio do parto (esperado ou comunicado por telepatia) o desejo inconsciente 
tornou-se ativo na parte reprimida de sua mente: 'ela deveria ser minha (segunda) esposa'; foi esse desejo que deformou os pensamentos onricos e constituiu a causa 
da diferena entre o contedo manifesto do sonho e o acontecimento. Temos o direito de substituir, no sonho, a segunda esposa pela filha. Se possussemos mais associaes 
com o sonho, poderamos indubitavelmente verificar e aprofundar esta interpretao.
        E agora cheguei ao argumento que quero apresentar-lhes. Esforamo-nos por manter a imparcialidade mais estrita e permitimos que duas concepes do sonho 
se classificassem como igualmente provveis e igualmente no provadas. Segundo a primeira, o sonho  uma reao a uma mensagem teleptica: 'sua filha acabou de trazer 
gmeos ao mundo'. De acordo com a segunda, est subjacente ao sonho um processo inconsciente de pensamento capaz de ser reproduzido mais ou menos assim: 'Hoje  
o dia em que o parto deveria realizar-se, se  que aqueles jovens em Berlim esto realmente errados de um ms em seus clculos, como suspeito. E se minha (primeira) 
esposa ainda estivesse viva, certamente no ficaria contente com um s neto. Para agrad-la, teria de haver pelo menos gmeos.' Estando certa essa segunda opinio 
no surge nenhum problema novo. Trata-se simplesmente de um sonho como qualquer outro. Os pensamentos onricos (pr-conscientes), tal como delineados acima, so 
reforados pelo desejo (inconsciente) de que nenhuma outra mulher seno a filha deveria ser a segunda esposa do que sonhou e assim surge o sonho manifesto, tal como 
nos foi descrito.
        Se preferirem pressupor que uma mensagem teleptica sobre o parto da filha chegou ao que dormia, surgem novas questes da relao de uma mensagem como esta 
com um sonho e de sua influncia na formao dos sonhos. A resposta no se acha distante, sendo bastante clara. Uma mensagem teleptica ser tratada como uma parte 
do material que entra na formao de um sonho, como qualquer outro estmulo externo ou interno, como um rudo perturbador na rua ou uma insistente sensao orgnica 
no prprio corpo do que dorme. Em nosso exemplo,  evidente a maneira pela qual a mensagem, com a ajuda de um desejo reprimido  espreita, remodelou-se numa realizao 
de desejo; infelizmente, no  to fcil demonstrar que se combinou com outros materiais que se tornaram ativos ao mesmo tempo, misturando-se com eles para formar 
um sonho. As mensagens telepticas - se temos justificativa para reconhecer sua existncia - no provocam assim alterao no processo de formao de um sonho; a 
telepatia nada tem a ver com a natureza dos sonhos. E, a fim de evitar a impresso de que estou tentando ocultar uma noo vaga por trs de palavras abstratas e 
bem sonantes, estou pronto a repetir: a natureza essencial dos sonhos consiste no processo peculiar da 'elaborao onrica', que, com o auxlio de um desejo inconsciente, 
transporta os pensamentos pr-conscientes (resduos diurnos) para o contedo manifesto do sonho. O problema da telepatia interessa aos sonhos tanto quanto o problema 
da ansiedade.
        Tenho esperanas de que iro pressupor isso; iro porm levantar a objeo de que, no obstante, existem outros sonhos telepticos em que no h diferena 
entre o acontecimento e o sonho e nos quais nada mais se pode encontrar seno uma reproduo no deformada do evento. Em minha prpria experincia, no tenho conhecimento 
desses sonhos, mas sei que foram muitas vezes comunicados. Se presumirmos a necessidade de lidarmos com um sonho teleptico assim, indisfarado e inadulterado, surgir 
outra questo. Deveramos chamar essa experincia teleptica realmente de 'sonho'? Certamente o faro enquanto se ativerem  praxe popular, segundo a qual tudo o 
que acontece na vida mental durante o sono  chamado de sonho. Vocs, tambm, talvez digam: 'Agitei-me no sonho' e ainda se acham menos conscientes de alguma incorreo 
quando falam: 'Derramei lgrimas no sonho' ou 'Senti-me apreensivo no sonho'. Mas sem dvida notaro que em todos esses casos esto empregando 'sonho', 'sono' e 
'estado de estar adormecido' intercambiavelmente, como se no houvesse distino entre eles. Penso que seria interessante para a preciso cientfica manter 'sonho' 
e 'estado de sono' mais distintamente separados. Por que deveramos fornecer uma contrapartida  confuso evocada por Maeder que, por recusar-se a distinguir entre 
a elaborao onrica e os pensamentos onricos latentes, descobriu uma nova funo para os sonhos? Supondo-se, ento, que somos colocados frente a frente com um 
'sonho' teleptico puro, denominemo-lo de preferncia, em vez de 'sonho', de experincia teleptica em um estado de sono. Um sonho sem condensao, deformao, dramatizao 
e, acima de tudo, sem realizao de desejo, certamente no merece esse nome. Recordar-me-o de que, sendo assim, existem outros produtos mentais no sono a que o 
direito de serem chamados 'sonhos' teria de ser recusado. Experincias reais do dia so, s vezes, simplesmente repetidas no sono; reprodues de cenas traumticas 
em 'sonhos' [ver em [1]] levaram-nos ainda ultimamente a revisar a teoria dos sonhos. H sonhos que devem ser distinguidos do tipo habitual por certas qualidades 
especiais que, dizendo corretamente, nada mais so que fantasias noturnas, no havendo sofrido acrscimos ou alteraes de espcie alguma e sendo, sob todos os outros 
aspectos, semelhantes aos familiares devaneios ou sonhos diurnos. Seria esquisito, sem dvida, excluir essas estruturas do domnio dos 'sonhos'. Entretanto, todas 
elas provm de dentro, so produtos de nossa vida mental, ao passo que a prpria concepo do sonho puramente 'teleptico' reside em ser ele uma percepo de algo 
externo perante o qual a mente permanece passiva e receptiva.

                                        II

        O segundo caso que apresentarei  observao, na realidade segue outras linhas. No se trata de um sonho teleptico, mas de um sonho recorrente da infncia 
em diante, em uma pessoa que teve muitas experincias telepticas. A sua carta, que reproduzirei aqui, contm certas coisas notveis a cujo respeito no podemos 
formar nenhum julgamento. Uma parte dela  de interesse quanto ao problema da relao da telepatia com os sonhos.

        (1) '...Meu mdico, Herr Dr. N., aconselha-me a fornecer-lhe um relato de um sonho que me perseguiu durante uns 30 ou 32 anos. Estou seguindo o conselho 
dele e talvez o sonho possa interessar ao senhor, sob algum aspecto cientfico. Desde que, em sua opinio, esses sonhos devem remontar sua origem a uma experincia 
de natureza sexual nos primeiros anos de minha infncia, relato algumas reminiscncias dela. So experincias cuja impresso em mim ainda persiste, e seu carter 
foi to acentuado que chegaram ao ponto de determinar minha religio.
        'Permita-me que lhe pea para notificar-me de que maneira o senhor explica esse sonho e se no ser possvel bani-lo de minha vida, porque ele me assombra 
com um fantasma e as circunstncias que o acompanham - sempre caio da cama e j me infligi danos no pouco considerveis - tornam-no particularmente desagradvel 
e aflitivo.'
        (2) 'Tenho 37 anos de idade, sou muito forte e me encontro em boa sade fsica, mas na infncia tive, alm de sarampo e escarlatina, uma crise de nefrite. 
Alm disso, aos cinco anos de idade, tive uma inflamao muito grave nos olhos que me deixou com viso dupla. As imagens ficam em ngulo umas com as outras e seu 
contorno  enevoado, enquanto as cicatrizes das lceras afetam a clareza da viso. Na opinio do especialista, no existe nada mais a ser feito e nenhuma possibilidade 
de melhora. O lado esquerdo de meu rosto  repuxado para cima, por ter de retesar o olho esquerdo para ver melhor.  fora de prtica e determinao, posso fazer 
os mais delicados trabalhos de agulha; e semelhantemente, quando ainda menina de seis anos, curei-me do estrabismo praticando em frente do espelho, de modo que hoje 
no existe sinal externo do defeito na viso.
        'Desde os meus primeiros anos fui sempre solitria. Mantinha-me separada das outras crianas e tinha vises (clarividncia e clariaudio). No era capaz 
de distingui-las da realidade e, conseqentemente, amide me descobria em conflito com outras pessoas, em posies embaraosas, do que resultou haver-me tornado 
uma pessoa muito reservada e tmida. Porque desde muito pequena j sabia muito mais do que poderia haver aprendido, simplesmente no entendia as crianas de minha 
prpria idade. Eu mesma sou a mais velha de uma famlia de doze.
        'Dos seis aos dez anos freqentei a escola paroquial e at os dezesseis o ginsio das Freiras Ursulinas em B -. Aos dez anos j havia aprendido tanto francs 
em quatro semanas e oito lies quanto as outras crianas aprendem em dois anos. Tinha apenas de praticar, falando. Era como se j o tivesse sabido e apenas esquecido. 
Nunca precisei aprender francs, em contraste com o ingls, que no me causou problemas, certamente, mas que eu desconhecia de antemo. Com o latim sucedeu-me como 
o francs e jamais o aprendi corretamente, conhecendo-o apenas do latim eclesistico, o qual, contudo, -me inteiramente familiar. Se hoje leio um livro em francs, 
passo de imediato a pensar em francs, ao passo que o mesmo jamais me ocorre com o ingls embora o domine melhor. Meus pais so gente do campo que, por geraes, 
nunca falaram outro idioma que o alemo e o polons.
        'Vises. - s vezes a realidade se desvanece por alguns momentos e vejo algo inteiramente diferente. Em minha casa, por exemplo, amide vejo um casal idoso 
e uma criana e a casa acha-se ento diferentemente mobiliada. No sanatrio, certa vez, uma amiga veio a meu quarto por volta das quatro da manh; estava acordada, 
com a lmpada acesa e sentada  mesa, lendo, porque sofro muito de insnia. A sua apario sempre significa uma poca penosa para mim, como o foi nessa ocasio.
        'Em 1914, meu irmo se encontrava no servio ativo; eu no estava com meus pais em B -, mas em Ch -. Eram 10 da manh de 22 de agosto quando ouvi a voz de 
meu irmo chamando: "Me! Me!" Aconteceu de novo dez minutos depois, mas nada vi. Em 24 de agosto voltei para casa e encontrei minha me muitssimo deprimida; em 
resposta s minhas perguntas, disse-me que recebera uma mensagem do rapaz em 22 de agosto. Estivera no jardim pela manh, quando o ouvira chamar: "Me! Me!" Acalmei-a 
e nada lhe disse sobre mim mesma. Trs semanas depois chegou um carto de meu irmo, escrito em 22 de agosto, entre 9 e 10 da manh; logo aps, ele morreu.
        'Em 27 de setembro de 1921, enquanto me achava no sanatrio, recebi uma mensagem de algum tipo. Houve violentas batidas, duas ou trs repetidas, na cama 
da paciente que dividia o quarto comigo. Estvamos ambas acordadas; perguntei-lhe se havia batido, porm ela nem mesmo ouvira coisa alguma. Oito semanas mais tarde 
soube que uma de minhas amigas havia morrido na noite de 26 para 27 de setembro.
        'Agora, algo que  encarado como uma alucinao, questo de opinio! Tenho uma amiga que se casou com um vivo com cinco filhos; vim a conhecer o marido 
apenas atravs de minha amiga. Quase sempre quando ia visit-la, via uma senhora entrando e saindo da casa. Era natural supor que se tratasse da primeira esposa 
do marido. Numa ocasio conveniente, pedi para ver um retrato dela, mas no pude identificar a apario com a fotografia. Sete anos depois vi um retrato com as feies 
da senhora, pertencente a um dos filhos. Era realmente a primeira esposa. No retrato, ela parecia em muito boa sade; acabara de fazer um tratamento para engordar 
e isso altera o aspecto de uma paciente tsica. Estes so apenas alguns exemplos entre muitos.
        'O sonho [recorrente]. - Vi uma lngua de terra rodeada de gua. As vagas eram impelidas para a frente e, depois, para trs, pelas ondas de rebentao. Nesse 
pedao de terra erguia-se uma palmeira, um tanto torcida em direo da gua. Uma mulher passara o brao em torno do caule da palmeira e se inclinava para a gua, 
onde um homem tentava alcanar a praia. Por fim, ela deitou-se no solo, agarrou-se fortemente  palmeira com a mo esquerda e estendeu a mo direita to longe quanto 
podia na direo do homem na gua, mas sem alcan-lo. Nesse ponto, caio da cama e acordo. Tinha aproximadamente 15 ou 16 anos de idade quando compreendi que essa 
mulher era eu prpria e, a partir dessa poca, no apenas experimentei todas as suas apreenses em relao ao homem, mas, s vezes, me detive l, como uma terceira 
pessoa, olhando para a cena sem participar dela. J tive esse sonho tambm em cenas separadas. Quando em mim despertou algum interesse pelos homens (dos 18 aos 20 
anos de idade), tentei ver o rosto do homem, mas isso nunca foi possvel. A espuma ocultava tudo, salvo sua nuca e a parte de trs da cabea. Duas vezes estive noiva, 
mas, a julgar por sua cabea e compleio, ele no era nenhum dos dois homens com quem fui comprometida. Certa vez, deitada no sanatrio, sob a influncia do paraldedo, 
vi o rosto do homem, o qual agora sempre vejo no sonho. Era o rosto do mdico sob cujos cuidados me achava. Gostava dele como mdico, mas no me sentia atrada por 
ele de nenhuma outra forma.
        'Lembranas. Seis a nove meses de idade. - Achava-me num carrinho de beb.  minha direita estavam dois cavalos; um deles, de cor castanha, olhava-me muito 
atenta e expressivamente. Foi a minha mais vvida experincia; tive a impresso de tratar-se de um ser humano.
        'Um ano de idade. - Papai e eu no parque municipal, onde um guarda do parque estava pondo um passarinho em minha mo. Seus olhos fitaram os meus. Senti: 
"Essa  uma criatura como voc."
        'Animais sendo abatidos. - Quando ouvia os porcos gritando, sempre pedia socorro e gritava: "Voc est matando uma pessoa!" (quatro anos de idade). Sempre 
me recusei a comer carne. A carne de porco invariavelmente me faz vomitar. Somente durante a guerra vim a comer carne e apenas contra a vontade; agora estou aprendendo 
a passar novamente sem ela.
        'Cinco anos de idade. - Minha me estava dando  luz e eu a ouvia gritar. Tive a sensao: "H um ser humano ou um animal em grande aflio", tal como tivera 
quando da matana dos porcos.
        'Em criana fui inteiramente indiferente aos assuntos sexuais; aos dez anos ainda no tinha concepo das ofensas contra a castidade. A menstruao apareceu 
aos doze anos. A mulher despertou pela primeira vez em mim aos vinte e seis, aps haver dado vida a um filho; at essa ocasio (seis meses) constantemente tinha 
vmitos violentos aps a relao. Isso tambm acontecia sempre que me achava de nimo deprimido.
        'Tenho poderes de observao extraordinariamente agudos e uma audio excepcionalmente ntida, alm de um sentido muito agudo do olfato. De olhos vendados, 
posso apontar pelo cheiro as pessoas que conheo entre um certo nmero de outras.
        'No encaro meus poderes anormais de viso e audio como patolgicos, mas atribuo-os a percepes mais refinadas e a uma maior rapidez de pensamento; porm 
s falei disso ao meu pastor e ao Dr. - (ao ltimo, muito contra a vontade, pois receava que me dissesse serem qualidades negativas aquilo que eu encarava como qualidades 
positivas, e tambm porque, de tanto ser mal interpretada na infncia, sou muito reservada e tmida).'
        O sonho que a autora da carta nos pede para interpretar no  difcil de compreender. Trata-se de um sonho de resgatar das guas, um sonho tpico de nascimento. 
A linguagem do simbolismo, como esto cientes, no conhece gramtica;  um caso extremo de uma linguagem de infinitivos e mesmo o ativo e o passivo so representados 
por uma s e mesma imagem. Se, num sonho, uma mulher puxa (ou tenta puxar) um homem para fora das guas, isso pode significar que deseja ser sua me (toma-o por 
filho, como a filha do Fara fez com Moiss) ou pode significar seu desejo de que ele a transforme em me: quer ter um filho dele, o qual, como semelhana dele, 
possa ser seu equivalente. O caule a que a mulher se aferrava, facilmente se identifica como um smbolo flico, ainda que no esteja ereto, mas inclinado no sentido 
da superfcie das guas - no sonho, a palavra  'torcido'. A arremetida e o recuo das ondas de rebentao trouxe  mente de outra pessoa que relatava um sonho semelhante, 
uma comparao com as dores intermitentes do trabalho de parto, e ao perguntar-lhe, sabendo que ela ainda no havia tido um filho, como sabia dessa caracterstica 
do trabalho de parto, respondeu que o imaginava como uma espcie de clica - psicologicamente, uma descrio inteiramente impecvel. Forneceu a associao 'As Vagas 
do Mar e do Amor'. O modo como a nossa presente sonhadora, em idade to precoce, possa ter chegado aos mais refinados detalhes do simbolismo - lngua de terra, palmeira 
-, acho-me naturalmente incapaz de diz-lo. No devemos, ademais, desprezar o fato de que, quando as pessoas asseveram serem h anos perseguidas pelo mesmo sonho, 
acontece com freqncia que o contedo manifesto no  inteiramente o mesmo. Somente o mago do sonho  que recorreu a cada vez; os pormenores do contedo so alterados 
ou acrscimos lhe so efetuados.
        Ao final do sonho, que se acha claramente eivado de ansiedade, ela cai do leito. Esta  uma nova representao do nascimento. A investigao analtica do 
medo s alturas, do temor do impulso de arrojar-se de uma janela, sem dvida conduziram, todos,  mesma concluso.
        Quem  o homem, de quem aquela que sonhou deseja ter um filho ou de cuja semelhana gostaria de ser a me? Freqentemente tentou ver-lhe o rosto, mas o sonho 
jamais lhe permitiu isso; o homem tinha de permanecer incgnito. Sabemos de incontveis anlises o que significa esse ocultamento e a concluso que basearamos na 
analogia  certificada por outra afirmativa da sonhadora. Sob a influncia do paraldedo, reconheceu certa vez o rosto do homem do sonho como o rosto do mdico do 
hospital que a estava tratando e que nada significava para sua vida emocional consciente. O original, assim, nunca divulgou sua identidade, mas essa sua impresso 
em 'transferncia' estabeleceu a concluso de que anteriormente deve ter sido sempre o seu pai. Ferenczi [1917] est perfeitamente certo ao apontar que esses 'sonhos 
do insuspeitante' constituem valiosas fontes de informaes, confirmando as conjecturas da anlise. Aquela que sonhou era a mais velha de doze filhos; quantas vezes 
no deve ter sofrido as dores do cime e do desapontamento, quando no era ela, e sim a me, que conseguia do pai o filho por que ansiava!
        A sonhadora muito corretamente imaginou que suas primeiras lembranas da infncia seriam valiosas para a interpretao de seu sonho precoce e recorrente. 
Na primeira cena, antes de contar um ano de idade, enquanto estava sentada em seu carrinho, viu dois cavalos a seu lado, um deles olhando para ela. Descreve-o como 
sendo sua mais vvida experincia; teve a impresso de tratar-se de um ser humano.  um sentimento que s podemos compreender se presumirmos que os dois cavalos 
representavam, neste caso, como  to freqente, um casal: o pai e a me. Foi, por assim dizer, um vislumbre de totemismo infantil. Se pudssemos, perguntaramos 
 autora se o cavalo castanho que a olhava to humanamente no poderia ser identificado, pela cor, com seu pai. A segunda recordao estava associativamente vinculada 
 primeira mediante o mesmo olhar 'compreensivo'. Tomar o passarinho na mo, contudo, recorda ao analista, que possui opinies preconcebidas prprias, de um aspecto 
no sonho em que a mo da mulher estava em contato com outro smbolo flico.
        As duas lembranas seguintes so da mesma categoria e impem exigncias ainda mais fceis ao intrprete. A me a gritar durante o parto recordou diretamente 
a filha dos porcos guinchando ao serem abatidos e levou-a no mesmo frenesi de piedade. Podemos, entretanto, tambm conjecturar que isso constitua uma relao violenta 
contra um irado desejo de morte dirigido contra a me.
        Com tais indicaes de ternura pelo pai, de contato com os rgos genitais dele e de desejos de morte contra a me, fica esboado o delineamento do complexo 
de dipo feminino. A longa conservao de sua ignorncia sobre assuntos sexuais e sua frigidez em um perodo posterior corroboram essas suposies. A autora da carta 
tornou-se em potencial (e, sem dvida, realmente, por vezes) uma neurtica histrica. Para sua prpria felicidade, as foras da vida carregaram-na consigo. Despertaram 
nela os sentimentos sexuais de mulher e trouxeram-lhe as alegrias da maternidade e a capacidade de trabalhar. Uma parte de sua libido, porm, ainda se aferra a seus 
pontos de fixao na infncia; ela ainda tem o sonho que a arroja para fora do leito e a pune por sua escolha incestuosa de objeto com 'danos de no pequena monta'.
        E agora se espera que uma explicao, dada por escrito por um mdico que  um estranho para ela, realize o que todas as experincias mais importantes de 
sua vida posterior no puderam fazer! Provavelmente uma anlise regular, prosseguida durante um tempo considervel, obteria xito no caso. Pelas coisas como sucederam, 
fui obrigado a contentar-me com escrever-lhe que estava convencido de que ela sofria dos efeitos ulteriores de um forte vnculo emocional ligando-a ao pai e de uma 
correspondente identificao com a me, mas que no esperava que essa explicao a ajudasse. As curas espontneas das neuroses geralmente deixam atrs de si cicatrizes 
e estas se tornam novamente doloridas de tempos em tempos. Ficamos muito orgulhosos de nossa arte se conseguimos uma cura pela psicanlise, mas ainda nesse ponto 
nem sempre podemos impedir a formao de uma dolorosa cicatriz como resultado.
        A pequena srie de reminiscncias deve prender um pouco mais a nossa ateno. Afirmei noutra parte que essas cenas de infncia constituem 'lembranas encobridoras', 
selecionadas num perodo posterior, reunidas e no infreqentemente falsificadas no processo. Esse remodelamento subseqente serve a um fim s vezes fcil de adivinhar. 
Em nosso caso, quase se pode ouvir o ego da autora a glorificar-se ou acalmar-se por meio dessa srie de recordaes: 'Fui desde a infncia uma criatura nobre e 
compassiva. Aprendi muito cedo que os animais tm alma como ns e no podia suportar a crueldade para com eles. Os pecados da carne achavam-se longe de mim e conservei 
minha castidade at bem tarde na vida.' Com declaraes como essas ela se encontrava contradizendo em voz alta as inferncias que temos de fazer sobre sua primeira 
infncia, com base em nossa experincia analtica; ou seja, que ela tinha em abundncia impulsos sexuais prematuros e violentos sentimentos de dio pela me e pelos 
irmos e irms mais moos. (Ao lado da significao genital que acabei de lhe atribuir, o passarinho pode ser tambm o smbolo de uma criana, como todos os animais 
pequenos; sua recordao, assim acentuava com muita insistncia o fato de ter essa pequena criatura o mesmo direito de existir que ela prpria.) Conseqentemente, 
a curta srie de recordaes fornece um exemplo muito bom de uma estrutura mental com um duplo aspecto. Vista superficialmente, podemos encontrar nela a expresso 
de uma idia abstrata, aqui como de praxe com uma referncia tica. Na nomenclatura de Silberer, a estrutura possui um contedo anaggico. Com uma investigao mais 
profunda ela se revela como uma cadeia de fenmenos pertinentes  regio da vida reprimida dos instintos: apresenta o seu contedo psicanaltico. Como sabem, Silberer, 
um dos primeiros a advertir-nos para no perder de vista o lado mais nobre da alma humana, apresentou a opinio de que todos, ou quase todos, os sonhos permitem 
tal interpretao dupla, uma mais pura, anaggica, ao lado da ignbil, psicanaltica. Entretanto, isso infelizmente no  assim. Pelo contrrio, uma supra-interpretao 
desse tipo raramente  possvel. Pelo que eu saiba, nenhum exemplo vlido de tal anlise onrica com duplo sentido foi publicado at o presente, porm observaes 
dessa espcie podem amide ser feitas sobre a srie de associaes produzidas por nossos pacientes durante o tratamento analtico. Por um lado, as idias sucessivas 
so ligadas por uma linha de associao que  clara para os olhos, ao passo que, por outro, damo-nos conta de um tema subjacente que  mantido em segredo, porm 
ao mesmo tempo desempenhando um papel em todas essas idias. O contraste entre os dois temas que regem a mesma srie de idias nem sempre  o existente entre o altaneiro 
anaggico e o reles psicanaltico; , antes, um contraste entre idias ofensivas e idias respeitveis ou indiferentes, fato que facilmente explica por que surge 
essa cadeia de associaes com determinao dupla. Em nosso presente exemplo, naturalmente no  acidental que as interpretaes anaggica e psicanaltica estejam 
em contraste to ntido uma com a outra; ambas se relacionam ao mesmo material e a ltima tendncia no era outra seno a das formaes reativas, erguidas contra 
os impulsos instintuais repudiados.
        Alis, por que procurarmos uma interpretao psicanaltica em vez de contentar-nos com a anaggica, mais acessvel? A resposta est vinculada a muitos outros 
problemas -  existncia em geral da neurose e s explicaes que ela inevitavelmente exige -, ao fato de que a virtude no recompensa um homem com tanta alegria 
e fora na vida como seria de esperar, como se trouxesse consigo muito de sua origem (aquela que sonhou, do mesmo modo, no fora recompensada por sua virtude), e 
vinculada a outras coisas que no preciso debater perante esta assistncia.
        At aqui, contudo, negligenciamos completamente a questo da telepatia, o outro ponto de interesse para ns, neste caso; , pois, hora de retornarmos a ele. 
Em certo sentido temos aqui uma tarefa mais fcil do que no caso de Herr H. Com uma pessoa que to fcil e precocemente na vida perdeu o contato com a realidade 
e a substituiu pelo mundo da fantasia,  irresistvel a tentao de vincular suas experincias telepticas e 'vises'  sua neurose e deriv-las dela, embora aqui 
tambm no devemos permitir-nos ser enganados quanto  fora lgica de nossos prprios argumentos. Estaremos simplesmente substituindo o que  desconhecido e ininteligvel 
por possibilidades que, pelo menos, so compreensveis.
        Em 22 de agosto de 1914, s 10 horas da manh, nossa correspondente experimentou a impresso teleptica de que seu irmo, na ocasio em servio ativo, estava 
chamando: 'Mame! Mame!' O fenmeno foi puramente acstico e repetiu-se pouco depois, mas nada foi visto. Dois dias mais tarde, encontrou a me e achou-a muito 
deprimida, porque o rapaz se lhe anunciara com um repetido chamado de 'Mame! Mame!' Ela imediatamente lembrou-se da mesma mensagem teleptica que experimentara 
no mesmo tempo e, na realidade, algumas semanas depois, foi estabelecido que o jovem soldado morrera naquele dia, na hora mencionada.
        No se pode provar, mas tambm no se pode refutar, que, em vez disso, o que ocorreu foi o seguinte: Certo dia a me lhe dissera que o filho lhe enviara 
uma mensagem teleptica, em conseqncia do que imediatamente lhe ocorrera no esprito haver tido a mesma experincia, na mesma ocasio. Tais iluses da memria 
surgem na mente com uma fora constrangedora que haurem de fontes reais, mas transformam a realidade psquica em realidade material. A fora da iluso reside em 
constituir ela uma maneira excelente de expressar a inclinao da irm a identificar-se com a me: 'A senhora est ansiosa sobre o rapaz, mas eu sou a me dele realmente 
e seu grito se dirigia a mim; fui eu que recebi essa mensagem teleptica.' A irm, naturalmente, rejeitaria firmemente nossa tentativa de explicao e aferrar-se-ia 
 crena na autenticidade de sua experincia. No poderia, contudo, agir de outra forma. Estaria fadada a acreditar na realidade do efeito patolgico enquanto a 
realidade de suas premissas inconscientes lhe fosse desconhecida. Todos os delrios semelhantes derivam sua fora e seu carter inexpugnvel do fato de possurem 
fonte na realidade psquica inconsciente. Observo de passagem que no nos cumpre explicar aqui a experincia da me ou investigar sua autenticidade.
        O irmo morto contudo no era apenas o filho imaginrio de nossa correspondente; representava tambm um rival a quem havia encarado com dio desde o dia 
de seu nascimento. Procede amplamente o fato de que a maioria de todas as notificaes telepticas se relacionam com a morte ou com a possibilidade de morte; quando 
pacientes em anlise se detm contando-nos da freqncia e da infalibilidade de suas sombrias previses, podemos com igual regularidade demonstrar-lhes que esto 
nutrindo desejos de morte particularmente intensos em seus inconscientes contra suas relaes mais chegadas e, assim, estiveram por muito tempo suprimindo-as. O 
paciente cuja histria relatei em 1909 foi um exemplo apropriado desse aspecto: era chamado de 'abutre' por suas relaes. Mas quando esse homem bondoso e altamente 
inteligente - que j pereceu na guerra - comeou a fazer progressos no sentido da recuperao, forneceu-me ele uma assistncia considervel no esclarecimento de 
seus prprios truques psicolgicos conjurativos. Da mesma maneira, parece prescindir de outra explicao o relato fornecido pela carta de nosso primeiro correspondente, 
de como ele e os irmos haviam recebido a notcia da morte do irmo mais novo como algo de que h muito tempo estiveram interiormente cnscios [ver em [1]]. Todos 
os irmos mais velhos teriam estado igualmente convencidos da superfluidade da chegada do mais jovem.
        Eis outra das 'vises' daquela que sonhou, que provavelmente se tornar mais inteligvel  luz do conhecimento analtico. As amigas obviamente tinham grande 
significao em sua vida emocional. Ainda h pouco a morte de uma delas lhe foi transmitida por uma batida,  noite, na cama de uma companheira de quarto no sanatrio. 
Outra amiga, muitos anos antes, casara-se com um vivo com muitos (cinco) filhos. Por ocasio de suas visitas  casa deles ela via regularmente a apario de uma 
senhora, que no podia deixar de supor que fosse a primeira esposa do marido. Isso no permitiu a princpio confirmao e s virou certeza para ela sete anos mais 
tarde, quando da descoberta de uma fotografia recente da falecida. Essa realizao  guisa de uma viso por parte de nossa correspondente tinha a mesma dependncia 
ntima dos complexos familiares que nos so conhecidos, que o seu pressentimento da morte do irmo. Identificando-se com a amiga, podia, na pessoa desta, encontrar 
a realizao de seus prprios desejos, de vez que toda filha mais velha de uma famlia numerosa constri em seu inconsciente a fantasia de tornar-se a segunda esposa 
do pai, com a morte da me. Se esta est enferma ou morre, a filha mais velha assume naturalmente seu lugar em relao aos irmos e irms mais novos e pode mesmo 
assumir certa parte das funes da esposa, com respeito ao pai. O desejo inconsciente preenche a outra parte.
        Encontro-me agora quase ao final do que desejo dizer. Poderia, contudo, acrescentar a observao de que os exemplos de mensagens ou produes telepticas 
aqui estudados esto claramente vinculados a emoes pertinentes  esfera do complexo de dipo. Isso pode soar como espantoso, contudo no pretendo apresent-lo 
como uma grande descoberta. Preferiria remeter-me ao resultado a que chegamos pela investigao do sonho que considerei em primeiro lugar. A telepatia no possui 
relao com a natureza essencial dos sonhos e no pode em absoluto aprofundar o que j compreendemos deles atravs da anlise. Por outro lado, a psicanlise pode 
realizar algo para fazer avanar o estudo da telepatia, na medida em que, com auxlio de suas interpretaes, muitas das enigmticas caractersticas dos fenmenos 
telepticos podem tornar-se mais inteligveis para ns; ou ento outros fenmenos, ainda duvidosos, podem, pela primeira vez e definitivamente, ser confirmados como 
de natureza teleptica.
        Resta apenas um elemento da vinculao aparentemente ntima entre a telepatia e os sonhos, no influenciado por nenhuma dessas consideraes: o fato incontestvel 
de o sono criar condies favorveis  telepatia. O sono, na verdade, no  indispensvel  ocorrncia de processos telepticos, originem-se eles de mensagens ou 
da atividade inconsciente. Se ainda no sabem, aprend-lo-o do exemplo dado por nossa segunda correspondente, da mensagem do jovem que chegou entre as 9 e as 10 
da manh. Deve-se acrescentar, contudo, que ningum tem o direito de protestar contra as ocorrncias telepticas se o evento e a notificao (ou mensagem) no coincidem 
exatamente em tempo astronmico.  perfeitamente concebvel uma mensagem teleptica poder chegar contemporaneamente ao evento e, contudo, s penetrar na conscincia 
na noite seguinte, durante o sono (ou, mesmo na vida desperta, somente aps algum tempo, durante alguma pausa na atividade da mente). Como sabem, somos de opinio 
que a prpria formao onrica no espera necessariamente o incio do sono para comear. Repetidamente os pensamentos onricos latentes podem ter estado preparando-se 
durante todo o dia, at que,  noite, processam o contato com o desejo inconsciente que os modela em um sonho. Mas, se o problema da telepatia  apenas uma atividade 
da mente inconsciente, ento, naturalmente nenhum problema novo se nos apresenta. Pode-se, assim, pressupor que as leis da vida mental inconsciente se aplicam  
telepatia.
        Dei-lhes porventura a impresso de que estou secretamente inclinado a apoiar a realidade da telepatia no sentido do oculto? Se for assim, lamentaria muito 
que seja to difcil evitar dar essa impresso. Isso porque, na realidade, estive ansioso por ser estritamente imparcial. Tenho todas as razes para s-lo, visto 
no possuir opinio sobre o assunto e nada conhecer a seu respeito.
        
        




























ALGUNS MECANISMOS NEURTICOS NO CIME, NA PARANIA E NO HOMOSSEXUALISMO (1922)


NOTA DO EDITOR INGLS
         BER EINIGE NEUROTISCHE MECHANISMEN BEIEIFERSUCHT, PARANOIA UND HOMOSEXUALITT


 (a) EDIES ALEMS:
1922 Int. Z. Psychoanal., 8, (3) 249-58.
1924 G.S., 5, 387-99.
1924 Psychoanalyse der Neurosen, 125-39.
1931 Neurosenlehre und Technik, 173-86.
1940 G.W., 13, 195-207.

(b) TRADUO INGLESA: 

'Certain Neurotic Mechanism in Jealousy,Paranoia and Homosexuality'

1923 Int. J. Psycho-Anal., 4, 1-10. (Trad. de Joan Riviere.)
1924 C.P., 2, 232-43. (Mesma tradutora.)

        A presente traduo inglesa baseia-se na publicada em 1924; o ttulo foi modificado.

        Informa-nos o Dr. Ernest Jones que este artigo foi lido por Freud a um pequeno grupo de amigos nas Montanhas do Harz em setembro de 1921, na mesma ocasio 
em que o artigo sobre 'Psicanlise e Telepatia'. (Ver antes, pg. 187.)






         ALGUNS MECANISMOS NEURTICOS NO CIME, NA PARANIA E NO HOMOSSEXUALISMO


        
                                        A

        O cime  um daqueles estados emocionais, como o luto, que podem ser descritos como normais. Se algum parece no possu-lo, justifica-se a inferncia de 
que ele experimentou severa represso e, conseqentemente, desempenha um papel ainda maior em sua vida mental inconsciente. Os exemplos de cime anormalmente intenso 
encontrados no trabalho analtico revelam-se como constitudos de trs camadas. As trs camadas ou graus do cime podem ser descritas como cime (1) competitivo 
ou normal, (2) projetado, e (3) delirante.
        No h muito a dizer, do ponto de vista analtico, sobre o cime normal.  fcil perceber que essencialmente se compe de pesar, do sofrimento causado pelo 
pensamento de perder o objeto amado, e da ferida narcsica, na medida em que esta  distinguvel da outra ferida; ademais, tambm de sentimentos de inimizade contra 
o rival bem-sucedido, e de maior ou menor quantidade de autocrtica, que procura responsabilizar por sua perda o prprio ego do sujeito. Embora possamos cham-lo 
de normal, esse cime no , em absoluto, completamente racional, isto , derivado da situao real, proporcionado s circunstncias reais e sob o controle completo 
do ego consciente; isso por achar-se profundamente enraizado no inconsciente, ser uma continuao das primeiras manifestaes da vida emocional da criana e originar-se 
do complexo de dipo ou de irmo-e-irm do primeiro perodo sexual. Alm do mais,  digno de nota que, em certas pessoas, ele  experimentado bissexualmente, isto 
, um homem no apenas sofrer pela mulher que ama e odiar o homem seu rival, mas tambm sentir pesar pelo homem, a quem ama inconscientemente, e dio pela mulher, 
como sua rival; esse ltimo conjunto de sentimentos adicionar-se-  intensidade de seu cime. Eu mesmo conheo um homem que sofria excessivamente durante suas crises 
de cime e que, conforme seu prprio relato, sofria tormentos insuportveis imaginando-se conscientemente na posio da mulher infiel. A sensao de impotncia que 
ento o acometia e as imagens que utilizava para descrever sua condio - exposto ao bico do abutre, como Prometeu, ou arrojado em um ninho de cobras - foram por 
ele atribudas a impresses recebidas durante vrios atos homossexuais de agresso a que fora submetido quando menino.
        O cime da segunda camada, o cime projetado, deriva-se, tanto nos homens quanto nas mulheres, de sua prpria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos 
no sentido dela que sucumbiram  represso.  fato da experincia cotidiana que a fidelidade, especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimnio, s se mantm 
em face de tentaes contnuas. Qualquer pessoa que negue essas tentaes em si prpria sentir, no obstante, sua presso to fortemente que ficar contente em 
utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situao. Pode obter esse alvio - e, na verdade, a absolvio de sua conscincia - se projetar seus prprios 
impulsos  infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade. Esse forte motivo pode ento fazer uso do material perceptivo que revela os impulsos inconscientes 
do mesmo tipo no companheiro e o sujeito pode justificar-se com a reflexo de o outro provavelmente no ser bem melhor que ele prprio.As convenes sociais avisadamente 
tomaram em considerao esse estado universal de coisas, concedendo certa amplitude ao anseio de atrair da mulher casada e  sede de conquistas do homem casado, 
na esperana de que essa inevitvel tendncia  infidelidade encontrasse assim uma vlvula de segurana e se tornasse incua. A conveno estabeleceu que nenhum 
dos parceiros pode responsabilizar o outro por essas pequenas excurses na direo da infidelidade e elas geralmente resultam no desejo despertado pelo novo objeto 
encontrando satisfao em certo tipo de retorno  fidelidade ao objeto original. Uma pessoa ciumenta, contudo, no reconhece essa conveno da tolerncia; no acredita 
existirem coisas como interrupo ou retorno, uma vez o caminho tenha sido trilhado, nem cr que um flerte possa ser uma salvaguarda contra a infidelidade real. 
No tratamento de uma pessoa assim, ciumenta, temos de abster-nos de discutir com ela o material em que baseia suas suspeitas; pode-se apenas visar a lev-la a encarar 
o assunto sob uma luz diferente.
        O cime emergente de tal projeo possui efetivamente um carter quase delirante; , contudo, ameno ao trabalho analtico de exposio das fantasias inconscientes 
da prpria infidelidade do sujeito. A posio  pior com referncia ao cime pertencente  terceira camada, o tipo delirante verdadeiro. Este tambm tem sua origem 
em impulsos reprimidos no sentido da infidelidade, mas o objeto, nesses casos,  do mesmo sexo do sujeito. O cime delirante  o sobrante de um homossexualismo que 
cumpriu seu curso e corretamente toma sua posio entre as formas clssicas da parania. Como tentativa de defesa contra um forte impulso homossexual indevido, ele 
pode, no homem, ser descrito pela frmula: 'Eu no o amo;  ela que o ama!' Num caso delirante deve-se estar preparado para encontrar cimes pertinentes a todas 
as trs camadas, nunca apenas  terceira.

                                        B

        Parania - Os casos de parania, por razes bem conhecidas, no so geralmente sensveis  investigao analtica. Recentemente, porm, mediante um estudo 
intensivo de dois paranicos pude descobrir algo de novo para mim.
        O primeiro caso foi o de um homem ainda jovem com parania de cimes inteiramente desenvolvida, cujo objeto era sua esposa impecavelmente fiel. Um perodo 
tempestuoso em que o delrio o possura ininterruptamente, j ficara para trs. Quando o vi, achava-se sujeito apenas a crises nitidamente separadas que duravam 
por vrios dias e que, curiosamente, apareciam com regularidade no dia aps haver tido com a esposa relaes sexuais, incidentalmente satisfatrias para ambos. Justifica-se 
a inferncia de que aps cada saciao da libido heterossexual o componente homossexual, igualmente estimulado pelo ato, forava um escoadouro para si na crise de 
cimes.
        Essas crises hauriam seu material de sua observao de indicaes insignificantes, pela quais a coqueteria inteiramente inconsciente de sua esposa, inobservvel 
por mais ningum, se trara para ele. Ela tocara, sem intencionalidade, com a mo o homem sentado prximo a ela; voltara-se demais para ele ou sorrira de modo mais 
agradvel do que quando se achava s com o marido. Era extraordinariamente observador de todas essas manifestaes do inconsciente dela e sempre sabia como interpret-las 
corretamente, de modo que realmente estava com a razo a respeito e podia, alm disso, invocar a anlise para justificar seu cime. Sua anormalidade de fato se reduzia 
a isso, em vigiar bem mais de perto a mente inconsciente de sua esposa e, depois, encar-la como muito mais importante do que outra pessoa teria pensado fazer.
        Recordamo-nos de que os que sofrem de parania persecutria agem exatamente da mesma maneira. Eles, tambm, no podem encarar nada em outras pessoas como 
indiferente e tomam indicaes insignificantes que essas outras pessoas desconhecidas lhes apresentam e as utilizam em seus delrios de referncia. O significado 
de seu delrio de referncia  que esperam de todos os estranhos algo semelhante ao amor. No entanto essas pessoas no lhes demonstram nada desse tipo; riem consigo 
prprias, fazem floreios com as bengalas e at mesmo cospem no cho enquanto passam; e, na realidade, tais coisas no se fazem quando uma pessoa em que se tem um 
interesse amigvel se acha perto. A no ser quando nos sentimos inteiramente indiferentes ao passante, quando se pode trat-lo como se fosse ar e, considerando tambm 
o parentesco fundamental dos conceitos de 'estranho' e 'inimigo', o paranico no se acha to errado em considerar essa indiferena como dio, em contraste com sua 
reivindicao de amor.
        Comeamos a perceber que descrevemos o comportamento tanto dos paranicos ciumentos quanto dos persecutrios muito inadequadamente, ao dizer que projetam 
exteriormente para os outros o que no desejam reconhecer em si prprios. Certamente o fazem, mas no o projetam, por assim dizer, no vazio, onde j no existe algo 
dessa espcie. Deixam-se guiar por seu conhecimento do inconsciente e deslocam para as mentes inconscientes dos outros a ateno que afastaram da sua prpria. O 
nosso ciumento marido percebia as infidelidades da esposa, em vez das suas; tornando-se consciente das infidelidades dela e amplificando-as enormemente, conseguia 
manter as suas inconscientes. Se aceitamos seu exemplo como tpico, podemos inferir que a amizade vista nos outros pelo paranico perseguido  o reflexo de seus 
prprios impulsos hostis contra eles. Sabendo que, no paranico,  exatamente a pessoa mais amada de seu prprio sexo que se torna seu perseguidor, surge a questo 
de saber onde essa inverso de afeto se origina. No se precisa ir longe para buscar a resposta: a sempre presente ambivalncia de sentimento fornece-lhe a fonte 
e a no-realizao de sua reivindicao de amor a fortalece. Essa ambivalncia serve assim, para o paranico, ao mesmo objetivo que o cime servia ao meu paciente: 
o de uma defesa contra o homossexualismo.
        Os sonhos de meu paciente ciumento me apresentaram uma grande surpresa. No eram simultneos com os desencadeamentos das crises,  verdade, mas ocorriam 
dentro do perodo que se achava sob o domnio do delrio; contudo, estavam completamente livres destes e revelaram os impulsos homossexuais subjacentes com um grau 
de disfarce no maior que o habitual. De vez que eu tinha pouca experincia dos sonhos de paranicos, pareceu plausvel, na ocasio, supor, ser em geral verdadeiro 
que a parania no penetra nos sonhos.
        Essa posio homossexual do paciente foi facilmente reconhecida. No fizera amizade e no desenvolvera interesses sociais; tinha-se a impresso de que apenas 
o delrio fizera avanar o desenvolvimento de suas relaes com os homens, como se tivesse assumido algumas das obrigaes que haviam sido negligenciadas. O fato 
de seu pai no haver sido de grande importncia na famlia, combinado com um humilhante trauma homossexual no incio da mocidade, forara seu homossexualismo  represso 
e impedira-lhe o caminho  sublimao. Sua juventude toda fora governada por uma forte ligao  me. De todos os muitos filhos, fora o seu favorito declarado e 
desenvolvera acentuado cime, do tipo normal, em relao a ela. Quando posteriormente escolheu uma esposa - incitado principalmente pelo impulso de enriquecer a 
me - seu anseio por uma me virgem expressou-se em dvidas obsessivas sobre a virgindade da noiva. Os primeiros anos do casamento foram livres de cimes. Depois, 
tornou-se infiel  mulher e ingressou em uma relao ntima com outra mulher, que perdurou por muito tempo. Assustado por esta suspeita, finalmente encerrou esse 
caso amoroso e somente a irrompeu o segundo tipo, o cime projetado, pelo qual pde acalmar suas autocensuras sobre suas prprias infidelidades. O cime cedo se 
complicou por um acrscimo de impulsos homossexuais, dos quais seu sogro era o objeto, transformando-se numa parania de cimes inteiramente formada.
        Meu segundo caso, no fosse a anlise, provavelmente no teria sido classificado como parania persecutria, mas tive de classificar o jovem como candidato 
a uma molstia final desse tipo. Em sua atitude para com o pai existia uma ambivalncia que, na sua amplitude, era inteiramente extraordinria. Por um lado, era 
o mais pronunciado rebelde imaginvel e desenvolvera-se manifestamente, em todos os sentidos, em oposio aos desejos e ideais do pai; por outro, em nvel mais profundo, 
era ainda o mais submisso dos filhos, que, aps a morte do pai, negou a si mesmo todo o gozo das mulheres devido a um terno sentimento de culpa. Suas relaes reais 
com os homens eram claramente dominadas pela suspeita; seu arguto intelecto racionalizava facilmente essa atitude e sabia como conseguir que tanto amigos quanto 
conhecidos o enganassem e explorassem. A novidade que aprendi de seu estudo foi a possibilidade de idias persecutrias clssicas estarem presentes sem lograr alguma 
crena ou aceitao. Ocorriam sbita e ocasionalmente durante a anlise; ele, porm, as via sem importncia e invariavelmente escarnecia delas. Isso pode acontecer 
em muitos casos de parania; talvez os delrios que observamos como formaes novas ao desencadear-se a doena, h muito tempo j existissem.
        Parece-me que aqui temos uma descoberta importante, ou seja, que o fator qualitativo, a presena de certas formaes neurticas, possui menos significao 
prtica que o fator quantitativo, o grau de ateno ou, mais corretamente, a catexia que essas estruturas podem atrair para si prprias. Nossa considerao do primeiro 
caso, a parania de cimes, conduziu a uma semelhante estimativa da importncia do fator quantitativo ao demonstrar que nela tambm a anormalidade consistia essencialmente 
na hipercatexia das interpretaes do inconsciente de outra pessoa. H muito tempo sabemos de um fato anlogo na anlise da histeria. As fantasias patognicas, derivativos 
de impulsos instintuais reprimidos, so por longo tempo toleradas juntamente com a vida normal da mente e no tm efeito patognico at que, por uma revoluo na 
economia libidinal, recebem uma hipercatexia; somente ento irrompe o conflito que acarreta a formao dos sintomas. Assim,  medida que nosso conhecimento cresce, 
somos cada vez mais impelidos a trazer o ponto de vista econmico para o primeiro plano. Gostaria tambm de lanar a questo de saber se esse fator quantitativo, 
no qual agora me detenho, no basta para abranger os fenmenos que Bleuler [1916] e outros propuseram ultimamente denominar de 'comutao'. Precisa-se apenas presumir 
que um aumento na resistncia no curso tomado pela corrente psquica em determinada direo resulta na hipercatexia de outra via e, assim, leva o fluxo a ser desviado 
para esse caminho.Meus dois casos de parania apresentaram um instrutivo contraste no comportamento de seus sonhos. Ao passo que os do primeiro caso se achavam livres 
de delrio, como j foi dito, o outro paciente produzia grande nmero de sonhos persecutrios que podemos considerar como precursores os substitutos das idias delirantes. 
O perseguidor, de quem s conseguia escapar com grande medo, era geralmente um poderoso touro ou algum outro smbolo masculino que, no prprio sonho, ele s vezes 
identificava como representando o pai. Certo dia, produziu um sonho paranico de transferncia muito caracterstico. Viu-me fazendo a barba na frente dele e, do 
perfume, compreendeu que estava usando o mesmo sabo que o pai usava. Eu fazia isso a fim de obrig-lo a efetuar uma transferncia paterna para mim. A escolha desse 
incidente para o sonho revela de modo inteiramente inequvoco a atitude depreciativa do paciente para com suas fantasias paranicas e sua descrena nelas, porque 
seus prprios olhos podiam dizer-lhe diariamente que nunca me achei em posio de usar sabo de barba e que, portanto, nesse respeito nada havia a que uma transferncia 
paterna pudesse ligar-se. Uma comparao dos sonhos dos dois pacientes mostra, contudo, que a questo de saber se a parania (ou qualquer outra psiconeurose) pode 
ou no penetrar nos sonhos, baseia-se numa concepo falsa dos sonhos. Os sonhos distinguem-se do pensamento de viglia pela sua possibilidade de incluir material 
(pertencente  regio do reprimido) que no deve aflorar no pensamento desperto. Afora isso, os sonhos so meramente uma forma de pensar, uma transformao do material 
pr-consciente do pensamento pela elaborao onrica e suas condies. Nossa terminologia das neuroses no  aplicvel ao material reprimido, que no pode ser chamado 
de histrico, obsessivo ou paranico. Opondo-se a isso, a outra parte do material sujeita ao processo de formao onrica - os pensamentos pr-conscientes - pode 
ser normal ou apresentar o carter de qualquer neurose; eles podem ser os produtos de qualquer dos processos patognicos em que reside a essncia de uma neurose. 
No parece haver razo para que qualquer idia patolgica do gnero no deva ser transformada em um sonho. Um sonho pode, assim, simplesmente representar uma fantasia 
histrica, uma idia obsessiva ou um delrio, isto , pode revelar um ou outro desses fatos aps a interpretao. A observao dos dois paranicos demonstra que 
os sonhos de um deles eram inteiramente normais enquanto sujeito a seu delrio, e que os do outro eram paranicos em contedo enquanto tratava suas idias delirantes 
com desprezo. Logo, em ambos os casos, o sonho aproveitava o material que, na ocasio, se achava forado para o segundo plano na vida desperta. Entretanto, isso 
tambm no precisa necessariamente constituir uma regra invarivel.

                                        C

        Homossexualismo. - O reconhecimento do fator orgnico no homossexualismo no nos isenta da obrigao de estudar os processos psquicos vinculados  sua origem. 
O processo tpico, j estabelecido em casos inumerveis,  de um jovem, alguns anos aps a puberdade, e que at ento fora intensamente fixado na me, mudar de atitude; 
identifica-se com ela e procura objetos amorosos em quem possa redescobrir-se e a quem possa ento amar como a me o amara. A marca caracterstica desse processo 
 que, por vrios anos, uma das condies necessrias para o seu amor consiste em o objeto masculino ter, em geral, a mesma idade que ele prprio tinha quando se 
deu a mudana. Vimos a conhecer diversos fatores que contribuem para esse resultado, provavelmente em graus diferentes. Primeiro h a fixao na me, que fica difcil 
de passar para outra mulher. A identificao com a me  um resultado dessa ligao e ao mesmo temppo, em certo sentido, permite que o filho lhe permanea fiel, 
a ela que foi seu primeiro objeto. H em seguida inclinao no sentido de uma escolha de objeto narcsico, que em geral se encontra mais  mo e  mais fcil de 
efetuar que um movimento no sentido do outro sexo. Por trs desse ltimo fator jaz oculto um outro, de fora bastante excepcional, ou talvez coincida com ele: o 
alto valor atribudo ao rgo masculino e a incapacidade de tolerar sua ausncia num objeto amoroso. A depreciao das mulheres, a averso e at mesmo o horror a 
elas derivam-se geralmente da precoce descoberta de que as mulheres no possuem pnis. Subseqentemente descobrimos, como outro poderoso motivo a compelir no sentido 
da escolha homossexual de objeto, a considerao pelo pai ou o medo dele, porque a renncia s mulheres significa que toda a rivalidade com aquele (ou com todos 
os homens que podem tomar seu lugar)  evitada. Os dois ltimos motivos - o apego  condio de existncia de um pnis no objeto, bem como o afastamento em favor 
do pai - podem ser atribudos ao complexo de castrao. A ligao  me, o narcisismo, o medo da castrao so os fatores (que, incidentalmente, nada tm em si de 
especial) que at o presente encontramos na etiologia psquica do homossexualismo; com eles  preciso computar o efeito da seduo responsvel por uma fixao prematura 
da libido, bem como a influncia do fator orgnico que favorece o papel passivo no amor.
        Nunca consideramos, entretanto, esta anlise da origem do homossexualismo como completa. Posso agora indicar um novo mecanismo que conduz  escolha homossexual 
do objeto, embora no possa dizer quo grande  o papel que ele desempenha na formao do tipo de homossexualismo extremo, manifesto e exclusivo. A observao dirigiu 
minha ateno para diversos casos em que, durante a primeira infncia, impulsos de cimes, derivados do complexo materno e de grande intensidade, surgiram [num menino] 
contra os rivais, geralmente irmos mais velhos. Esse cime provocou uma atitude excessivamente hostil e agressiva para com esses irmos, que poderia s vezes atingir 
a intensidade de desejos reais de morte, incapazes ento de manter-se face ao desenvolvimento ulterior do sujeito. Sob as influncias da criao - e certamente sem 
deixar de ser influenciados tambm por sua prpria e continuada impotncia - esses impulsos renderam-se  represso e experimentaram uma transformao, de maneira 
que os rivais do perodo anterior se tornaram os primeiros objetos amorosos homossexuais. Tal resultado da ligao  me mostra-nos diversas relaes e interessantes 
com outros processos que nos so conhecidos. Antes de tudo, ele  um contraste completo com o desenvolvimento da parania persecutria, na qual a pessoa anteriormente 
amada se torna o perseguidor odiado, ao passo que aqui os rivais odiados se transformam em objetos amorosos. Representa tambm uma exagerao do processo que, na 
minha opinio, conduz ao nascimento dos instintos sociais no indivduo. Em ambos os processos h primeiro a presena de impulsos ciumentos e hostis que no podem 
conseguir satisfao, e tanto os sentimentos afetuosos quanto os sentimentos sociais de identificao surgem como formaes reativas contra os impulsos agressivos 
reprimidos.
        Esse novo mecanismo de escolha homossexual de objeto - sua origem na rivalidade que foi sobrepujada e em impulsos agressivos que se tornaram reprimidos - 
combina-se s vezes com as condies tpicas j familiares para ns. Na histria dos homossexuais ouve-se amide que neles a mudana se efetuou aps a me ter elogiado 
outro rapaz e t-lo estabelecido como modelo. A tendncia  escolha narcsica de objeto foi assim estimulada e, aps uma breve fase de agudos cimes, o rival se 
torna um objeto amoroso. Via de regra, contudo, o novo mecanismo se distingue pelo fato de a mudana efetuar-se em um perodo muito mais precoce e a identificao 
com a me retroceder para o segundo plano. Ademais, nos casos que observei, ele apenas levou a atitudes homossexuais que no excluem a heterossexualidade e no envolvem 
um horror feminae.
         bem conhecido que um bom nmero de homossexuais se caracteriza por um desenvolvimento especial de seus impulsos instintuais sociais e por sua devoo aos 
interesses da comunidade. Seria tentador, como explicao terica pertinente, dizer que o comportamento para com os homens em geral, de um homem que v nos outros 
homens objetos amorosos potenciais, deve ser diferente do de um homem que encara os outros, em primeira instncia, como rivais em relao s mulheres. A nica objeo 
a isso  que o cime e a rivalidade desempenham seu papel tambm no amor homossexual e que a comunidade dos homens tambm inclui esses rivais potenciais.  parte 
esta explicao especulativa, contudo, o fato de a escolha homossexual de objeto no sem freqncia provir de um anterior sobrepujamento da rivalidade com os homens 
no pode passar sem relao com a vinculao entre o homossexualismo e o sentimento social.
         luz da psicanlise, estamos acostumados a considerar o sentimento social como uma sublimao de atitudes homossexuais para com objetos. Nos homossexuais 
com acentuados interesses sociais pareceria que o desligamento do sentimento social da escolha de objeto no foi inteiramente efetuado.
        
        






















DOIS VERBETES DE ENCICLOPDIA (1923 [1922])


         NOTA DO EDITOR INGLS - PSYCHOANALYSE UND LIBIDOTHEORIE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1923 Em Handwrterbuch der Sexualwissenschaft, org. por M. Marcuse, Bonn. Pgs. 296-8 e 377-83.
         1928 G.S., 11, 201-23.
         1940 G.W., 13, 211-33.
         
         (b) TRADUO INGLESA: 
         'Two Encyclopaedia Articles'
         1942 Int. J. Psycho-Anal., 23, 97-107. (Trad. de James Strachey.)
         1950 C.P., 5, 107-35. (Mesmo tradutor.)

        A presente traduo inglesa  a de 1950, ligeiramente modificada.

        De acordo com uma nota que pode ser encontrada nos Gesammelte Schriften, 11, 201, estes verbetes foram escritos durante o vero de 1922, isto , antes do 
remoldamento final de Freud de suas opinies sobre a estrutura da mente em O Ego e o Id (1923b). Mas as novas opinies, embora no expressas nestes verbetes, j 
deviam estar claramente presentes em seus pensamentos enquanto os escrevia, porque foi em setembro de 1922, no Congresso Psicanaltico Internacional de Berlim, que 
realmente se mencionou em um dos verbetes (ver em [1]) que ele pela primeira vez tornou pblica as concepes de ego, superego e id, que acabara de definir. Um verbete 
didtico, um tanto semelhantemente concebido, escrito no muito tempo depois para uma publicao americana (1924f), toma essas novas idias em considerao.


        
        
        DOIS VERBETES DE ENCICLOPDIA


         (A) PSICANLISE

        PSICANLISE  o nome de (1) um procedimento para a investigao de processos mentais que so quase inacessveis por qualquer outro modo, (2) um mtodo (baseado 
nessa investigao) para o tratamento de distrbios neurticos e (3) uma coleo de informaes psicolgicas obtidas ao longo dessas linhas, e que gradualmente se 
acumula numa nova disciplina cientfica.
        Histria - A melhor maneira de compreender a psicanlise ainda  traar sua origem e evoluo. Em 1880 e 1881, o Dr. Josef Breuer, de Viena, mdico e fisiologista 
experimental bem conhecido, ocupava-se do tratamento de uma jovem que cara enferma de grave histeria enquanto se achava cuidando do pai doente. O quadro clnico 
era constitudo de paralisias motoras, inibies e distrbios de conscincia. Seguindo uma sugesto que lhe fora dada pela prpria paciente, pessoa de grande inteligncia, 
ele colocou-a em estado de hipnose e conseguiu que, descrevendo-lhe os estados de nimo e os pensamentos que eram dominantes em sua mente, retornasse, em cada ocasio 
especfica, a uma condio mental normal. Repetindo sistematicamente o mesmo laborioso processo, conseguiu libert-la de todas as suas inibies e paralisias, de 
maneira que, ao final, achou o seu trabalho recompensado por um grande sucesso teraputico, bem como por uma inesperada compreenso da natureza da enigmtica neurose. 
No obstante, Breuer absteve-se de acompanhar sua descoberta ou de publicar algo sobre o caso at cerca de 10 anos depois, quando a influncia pessoal do presente 
autor (Freud, que retornara a Viena em 1886, aps estudar na escola de Charcot) o persuadiu a retomar o assunto e empenhar-se num estudo conjunto dele. Os dois, 
Breuer e Freud, publicaram um artigo preliminar em 1893, 'Sobre o Mecanismo Psquico dos Fenmenos Histricos', e, em 1895, um volume intitulado Estudos sobre a 
Histeria (que chegou  sua quarta edio em 1922), no qual descreviam seu procedimento teraputico como 'catrtico'.
        Catarse. - As investigaes existentes na raiz dos estudos de Breuer e Freud conduziram a dois resultados principais, que no foram abalados pela experincia 
subseqente: primeiro, que os sintomas histricos tm sentido e significado, sendo substitutos de atos mentais normais, e, segundo, que a descoberta desse significado 
desconhecido  acompanhada pela remoo dos sintomas, de modo que, nesse caso, a pesquisa cientfica e o esforo teraputico coincidem. As observaes foram efetuadas 
sobre uma srie de pacientes tratados da mesma maneira que a primeira paciente de Breuer, ou seja, colocados em estados de hipnose profunda; os resultados pareceram 
brilhantes at que, posteriormente, seu lado fraco tornou-se evidente. As idias tericas apresentadas na ocasio por Breuer e Freud foram influenciadas pelas teorias 
de Charcot sobre a histeria traumtica e puderam apoiar-se nas descobertas de seu aluno Pierre Janet, as quais, embora tenham sido publicadas antes dos 'Estudos', 
foram na realidade subseqentes ao primeiro caso de Breuer. Desde o incio, o fator do afeto foi trazido para o primeiro plano: os sintomas histricos, sustentavam 
os autores, surgiam quando um processo mental com pesada carga emocional era de alguma maneira impedido de nivelar-se ao longo do caminho normal que conduz  conscincia 
e ao movimento (isto , era impedido de ser 'ab-reagido'); em resultado disso, o afeto, em certo sentido 'estrangulado', era desviado ao longo de caminhos errados 
e transbordava para a inervao somtica (processo denominado de 'converso'). As ocasies em que surgem 'idias patognicas' desse tipo foram descritas por Breuer 
e Freud como 'traumas psquicos' e, visto que estes amide remontavam ao passado muito remoto, foi possvel aos autores dizer que os histricos sofriam principalmente 
de reminiscncias (que no haviam sido tratadas). Sob o tratamento, portanto, a 'catarse' surgia quando o caminho  conscincia se abria e havia uma descarga normal 
do afeto. Ver-se- que uma parte essencial dessa teoria era a pressuposio da existncia de processos mentais inconscientes. Tambm Janet fez uso dos atos inconscientes 
na vida mental, porm, como insistiu em sua polmica posterior contra a psicanlise, para ele a expresso no era mais que uma expresso improvisada, uma 'manire 
de parler', e no pretendia sugerir mediante ela nenhum novo ponto de vista.
        Numa seo terica dos Estudos, Breuer apresentou algumas idias especulativas sobre os processos de excitao da mente. Essas idias determinaram a direo 
das futuras linhas de pensamentos e ainda hoje no receberam apreciao suficiente, mas puseram fim s suas contribuies a esse ramo da cincia e logo depois ele 
afastou-se do trabalho comum.
        A Transio para a Psicanlise. - Contrastes entre as conceituaes dos dois autores eram visveis mesmo nos Estudos. Breuer supunha que as idias patognicas 
produziam seu efeito traumtico porque surgiam durante 'estados hipnides', nos quais o funcionamento mental estava sujeito a limitaes especiais. O presente autor 
rejeitou a explicao e inclinou-se para a crena de que uma idia se tornava patognica se seu contedo estava em oposio com a tendncia predominante da vida 
mental do sujeito, de maneira a incit-lo a entrar em 'defesa'. (Janet atribua aos pacientes histricos uma incapacidade constitucional para manter unido o contedo 
de suas mentes e foi neste ponto que seu caminho divergiu do de Breuer e Freud.) Alm disso, as duas inovaes que levaram o presente autor a afastar-se do mtodo 
catrtico j haviam sido mencionadas nos Estudos. Aps o afastamento de Breuer, elas se tornaram o ponto de partida de novos desenvolvimentos.
        O Abandono da Hipnose. - A primeira dessas inovaes baseou-se na experincia prtica e levou a uma mudana de tcnica. A segunda consistiu num avano na 
compreenso clnica das neuroses. Logo mostrou-se que as esperanas teraputicas, antes depositadas no tratamento catrtico da hipnose, achavam-se at certo ponto 
irrealizadas. Era verdade que o desaparecimento dos sintomas ia de mos dadas com a catarse, mas o sucesso total revelara ser inteiramente dependente da relao 
do paciente com o mdico e, assim, assemelhava-se ao efeito da 'sugesto'. Se essa relao era perturbada, todos os sintomas reapareciam, como se nunca houvessem 
sido dissipados. Alm disso, o pequeno nmero de pessoas que podia ser colocado em profundo estado de hipnose envolvia uma limitao considervel, do ponto de vista 
mdico, da aplicabilidade do procedimento catrtico. Por essas razes, o presente autor decidiu abandonar o emprego da hipnose, mas, ao mesmo tempo, as impresses 
que dela derivara forneceram-lhe os meios de substitu-la.
        A Associao Livre. - O efeito da condio hipntica sobre o paciente fora aumentar to grandemente sua capacidade de efetuar associaes que ele podia encontrar 
diretamente o caminho - inacessvel  sua reflexo consciente - que conduzia do sintoma aos pensamentos e lembranas a ele vinculados. O abandono da hipnose parecia 
tornar desesperadora a situao, at que o autor se recordou de uma observao de Bernheim segundo a qual as coisas experimentadas em estado de sonambulismo eram 
apenas aparentemente esquecidas e podiam ser trazidas  lembrana em qualquer poca, se o mdico insistisse energicamente em que o paciente as conhecia. O autor, 
assim, esforou-se por insistir junto a seus pacientes no hipnotizados que lhe fornecessem suas associaes, a fim de que, do material assim fornecido, pudesse 
achar o caminho que levava ao antes esquecido ou desviado. Observou posteriormente que a insistncia era desnecessria e que idias copiosas quase sempre surgiam 
na mente do paciente, mas eram retidas de serem comunicadas e, at mesmo, de se tornarem conscientes devido a certas objees colocadas pelo paciente,  sua prpria 
maneira. Era de se esperar - embora isso ainda no estivesse provado e somente depois fosse confirmado por vasta experincia - que tudo o que acontecesse a um paciente, 
estendendo-se de um ponto de partida especfico, deveria tambm estar em conexo interna com esse ponto de partida; da surgiu a tcnica de ensinar o paciente a 
abandonar toda a sua atitude crtica e fazer uso do material que era ento trazido  luz para o fim de revelar as conexes que estavam sendo buscadas. Uma forte 
crena na determinao escrita dos fatos mentais certamente desempenhou um papel na escolha dessa tcnica como um sucedneo da hipnose.
        A 'Regra Tcnica Fundamental' desse procedimento de 'associao livre' foi desde ento mantida no trabalho psicanaltico. O tratamento  iniciado pedindo-se 
ao paciente que se coloque na posio de um auto-observador atento e desapaixonado, simplesmente comunicando o tempo inteiro a superfcie de sua conscincia e, por 
um lado, tornando um dever a mais completa honestidade, enquanto que, por outro lado, no retendo da comunicao nenhuma idia, mesmo que (1) sinta ser ela muito 
desagradvel, (2) julgue-a absurda ou (3) sem importncia demais ou (4) irrelevante para o que est sendo buscado. Descobre-se uniformemente que justamente as idias 
que provocam as reaes por ltimo mencionadas so as que tm valor especfico para a descoberta do material esquecido.
        A Psicanlise como Arte Interpretativa. - A nova tcnica modificou to grandemente o quadro do tratamento, situou o mdico em uma relao to nova com o 
paciente e produziu resultados to surpreendentes que pareceu justificado diferenciar do mtodo catrtico o procedimento, atribuindo-lhe nova denominao. O presente 
autor deu a esse mtodo de tratamento, que podia agora ser estendido a muitas outras formas de distrbio neurtico, o nome de psicanlise. Ora, em primeira instncia, 
essa psicanlise era uma arte de interpretao e estabeleceu a si prpria a tarefa de levar mais a fundo a primeira das grandes descobertas de Breuer, ou seja, que 
os sintomas neurticos so substitutos significantes de outros atos mentais que foram omitidos. Tratava-se agora da questo de encarar o material produzido pelas 
associaes do paciente como se insinuasse um significado oculto, e de descobrir, a partir dele, esse significado. A experincia logo mostrou que a atitude que o 
mdico analtico podia mais vantajosamente adotar, era entregar-se  sua prpria atividade mental inconsciente, num estado de ateno imparcialmente suspensa, a 
fim de evitar, tanto quando possvel, a reflexo e a construo de expectativas conscientes, no tentar fixar particularmente coisa alguma que ouvisse na memria 
e, por esses meios, apreender o curso do inconsciente do paciente com o seu prprio inconsciente. Descobriu-se ento que, salvo em condies por demais desfavorveis, 
as associaes do paciente surgiam como aluses, por assim dizer, a um tema especfico, e que ao mdico s era necessrio adiantar um passo a fim de adivinhar o 
material que estava oculto ao prprio paciente, e poder comunic-lo a este.  verdade que esse trabalho de interpretao no podia ser submetido a regras estritas 
e deixava uma grande margem de manobra ao tato e  percia do mdico; no entanto, com imparcialidade e prtica era geralmente possvel obter resultados dignos de 
confiana, isto , resultados que eram confirmados por se repetirem em casos semelhantes. Num tempo em que ainda se conhecia to pouco do inconsciente, da estrutura 
das neuroses e dos processos patolgicos a elas subjacentes, era motivo de satisfao dispor-se de uma tcnica dessa espcie, mesmo que no possusse uma base terica 
melhor. Ademais, ainda hoje ela  empregada da mesma maneira nas anlises, embora com um senso de maior segurana e com melhor compreenso de suas limitaes.
        A Interpretao das Parapraxias e dos Atos Fortuitos. - Constituiu um triunfo para a arte interpretativa da psicanlise conseguir demonstrar que certos atos 
mentais comuns de pessoas normais, para os quais ningum havia at ento buscado apresentar explicao psicolgica, deveriam ser considerados sob o mesmo ngulo 
que os sintomas dos neurticos, isto , que tinham um significado, desconhecido do sujeito, mas capaz de ser facilmente descoberto pelos meios analticos. Os fenmenos 
em causa eram eventos como o esquecimento temporrio de palavras e nomes familiares e de efetuar tarefas prescritas, lapsos cotidianos de lngua e de escrita, leituras 
erradas, perdas e colocaes erradas de objetos, certos erros, exemplos de danos a si prprio aparentemente acidentais e, finalmente, movimentos habituais efetuados 
aparentemente sem inteno ou brincando, melodias murmuradas 'sem pensar' etc. Todos foram despidos de sua explicao fisiolgica, se  que alguma fora um dia tentada, 
demonstrados como estritamente determinados e revelados como expresso de intenes suprimidas do sujeito ou como o resultado de um embate entre duas intenes, 
uma das quais era permanente ou temporariamente inconsciente. A importncia dessa contribuio para a psicologia foi de muitos tipos. O mbito de determinismo mental 
foi por ela ampliado de maneira imprevista; o suposto abismo existente entre os fatos mentais normais e patolgicos se estreitou, em muitos casos logrou-se uma compreenso 
til ao jogo das foras mentais que se deve suspeitar existir por trs dos fenmenos. Finalmente, foi trazida  luz uma classe de material que se adapta melhor que 
qualquer outra para estimular a crena na existncia de atos mentais inconscientes mesmo em pessoas a quem a hiptese de algo ao mesmo tempo mental e inconsciente 
parece estranha, e at absurda. O estudo de nossas prprias parapraxias e atos fortuitos, para o qual a maioria das pessoas possui amplas oportunidades,  ainda 
hoje a melhor preparao para uma abordagem da psicanlise. No tratamento analtico, a interpretao das parapraxias retm seu lugar como meio de descoberta do inconsciente, 
juntamente com a interpretao das associaes, imensuravelmente mais importante.
        A Interpretao de Sonhos. - Uma nova abordagem s profundezas da vida mental inaugurou-se quando a tcnica da associao livre foi aplicada aos sonhos, 
fossem os nossos prprios ou os dos pacientes em anlise. Na realidade, a maior e melhor parte do que sabemos dos processos nos nveis inconscientes da mente deriva-se 
da interpretao dos sonhos. A psicanlise restaurou aos sonhos a importncia que lhes era geralmente atribuda nos tempos passados, mas os trata de modo diferente. 
No se apia na percia do intrprete onrico, mas, na maior parte, entrega a tarefa quele mesmo que sonhou, pedindo-lhe suas associaes aos elementos independentes 
do sonho. Levando essas associaes mais alm, logramos conhecimento de pensamentos que coincidem inteiramente com o sonho, mas que podem ser identificados - at 
certo ponto - como partes genunas e completamente inteligveis da atividade mental desperta. Assim, o sonho relembrado surge como o contedo onrico manifesto, 
em contraste com os pensamentos onricos latentes, descobertos pela interpretao. O processo que transformou os ltimos no primeiro, isto , no 'sonho', e que  
desfeito pelo trabalho da interpretao, pode ser chamado de 'elaborao onrica'
        Tambm descrevemos os pensamentos onricos latentes, devido  sua vinculao com a vida de viglia, como 'resduos do dia [anterior]'. Pela operao da elaborao 
onrica ( qual seria inteiramente incorreto atribuir qualquer carter 'criativo'), os pensamentos onricos latentes se condensam de uma maneira notvel, deformam-se 
pelo deslocamento das intensidades psquicas e dispem-se com vistas a serem representados em quadros visuais. Alm de tudo isso, antes que se chegue ao sonho manifesto, 
so submetidos a um processo de reviso secundria, que procura dar ao novo produto algo da natureza de um sentido e uma coerncia. Estritamente falando, esse ltimo 
processo no faz parte da elaborao onrica.A Teoria Dinmica da Formao Onrica. - A compreenso da dinmica da formao onrica no envolve dificuldades muito 
grandes. A fora motivadora para a formao dos sonhos no  fornecida pelos pensamentos onricos latentes ou resduos diurnos, mas por um impulso inconsciente, 
reprimido durante o dia, com o qual os resduos diurnos puderam estabelecer contato e que imagina efetuar uma realizao de desejo para si prprio a partir do material 
dos pensamentos latentes. Assim, todo sonho , por um lado, a realizao de um desejo por parte do inconsciente e, por outro (na medida em que consegue resguardar 
o estado de sono contra os distrbios), a realizao do desejo normal de dormir que d comeo ao sono. Se desperzarmos a contribuio inconsciente para a formao 
do sonho e limitarmos este a seus pensamentos latentes, ele pode representar qualquer coisa em que a vida de viglia tenha estado interessada: uma reflexo, uma 
advertncia, uma inteno, uma preparao para o futuro imediato ou, mais uma vez, a satisfao de um desejo no realizado. A irreconhecibilidade, a estranheza e 
o absurdo do sonho manifesto so em parte o resultado da traduo dos pensamentos em um mtodo de expresso diferente, arcaico, por assim dizer, mas em parte tambm 
o efeito de um agente restrito, criticamente desaprovador, existente na mente, que no deixa inteiramente de funcionar durante o sono.  plausvel supor que a 'censura 
onrica', que encaramos como responsvel, em primeira instncia, pela deformao dos pensamentos onricos no sonho manifesto, seja expresso das mesmas foras mentais 
que, durante o dia, retiveram ou reprimiram o desejo inconsciente pleno de desejo.
        Valeu a pena entrar em alguns pormenores sobre a explicao dos sonhos, de vez que o trabalho analtico demonstrou ser a dinmica da formao dos sonhos 
a mesma da formao dos sintomas. Em ambos os casos encontramos uma luta entre duas tendncias, das quais uma  inconsciente, normalmente reprimida, e se esfora 
por obter satisfao, isto , a realizao do desejo, enquanto que a outra, pertencente provavelmente ao ego consciente,  desaprovadora e repressiva. O resultado 
desse conflito  uma formao conciliatria (o sonho ou o sintoma) na qual ambas as tendncias encontram expresso incompleta. A importncia terica dessa conformidade 
entre os sonhos e os sintomas  esclarecedora. Porquanto os sonhos no so fenmenos patolgicos, o fato demonstra que os mecanismos mentais que produzem os sintomas 
de doena esto igualmente presentes na vida mental normal, que a mesma lei uniforme abrange tanto o normal quanto o anormal e que as descobertas da pesquisa em 
neurticos e psicticos no podem deixar de ter significao para a nossa compreenso da mente saudvel.
        Simbolismo. - No curso da investigao da forma de expresso ocasionada pela elaborao onrica, surgiu o fato surpreendente de que certos objetos, combinaes 
e relaes so representados, em certo sentido, indiretamente, atravs de 'smbolos', utilizados por aquele que sonha, sem entend-los, e para os quais, via de regra, 
no oferece associaes. Sua traduo tem de ser forncida pelo analista, que, por si prprio, s pode descobri-la empiricamente, ajustando-a experimentalmente ao 
contexto. Descobriu-se posteriormente que o hbito lingstico, a mitologia e o folclore apresentam as mais amplas analogias com os smbolos onricos. Os smbolos, 
que levantam os problemas mais interessantes, at agora insolucionados, parecem ser um fragmento de uma aparelhagem mental herdada e extremamente antiga. O emprego 
de um simbolismo comum estende-se muito alm do uso de uma linguagem comum.
        A Significao Etiolgica da Vida Sexual. - A segunda novidade que surgiu aps a tcnica hipntica ter sido substituda pela associao livre, foi de natureza 
clnica, havendo sido descoberta no decurso da prolongada busca das experincias traumticas de que os sintomas histricos pareciam derivar-se. Quanto mais cuidadosamente 
a procura era feita, mais extensa parecia ser a rede de impresses etiologicamente signficantes, mas retrocedendo, do mesmo modo, iam elas pela puberdade ou infncia 
do paciente. Ao mesmo tempo, assumiam um carter uniforme e, finalmente, tornou-se inevitvel curvar-se perante a evidncia e reconhecer que na raiz da formao 
de todo sintoma deveriam encontrar-se experincias traumticas do incio da vida sexual. Assim, um trauma sexual entrou no lugar de um trauma comum e viu-se que 
o ltimo devia sua significao etiolgica a uma conexo associativa ou simblica com o primeiro, que o precedera. Uma investigao de casos de nervosismo comum 
(incidindo nas duas classes da neurastenia e da neurose de angstia) empreendida simultaneamente levou  concluso de que esses distrbios podiam ser remontados 
a abusos contemporneos na vida sexual dos pacientes e removidos se estes fossem levados a um fim. Assim, foi fcil inferir que as neuroses em geral so expresso 
de distrbios na vida sexual, em que as chamadas neuroses atuais so conseqncia (por interferncia qumica) de danos contemporneos e as psiconeuroses, conseqncia 
(por modificao psquica) de danos passados causados a uma funo biolgica que at ento fora gravemente negligenciada pela cincia. Nenhuma das teses da psicanlise 
defrontou-se com to tenaz ceticismo ou to acerba resistncia quanto essa assertida da significao preponderantemente etiolgica da vida sexual nas neuroses. Deve-se 
expressamente observar, contudo, que, em sua evoluo at os dias de hoje a psicanlise no encontrou razes para retratar-se dessa opinio.
        A Sexualidade Infantil. - Em resultado de suas pesquisas etiolgicas, a psicanlise ficou em posio de tratar de um assunto cuja prpria existncia mal 
havia sido suspeitada anteriormente. A cincia acostumara-se a considerar a vida sexual como iniciando-se na puberdade e encarava as maniestaes de sexualidade 
em crianas como sinais raros de precocidade anormal e degenerao. Porm, agora, a psicanlise revelara uma opulncia de fenmenos (notveis, no entanto, de ocorrncia 
regular) que tornaram necessrio remontar o incio da funo sexual nas crianas quase ao comeo da existncia extra-uterina; e perguntou-se, com espanto, como tudo 
isso podia ter sido desprezado. Os primeiros vislumbres da sexualidade nas crianas haviam, na verdade, sido obtidos atravs do exame analtico de adultos e estavam 
conseqentemente carregados de todas as dvidas e fontes de erro que podiam ser atribudas a uma retrospeco to atrasada; subseqentemente (de 1908 em diante), 
contudo, iniciou-se com a anlise das prprias crianas e com a observao desimpedida de seu comportamento; dessa maneira, conseguiu-se confirmao direta para 
toda a base concreta da nova viso.
        A sexualidade nas crianas, em muitos respeitos, apresentou um quadro diferente da dos adultos e, de modo bastante surpreendente, exibiu numerosos traos 
daquilo que, nos adultos, era condenado como 'perverses'. Tornou-se necessrio ampliar o conceito do que era sexual, at que abrangesse mais que o impulso no sentido 
da unio dos dois sexos no ato sexual ou da provocao de sensaes agradveis especficas nos rgos genitais. Essa ampliao foi, porm, recompensada pela nova 
possibilidade de apreender a vida sexual infantil, normal e perversa, como um todo nico.
        As pesquisas analticas efetuadas pelo autor, para comear, incidiram no erro de superestimar grandemente a importncia da seduo como fonte de manifestaes 
sexuais nas crianas e raiz para a formao de sintomas neurticos. Essa m compreenso foi corrigida quando se tornou possvel apreciar o papel extraordinariamente 
grande desempenhado na vida mental dos neurticos pelas atividades da fantasia, que claramente pesava mais sobre as neuroses que a realidade externa. Por trs dessas 
fantasias desvelou-se o material que nos permite traar o quadro, a seguir, do desenvolvimento da funo sexual.
        O Desenvolvimento da Libido. - O instinto sexual, a manifestao dinmica do que, na vida mental, chamamos de 'libido',  constitudo de instintos componentes 
nos quais pode novamente desdobrar-se e que s gradualmente se unem em organizaes bem definidas. As fontes desses instintos componentes so os rgos do corpo 
e, em particular, certas zonas ergenas especialmente acentuadas; no entanto, a libido recebe contribuies de todo processo funcional importante do corpo. A princpio, 
os instintos componentes individuais esforam-se por obter satisfao independentemente uns dos outros, mas, no decorrer do desenvolvimento, se tornam cada vez mais 
convergentes e concentrados. A primeira fase (pr-genital) de organizao a ser discernida  a oral, na qual, em conformidade com os interesses predominantes do 
beb, a zona oral desempenha o papel principal. Ela  seguida pela organizao analsdica em que a zona anal e o instinto componente do sadismo so particularmente 
proeminentes; nesta fase, a diferena entre os sexos  representada pelo contraste entre ativo e passivo. A fase terceira e final da organizao  aquela em que 
a maioria dos instintos componentes converge para o primado das zonas genitais. Via de regra, essa evoluo  atravessada rpida e moderadamente, mas certas partes 
individuais dos instintos permanecem atrs, nas fases prodrmicas do processo, e do assim surgimento a fixaes da libido, importantes como predisposies constituintes 
para irrupes subseqentes de impulsos reprimidos e que se encontram em relao definida com o desenvolvimento posterior das neuroses e perverses. (Ver o verbete 
sobre 'A Teoria da Libido'.)
        O Processo de Encontrar um Objeto e o Complexo de dipo. - Em primeira instncia, o instinto componente oral encontra satisfao ligando-se  saciao do 
desejo de nutrio, e seu objeto  o seio materno. Ele depois se desliga, torna-se independente e, ao mesmo tempo, auto-ertico, isto , encontra um objeto no prprio 
corpo da criana. Outros instintos componentes tambm comeam por serem auto-erticos e somente mais tarde so desviados para um objeto externo. Constitui fato particularmente 
importante que os instintos componentes pertencentes  zona genital atravessam habitualmente um perodo de intensa satisfao auto-ertica. Os instintos componentes 
no so todos igualmente teis na organizao genital final da libido; alguns deles (os componentes anais, por exemplo) so conseqentemente deixados de lado e suprimidos 
ou experimentam complicadas transformaes.
        Em anos muito precoces da infncia (aproximadamente entre as idades de dois e cinco anos) ocorre uma convergncia dos impulsos sexuais, da qual, no caso 
dos meninos, o objeto  a me. Essa escolha de um objeto, em conjuno com uma atitude correspondente de rivalidade e hostilidade para com o pai, fornece o contedo 
do que  conhecido como o complexo de dipo, que em todo ser humano  da maior importncia na determinao da forma final de sua vida ertica. Descobriu-se ser caracterstica 
de um indivduo normal aprender a dominar seu complexo de dipo, ao passo que o neurtico permanece envolvido nele.
        O Comeo Difsico do Desenvolvimento Sexual. - Aproximando-se o final do quinto ano de idade, esse perodo inicial da vida sexual normalmente chega ao fim. 
 sucedido por um perodo de latncia mais ou menos completa, durante o qual as coibies ticas so construdas, para atuar como defesas contra os desejos do complexo 
de dipo. No perodo subseqente da puberdade esse complexo  revivescido no inconsciente e envolve-se em novas modificaes. Somente na puberdade  que os instintos 
sexuais chegam  sua plena intensidade, mas a direo desse desenvolvimento, bem como todas as predisposies a ele, j foram determinadas pela eflorescncia precoce 
da sexualidade durante a infncia que o precedeu. Esse desenvolvimento difsico da funo sexual - em duas fases, interrompidas pelo perodo de latncia - parece 
constituir uma peculiaridade biolgia da espcie humana e conter o fator determinante da origem das neuroses.
        A Teoria da Represso. - Estas consideraes tericas, tomadas conjuntamente com as impresses imediatas derivadas do trabalho analtico, conduzem a uma 
viso das neuroses que se pode descrever, no mais grosseiro dos esboos, como se segue. As neuroses so expresso de conflitos entre o ego e aqueles impulsos sexuais 
que parecem ao ego incompatveis com sua integridade ou com seus padres ticos. Visto esses impulsos no serem egossintnicos, o ego os reprimiu, isto , afastou 
deles seu interesse e impediu-os de se tornarem conscientes, bom como de obterem satisfao atravs de descarga motora. Se, no curso do trabalho analtico, tentamos 
tornar conscientes esses impulsos reprimidos, damo-nos conta das foras repressivas sob a forma de resistncia. A consecuo da represso, porm, fracassa de modo 
especialmente fcil no caso dos instintos sexuais. Sua libido represada encontra outras sadas do inconsciente, porque regride a fases anteriores do desenvolvimento 
e a atitudes anteriores para com os objetos, e em pontos fracos de desenvolvimento libidinal, onde existem fixaes infantis, irrompe na conscincia e obtm descarga. 
O que resulta  um sintoma e, conseqentemente, em sua essncia, uma satisfao sexual substitutiva. No obstante, o sintoma no pode escapar inteiramente s foras 
repressivas do ego, tendo assim de submeter-se a modificaes e deslocamentos - exatamente como acontece com os sonhos - atravs dos quais sua caracterstica de 
satisfao sexual se torna irreconhecvel. Conseqentemente, os sintomas tm a natureza de conciliaes entre os instintos sexuais reprimidos e os instintos repressores 
do ego; representam uma realizao de desejo para ambas as partes do conflito simultaneamente, uma realizao porm incompleta para cada uma delas. Isso  inteira 
e estritamente genuno dos sintomas da histeria, ao passo que nos sintomas da neurose obsessiva h amide uma nfase mais forte no lado da funo repressora devido 
ao erguimento de formaes reativas, que so garantias contra a satisfao sexual. 
        Transferncia. - Se hovesse necessidade de outras provas da verdade de que as foras motivadoras por trs da formao de sintomas neurticos so de natureza 
sexual, elas seriam encontradas no fato de, no decurso do tratamento analtico, formar-se regularmente entre o paciente e o mdico uma relao emocional especial, 
relaao que vai muito alm dos limites racionais. Ela varia entre a devoo mais afetuosa e a inimizade mais obstinada e deriva todas as suas caractersticas de 
atitudes erticas anteriores do paciente, as quais se tornaram inconscientes. Essa transferncia, tanto em sua forma positiva quanto negativa,  utilizada como arma 
pela resistncia; porm, nas mos do mdico, transforma-se no mais poderoso instrumento teraputico e desempenha um papel que dificilmente se pode superestimar na 
dinmica do processo de cura.
        As Pedras Angulares da Teoria Psicanaltica. - A pressuposio de existirem processos mentais inconscientes, o reconhecimento da teoria da resistncia e 
represso, a apreciao da importncia da sexualidade e do complexo de dipo constituem o principal tema da psicanlise e os fundamentos de sua teoria. Aquele que 
no possa aceit-los a todos no deve considerar-se a si mesmo como psicanalista.
        Histria Posterior da Psicanlise. - A psicanlise foi conduzida aproximadamente at a pelo trabalho do autor deste verbete, que por mais de dez anos foi 
seu nico representante. Em 1906, os psiquiatras suos Bleuler e C. G. Jung comearam a desempenhar um papel vigoroso na anlise; em 1907, uma primeira conferncia 
de seus seguidores realizou-se em Salzburg e a jovem cincia cedo descobriu-se como centro de interesse tanto entre psiquiatras quanto entre leigos. Sua recepo 
na Alemanha, o pas com seu mrbido anseio por autoridade, no foi precisamente meritria para a cincia alem e levou mesmo um partidrio assim to frio como Bleuler 
a um enrgico protesto. Contudo, nenhuma condenao ou repdio em congressos oficiais serviu para deter o crescimento interno ou a expanso externa da psicanlise. 
No decorrer dos dez anos seguintes ela se estendeu muito alm das fronteiras da Europa e tornou-se especialmente popular nos Estados Unidos da Amrica, o que se 
atribui em no pequeno grau  advocacia e  colaborao de Putnam (Boston), Ernest Jones (Toronto, e depois Londres), Flournoy (Genebra), Ferenczi (Budapest), Abraham 
(Berlim), e muitos outros alm destes. O antema imposto  psicanlise levou seus seguidores a reunirem-se numa organizao internacional que, no presente ano (1922), 
est realizando seu oitavo Congresso privado em Berlim e inclui hoje grupos locais em Viena, Budapest, Berlim, Holanda, Zurique, Londres, Nova Iorque, Calcut e 
Moscou. Esse desenvolvimento no foi interrompido nem mesmo pela Guerra Mundial. Em 1918-19, o Dr. Anton von Freund, de Budapest, fundou a Internationaler Psychoanalysticher 
Verlag, que publica perodicos e livros relacionados com a psicanlise, e, em 1920, o Dr. M. Eitingon abriu em Berlim a primeira clnica psicanaltica para o tratamento 
de neurticos sem recursos particulares. Tradues em francs, italiano e espanhol das obras principais do autor, que se encontram atualmente em preparao, do 
testemunho de um crescente interesse na psicanlise tambm no mundo latino.
        Entre 1911 e 1913 dois movimentos de divergncia da psicanlise se efetuaram, evidentemente com o objetivo de atenuar suas feies repelentes. Um deles (patrocinado 
por C.G. Jung), num esforo por conformar-se aos padres ticos, desvestiu o complexo de dipo de sua significao real, concedendo-lhe apenas um valor simblico 
e, na prtica, desprezou a revelao do perodo infantil esquecido e, como podemos cham-lo, 'pr-histrico'. O outro (originado por Alfred Adler em Viena) reproduziu 
muitos fatores da psicanlise sob outros nomes; a represso, por exemplo, aparecia numa verso sexualizada como 'protesto masculino'. Sob outros aspectos, porm, 
o movimento afastou-se do inconsciente e dos instintos sexuais e esforou-se por remontar a origem do desenvolvimento do carter e das neuroses  'vontade de poder', 
a qual, por meio de uma supercompensao, esfora-se por contrabalanar os perigos que surgem da 'inferioridade de rgo'. Nenhum desses movimentos, com suas estruturas 
sistemticas, teve qualquer influncia permanente sobre a psicanlise. No caso das teorias de Adler, logo ficou claro que pouco tinham em comum com a psicanlise, 
a qual se destinavam a substituir.
        Progressos mais Recentes na Psicanlise. - Visto a psicanlise haver-se tornado o campo de trabalho de to grande nmero de observadores, ela efetuou progressos, 
tanto em amplitude quanto em profundidade, mas infelizmente estes podem receber s a mais breve meno no presente verbete.
        Narcisismo. - O mais importante progresso terico foi certamente a aplicao da teoria da libido ao ego repressor. O prprio ego veio a ser encarado como 
um reservatrio do que foi descrito como libido narcsica, do qual as catexias libidinais dos objetos fluam e para o qual podiam ser novamente retiradas. Com a 
ajuda dessa concepo tornou-se possvel empenhar-se na anlise do ego e efetuar uma distino clnica das psiconeuroses em neuroses de transferncia e distrbios 
narcsicos. Nas primeiras (histeria e neurose obsessiva), o sujeito tem  sua disposio uma quantidade de libido que se esfora por ser transferida para objetos 
externos, fazendo-se uso disso para levar a cabo o tratamento analtico; por outro lado, os distrbios narcsicos (demncia precoce, parania, melancolia) caracterizam-se 
por uma retirada da libido dos objetos e, assim, raramente so acessveis  terapia analtica. Sua inacessibilidade teraputica, contudo, no impediu a anlise de 
efetuar os mais fecundos comeos do estudo mais profundo dessas molstias, que se contam entre as psicoses.
        Desenvolvimento da Tcnica. - Aps a curiosidade do analista ter sido, por assim dizer, gratificada pela elaborao da tcnica da interpretao, era inevitvel 
que o interesse se voltasse para o problema de descobrir a maneira mais eficaz de influenciar o paciente. Logo tornou-se evidente que a tarefa imediata do mdico 
era assistir o paciente e vir a conhecer - e, posteriormente, sobrepujar - as resitncias que nele surgiam durante o tratamento e das quais, inicialmente, ele prprio 
no estava consciente. E ao mesmo tempo descobriu-se que a parte essencial do proceso de cura residia no sobrepujamento dessas resistncias e que, a menos que isso 
fosse conseguido, nenhuma modificao mental permanente poderia ser efetuada no paciente. Visto os esforos do analista dirigirem-se dessa maneira para a resistncia 
do paciente, a tcnica analtica atingiu uma certeza e uma delicadeza que rivalizam com as da cirurgia. Conseqentemente, todos so energicamente advertidos contra 
o empreendimento de tratamentos psicanalticos sem uma formao estrita, e um mdico que neles se aventure baseado em sua qualificao mdica no , sob qualquer 
aspecto, melhor que um leigo.
        A Psicanlise como Processo Teraputico. - A psicanlise nunca se apresentou como uma panacia e jamais reivindicou realizar milagres. Em uma das mais difceis 
esferas da atividade mdica, ela constitui o nico mtodo possvel de tratamento para certas enfermidades e, para outras,  o mtodo que rende os melhores ou os 
mais permanentes resultados, embora nunca sem um dispndio correspondente de tempo e de trabalho. Um mdico que no esteja inteiramente absorvido pelo trabalho de 
dar auxlio descobrir seus sacrifcios amplamente recompensados pela consecuo de uma compreenso inesperada das complicaes da vida mental e das inter-relaes 
entre o mental e o fsico. Onde atualmente ela no pode oferecer ajuda, seno apenas compreenso terica, pode talvez estar preparando o caminho para algum meio 
posterior e mais direto de influenciar os distrbios neurticos. Sua provncia , acima de tudo, as duas neuroses de transferncia, a histeria e a neurose obsessiva, 
onde contribuiu para a descoberta de sua estrutura interna e mecanismos operativos, e, alm delas, todas as espcies de fobias, inibies, deformidades de carter, 
perverses sexuais e dificuldades da vida ertica. Alguns analistas (Jelliffe, Groddeck, Felix Deutsch) comunicaram tambm que o tratamento analtico de vulgares 
doenas orgnicas no  inauspicioso, de vez que um fator mental no infreqentemente contribui para a origem e continuao de tais molstias. Desde que a psicanlise 
exige certa plasticidade psquica de seus pacientes, algum tipo de limite etrio deve ser estabelecido na seleo deles, e uma vez que torna necessria a dedicao 
de uma ateno longa e intensa ao paciente individual, no seria econmico esbanjar esse dispndio em pessoas completamente inteis que ocorre serem neurtica. S 
a experincia do material das clnicas pode mostrar quais as modificaes imprescindveis para tornarem o tratamento psicanlitico acessvel a estratos mais amplos 
da populao ou adapt-lo a inteligncias mais dbeis.
        Comparao entre a Psicanlise e os Mtodos Hipntico e Sugestivo. - O procedimento psicanaltico difere de todos os mtodos que fazem uso da sugesto, persuaso, 
etc., pelo fato de no procurar suprimir atravs da autoridade qualquer fenmeno mental que possa ocorrer no paciente. Esfora-se por traar a causao de fenmeno 
e remov-la pelo ocasionamento de uma modificao permanente nas condies que levaram a ele. Na psicanlise, a influncia sugestiva que  inevitavelmente exercida 
pelo mdico desvia-se para a misso atribuda ao paciente de sobrepujar suas resistncias, isto , de levar avante o processo curativo. Qualquer perigo de falsificar 
os produtos da memria de um paciente pela sugesto pode ser evitado pelo manejo prudente da tcnica; mas, em geral, o despertar das resistncias constitui uma garantia 
contra os efeitos enganadores da influncia sugestiva. Pode-se estabelecer que o objetivo do tratamento  remover as resistncias do paciente e passar em revista 
suas represses, ocasionando assim a unificao e o fortalecimento de mais longo alcance de seu ego, capacitando-o a poupar a energia mental que est dispendendo 
em conflitos internos, obtendo do paciente o melhor que suas capacidades herdadas permitam, e tornando-o assim to eficiente e capaz de gozo quanto  possvel. No 
se visa especificamente  remoo dos sintomas da doena, contudo ela  conseguida, por assim dizer, como um subproduto, se a anlise for corretamente efetuada. 
O analista respeita a individualidade do paciente e no procura remold-lo de acordo com suas prprias idias pessoais, isto , as do mdico; contenta-se com evitar 
dar conselhos e, em vez disso, com despertar o poder de iniciativa do paciente.
        Sua Relao com a Psiquiatria. - A psiquiatria  na atualidade essencialmente uma cincia descritiva e classificatria cuja orientao ainda  no sentido 
do somtico, de preferncia ao psicolgico, e que se acha sem possibilidades de fornecer explicaes aos fenmenos que observa. A psicanlise, contudo, no se coloca 
em oposio a ela, como o comportamento quase unnime dos psiquiatras poderia levar-nos a acreditar. Pelo contrrio, como uma psicologia profunda, uma psicologia 
daqueles processos da vida mental que so retirados da conscincia, ela  convocada a dar  psiquiatria um fundamento indispensvel e a libert-la de suas atuais 
limitaes. Podemos prever que futuro dar origem a uma psiquiatria cientfica,  qual a psicanlise serviu de introduo.
        Crticas e Ms Interpretaes da Psicanlise. - A maioria do que  apresentado contra a psicanlise, mesmo em obras cientficas, baseia-se em informaes 
insuficientes que, por sua vez, parecem ser determinadas por resistncias emocionais. Assim,  um equvoco acusar a psicanlise de 'pansexualismo' e alegar que ela 
deriva da sexualidade todas as ocorrncias mentais e as remonta todas quela. Ao contrrio, a psicanlise desde o incio distinguiu os instintos sexuais de outros, 
que provisoriamente denominou de 'instintos do ego'. Ela jamais sonhou tentar explicar 'tudo', e mesmo das neuroses, remontou sua origem no somente  sexualidade, 
mas ao conflito entre os impulsos sexuais e o ego. Na psicanlise (diferentemente das obras de C.G. Jung), o termo 'libido' no significa energia psquica em geral, 
mas sim a fora motivadora dos instintos sexuais. Algumas assertivas, como a de que todo sonho  a realizao de um desejo sexual, nunca, em absoluto, foram sustentadas 
por ela. A acusao de unilateralidade feita contra a psicanlise, que, como a cincia da mente inconsciente, tem seu prprio campo de trabalho definido e restrito, 
-lhe to inaplicvel quanto seria se houvesse sido feita contra a qumica. Acreditar que a psicanlise busca a cura dos distrbios neurticos dando rdea livre 
 sexualidade  uma grave m interpretao que s pode ser desculpada pela ignorncia. A tomada de conscincia dos desejos sexuais reprimidos na anlise, ao contrrio, 
torna possvel obter sobre eles um domnio que a represso anterior fora incapaz de conseguir. Pode-se com mais verdade dizer que a anlise libera o neurtico das 
cadeias de sua sexualidade. Ademais,  inteiramente anticientfico julgar a anlise como calculada para solapar a religio, a autoridade e a moral, porque, como 
todas as cincias, ela  inteiramente no tendenciosa e possui um nico objetivo, ou seja, chegar a uma viso harmnica de uma parte da realidade. Finalmente, s 
se pode caracterizar como simplrio o temor s vezes expresso de que todos os mais elevados bens da humanidade, como so chamados - a pesquisa, a arte, o amor, o 
senso tico e social - perdero seu valor ou sua dignidade porque a psicanlise se encontra em posio de demonstrar sua origem em impulsos instintuais elementares 
e animais.
        As Aplicaes e as Correlaes No-Mdicas da Psicanlise. - Qualquer estimativa da psicanlise estaria incompleta se deixasse de tornar claro que, sozinha 
entre as disciplinas mdicas, ela possui as mais amplas relaes com as cincias mentais e se encontra em posio de desempenhar um papel da mesma importncia nos 
estudos da histria religiosa e cultural e nas cincias da mitologia e da literatura que na psiquiatria. Isso pode parecer estranho quando refletimos que originalmente 
seu nico objetivo era a compreenso e a melhoria dos sintomas neurticos. Mas  fcil indicar o ponto de partida da ponte que conduz s cincias mentais. A anlise 
dos sonhos forneceu-nos uma compreenso dos processos inconscientes da mente e demostrou-nos que os mecanismos produtores dos sintomas patolgicos operam tambm 
na mente normal. Assim, a psicanlise tornou-se uma psicologia profunda e, como tal, capaz de ser aplicada s cincias mentais, e pde responder a um bom nmero 
de questes que a psicologia acadmica da conscincia era impotente para tratar. Numa etapa muito precoce, surgiram problemas de filogenia humana. Tornou-se claro 
que a funo patolgica amide nada mais era que uma regresso a uma etapa anterior na evoluo da funo normal. C. G. Jung foi o primeiro a chamar ateno explcita 
para a notvel semelhana entre as fantasias desordenadas dos que padeciam de demncia precoce e os mitos dos povos primitivos, ao passo que o presente autor indicou 
que os dois desejos que se combinam para formar o complexo de dipo coincidem precisamente com as duas principais proibies impostas pelo totemismo (no matar o 
ancestral tribal e no casar com nenhuma mulher pertencente ao prprio cl), tirando concluses de grandes conseqncias desse fato. A significao do complexo de 
dipo comeou a crescer a propores gigantescas e pareceu como se a ordem social, a moral, a justia e a religio houvessem surgido juntas, na eras primevas da 
humanidade, como formaes reativas contra esse complexo. Otto Rank lanou uma luz radiante sobre a mitologia e a histria da literatura pela aplicao de pontos 
de vista psicanalticos, bem como Theodor Reik sobre a histria da moral e da religio, enquanto que o Dr. Pfister, de Zurique, despertou o interesse de professores 
religiosos e seculares e demonstrou a importncia do ponto de vista psicanaltico para a educao. Um estudo ulterior dessas aplicaes da psicanlise estaria deslocado, 
aqui, sendo suficiente dizer que os limites de sua influncia ainda no esto  vista.
        A Psicanlise como Cincia Emprica. - A psicanlise no , como as filosofias, um sistema que parta de alguns conceitos bsicos nitidamente definidos, procurando 
apreender todo o universo com o auxlio deles, e, uma vez completo, no possui mais lugar para novas descobertas ou uma melhor compreenso. Pelo contrrio, ela se 
atm aos fatos de seu campo de estudo, procura resolver os problemas imediatos da observao, sonda o caminho  frente com o auxlio da experincia, acha-se sempre 
incompleta e sempre pronta a corrigir ou a modificar suas teorias. No h incongruncia (no mais que no caso da fsica ou da qumica) se a seus conceitos mais gerais 
falta clareza e seus postulados so provisrios; ela deixa a definio mais precisa deles aos resultados do trabalho futuro.

         (B) A TEORIA DA LIBIDO
        
        LIBIDO  um termo empregado na teoria dos instintos para descrever a manifestao dinmica da sexualidade. J fora utilizado nesse sentido por Moll (1898) 
e foi introduzido na psicanlise pelo presente autor. O que se segue limita-se a uma descrio dos desenvolvimentos por que a teoria dos instintos passou na psicanlise, 
desenvolvimentos que ainda se acham progredindo.
        O Contraste entre os Instintos Sexuais e os Instintos do Ego. - A psicanlise cedo deu-se conta de que todas as ocorrncias mentais devem ser vistas como 
construdas na base de uma ao recproca das foras dos instintos elementares. Isso, contudo, acarretou uma situao difcil, visto a psicologia no incluir nenhuma 
teoria dos instintos. Ningum podia dizer o que era realmente um instinto, deixava-se a questo inteiramente ao capricho individual, e todo psiclogo tinha o hbito 
de postular quaisquer instintos, em qualquer nmero que escolhesse. A primeira esfera de fenmenos a ser estudada pela psicanlise compreendia o que era conhecido 
como neurose de transferncia (histeria e neurose obsessiva). Descobriu-se que seus sintomas sucediam pelo fato de os impulsos instintuais sexuais serem rejeitados 
(reprimidos) pela personalidade do sujeito (o seu ego), encontrando pois expresso por caminhos tortuosos atravs do inconsciente. Esses fatos podiam ser encontrados 
traando-se um contraste entre os instintos sexuais e os instintos do ego (instintos de autopreservao), o que estava de acordo com o dito popular de serem a fome 
e o amor que fazem o mundo girar: a libido era a manifestao da fora do amor, no mesmo sentido que a fome o era do instinto autopreservativo. A natureza dos instintos 
do ego permaneceu por ento indefinida e, como todas as outras caractersticas do ego, inacessvel  anlise. No havia meio de decidir se seria de supor existirem 
diferenas qualitativas entre as duas classes de instintos e, em caso afirmativo, quais seriam.
        A Libido Primitiva. - C. G. Jung tentou resolver essa obscuridade seguindo linhas especulativas, pressupondo existir uma s libido primitiva que podia ser 
sexualizada ou dessexualizada e que, assim, em sua essncia, coincidia com a energia mental em geral. Essa inovao era metodologicamente discutvel, provocou grande 
confuso, reduziu o termo 'libido' ao nvel de um sinnimo suprfluo e, na prtica, defrontava-se ainda com a necessidade de distinguir entre libido sexual e assexual. 
No se iria escapar  diferena entre os instintos sexuais e os instintos com outros objetivos por meio de uma nova definio.
        Sublimao. - Um atento exame das tendncias sexuais, que por si mesmas eram acessveis  psicanlise, nesse meio tempo conduziria a algumas descobertas 
notveis e pormenorizadas. O que se descreve como instinto sexual mostra ser de uma natureza altamente complexa e sujeita a decompor-se novamente em seus instintos 
componentes. Cada instinto componente  inalteravelmente caracterizado por sua fonte, isto , pela regio ou zona do corpo da qual sua excitao se deriva. Cada 
um deles possui, ademais, como aspectos distinguveis, um objeto e um objetivo. O objetivo  sempre a descarga acompanhada pela satisfao, mas  capaz de ser mudado 
da atividade para a passividade. O objeto acha-se menos estreitamente ligado ao instinto do que se sups a princpio;  facilmente trocado por outro e, alm disso, 
um instinto que possua um objeto externo pode ser voltado para o prprio eu do sujeito. Os instintos separados podem permanecer independentes uns dos outros ou 
- de um modo ainda inexplicvel - combinar-se e fundir-se uns com os outros, para realizar um trabalho em comum. Podem tambm substituir-se mutuamente e transferir 
sua catexia libidinal uns para os outros, de forma que a satisfao de um determinado instinto pode assumir o lugar da satisfao de outros. A vicissitude mais importante 
que um instinto pode experimentar parece ser a sublimao; aqui, tanto o objeto quanto o objetivo so modificados; assim, o que originalmente era um instinto sexual 
encontra satisfao em alguma realizao que no  mais sexual, mas de uma valorao social ou tica superior. Esses diferentes aspectos ainda no se combinam para 
formar um quadro integral.
        Narcisismo. - Um progresso decisivo foi realizado quando se aventurou a anlise da demncia precoce e outros distrbios psicticos e assim o exame foi iniciado 
do prprio ego, que at ento fora conhecido apenas como instncia da represso e da oposio. Descobriu-se que o processo patognico na demncia precoce  a retirada 
da libido dos objetos e sua introduo no ego, ao passo que os sintomas clamorosos da molstia surgem dos vos esforos da libido para encontrar um caminho de volta 
aos objetos. Mostrou-se assim ser possvel  libido de objeto transformar-se em catexia do ego e vice-versa. Uma reflexo mais detida demonstrou que foi preciso 
presumir que esse processo ocorre na maior escala e que o ego deve ser encarado como um grande reservatrio de libido, do qual a libido  enviada para os objetos, 
e que sempre est pronto a absorver a libido que flui de volta dos objetos. Assim, os instintos de autopreservao tambm eram de natureza libidinal: eram instintos 
sexuais que, em vez de objetos externos, haviam tomado o prprio ego do sujeito como objeto. A experincia clnica familiarizou-nos com as pessoas que se comportam 
de uma maneira notvel, como se estivessem enamoradas de si mesmas, e essa perverso recebeu o nome de narcisismo. A libido dos instintos autopreservativos foi ento 
descrita como libido narcsica e reconheceu-se que um elevado grau desse auto-amor constitua o estado de coisas primrio e normal. A frmula primitiva estabelecida 
para as neuroses de transferncia conseqentemente exigia ser modificada, embora no corrigida. Era melhor, em vez de falar de um conflito entre instintos sexuais 
e instintos do ego, falar de um conflito entre libido de objeto e libido de ego, ou, de vez que era a mesma a natureza desses instintos, conflito entre as catexias 
de objeto e o ego.
        Abordagem Aparente s Opinies de Jung. -  vista disso, parecia como se o lento processo da pesquisa psicanaltica estivesse seguindo os passos da especulao 
de Jung sobre uma libido primitiva especialmente porque a transformao da libido de objeto em narcisismo necessariamente portava consigo certo grau de dessexualismo 
ou abandono dos objetivos especificamente sexuais. No obstante, h de se ter em mente que o fato de os instintos autopreservativos do ego serem reconhecidos como 
libidinais no prova necessariamente que no existam outros instintos funcionando no ego.
        O Instinto Gregrio. - Sustentou-se, em muitos grupos, que existe um 'instinto gregrio' especial, inato e no mais analisvel, que determina o comportamento 
social dos seres humanos e impele os indivduos a se reunirem em comunidades maiores. A psicanlise est em contradio com essa opinio. Mesmo que o instinto social 
seja inato, ele pode, sem qualquer dificuldade, ser remetido ao que originalmente constituam catexias de objeto libidinais e pode ter-se desenvolvido na infncia 
do indivduo como uma formao reativa contra atitudes hostis de rivalidade. Ele se baseia num tipo peculiar de identificao com outras pessoas.
        Impulsos Sexuais Inibidos quanto ao Objetivo. - Os instintos sociais pertencem a uma classe de impulsos instintuais que prescindem serem descritos como sublimados, 
embora estejam estreitamente relacionados com estes. No abandonaram seus objetivos diretamente sexuais, mas so impedidos, por resistncias internas, de alcan-los; 
contentam-se com certas aproximaes  satisfao e, por essa prpria razo, conduzem a ligaes especialmente firmes e permanentes entre os seres humanos. A essa 
classe pertencem em particular as relaes afetuosas entre pais e filhos, que originalmente eram inteiramente sexuais, os sentimentos de amizade e os laos emocionais 
no casamento que tem sua origem na atrao sexual.
        Reconhecimento de Duas Classes de Instintos na Vida Mental. - Embora a psicanlise via de regra se esforce por desenvolver suas teorias to independentemente 
quanto possvel das outras cincias,  contudo obrigada a procurar uma base para a teoria dos instintos na biologia. Com fundamento em uma considerao de longo 
alcance dos processos que empreendem construir a vida e que conduzem  morte, torna-se provvel que devamos reconhecer a existncia de duas classes de instintos, 
correspondentes aos processos contrrios de construo e dissoluo no organismo. Segundo esse ponto de vista, um dos conjuntos de instintos, que trabalham essencialmente 
em silncio, seriam aqueles, cujo objetivo  conduzir a criatura viva  morte e, assim, merecem ser chamados de 'instintos de morte'; dirigir-se-iam para fora como 
resultado da combinao de grande nmero de organismos elementares unicelulares e se manifestariam como impulsos destrutivos ou agressivos. O outro conjunto de instintos 
seria o daqueles que nos so mais bem conhecidos na anlise: os instintos libidinais, sexuais ou instintos de vida, que so mais bem abrangidos pelo nome de Eros; 
seu intuito seria constituir a substncia viva em unidades cada vez maiores, de maneira que a vida possa ser prolongada e conduzida a uma evoluo mais alta. Os 
instintos erticos e os instintos de morte estariam presentes nos seres vivos em misturas ou fuses regulares, mas 'desfuses' tambm estariam sujeitas a ocorrer. 
A vida consistiria nas manifestaes do conflito ou na interao entre as duas classes de instintos; a morte significaria para o indivduo a vitria dos instintos 
destrutivos, mas a reproduo representaria para ele a vitria de Eros.
        A Natureza dos Instintos. - Essa viso nos permitiria caracterizar os instintos como tendncias inerentes  substncia viva no sentido da restaurao de 
um estado anterior de coisas, isto , seriam historicamente determinados, de natureza conservadora e, por assim dizer, expresso de uma inrcia ou elasticidade presente 
no que  orgnico. Ambas as classes de instintos, tanto Eros quanto o instinto de morte, segundo este ponto de vista, teriam estado operando e trabalhando um contra 
o outro desde a primeira origem da vida.
        
        





































BREVES ESCRITOS (1920-1922)


         UMA NOTA SOBRE A PR-HISTRIADA TCNICA DE ANLISE (1920)

        Um livro recente de Havelock Ellis (to justamente admirado por suas pesquisas em cincia sexual e crtico eminente da psicanlise), que tem por ttulo The 
Philosophy of Conflict (1919), inclui um ensaio sobre 'Psycho-Analysis in Relation to Sex'. O objetivo desse ensaio  demonstrar que os escritos do criador da anlise 
no devem ser julgados como uma pea de trabalho cientfico, mas sim como uma produo artstica. No podemos deixar de encarar essa opinio como uma recente tendncia 
tomada por resistncia e como um repdio da anlise, ainda que se ache disfarada em uma maneira amistosa e, na verdade, lisonjeante demais. Estamos inclinados a 
enfrent-la com a mais decidida contradio.
        No entanto, no  com vistas a contradiz-lo nesse ponto que nos achamos agora interessados no ensaio de Havelock Ellis, mas por outra razo. Suas vastas 
leituras capacitaram-no a apresentar um autor que praticou e recomendou a associao livre como tcnica, embora para fins diferentes dos nossos, possuindo assim 
um direito a ser considerado como um precursor da psicanlise.
        'Em 1857, o Dr. J. J. Garth Wilkinson, mais conhecido como mstico swedenborguiano e poeta que como mdico, publicou um volume de msticos versos de p quebrado, 
escritos com o que considerou "um novo mtodo", o mtodo da "impresso". "Um tema  escolhido ou escrito", afirmou ele; "assim que isso foi feito, a primeira impresso 
na mente que sucede o ato de escrever o ttulo  o comeo da evoluo desse tema, por mais estranha ou extica que a palavra ou sentena possa parecer." "O primeiro 
movimento mental, a primeira palavra que surge"  "a reao ao desejo da mente para o desdobramento do tema." Ele  continuado pelo mesmo mtodo, e Garth Wilkinson 
acrescenta: "Sempre descobri que ele condizia, por um instinto infalvel, ao tema". O mtodo era, segundo Garth Wilkinson o via, uma espcie de laissez-faire exacerbado, 
uma ordem dada aos mais profundos instintos inconscientes para se expressarem. A razo e a vontade, indicava, so deixadas de lado; confiamo-nos a "um influxo" e 
as faculdades da mente so "dirigidas para fins que no conhecem". Garth Wilkinson, deve ficar claramente entendido, embora fosse mdico, empregava esse mtodo para 
fins religiosos e literrios, jamais para fins cientficos ou mdicos; porm  fcil perceber que, essencialmente, trata-se do mtodo da psicanlise aplicado a si 
prprio, constituindo outra prova de quanto o mtodo de Freud  um mtodo de artista.'
        Os que esto familiarizados com a literatura psicanaltica recordaro neste ponto a interessante passagem na correspondncia de Schiller com Krner, na qual 
(1788) o grande poeta e pensador recomenda a todos que desejem ser produtivos adotarem o mtodo da associao livre.  de se desconfiar que o que se alega ser uma 
nova tcnica de Garth Wilkinson tenha j ocorrido s mentes de muitos outros, e que sua aplicao sistemtica na psicanlise no seja tanto uma prova da natureza 
artstica de Freud quanto de sua convico, equivalente quase a uma opinio preconcebida, de que todos os fatos mentais so completamente determinados. Decorreu 
dessa opinio que a primeira e mais provvel possibilidade fosse que uma associao livre se relacionasse com o assunto designado, e isso foi confirmado pela experincia 
da anlise, exceto na medida em que resistncias demasiado grandes tornassem irreconhecvel a vinculao suspeitada.
        Entretanto,  seguro presumir que nem Schiller nem Garth Wilkinson tiveram na realidade qualquer influncia sobre a escolha da tcnica psicanaltica.  de 
outra direo que existem indicaes de uma influncia pessoal em ao.
        H pouco tempo atrs, em Budapest, o Dr. Hugo Dubowitz chamou a ateno do Dr. Ferenczi para um breve ensaio que abrangia apenas quatro pginas e meia, da 
autoria de Ludwig Brne. Fora escrito em 1823 e reimpresso no primeiro volume da edio de 1862 de suas obras completas. Intitula-se 'A Arte de Tornar-se um Escritor 
Original em Trs Dias' e mostra as familiares caractersticas estilsticas de Jean Paul, de quem Brne era na ocasio grande admirador. Ele termina o ensaio com 
as seguintes frases:
        'E aqui temos a aplicao prtica que foi prometida. Pegue algumas folhas de papel e por trs dias a fio anote, sem falsidade ou hipocrisia, tudo o que lhe 
vier  cabea. Escreva o que pensa de si mesmo, de sua mulher, da Guerra Turca, de Goethe, do julgamento de Fonk, do Juzo Final, de seus superiores, e, quando os 
trs dias houverem passado, ficar espantadssimo pelo novos e inauditos pensamentos que teve. Esta  a arte de tornar-se um escritor original em trs dias.'
        Quando o Professor Freud veio a ler esse ensaio de Brne, apresentou certo nmero de fatos que podem ter uma importante relao com a questo aqui em debate 
quanto  pr-histria do emprego psicanaltico da associao livre. Disse que quando contava 14 anos de idade, recebera de presente as obras de Brne; que hoje ainda 
possua o livro, cinqenta anos depois, e que se tratava do nico que sobrevivera dos seus tempos de rapaz. Brne, disse ele, fora o primeiro autor em cujos escritos 
penetrara profundamente. No podia lembrar-se do ensaio em pauta, mas alguns dos outros contidos no mesmo volume, tais como 'Um Tributo  Memria de Jean Paul', 
'O Artista a Comer' e 'O Tolo na Estalagem do Cisne Branco', continuaram a vir-lhe  mente, sem razo bvia, por longos anos. Ficou particularmente espantado de 
encontrar expressas no conselho ao escritor original algumas opinies que ele prprio sempre prezara e reivindicara, como, por exemplo: 'Uma covardia vergonhosa 
com relao ao pensar nos retm a todos. A censura do governo  menos opressiva que a censura exercida pela opinio pblica sobre nossas produes intelectuais. 
(Alm disso, temos aqui uma referncia a uma 'censura' que reaparece na psicanlise como a censura onrica.) 'No  falta de intelecto, mas de carter que impede 
a maioria dos escritores de serem melhores que so... A sinceridade  a fonte de todo gnio e os homens seriam mais argutos se fossem mais morais...'
        Assim no parece impossvel que essa sugesto possa ter trazido  luz o fragmento de criptoamnsia que em tantos casos se pode suspeitar jazer por trs da 
originalidade aparente. 




         
         ASSOCIAES DE UMA CRIANA DE QUATRO ANOS DE IDADE (1920)

        Aqui temos parte da carta de uma me americana: 'Tenho de contar-lhe o que minha garotinha disse ontem. Ainda no me recobrei de meu espanto. A prima Emily 
estava falando de como ia arranjar um apartamento, ao que a criana comentou: "Se Emily se casar, vai ter um beb." Fiquei muito surpresa e perguntei-lhe: "Ora, 
como  que voc sabe disso?" Ela respondeu: "Bem, quando algum se casa, surge sempre um beb." Repeti: "Mas como  que voc pode dizer isso?" E a menina respondeu: 
"Ora, eu sei uma poro de outras coisas. Sei que as rvores crescem in the ground." Que estranha associao! Era precisamente o que pretendia dizer-lhe algum dia, 
a ttulo de esclarecimento. E ento prosseguiu: "E sei que  Deus que makes the world." Quando fala assim, mal posso acreditar que no tem ainda 4 anos de idade.'
        A prpria me parece ter entendido a transio da primeira observao da criana para a segunda. O que estava tentando dizer era: 'Sei que os bebs crescem 
dentro de suas mes.' No expressava esse conhecimento diretamente, mas de modo simblico, substituindo a me pela Me Terra. J aprendemos de numerosas observaes 
incontestveis a idade precoce em que as crianas sabem como utilizar-se de smbolos. Mas a terceira observao da garotinha leva avante o mesmo contexto. S podemos 
supor que estava tentando transmitir um outro fragmento de seu conhecimento sobre a origem dos bebs: 'Sei que tudo  obra do pai.' Desta vez, porm, substitua 
o pensamento direto pela sublimao apropriada: que Deus faz o mundo.

         DR. ANTON VON FREUND (1920)

        O Dr. Anton von Freund, que foi Secretrio Geral da Associao Psicanaltica Internacional desde o Congresso de Budapest em setembro de 1918, faleceu em 
20 de janeiro de 1920, num sanatrio de Viena, alguns dias aps completar seu quadragsimo ano de vida. Era o mais vigoroso promotor de nossa cincia e uma de suas 
esperanas mais brilhantes. Nascido em Budapest em 1880, obteve um doutorado em filosofia. Pretendia tornar-se professor, mas foi persuadido a ingressar na empresa 
industrial de seu pai. Entretanto, os grandes sucessos que conseguiu como industrial e organizador deixavam de satisfazer as duas necessidades que se achavam ativas 
nas profundezas de sua natureza: de beneficncia social e de atividade cientfica. Nada buscando para si prprio, possuindo todos os dons que podem encantar e cativar, 
utilizou seus poderes materiais para assistir a outros e aliviar a dureza de seu destino, bem como para avivar em todas as direes o senso de justia social. Dessa 
maneira, adquiriu um amplo crculo de amigos, que pranteiam profundamente a sua perda.
        Quando, durante os seus ltimos anos, veio a conhecer a psicanlise, ela pareceu-lhe prometer a realizao de seus dois grandes desejos. Imps-se a tarefa 
de ajudar as massas pela psicanlise e de fazer uso dos efeitos teraputicos dessa tcnica mdica, que at ento estivera apenas a servio dos ricos, a fim de mitigar 
os sofrimentos neurticos dos pobres. Desde que o Estado no se ocupava das neuroses do povo comum, que as clnicas hospitalares na maioria rejeitavam a terapia 
psicanaltica sem poderem oferecer qualquer sucedneo para ela e que os poucos mdicos psicanalistas, premidos pela necessidade de se manterem, no se achavam  
altura de tarefa to gigantesca. Anton von Freund procurou, atravs de sua iniciativa privada, abrir um caminho para todos no sentido do cumprimento desse importante 
dever social. Durante os anos de guerra coletou a soma ento muito considervel de 1,5 milho de kronen para fins humanitrios na cidade de Budapest. Com a concordncia 
do Dr. Stephan von Brczy, ento burgomestre, destinou a quantia  fundao de um instituto de psicanlise em Budapest, no qual a anlise deveria ser praticada, 
ensinada e tornada acessvel ao povo. Pretendia-se formar nesse instituto um nmero considervel de mdicos, que, depois, dele receberiam um grau honorrio para 
o tratamento de neurticos pobres numa clnica de ambulatrio. O instituto, ademais, deveria constituir um centro para novas pesquisas cientficas na anlise. O 
Dr. Ferenczi deveria ser o diretor cientfico do instituto e o prprio von Freund se encarregaria de sua organizao e finanas. O fundador entregou ao Professor 
Freud uma soma relativamente menor, para a fundao de uma casa editora psicanaltica internacional. Mas,
        Was sind Hoffnungen, was sind Entwrfe,die der Mensch, der vergngliche, baut?
        A morte prematura de von Freund ps fim a esses esquemas filantrpicos, com todas as suas esperanas cientficas. Embora o fundo que coletou ainda exista, 
a atitude daqueles que atualmente se acham no poder na capital hngara no d promessas de que as intenes dele se realizaro. Somente a casa editora psicanaltica 
veio  luz em Viena.
        No obstante, o exemplo que von Freund procurou estabelecer j teve seu efeito. Poucas semanas aps sua morte, graas  energia e  liberalidade do Dr. Max 
Eitingon, a primeira clnica ambulatria de psicanlise foi aberta em Berlim. Assim a obra de von Freund  continuada, embora ele prprio nunca possa ser substitudo 
ou olvidado.

         PREFCIO A ADDRESSES ON PSYCHO-ANALYSIS, DE J. J. PUTNAM (1921)

        O Editor desta srie deve sentir uma satisfao especial em poder lanar como seu volume de abertura esta compilao dos escritos psicanalticos do Professor 
James J. Putnam, o eminente neurologista da Universidade de Harvard. O Professor Putnam, falecido em 1918 com a idade de 72 anos, foi no apenas o primeiro americano 
a interessar-se pela psicanlise, mas logo se tornou o seu mais decidido defensor e representante mais influente nos Estados Unidos. Em conseqncia da reputao 
estabelecida que granjeara por suas atividades de professor, bem como por sua importante obra no domnio da enfermidade nervosa orgnica, e graas ao respeito universal 
que sua personalidade desfrutava, pde fazer talvez mais do que qualquer outro para a disseminao da psicanlise em seu prprio pas e para proteg-la das calnias 
que, no outro lado do Atlntico no menos que neste, seriam inevitavelmente lanadas sobre ela. Mas todas as censuras estavam assim fadadas a serem silenciadas, 
quando um homem dos elevados padres ticos e da retitude moral de Putnam colocava-se entre os defensores da nova cincia e da teraputica nela baseada.
        Os artigos aqui coligidos em um s volume, escritos por Putnam entre 1909 e o fim de sua vida, fornecem um bom retrato de suas relaes com a psicanlise. 
Mostram que esteve a princpio ocupado em corrigir um juzo provisrio que se baseara em conhecimentos insuficientes; mostram como depois aceitou a essncia da anlise, 
reconheceu sua capacidade de lanar uma luz esclarecedora sobre a origem das imperfeies e fracassos, e como ficou impressionado pela perspectiva de contribuir 
para a melhoria da humanidade segundo as linhas da anlise; como ento se convenceu, por suas prprias atividades mdicas, da verdade da maioria das concluses e 
postulados psicanalticos, dando, por sua vez, testemunho do fato de que o mdico que faz uso da anlise compreende muito mais os sofrimentos de seus pacientes e 
pode fazer por eles muito mais do que fora possvel com os mtodos anteriores de tratamento; e, finalmente, mostram como comeou a estender-se alm dos limites da 
anlise, exigindo que, como cincia, ela se ligasse a um sistema filosfico especfico e que sua prtica fosse manifestamente associada a um conjunto especial de 
doutrinas ticas.
        Assim, no  de admirar que um esprito com tendncias to preeminentemente ticas e filosficas como o de Putnam houvesse desejado, aps haver mergulhado 
profundamente na psicanlise, estabelecer a relao mais estreita entre ela e os objetivos que estavam mais chegados ao seu corao. Contudo, seu entusiasmo, to 
admirvel em um homem de sua avanada idade, no conseguiu arrastar outros consigo. Os mais jovens permaneceram frios. Foi especialmente Ferenczi que exprimiu o 
ponto de vista oposto. A razo decisiva para a rejeio das propostas de Putnam foi a dvida sobre qual dos incontveis sistemas filosficos deveria ter aceito, 
de vez que todos pareciam repousar em uma base igualmente insegura, e desde que tudo at ento havia sido sacrificado em benefcio da relativa certeza dos resultados 
da psicanlise. Pareceu mais prudente esperar e descobrir se uma atitude especfica para com a vida poderia ser compelida sobre ns, com todo o peso da necessidade, 
pela prpria investigao analtica.
         nosso dever exprimir nossos agradecimentos  viva do autor, a Sra. Putnam, por sua assistncia com os manuscritos, com os direitos autorais e com apoio 
financeiro, sem os quais a publicao deste volume teria sido impossvel. No havia manuscritos ingleses acessveis no caso dos artigos de nmero VI, VII e X. Foram 
traduzidos para o ingls pela Dra. Katherine Jones, a partir do texto alemo que se originara do prprio Putnam.
        Este volume manter viva nos crculos analticos a memria do amigo cuja perda to profundamente deploramos. Possa ele ser o primeiro de uma srie de publicaes 
que serviro  finalidade de promover a compreenso e a aplicao da psicanlise entre os que falam o idioma ingls, finalidade a que James P. Putnam dedicou os 
dez ltimos anos de sua fecunda vida.
        Janeiro de 1921.

         INTRODUO A THE PSYCHOLOGY OF DAY-DREAMS, DE J. VARENDONCK (1921)

        Este presente volume, dentre outros do Dr. Varendonck, contm uma novidade significativa e com justia despertar o interesse de todos os filsofos, psiclogos 
e psicanalistas. Aps um esforo que durou alguns anos, o autor conseguiu captar a modalidade de atividade de pensamento a que nos abandonamos durante o estado de 
distrao, ao qual imediatamente passamos antes do sono ou aps o despertar incompleto. Ele trouxe  conscincia as cadeias de pensamento originadas nestas condies 
sem a interferncia da vontade; anotou-as, estudou suas peculiaridades e diferenas com uma reflexo consciente e dirigida e efetuou por esse meio uma srie de importantes 
descobertas que conduzem a problemas ainda mais vastos e do origem  formulao de questes de ainda maior alcance. Muitos pontos na psicologia do sonho e do ato 
falho encontram, graas s observaes do Dr. Varendonck, uma soluo digna de confiana.
        No  minha inteno passar em revista os resultados do autor. Contentar-me-ei em apontar para a significao de sua obra e me permitirei apenas uma observao 
concernente  terminologia que adotou. Inclui ele o tipo de atividade de pensamento que observou no pensamento autista de Bleuler, mas chama-o, via de regra, de 
pensamento anteconsciente, segundo o costume predominante na psicanlise. Entretanto, o pensamento autista de Bleuler de modo algum corresponde  extenso e ao contedo 
do anteconsciente, nem posso admitir que o nome utilizado por Bleuler tenha sido adequadamente escolhido. A prpria designao, pensamento 'anteconsciente', como 
caracterstica me parece enganadora e insatisfatria. O assunto em foco  que o tipo de atividade de pensamento de que o bem conhecido devaneio  um exemplo - completo 
em si prprio, desenvolvendo uma situao ou um ato que est sendo levado a um trmino - constitui o melhor e, at agora, o nico exemplo estudado. Esse devanear 
no deve suas peculiaridades  circunstncia de processar-se na maioria das vezes anteconscientemente, nem as formas se alteram quando ele  realizado conscientemente. 
De outro ponto de vista, sabemos tambm que mesmo a reflexo estritamente dirigida pode ser conseguida sem a cooperao da conscincia, ou seja, anteconscientemente. 
Por esse motivo julgo aconselhvel, ao se estabelecer uma distino entre as diferentes modalidades de atividades do pensamento, no utilizar a relao  conscincia 
em primeira instncia e designar o devaneio, bem como as cadeias de pensamento livremente divagante ou fantstico, em oposio  reflexo intencionalmente dirigida. 
Ao mesmo tempo, deve-se levar em considerao que mesmo o pensamento fantstico invariavelmente no carece de um objetivo e representao finais.

         A CABEA DE MEDUSA (1940 [1922])

        No foi amide que tentamos interpretar temas mitolgicos individuais, mas uma interpretao sugere-se facilmente no caso da horripilante cabea decapitada 
da Medusa.
        Decapitar = castrar. O terror da Medusa  assim um terror de castrao ligado  viso de alguma coisa. Numerosas anlises familiarizam-nos com a ocasio 
para isso: ocorre quando um menino, que at ento no estava disposto a acreditar na ameaa de castrao, tem a viso dos rgos genitais femininos, provavelmente 
os de uma pessoa adulta, rodeados por cabelos, e, essencialmente, os de sua me.
        Os cabelos na cabea da Medusa so freqentemente representados nas obras de arte sob a forma de serpentes e estas, mais uma vez, derivam-se do complexo 
de castrao. Constitui fato digno de nota que, por assustadoras que possam ser em si mesmas, na realidade, porm, servem como mitigao do horror, por substiturem 
o pnis, cuja ausncia  a causa do horror. Isso  uma confirmao da regra tcnica segundo a qual uma multiplicao de smbolos de pnis significa castrao.
        A viso da cabea da Medusa torna o espectador rgido de terror, transforma-o em pedra. Observe-se que temos aqui, mais uma vez, a mesma origem do complexo 
de castrao e a mesma transformao de afeto, porque ficar rgido significa uma ereo, Assim, na situao original, ela oferece consolao ao espectador: ele ainda 
se acha de posse de um pnis e o enrijecimento tranqiliza-o quanto ao fato.
        Esse smbolo de horror  usado sobre as suas vestes pela deusa virgem Atena, e com razo, porque assim ela se torna uma mulher que  inabordvel e repele 
todos os desejos sexuais, visto apresentar os terrificantes rgos genitais da Me. De vez que os gregos eram, em geral, fortemente homossexuais, era inevitvel 
que encontrssemos entre eles uma representao da mulher como um ser que assusta e repele por ser castrada.
        Se a cabea da Medusa toma o lugar de uma representao dos rgos genitais femininos ou, melhor, se isola seus efeitos horripilantes dos dispensadores de 
prazer, pode-se recordar que mostrar os rgos genitais  familiar, sob outros aspectos, como um ato apotropaico. O que desperta horror em ns prprios produzir 
o mesmo efeito sobre o inimigo de quem estamos procurando nos defender. Lemos em Rabelais como o Diabo se ps em fuga quando a mulher lhe mostrou sua vulva.
        O rgo masculino ereto tambm possui um efeito apotropaico, mas graas a outro mecanismo. Mostrar o pnis (ou qualquer de seus sucedneos)  dizer: 'No 
tenho medo de voc. Desafio-o. Tenho um pnis.' Aqui, ento, temos outra maneira de intimidar o Esprito Mau.
        A fim de substanciar seriamente essa interpretao, seria necessrio investigar a origem desse smbolo isolado de horror na mitologia grega, bem como paralelos 
seus em outras mitologias.
        
        
        
        







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Alm do Princpio do Prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos - Sigmund Freud
